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terça-feira, 25 de julho de 2017

ANGIQUINHO, A PRIMEIRA USINA HIDRELÉTRICA DO NORDESTE


Inaugurada por Delmiro Gouveia, em 1913, Angiquinho é a primeira usina hidrelétrica do Nordeste e está localizada à margem alagoana da Cachoeira de Paulo Afonso.

A hidrelétrica tinha como objetivo fornecer energia elétrica a uma grande indústria têxtil localizada na cidade de Pedra, hoje Delmiro Gouveia. Sua energia era bastante que também alimentava uma bomba d’água que abastecia a mesma cidade, distante aproximadamente 24 km da cachoeira.

Para os mais aventureiros, Angiquinho também é sinônimo de esporte de aventura. No local, é possível praticar esportes radicais, além de poder tomar um delicioso banho na cachoeira do lago formado pelas águas do Velho Chico.

Publicado em sexta-feira, 15 de maio de 2015

http://cbhsaofrancisco.org.br/angiquinho-a-primeira-usina-hidreletrica-do-nordeste/

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A moda que vem do cangaço

Por: Thabata Alves

Lampião e Maria Bonita, o casal que ditou moda no cangaço

Lampião e  Maria Bonita se tornaram mitos em todo o nordeste brasileiro ao misturar riqueza, extravagância e barbárie. Para o ”Rei do cangaço”, vestir-se bem era essencial para triunfar. Ele foi o primeiro cangaceiro a cuidar da sua imagem, aí reside sua originalidade. A partir do estilo ”criado” por Lampião e adotado por seu bando era reconhecido entre os demais. O vaidoso cangaceiro tinha um estilo pessoal e costumava entre outras roupas e acessórios usar um colar de prata e ouro, chapéus bordados, lenços de seda inglesa ou em tafetá, broches e camisas com botões de ouro.

Sempre preocupado com a aparência – bem antes de sua entrada no cangaço, Lampião costurava suas roupas e sabia bordar a máquina com perfeição – e soube elaborar um personagem singular para ele, utilizando efeitos visuais para valorizar a vida que levava com seu grupo e transmitir a imagem de bandido rico e poderoso que exercia fascínio e respeito sobre o povo do sertão.

Fotos dos cangaceiros Dadá e Corisco

Dadá, mulher de Corisco, companheiro de Lampião, teve papel importante na história do cangaço, não só por participar ativamente das lutas, mas, sobretudo por ter sido a “estilista” dos cangaceiros. Ela mudou radicalmente os motivos e a confecção das roupas e acessórios usados pelo bando.

A partir de 1932, lançou a moda dos motivos bordados em couro branco sobre os chapéus – foi a criadora da famosa estrela de oito pontas -, das flores em tecido colorido bordadas sobre as bolsas, dos peitorais e dos cinturões largos e de couro.

A nova indumentária criada por Dadá era também utilizada para diferenciar status e poder. Os motivos e as estrelas dos chapéus variavam de um cangaceiro para outro e permitiam reconhecer a sua importância dentro do grupo.

Geralmente, o lenço dos cangaceiros era feito em seda inglesa ou em tafetá francês e traziam sempre monogramas. O lenço de Lampião era em seda vermelha, bordada nos quatro cantos, fixado por diversos anéis – geralmente de ouro – em volta do pescoço. As bolsas bandoleiras eram feitas em tecidos resistentes e tinham vários bolsos fechados por diversos botões, com a parte externa ricamente bordada com motivos florais.

Enquanto os cangaceiros usualmente vestiam uma camisa cáqui ou azul, Lampião, como chefe, às vezes se diferenciava, usando camisas listradas ou estampadas, com botões de ouro. As calças de cintura alta eram geralmente curtas, obrigando os cangaceiros a usar tornozeleiras em couro e ornamentadas com botões e bordados para proteger da vegetação espinhenta. Por causa também da vegetação, os cangaceiros usavam luvas; as de Lampião eram bordadas.

Mesmo os objetos mais simples eram enfeitados, por exemplo, o cantil de alumínio de Lampião era recoberto por tecido bordado. As bainhas dos punhais, as cartucheiras, as alças dos fuzis completavam a riqueza dos trajes. Até os cães dos cangaceiros não escapavam a essa moda de ostentação: Dourado, o cão de Lampião usava uma coleira feita de ouro e prata.

