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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O BECO DAS FRUTAS e ADJACÊNCIAS

Por Francisco Obery Rodrigues

1. O BECO DAS FRUTAS
 
De acordo com o historiador, Prof. Raimundo Nonato da Silva, em “Ruas, Caminhos da Saudade”, foram muitos – contei vinte e um – os becos existentes em Mossoró, afora as travessas, também em grande número. Eram simples passagens de uma rua para outra, às vezes a mesma com nomes diferentes, como é o caso do Beco da Escola Normal e Beco do Grupo Escolar. Ele cita um Beco de João Caetano em forma de L, que começava na antiga Rua do Rosário, ao lado de sua casa e saía entre os fundos desta e a casa de Chico Apolinário, na Rua Quintino Bocaiúva. Recordo, ainda, de muitos outros becos e travessas mencionados em seu livro. Os becos hoje não existem: ou foram fechados ou “promovidos” a travessas, talvez por ser nome menos mal-afamado ou malvisto.

Conheci o chamado BECO DAS FRUTAS desde quando ainda menino, antes mesmo da década de trinta, do século recém-findo. Transitei muitas vezes por esse beco, só ou acompanhando meu pai ao Mercado Público, para a feira diária, ou às missas dos domingos. Mas, quando só, não gostava de passar por lá; preferia andar pela minha Rua Pe. João Urbano ou desviar – indo às matinês no Cine-teatro Almeida Castro – pela velha Rua do Rosário. Não era apenas sua sujeira e o cheiro forte e enjoado do carbureto, usado para apressar o amadurecimento das bananas; tinha uma cisma desse beco.

De um lado, em quase toda sua curta extensão, eram fundos das casas – com seus esgotos – cujas frentes davam para a antiga Rua Pe. João Urbano, atual Av. Dix-sept Rosado, algumas, talvez todas, ainda habitadas pelas sombras dos seus antigos moradores. Tinha início no atual armazém de Zé Serafim, onde funcionava, salvo engano – tanto tempo já passou! – uma espécie de restaurante de terceira categoria, pertencente a Dedé de dona Mundinha. Mais ou menos em frente a tal restaurante, a Prefeitura mandou fazer uma fossa – acho que em meados da década de 40 – para receber as águas da lavagem do Mercado Público. Essa fossa logo encheu e ficou, por muito tempo, transbordando uma gosma escura e fedorenta, descendo pelas sarjetas até alcançar o, naquele tempo, conhecido como Beco de Jeremias Cego, atual Rua Almino Afonso, escorrendo pela João Urbano, isso até há poucos anos. Ao lado de Dedé, existia uma oficina de sapateiro – não sei de quem. Seguiam-se, alternando com vários fundos de casa, mais uns dois ou três bares ou casas de pasto, entre os quais o de dona Raimunda. Lembro que Zé Amarelinho teve um quarto de frutas nos fundos da casa na qual morava com a mulher, dona Severina, com fachada para a Av. Dix-sept Rosado. Nesse mesmo alinhamento Seu Neo Guimarães, avô do Pe. José Guimarães – ainda residente na Av. Dix-sept Rosado – mantinha uma pequena oficina, mas não lembro bem qual o seu ofício.

Dizia-se que um dos bares referidos, também uma espécie de casa de pasto, era especializado num caldo para curar a ressaca de quem passara a noite na farra. Nesses locais, a bebida predominante era a cachaça. As pessoas temiam transitar nas suas imediações à noite, principalmente os menores, pois bêbados, vagabundos, mundanas e alguns pinguços perambulavam por lá. Consta que foi nas imediações de um deles que Zenóbio Otávio teria atirado em um desafeto ocasional e atingido Gaúcho, que ficou paraplégico (Gaúcho era um dos filhos do antigo comerciante Aristides Rebouças). Por trás da casa onde residiu o sr. João Nogueira, depois o Dr. Vicente de Almeida e atualmente o sr. Ulisses Duarte, existia um prédio com uma porta larga, talvez uma garagem. Já no final, confinando com o referido beco, havia um terreno que meu pai comprou, por volta de 1935, a Elvídio Bandeira de Moura, no qual construiu duas casas e, na esquina, um armazém, que depois transformou noutra casa. Não lembro quem ocupou o armazém, mas nessa casa da esquina residiram, não sei se sucessivamente, Manoel das Frutas, dona Irinéa Wandereley, dona Erotildes, casada com Alonso, entre outros.