As companheiras dos cangaceiros adaptaram-se a esse novo estilo de vestimenta. Havia dois tipos de indumentária feminina: a roupa típica das mulheres dos cangaceiros, usada durante as longas caminhadas na caatinga; e um vestido à moda da cidade, que as mulheres usavam geralmente nos refúgios, quando sabiam que estavam protegidas das forças policiais e podiam desfrutar de algum descanso.

A estética da extravagância de Lampião e seus cangaceiros já influenciou muitos estilistas. Zuzu Angel apresentou em seu primeiro desfile em Nova York, em 1970, uma coleção inspirada em Maria Bonita.

Em 2002, o universo do cangaço inspirou Tufi Duek e as roupas e acessórios da “Forum” foram enfeitados por pespontos ou tachas que recriavam os desenhos dos artesãos da caatinga. Amir Slama, da Rosa Chá, e Ronaldo Fraga também já se deixaram seduzir pelo estilo do cangaço brasileiro.

Fonte:


sexta-feira, 9 de março de 2012

O VAQUEIRO – PATATIVA DO ASSARÉ

Vaqueiro da região de Serra Talhada, Pernambuco - Foto - Araquém Alcântara - Fonte - http://www.abi.org.br/


Eu venho dêrne menino,
Dêrne munto pequenino,
Cumprindo o belo destino
Que me deu Nosso Senhô.
Eu nasci pra sê vaquêro,
Sou o mais feliz brasilêro,
Eu não invejo dinhêro,
Nem diproma de dotô.
Sei que o dotô tem riquêza,
É tratado com fineza,
Faz figura de grandeza,
Tem carta e tem anelão,
Tem casa branca jeitosa
E ôtas coisa preciosa;
Mas não goza o quanto goza
Um vaquêro do sertão.
Da minha vida eu me orgúio,
Levo a Jurema no embrúio
Gosto de ver o barúio
De barbatão a corrê,
Pedra nos casco rolando,
Gaios de pau estralando,
E o vaquêro atrás gritando,
Sem o perigo temê.
Criei-me neste serviço,
Gosto deste reboliço,
Boi pra mim não tem feitiço,
Mandinga nem catimbó.
Meu cavalo Capuêro,
Corredô, forte e ligêro,
Nunca respeita barsêro
De unha de gato ou cipó.
Tenho na vida um tesôro
Que vale mais de que ôro:
O meu liforme de côro,
Pernêra, chapéu, gibão.
Sou vaquêro destemido,
Dos fazendêro querido,
O meu grito é conhecido
Nos campo do meu sertão.
O pulo do meu cavalo
Nunca me causou abalo;
Eu nunca sofri um galo,
pois eu sei me desviá.
Travesso a grossa chapada,
Desço a medonha quebrada,
Na mais doida disparada,
Na pega do marruá.
Se o bicho brabo se acoa,
Não corro nem fico à tôa:
Comigo ninguém caçoa,
Não corro sem vê de quê.
É mêrmo por desaforo
Que eu dou de chapéu de côro
Na testa de quarqué tôro
Que não qué me obedecê.
Não dou carrêra perdida,
Conheço bem esta lida,
Eu vivo gozando a vida
Cheio de satisfação.
Já tou tão acostumado
Que trabaio e não me enfado,
Faço com gosto os mandado
Das fia do meu patrão.
Vivo do currá pro mato,
Sou correto e munto izato,
Por farta de zelo e trato
Nunca um bezerro morreu.
Se arguém me vê trabaiando,
A bezerrama curando,
Dá pra ficá maginando
Que o dono do gado é eu.
Eu não invejo riqueza
Nem posição, nem grandeza,
Nem a vida de fineza
Do povo da capitá.
Pra minha vida sê bela
Só basta não fartá nela
Bom cavalo, boa sela
E gado pr’eu campeá.
Somente uma coisa iziste,
Que ainda que teja triste
Meu coração não resiste
E pula de animação.
É uma viola magoada,
Bem chorosa e apaxonada,
Acompanhando a toada
Dum cantadô do sertão.
Tenho sagrado direito
De ficá bem satisfeito
Vendo a viola no peito
De quem toca e canta bem.
Dessas coisa sou herdêro,
Que o meu pai era vaquêro,
Foi um fino violêro
E era cantadô tombém.
Eu não sei tocá viola,
Mas seu toque me consola,
Verso de minha cachola
Nem que eu peleje não sai,
Nunca cantei um repente
Mas vivo munto contente,
Pois herdei perfeitamente
Um dos dote de meu pai.
O dote de sê vaquêro,
Resorvido marruêro,
Querido dos fazendêro
Do sertão do Ceará.
Não perciso maió gozo,
Sou sertanejo ditoso,
O meu aboio sodoso
Faz quem tem amô chorá.
Patativa do Assaré (1909 – 2002)
Encontro de vaqueiros nas ruas de Icó, Ceará, na metade do século passado - Fonte - http://www.icoenoticia.com

Extraído do blog: "Tok de História", do historiógrafo e pesquisador do cangaço, Rostand Medeiros

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Jararaca - O Cangaceiro que Virou Santo

Por: Eleuda de Carvalho

Jararaca - O Cangaceiro que Virou Santo

Cemitério de Mossoró, final de tarde. Pouca gente viva por aqui. Um sujeito meio triscado de cachaça dá a dica: este túmulo pintadinho de azul caixão-de-anjo, à esquerda de quem entra, coberto de flores e pedrinhas de rio, guarda os restos mortais do cangaceiro Jararaca. Preso em 14 de junho de 1927, um dia depois da invasão frustrada de Lampião à maior cidade do Seridó, Jararaca penou quatro dias na cadeia pública da cidade, ferido no peito e nas pernas. Na noite de 18 de junho, foi trazido para cá. A guarda que o conduzia, obrigou Jararaca a abrir a própria cova. O soldado João Arcanjo o sangrou, mas o povo diz que o bandido foi enterrado ainda vivo. Tinha apenas 26 anos.

 

Ao lado do túmulo, Toinho do Açu explica o que são estas pedrinhas; É em agradecimento a uma graça alcançada. Aqui foi um velho bandido, ói, ele sacudiu uma criança pra cima e espetou num punhal. Depois ele ficou arrependido do que tinha feito, explica. A cera das muitas velas votivas que alumiaram esta cova no dia de Finados recobre o chão.

José Leite de Santana, o Jararaca, nasceu há cem anos, em Buíque, estado de Pernambuco. Entre 1920 e 1926 foi soldado do Exército. Largou a farda para vestir a armadura de pano e couro do cangaço. Sua desaventura durou bem pouco. Em começos de junho de 1927, o cangaceiro paraibano Massilon (tem quem diga que ele era da família Diógenes, do Jaguaribe) encheu os ouvidos do chefe maior do cangaço. Bem que Lampião ficou meio arisco, Mossoró era uma cidade grande demais, ele jamais ousara tanto. Mas a possibilidade de lucros gordos superou a hesitação. Assim, juntaram-se para a empreitada os bandos comandados por Massilon, Jararaca, Sabino Costa, Vinte-e-dois, todos sob a ordem maior de Lampião. No total, pouco mais de 50 homens bem armados.

A cidade tinha sido avisada, ninguém acreditou, a não ser o prefeito. Naquele ano, o dia de Santo Antônio caiu numa segunda-feira, e o povo passou a noite anterior dançando. No fim da tarde do dia 13, uma chuva boa. Ouviram-se os primeiros tiros, teve quem pensasse ser barulho de trovão. Rodolfo Fernandes, o prefeito, recebeu um ultimato assinado pelo capitão Lampião, que cobrava 400 contos de réis para deixar Mossoró em paz. Fernandes não se intimidou. Na cidade havia um contingente de 22 soldados, apenas. O prefeito organizou a resistência, acantonada em trincheiras de fardos de algodão.

Na lateral da igreja de São Vicente, que ainda guarda os buracos de bala do entrevero, Raimundim do Mixto, de nome todo Raimundo de Freitas Nunes, 72 (40 anos de boléia transportando passageiros entre Mossoró e Limoeiro do Norte), também conhece a história do cangaceiro milagroso. ''Todos os anos vou ao cemitério. Visito o túmulo de Jararaca por curiosidade, pra ver o movimento. Este ano, contei 520 velas, afora as da fornalha do lado. Dizem que ele se arrependeu de dois crimes, antes de morrer, o menino que ele sangrou na ponta de uma faca e os bicos dos peitos de uma mulher, que ele arrancou''.