Do outro lado do Beco das Frutas, o primeiro quarteirão se estendia do grande armazém de Chico Bernardo – Francisco Bernardo de Oliveira (1), de dois pavimentos, onde vendia todo gênero de mercadorias, desde ferragens, louças, perfumes e cosméticos, a miudezas em geral. O segundo pavimento era uma “república” na qual moravam vários rapazes, empregados do comércio e estudantes. O jornal “O Mossoroense”, em 1906, já dava notícias desse estabelecimento vendendo “miudezas, molhados, estivas e cereais.” Quem sucedeu a Chico Bernardo foi Ferreirinha Duarte e a este, não sei quantos. Neste quarteirão existiam vários depósitos de frutas, principalmente bananas, entre eles os do senhor João de Ouro e dos irmãos Cícero e Dedé, e um tal de Mateus. Conversando com Damião Eloi de Lima, antigo engraxate com ponto no Pavilhão Vitória, que existiu na Praça Rodolfo Fernandes (Damião tem uma história interessante: batalhou e conseguiu, anos mais tarde, através do então Ministro Tancredo Neves, sua nomeação para o quadro de portaria do Banco do Brasil, encontrando-se hoje aposentado), contou-me ele que, naquele tempo, para matar a fome, ia comer banana no armazém de João de Ouro. Raimundo Nonato da Silva fala, ainda, num “quarto” do velho Justino Cocada – “que não vendia nada” – mas não esclarece se era no mesmo beco. Essa mesma quadra, cujos prédios tinham (e ainda devem ter) numeração ímpar, ia até o beco onde morava Zé Gregório (2), numa casa isolada, cujas janelas nunca vi abertas. Ainda nesse mesmo lado – prosseguindo este inventário da memória – em seguida ao beco conhecido como de Jeremias Cego, existiam outros depósitos de bananas; quando se passava em frente a eles, viam-se grandes amontoados exalando forte cheiro do carbureto, usado para abreviar seu amadurecimento. Laranjas, só quando era tempo de safra do município de Russas-CE, ou quando, eventualmente, vinham da Bahia. Também nesses depósitos havia estoques de jerimum, batata-doce, cebolas, cordas de alho vindas de São Sebastião (hoje Dix-sept Rosado), abacaxis vindos da Paraíba etc. Mais ou menos no meio deste quarteirão eram os fundos da casa onde morou Joaquim Felício de Moura. Mais adiante, conheci o fogueteiro Cazuzinha e o flandeiro Chico Pindura (3), figuras que sumiram no mistério do tempo – evolaram-se. Existia, ainda, nesse quarteirão, uma casa estreita, antiga, acho que uma espécie de “rendez-vous”, pois, ao transitar por ali meus olhos de adolescente curioso observavam a freqüência de mulheres que me pareciam “suspeitas”. Nessa casa, depois reformada, com o número 127, residiram Bastinha, costureira, irmã de Luzia Queiroz (dona da Boate Coimbra, no Art Nouveaux); Édson Benigno César, a profª Marlene Otto, o sr. João Sobreira, encarregado, então, do bar do Clube Ipiranga, além de outros. Na esquina, ficava a antiga loja do português Artur Céa que, segundo Raimundo Nonato da Silva, esquinava com o Beco de Jeremias Cego, findando ali o Beco das Frutas. Nesse mesmo local Luiz Marques instalou, depois, sua sortida bodega, ponto de encontro, nas manhãs dos domingos, de amigos que iam lá bater papo e bebericar. Sucedeu a ele seu sobrinho Raimundo Marques de Oliveira e, a este, Raimundão, com o seu famoso bar. Hoje não sei quem está lá. (O velho Jeremias Cego, que dava nome ao beco por morar nele, parece que estou a vê-lo de paletó, moreno, encorpado, de bigode, fala mansa e grossa, chapéu de feltro e bengala, indo, vez por outra, tomar um café em nossa casa. Sua esposa, dona Neném – Neném de Jeremias Cego – era nossa costureira (confeccionava as pijamas do meu, as do meu irmão e as minhas, bem como as cuecas, inclusive as minhas, quando comecei a usá-las. Era amiga de minha mãe, também conhecida por Neném. Tinham quatro filhos: Odail, Soares (gráfico) e motorista. Morreram todos.

Esse foi o beco que conheci desde a infância, com seus habitantes, alguns sombrios, outros até burlescos, onde via pessoas sentadas no chão das calçadas irregulares, beco sujo pelas cascas de frutas e folhas secas de bananeiras espalhadas na rua, misturando o odor forte do carbureto com o de cachaça dos bares e a catinga dos esgotos, beco movimentado durante o dia, mas escuro e perigoso em suas noites lúgubres. Quase nada do que existe hoje remanesce do antigo Beco das Frutas.

2. SEU ALONGAMENTO E ADJACÊNCIAS

Naquele tempo, onde terminava o Beco das Frutas, existia um extenso largo, atualmente ocupado pelo quarteirão que vai do terreno onde foi o bonito palacete de José Soares de Góis – demolido há alguns anos, da noite para o dia – até a Panificadora 2001. Esse grande espaço, naquele tempo devoluto, ia, em sua largura, das casas cujas frentes davam para a antiga Rua Pe. João Urbano, a começar pela de João Niceras de Morais, até as que tinham fachadas para a então Rua do Rosário (essa Rua dp Rosário, diz Raimundo Nonato, era assim conhecida porque nela moraram várias famílias de negros que tinham por devoção, no mês de dezembro de cada ano, resarem o Rosário). Depois passou a chamar-se João Pessoa e atualmente é Mário Negócio, começando onde morava Raimundo Nelson de Lima.

O quarteirão iniciado pela casa de João Niceras era longo, terminando, na época, por trás da Igreja da Assembléia de Deus. Só a residência de Calistrado do Nascimento (atualmente domicílio do seu genro, o artista Rogério Dias) e os armazéns do meu pai, Francisco Peregrino; só estes tinham fachadas para o tal largo. Meu pai aproveitara toda largura do terreno da nossa casa – uns quatorze metros – para edificar dois armazéns e um pequeno quarto com porta larga, deixando apenas, entre eles, uma estreita passagem para o nosso portão de saída. Utilizava um dos maiores e alugava os outros dois; um destes esteve, por vários anos, a um marceneiro, José Pereira, que morava lá mesmo. Era branco e alto, com a idade aproximada de trinta anos. Vez por outra ia vê-lo trabalhando. Seu almoço, preparava-o no local e sua sobremesa era goiabada, a metade de uma lata de um quilo. Depois que saiu de lá, soubemos que morrera de uma trombose, na própria oficina. Estes dois quartos maiores meu pai transformou uma casa, onde residiram diversas pessoas, entre as quais Freirinho/Adalgisa, Terezina Lacerda (viúva de Francisco Benévolo mais conhecido como Friso), casal Montenegro/Helena. No quarto menor, lembro de Zeca Dorico (José Lopes Bastos) dizia-se que estivera preso, por ser comunista, em 1935 ou 1936, na Ilha de Fernando de Noronha. Explorava uma sucata de peças de automóveis. Falava pouco; parecia-me um homem amedrontado. Também morou no mesmo quarto um tipo esquisito, Manoel Dantas – alvo, alto, magro, mas espadaúdo, de terno branco e chapéu – que vendia poesia de cordel; chamavam-no “poeta Dantas”. Às vezes, quando estava “em casa” com a porta aberta, deixava-me entrar e ler alguns folhetos, mas nunca me deu nenhum. Um dia desapareceu e não se teve mais notícias suas. Nunca soube de onde era nem para onde foi. Mais um tipo enigmático na penumbra do meu mundo perdido.