Raimundim sabe outra história da mal-sucedida invasão. A do cangaceiro Menino de Ouro. ''Ele saiu baleado, muito doente, mas não quis morrer aqui. Quando chegou na Baixa Branca, divisa com o Ceará, num lugar conhecido como Lagoa do Rocha, perguntou a Lampião, já saímos do Rio Grande? - Já. Pois acabem de me matar, pra não atrasar a viagem. Eu não vi, mas todo mundo conta (Eleuda de Carvalho)


O Povo

Fonte: sincep



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sábado, 7 de janeiro de 2012

Nas pegadas de Lampião no lombo de uma moto


Por: Valdir Julião  repórter
Fonte: http://ocomunicador10.blogspot.com/

Em lombo de cavalo, de jumento ou a pé, a incursão do bando do capitão Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, pelo Rio Grande do Norte, na segunda década do século XX, durou apenas três dias: tempo suficiente para virar lenda e se perpetuar no imaginário popular dos potiguares, além de se converter no anti-herói de Mossoró, que era o principal alvo da cobiça dos cangaceiros por ser, como é ainda hoje, o município polo e mais rico da região Oeste.


A Gruta da Carrapateira, em Felipe Guerra, foi uma das três grutas que abrigaram os fugitivos do bando de Lampião, expulsos de Mossoró. Oito décadas depois e por conta da argúcia e curiosidade de dois espeleólogos (estudiosos das cavernas) esse percurso de Lampião foi refeito ao longo de 90 dias. Entre idas e vindas, o técnico em turismo 


Rostand  Medeiros e o advogado Sólon Almeida Netto revezaram-se em seguir uma trilha de 500 quilômetros entre o município de Luís Gomes, por onde o bando de cangaceiros entrou no Estado, e Mossoró, última cidade escolhida para encerrar a onda de saques em território potiguar.

"Nessa época, em junho de 1927, só existiam sete municípios na região", diz o pesquisador Rostand Medeiros, que ao invés de cavalos, usou o "lombo" de motos para refazer a cavalgada de Lampião pelo sertão do Rio Grande do Norte.

Rostand Medeiros explicou que a ideia de se percorrer os rastros de Lampião e seu bando, surgiu depois de descobrir e ouvir de algumas pessoas - "filhos e netos de moradores da região  que viveram naquela época" -, relatos sobres as escaramuças dos cangaceiros, como roubos, saques, pilhagem, raptos,  seqüestros e violência cometida contra as pessoas e fazendas que vinham encontrado pela frente.

Medeiros diz que, com seu companheiro Sólon Almeida Netto fizeram dois trabalhos, um que resultou numa pesquisa sobre 83 cavernas da região Oeste e o segundo, um relatório de 300 páginas, que chamou de "Nas pegadas de Lampião".

Nesse segundo trabalho, segundo Medeiros, existem relatos de pessoas, cujos ascendentes fugiram de suas casas e se esconderam em cavernas para escapar dos cangaceiros: "Nós percorremos quinze cavernas, mas descobrimos que só três cavernas serviram de esconderijo, duas em Felipe Guerra e uma em Baraúna, que na época pertencia a Mossoró".

O espeleologista Rostand Medeiros disse que, ele e seu amigo, tentaram percorrer, ao máximo, os mesmos trechos onde passaram Lampião e seu bando, contando com informações orais, principalmente, das pessoas mais velhas dos municípios originalmente percorridos pelos cangaceiros: Luís Gomes, Martins, Pau dos Ferros, Apodi, Caraúbas e Pau dos Ferros.
Com o tempo, explicou ele, houve desmembramento territorial e criação de outros municípios, por isso, a trilha de Lampião foi  percorrida em 18 municípios.