Do outro lado do tal largo, prosseguimento da antiga Rua do Rosário (4), depois João Pessoa e atual Mário Negócio, ficavam as casas onde moraram, no meu tempo de menino, Raimundo Nelson de Lima (na esquina, em casa que pertencia a Miguel Faustino do Monte), sobralense, que se radicou em Mossoró – assim como dezenas de outros – e constituiu apreciável patrimônio. Dos seus filhos, dois foram, além de parentes, bons amigos: Francisco Olivar do Monte Lima e Francisco do Monte Lima. Depois de Raimundo Nelson, residiu o Dr. Pedro Ciarlinni, engenheiro, nascido na Itália. O Dr. Pedro teve família numerosa e foi pai de Clovis Ciarlinni, casado com Maria da Conceição Escóssia (Conchecita), pais da Dra. Rosalba Ciarlinni Rosado, que ocupou a Prefeitura de Mossoró por dois mandatos. Clovis e Conchecita foram meus vizinhos na Av. Dix-sept Rosado. Por volta de 1945, Antônio da Costa Filho (mais conhecido como Costinha de Horácio, figura de especial destaque na história social de Mossoró) a comprou aos herdeiros de Miguel Faustino e a dividiu em duas. Na parte da frente, para a Mário Negócio, funcionou o GTO – Grupo de Trabalho do Oeste, no governo de Aluízio Alves, Grupo que era chefiado pelo Dr. Francisco Duarte Filho e secretariado por José Genildo Miranda. A seguir, vinha Joaquim Felício de Moura (Quincas Moura), ao tempo dono da loja de ferragens A Primavera que, ao se mudar para outra, em frente ao Clube Ipiranga, adquirida de João Niceras de Morais, fez o mesmo que Costinha: dividiu-a também em duas: numa morou, durante algum tempo, o casal José Vieira da Costa e profª Lanusa Costa (que foi diretora da antiga Escola Normal de Mossoró) e, na vizinha, dentre outros, o médicos Dr. Antônio Luz e dr. Antônio Gastão. Também residiu numa delas o casal Diniz Câmara/Maria das Vitórias. Mais tarde, essas casas teriam sido vendidas a Willeman Andrade e ao Dr. Ednaldo Jales. A casa em que morou, durante muitos anos, a mãe do conhecido sapateiro Lindolfo Arruda, a velha costureira, dona Petronila (em seu quintal existiam um jasmineiro e um pé de bogarí, de forte mas agradável aroma) foi comprada por Arnóbio Pinto – casado com a Profª Sergina Leão – que a demoliu e edificou uma nova. O local onde vivia a família de Juvêncio Cunha Filho (Pucunino) e dona Elisa, foi, anos depois, adquirido por Antônio Câncio de Souza (Seutônio, meu estimado amigo de infância, precocemente falecido), que nele construiu a casa onde passou a morar, quando casou, em novembro de 1947. A seguir, vinha o sr. João Câncio de Souza (Seu Joquinha), que não cheguei a conhecer, casado com dona Amélia, pais de Maria, Adalgisa, José, João, Antônio (Seutônio), Francisco, Jesum e Pedro. Maria casou com Moacir Pereira de Oliveira e foi residir em Santa Catarina. Dona Adalgisa casou com o industrial Jerônimo Dix-sept Rosado, que seria, anos depois, Prefeito de Mossoró e Governador do Estado, falecido em desastre aéreo em 12.7.1951, ainda praticamente no início do mandato). Seutônio foi um dos meus melhores amigos. De todos, sobrevivem apenas dona Adalgisa, com 87 anos, e João Câncio Filho. Inúmeras vezes freqüentei essa casa nas nossas brincadeiras de menino! Recordo, ainda, que, ao lado, existia um terreno no qual Seu Joquinha mantivera uma vacaria. A calçada da casa de dona Amélia era, então, o ponto de encontro dos meninos que moravam nas imediações, uns doze a quinze. Nas nossas brincadeiras, nas correrias às vezes por dentro de sua casa, fazíamos um enorme barulho que, por certo, a importunava muito. O terreno vizinho à antiga vacaria era a entrada (ou saída) do que Raimundo Nonato chamou de “Beco de João Caetano”, já referido. Foi nele que, mais tarde, Julimar Ramos, que era Inspetor do INS, construiu sua residência, fechando, assim o beco. E, no fim desse quarteirão, ficavam a casa de morada e o armazém onde funcionava a famosa bodega de João Caetano (5), na esquina com a Rua Quintino Bocaiúva.

Em seguida, vinha outro quarteirão, a começar pela residência de José Júlio, que comentavam ser capitalista e dono de uma casa de jogo; visualizo-o, ainda, transitando pela rua, sempre trajando terno de linho branco. Essa casa foi comprada por Antônio Rodrigues do Monte – comerciante, fazendeiro e industrial salineiro – que a mandou demolir e erguer uma outra, para Antônio Rodrigues do Monte Filho. Depois, era o casarão, com quatro janelas na frente, do mesmo Antônio Rodrigues do Monte (Toinho Rodrigues, também conhecido por Prego Dourado). Toinho integrava a numerosa colônia sobralense que imigrou para Mossoró, atraídos pelo poderoso empresário Miguel Faustino do Monte, seu tio; colônia que por quase um século teve importante influência na vida econômica, social e política de nossa terra. Em sua casa, após sua morte, morou, quando Prefeito de Mossoró, o Dr. Raimundo Soares de Souza, notável advogado, fulgurante inteligência. Recentemente, essas duas mansões estão derrubadas. Sobre Toinho Rodrigues, uma reflexão: o tempo é um implacável e impiedoso demolidor! Acompanhei meu pai, várias vezes, à sua casa, em visita a ele, seu primo: mesa farta, sempre cheia de gente; família grande, vários empregados, moradores de suas fazendas e administradores da salina Jurema. Hoje, tudo mudou; os seis filhos já faleceram. Não sei o que restou do patrimônio que construiu. Vizinha a esse casarão, era a de João Cantídio/dona Ildérica; ele comerciante e ela professora e teatróloga. Sua ampla e bonita casa foi palco de constantes festas sociais. Seguia-se-lhe a de seu Epaminondas (6) e mais cinco casas, naquele tempo novas, todas com fachadas idênticas, edificadas por José Rodrigues de Lima, outro sobralense, irmão de Antônio Rodrigues do Monte, rico empresário, então o maior proprietário urbano de Mossoró. Continuando, vinham com as moradias vizinhas de Otacílio Silva e Raimundo Agostinho (a deste, com amplo quintal, no qual mantinha uma vacaria), e terminando em um armazém na esquina com a antiga Rua 13 de Maio. Tanto Raimundo Agostinho quanto Otacílio Silva eram proprietários de caminhões mistos, talvez os primeiros a fazer a linha regular entre Mossoró-Fortaleza. Atualmente, naquela esquina, existe um edifício comercial.