Por onde Rostand e Almeida Netto andavam, iam descobrindo coisas e vestígios sobre o período e a passagem de Lampião pela região Oeste. "Nossa proposta foi conhecer e percorrer o caminho o  mais próximo da realidade dos fatos que ocorreram", sintetizou o pesquisador, cujo trabalho e de seu companheiro, despertou o interesse em transformar o episódio numa forma de induzir e desenvolver negócios na área de turismo na região. "É o que estão chamando de culturalização da economia", completou.

Missa do Soldado é um dos marcos da passagem de Lampião pelo RN

Para refazer o mesmo roteiro da passagem de Lampião no Rio Grande do Norte, entre os dias 10 e 13 de junho de 1927, o pesquisador Rostand Medeiros  se baseou em pelo menos três livros publicados sobre o cangaço, de autoria dos escritores Raul Fernandes, Raimundo Nonato e Sérgio Dantas. "Cada um tem o seu foco, a sua importância", afirmou ele.

Mas Rostand Medeiros não dispensou "a oralidade" das pessoas que foi encontrando, nem os "casos e causos" que lhe foram contando. Ele disse que descobriu algumas coisas inéditas, como a realização da chamada "Missa do Soldado", que é celebrada em homenagem ao policial José Monteiro de Matos, morto em combate contra os cangaceiros de Lampião, no confronto que foi chamado pela população de "Fogo da Caiçara".

Segundo Rostand, as tropas da Polícia do Rio Grande do Norte enfrentaram os cangaceiros na localidade denominada Junco,  hoje situada a cinco quilômetros do município de Marcelino Vieira, no Alto Oeste. No decorrer do combate, às vésperas da invasão a Mossoró, segundo relatos, os soldados foram recuando, enquanto o soldado Monteiro ficou no local e teria dito o seguinte: "Morro, mas não corro".

Por conta disso, a "Missa do Soldado" é realizada, anualmente, a cada 13 de junho, na Dia de Santo Antonio, na capela homônima. "O povo mantém a tradição", disse Rostand. Próximo ao açude da Caiçara também foi construído um monumento em homenagem ao soldado morto em combate com os cangaceiros.

O pesquisador  conta que descobriu, no município de Luís Gomes (Alto Oeste), a casa que pertenceu ao pai do cangaceiro Massilon Leite,  que  foi o guia de Lampião para adentrar no RN, inclusive prestando informações sobre Mossoró, a qual Lampião decidiu atacar.
Deste município potiguar, que faz divisa com a Paraíba, o capitão Virgulino iniciou suas escaramuças pelo RN, que terminou com o ataque e sua retirada em Mossoró, em virtude da resistência comandada pelo então prefeito Rodolfo Fernandes. Aos 92 anos, dona Leonila fala de Lampião.

Entre os municípios de Felipe Guerra e Caraúbas está situada, na fazenda Santana, uma das duas grutas das redondezas que serviram de esconderijo para os fugitivos do bando do capitão Virgulino Ferreira da Silva.

Nessa gruta, denominada "Tapia de Zé Félix", escondeu-se em 12 de junho de 1927, dona Leonila Tomé de Souza Barra. Hoje, aos 92 anos, falou de suas lembranças aos pesquisadores Rostand Medeiros e Solón Almeida Netto.

Os pesquisadores localizaram dona Leonila Barra em 12 de setembro de 2009. Através de suas lembranças, pois ela tinha dez anos quando ocorreu a fuga da família comandada por sua mãe, souberam que a matriarca Tionila Nogueira Barra e os moradores  buscaram refúgio na fazenda Passagem Funda, a cerca de três quilômetros de sua propriedade, onde se abrigaram por quase 30 dias nessa gruta.

Segundo os pesquisadores, Leonila Barra recordou que em meio à notícia da aproximação do bando de Lampião e a todo o tumulto que tomou conta da região, estava com algumas de suas nove irmãs no casarão do Mato Verde debulhando vargens de feijão, quando um portador trouxe a notícia da aproximação do bando.

"Na sua ingenuidade infantil, ela não acreditou na história do mensageiro. Diante dos fatos, sua mãe parte para juntar tudo que pudessem carregar e se esconderem, mas devido à chegada da noite, decidem dormir na fazenda", historiou Medeiros.

"Quem atualmente visita o local, o encontra preservado tal como era naqueles estranhos dias de junho de 1927", diz o relatório dos dois espeleólogos.