O extenso largo a que me refiro foi, por muitos anos, palco encantado das brincadeiras dos meninos do meu tempo, residentes nas cercanias. Quem iniciou a construção desse novo quarteirão que começava no palacete, já referido, de José Soares de Góis, e termina na Panificadora 2001, foi meu pai, Francisco Peregrino Rodrigues, quando era Prefeito o Pe. Luiz Mota. Construiu, por etapas, um armazém e, em anexo, uma casa, a de número 194, onde residi quando casei, em janeiro de 1947. Depois de mim, moraram nela, entre outros, um sr. José Onofre, casado com dona Esmeralda, o sr. José Noronha e várias outras famílias nesse longo período. O armazém foi, depois de adaptado para uma casa, alugada, sucessivamente, a Cândida Wanderley de Albuquerque (dona Iaiazinha, professora aposentada, filha do poeta abolicionista Dr. Paulo Leitão Loureiro de Albuquerque). Residiram, também, um sobrinho do meu pai, vindo de Sobral, Lourival Rodrigues, dona Sebastiana Marques, Humberto Solon, entre outros. Depois do meu pai, quem construiu nesse quarteirão, na esquina com a Rua Almino Afonso, foi o já mencionado José Soares de Góis, um belo palacete, lamentavelmente hoje demolido. A seguir o Dr. Mário Negócio de Almeida e Silva, advogado brilhante, falecido em acidente automobilístico quando era Secretário Geral do Estado no governo de Dix-sept Rosado, recebendo essa rua, em sua homenagem, o seu atual nome. Depois, vinham Walter Wanderley, intelectual, e Lauro da Escóssia, jornalista, então diretor do O Mossoroense. Pegada à casa em que morei, um senhor Lopes ergueu a em que morou meu amigo, desde a adolescência, Genildo Miranda, então recém casado com Ana Salem; Genildo seria anos depois, Vereador e Vice-Prefeito de Mossoró. Em seguida, Luiz Melo, filho do ferroviário João Delmiro, o mesmo Luiz que, aos doze anos, aproximadamente, ia, em sua bicicleta, comprar café no estabelecimento do meu pai, deixando-me “morto” de inveja. No prosseguimento, José Rodrigues Lima, construiu duas casas, onde residiram, entre outros, Osni Machado – que foi contador do Banco de Mossoró – Edílson Moura e o sr João de Deus Ribeiro com sua numerosa família. Os dois armazéns onde ainda funciona a Panificadora 2001 foram edificados também por meu pai. Transferiu para lá suas máquinas de beneficiamento de sal, café e milho e instalou a serraria. Ao aposentar-se, vendeu tudo a Raimundo Filgueira e este, depois, a Otávio Luiz de Lima (meu compadre, já falecido). Quando meu pai morreu, em 10.07.1954, esses armazéns ficaram, no inventário, um para mim e o outro para meu irmão José Augusto Rodrigues; alugamos e depois os vendemos ao sr. Raimundo Melo.

Atualmente, em quase todo o percurso da Rua Mário Negócio só existem lojas comerciais. Suponho que dona Adalgisa Rosado, viúva do ex-Governador Dix-sept Rosado, ainda reside na casa que pertenceu a seus pais. Também familiares de Lauro da Escóssia moram na casa que lhe pertenceu.