Fonte:  Tribuna do Norte

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A INVENÇÃO DO SERTÃO

By: Rostand Medeiros
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“O que é o tempo? Se não me perguntam, eu sei; se me perguntam, desconheço”. A frase de Santo Agostinho, que me chegou através do escritor argentino Jorge Luis Borges, mais parece um aforismo de Guimarães Rosa: O que é o sertão? Se não me perguntam, eu sei; se me perguntam desconheço. Segundo o dicionário Houaiss, o sertão é uma região agreste, afastada dos núcleos urbanos e das terras cultivadas, em especial a zona mais seca que a caatinga, ligada ao ciclo do gado, e onde permanecem tradições e costumes antigos. Para Câmara Cascudo o sertão é o interior, como o definiram os cronistas Fernão Mendes Pinto, o Padre Antonio Vieira e o escrivão Pero Vaz de Caminha.
O sertão dos bandeirantes paulistas situava-se na Serra do Mar ou além dela, em floresta atlântica, onde grilavam índios, procuravam ouro, pedras preciosas e caçavam animais de peles comerciáveis. Capistrano de Abreu lamentava que a história brasileira tivesse ficado apenas no litoral, não adentrasse os interiores. Os primeiros mapas desenham um Brasil costeiro. Só mais tarde, com o avanço da colonização e o trabalho dos exploradores, seguindo os cursos dos rios, chega-se ao outro Brasil.
Os ingleses traduzem sertão como backlands – terras de trás. Olhando o mar e o litoral, tudo o que está às costas seria sertão. Esse primeiro significado valia para as terras gerais do Brasil. A palavra sertão ainda não fora reinventada pelos escritores, poetas, pintores e cineastas. Ainda não ganhara os limites geográficos que hoje a situa em zonas mais áridas, sobretudo nordestinas. Cascudo escreveu que “o nome fixou-se no Nordeste e no Norte, muito mais do que no Sul. O interior do Rio Grande do Sul não é sertão, mas poder-se-ia dizer que sertão era o interior de Goiás e de Mato Grosso”. Para Guimarães Rosa, ele se situa nos gerais de Minas.
Vaqueiro nordestino vestindo seu traje de trabalho - Foto - Geyson Magno - Fonte - http://saovicentenews.blogspot.com
Há algo que sentimos como sertão. Talvez ele nos transmita um apelo, o mesmo que Rudyard Kipling ouviu em relação ao Oriente. – “Se ouvires o apelo do Oriente, já não ouvirás outra coisa”. Se ouvires as vozes sertanejas, já não escutarás outras vozes. Nem enxergarás outras perspectivas, como um cearense a quem subiram num prédio alto de São Paulo e pediram que dissesse o que avistava e ele respondeu: o Crato. O sertão habita em nós, mesmo quando já não o habitamos. O sertão é como Deus definido por Hermes de Trimegisto: uma circunferência cujo centro está em toda parte e a periferia em nenhuma. O sertão é a essência, o miolo, o cerne. É marca de ferro que nos queima e nunca se desfaz. O sertão é o silêncio das pedras, as ausências. O sertão não existe, é pura invenção dos poetas.
O sertão é anterior ao descobrimento. Ele já se fundara em Creta, na Grécia Antiga, o berço da civilização ocidental, no culto ao touro, na arte de domar a rês. E em Israel com o legado da Escritura Sagrada. O Oriente e o Ocidente se juntaram no sertão, no sedimento da cultura moura e judaica transportada da Península Ibérica.
Mas é através dos artistas que o sertão se inventa. Cada um cria o próprio ferro de marca, o sertão pessoal que vira patrimônio de todos: José de Alencar, Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, Glauber Rocha.
O cinema do ciclo do cangaço fixa os estereótipos de um regionalismo que a televisão irá explorar de forma grosseira e vulgar. Surgem caricaturas de trajes e falas, os coronéis, as sinhás, os vaqueiros que não são cowboys. Retrata a miséria, os mandacarus e chique-chiques, os despotismos, a sanha dos cangaceiros. O sertão por essas lentes é um mundo sem épica, de tragédias sem sentido trágico. Não possui a dignidade de um faroeste americano, do cinema de John Ford, John Huston ou Roberto Leone.
À margem do poderoso mundo da comunicação, os poetas, violeiros, cordelistas, aboiadores, contadores de história, xilogravadores, ferreiros, artesãos do couro, bordadeiras, romeiros e brincantes dos autos populares continuaram produzindo uma arte que se filia à tradição universal. Através deles, se realizou o milagre de síntese de várias culturas milenares.
Sertão do Jaguaribe, Ceará, 2009 - Foto - Rostand Medeiros
No sertão, origens e tempos se misturam. O aboio, que chama para o curral o gado de semente indiana, lembra o canto de um muezim muçulmano. O sertanejo habita uma casa de arquitetura portuguesa. Come o pão em que o trigo foi substituído pelo milho de lavra indígena. Acende um cigarro de fumo da terra, e põe na cabeça um chapéu de palha com trançado africano. Dentro de casa, a esposa vê televisão, e o filho pequeno brinca num vídeo game. E o homem nem imagina que nele deságuam civilizações e saberes. Repara na tarde “que tem qualquer coisa de sinistro como as vozes dos profetas anunciadores de desgraça”, e num vaqueirinho que testa o aparelho celular, buscando sintonia com o mundo.
RONALDO CORREIA DE BRITO é autor de Faca, O livro dos homens, Galiléia e Retratos Imorais.
2011/07/09/noticiavidaeartejornal,2265127/a-invencao-do-sertao.shtml

Extraído do blog: Tok de História do historiógrafo Rostand Medeiros

domingo, 11 de dezembro de 2011

O VAQUEIRO – PATATIVA DO ASSARÉ

Por: Rostand Medeiros

Vaqueiro da região de Serra Talhada, Pernambuco - Foto - Araquém Alcântara - Fonte - http://www.abi.org.br/

Eu venho dêrne menino,
Dêrne munto pequenino,
Cumprindo o belo destino
Que me deu Nosso Senhô.
Eu nasci pra sê vaquêro,
Sou o mais feliz brasilêro,
Eu não invejo dinhêro,
Nem diproma de dotô.
Sei que o dotô tem riquêza,
É tratado com fineza,
Faz figura de grandeza,
Tem carta e tem anelão,
Tem casa branca jeitosa
E ôtas coisa preciosa;
Mas não goza o quanto goza
Um vaquêro do sertão.
Da minha vida eu me orgúio,
Levo a Jurema no embrúio
Gosto de ver o barúio
De barbatão a corrê,
Pedra nos casco rolando,
Gaios de pau estralando,
E o vaquêro atrás gritando,
Sem o perigo temê.
Criei-me neste serviço,
Gosto deste reboliço,
Boi pra mim não tem feitiço,
Mandinga nem catimbó.
Meu cavalo Capuêro,
Corredô, forte e ligêro,
Nunca respeita barsêro
De unha de gato ou cipó.
Tenho na vida um tesôro
Que vale mais de que ôro:
O meu liforme de côro,
Pernêra, chapéu, gibão.
Sou vaquêro destemido,
Dos fazendêro querido,
O meu grito é conhecido
Nos campo do meu sertão.
O pulo do meu cavalo
Nunca me causou abalo;
Eu nunca sofri um galo,
pois eu sei me desviá.
Travesso a grossa chapada,
Desço a medonha quebrada,
Na mais doida disparada,
Na pega do marruá.
Se o bicho brabo se acoa,
Não corro nem fico à tôa:
Comigo ninguém caçoa,
Não corro sem vê de quê.
É mêrmo por desaforo
Que eu dou de chapéu de côro
Na testa de quarqué tôro
Que não qué me obedecê.
Não dou carrêra perdida,
Conheço bem esta lida,
Eu vivo gozando a vida
Cheio de satisfação.
Já tou tão acostumado
Que trabaio e não me enfado,
Faço com gosto os mandado
Das fia do meu patrão.
Vivo do currá pro mato,
Sou correto e munto izato,
Por farta de zelo e trato
Nunca um bezerro morreu.
Se arguém me vê trabaiando,
A bezerrama curando,
Dá pra ficá maginando
Que o dono do gado é eu.
Eu não invejo riqueza
Nem posição, nem grandeza,
Nem a vida de fineza
Do povo da capitá.
Pra minha vida sê bela
Só basta não fartá nela
Bom cavalo, boa sela
E gado pr’eu campeá.
Somente uma coisa iziste,
Que ainda que teja triste
Meu coração não resiste
E pula de animação.
É uma viola magoada,
Bem chorosa e apaxonada,
Acompanhando a toada
Dum cantadô do sertão.
Tenho sagrado direito
De ficá bem satisfeito
Vendo a viola no peito
De quem toca e canta bem.
Dessas coisa sou herdêro,
Que o meu pai era vaquêro,
Foi um fino violêro
E era cantadô tombém.
Eu não sei tocá viola,
Mas seu toque me consola,
Verso de minha cachola
Nem que eu peleje não sai,
Nunca cantei um repente
Mas vivo munto contente,
Pois herdei perfeitamente
Um dos dote de meu pai.
O dote de sê vaquêro,
Resorvido marruêro,
Querido dos fazendêro
Do sertão do Ceará.
Não perciso maió gozo,
Sou sertanejo ditoso,
O meu aboio sodoso
Faz quem tem amô chorá.
Patativa do Assaré (1909 – 2002)
Vaqueiros em Icó, Ceará, na metade do século - Fonte - http://www.icoenoticia.com/