Tendo “percorrido” a Rua Mário Negócio, a partir da esquina onde morou Raimundo Nelson, isto é, a partir da Rua Almino Afonso, transversal, é interessante que me refira ao espaço onde nasce essa rua, originalmente chamada “do Rosário”: justamente na esquina oposta ao armazém de Chico Bernardo, no Beco das Frutas. Alcancei ali o sr. Joaquim Apolinário com uma padaria que, depois, fechou para montar uma loja de tecidos, que foi vendida, mais tarde, ao sr. Malaquias Araújo. Atualmente quem está lá é o sr. Gilson Nunes, com a loja “Gilson Variedades.” A seguir, vinha a padaria de Chico Apolinário (Francisco Ferreira Nolasco), em cuja calçada, nas noites, então tranqüilas, costumavam reunir-se seus amigos – inclusive meu pai, muitas vezes levando-me e trazendo-me nos braços, adormecido – para conversar. É natural que, no decorrer desse mapeamento, afluam remotos fragmentos de lembranças. Recordo, por exemplo, que, certa vez, não sei por que motivo, seu Chico levou meu pai ao interior da panificadora, onde ficavam os fornos e, em fôrmas de madeira retangulares, se preparava a farinho de trigo para o fabrico dos pães. Caboclos musculosos, nus da cintura para cima, viravam e reviravam a massa, o suor abundante escorrendo e com ela se misturando. Constatei assim, então, que, contrariando a sentença divina, nem sempre se come o pão com o suor apenas do próprio rosto. Hoje é diferente: são máquinas modernas que preparam a massa, mas, naquele tempo comíamos o pão “temperado” com o suor dos padeiros que, noite a dentro, até a madrugada, trabalhavam no calor sufocante proveniente dos fornos a lenha. Vizinho a seu Chico, lembro do funcionamento de um café/bar que pertenceu, seguidamente, a Cândido Ganjão, Nezinho Jabuaba e Antônio Mota (que se tornou conhecido, na década de 60 como “aluizista” fanático), além de outros. Depois desses, era Chico Benévolo (pai do meu colega Luiz Benévolo Dantas, também, como eu, aposentado, os dois sobreviventes, num conluio com o tempo, da turma dos cinco que tomaram posse, no mesmo dia, no Banco do Brasil – até quando Deus permitir). Entre Chico Benévolo e a mercearia de Segundo Marques, esta esquinando com o beco de José Gregório, havia uma barbearia de Odílio Jardelino. Érico (Eli), filho de Chico Apolinário, residente em Natal, me assegurou que, no ponto onde conheci Segundo Marques esteve, antes, o sr. Deca Damião. Atualmente, nessa esquina, existe a COMARC, armazém de material de construção pertencente a Raimundo Marques de Oliveira (o mesmo da bodega do Beco das Frutas), dirigida por seus filhos Jaecilio e Joeilton.

Vis-à-vis ao quarteirão que acabei de referir, de uma esquina a outra, eram pequenos quartos. No primeiro estava a bodega de Santos Morais. Até há pouco tempo, funcionou, em prédio reformado, um armazém de estivas de Chiquinho Andrade, mas agora é uma filial da Drogaria Globo. Lembro da barbearia de Chico Batista (7), que era freqüentada por meu pai e foi, também, meu primeiro barbeiro. Não recordo de todos, porém sei que nesse quarteirão existia um quarto com bilhar e jogo do bicho de Joaquim Diabo, e o sr. Joaquim Bruno da Mota (pai do Tabelião Joca Bruno, pessoa esta que desfrutou de muito prestígio social no seu tempo), foi bodegueiro. Mais tarde, Elias Morais, que era o proprietário de quase todos (comprados do seu parente Santos Morais, então fiscal do Mercado Público), mandou demoli-los para edificação de outros mais modernos, reservando o da esquina com a Praça Souza Machado para estabelecer sua sortida mercearia. Nesse local, o sr. Pedro Aquino de Morais levantou um edifício de dois pavimentos, funcionando, no térreo, quatro pequenas lojas pertencentes a diversos.

Na mencionada Praça Souza Machado nenhuma construção havia até a década de 40. No meio da grande praça existia um moinho de vento, junto a um poço construído pelo antigo e extinto DNOCS. Quebrado há anos, servia apenas para os doidos e os bêbados nele subirem, dando trabalho à polícia. A notícia de alguém lá em cima logo se espalhava e era uma diversão para a garotada das cercanias. Quando Prefeito, Pe. Mota iniciou nessa praça, no alinhamento da então Rua João Pessoa, a construção de um prédio que eu ouvia falar destinar-se à sede da Prefeitura. Depois, não sei por que razão, certamente resultado de algum entendimento com a direção do Clube Ipiranga, que não possuía sede e funcionava nos altos do edifício da União Caixeiral, na Praça da Redenção, passou-se a dizer que ali seria sua futura sede, como de fato aconteceu (8). O Clube Ipiranga foi palco, por vários anos, de memoráveis festas (bailes, banquetes, convenções, etc). Lá, realizaram-se, por vários anos as festas das debutantes, das meninas que completavam 15 anos, idealizadas e organizadas por dona Ildérica Cantídio. Nele aconteceu o jantar que me foi oferecido pela ACM , o CDL, Prefeitura e clubes de serviço, em agosto de 1966, quando fui nomeado gerente da agência local do Banco do Brasil.

Com o decorrer do tempo e mudança dos costumes, as festas deixaram de acontecer, o prédio foi ficando abandonado e nele passou a funcionar um bar. De que forma a ACEU se apropriou de todo o conjunto, não sei. Conversando, certa vez, com Enéas Negreiros, um dos antigos diretores do Ipiranga – do qual ainda possuo título de sócio proprietário – também disse ignorar como aquela entidade se apropriara do prédio. Estou sabendo que, atualmente, pertence a UERN. Como e por que meio, ignoro.

Mas, voltemos ao segundo quarteirão após o Beco de Zé Gregório (que ligava o Beco das Frutas à então Rua do Rosário), na esquina onde é a COMARC. Ultrapassado o beco e onde era o armazém de José Milton de Oliveira, existe uma loja de produtos veterinários, pertencente a Hermes de Souza Rocha. No prédio anexo funcionou um estabelecimento (não lembro de que gênero) de Edinor Mendes. A seguir, uma sapataria de Seu Né e, depois de um terceiro que não recordo, ficava a casa onde mais tarde Quincas Moura instalou sua residência, em frente à sede do Clube Ipiranga. (Alguns anos depois, o senhor Quincas mudou-se para outra casa na Rua Almino Afonso, esquina com a Av. Dix-sept Rosado). Hoje, só existe o terreno pertencente, pelo que fui informado, ao Dr. Milton Marques. Depois da casa de Quincas Moura vinha a loja de calçados de Pedro Agostinho. A seguir, Chico Beato, que vendia toda sorte de quinquilharias. Por fim, na esquina com a Rua Almino Afonso esteve Juvêncio Cunha Filho (Pucunino). Essa casa e a vizinha pelo lado da Almino Afonso, onde morou Joca Sapateiro, o Dr. Vingt-un Rosado as comprou, demoliu e construiu sua residência, onde permaneceu vários anos, sucedendo-o seu genro, Diran Ramos do Amaral. Atualmente, no local, existe um armazém de material de construção, “NOSSA CASA”, pertencente a Genivan Josué Batista, já na esquina da atual Rua Almino Afonso. A partir desse ponto, prossegue a Rua Mário Negócio.

Raimundo Nonato da Silva era uma memória privilegiada, uma conversa recheada de episódios pitorescos, que recolhia em suas andanças pelos bairros da cidade. No livro “Ruas, Caminhos da Saudade”, sentimental em certas evocações, menciona repetidas vezes determinada rua ou beco; ao referir-se à Rua Riachuelo, informa: “Antigo Beco de Chico Bernardo com o seu atual prolongamento até cruzar o Beco de Jeremias Cego, na esquina do estabelecimento comercial de Artur Céa, fabricante de malas, que antes estivera envolvido em um crime em Areia Branca.” Prosseguindo, fala de um quarteirão novo, “construído no meio da Rua do Rosário, de que eram proprietários, entre outros, José Soares, Mário Negócio, Walter Wanderley e Lauro da Escóssia”, omitindo que foi meu pai quem teve a iniciativa de falar com o Prefeito Pe. Mota, pedindo licença para construir ali e foi quem primeiro o fez. Lembro que o Pe. Mota mandou uma pessoa proceder a demarcação e o alinhamento das ruas e autorizou a construção. “A Riachuelo – prossegue Nonato – é, assim, uma rua de fundos e de muros, sempre cheia de portões com depósitos de lixo, de material de construção, de buracos e depressões onde se formam verdadeiros charcos por ocasião das grandes cheias”.

Na verdade, ERA assim. Toda a água servida das casas despejava-se na rua através de esgotos, formando grandes lamaçais aonde os porcos vinham fuçar. Eram tantos os animais soltos – vacas, jumentos, cachorros, porcos e outros que o Pe. Mota tomou uma providência: publicou avisos aos proprietários para que os recolhessem, pois, a partir de determinada data, as vacas e os