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Salve São Francisco


O mais recente trabalho do pernambucano Geraldo Azevedo é uma celebração ao rio São Francisco. Lançado em abril deste ano, o disco é o primeiro álbum temático do cantor e compositor, registrado também em DVD.

"O grande oasis do sertão pro Brasil: É esse Rio São Francisco. Onde ele passa, realmente, ele deixa um rastro de verde, uma coisa fantástica. O rio representa a vida de uma parte muito grande do Brasil", diz Geraldo Azevedo. Foi a partir dessa conclusão que nasce o CD e DVD Salve São Francisco.

Cantor, compositor e violonista, Geraldo Azevedo cresceu em Petrolina, cidade pernambucana banhada pelas águas do São Francisco. Impressionado com a fortaleza e a grandiosidade do rio, por várias vezes ele pescou de suas águas temas para suas canções. Agora chegou a vez de ele dedicar um disco inteiro ao assunto.

"Salve São Francisco" é o 22º disco de Geraldo, que aproveitou para convidar artistas como Djavan, Dominguinhos, Fernanda Takai, Alceu Valença e Ivete Sangalo entre outros para dividir com ele 12 canções próprias e regravações. A cantora Maria Bethânia também dividiu a canção "Carranca que chora" de Geraldo Azevedo e Capinan. "Salve São Francisco" está sendo lançado pela gravadora Biscoito Fino.

O DVD, com direção de Lara Velho, traz imagens gravadas em estúdio, além de pequenos papos e comentários do anfitrião e seus convidados. O passeio geográfico musical levado pelas águas do Rio inclui imagens ribeirinhas de natureza, da cultura e do povo. A versão em CD traz caprichado encarte com belíssimas fotos e reúne frases dos convidados do DVD.

A viagem musical pelo Rio São Francisco carrega forte lado sentimental para o artista. Um álbum afetivo que reúne poesia, música, bons convidados e consciência ecológica. Navegando por culturas e histórias o Rio São Francisco vira bela música por Geraldo Azevedo.

Faixas do álbum:
1. Barcarola do São Francisco - Part. Djavan
2. Santo Rio - Part. Dominguinhos
3.Águas - Daquele Rio - Part. Geraldo Amaral
4. São Francisco São - Part. Márcia Porto
5. Opara (Salve São Francisco) - Part. Fernanda Takai
6. Francisco Francisco - Part. Roberto Mendes
7. Riacho de Navio - Part. Alceu Valença
8. Carranca que chora - Part. Maria Bethânia
9. Petrolina e Juazeiro - Part. Moraes Moreira
10. O Ciúme - Part. Ivete Sangalo
11. Sandades do Vapor - Part. Vavá Cunha
12. São Francisco Help - Part. Alceu Valença, Fernanda Takai, Geraldo Amaral e Ivete Sangalo

Geraldinho, como é carinhosamente chamado, está em turnê com esse show pelo país.

Assista o Programa do Jô com a participação do cantor: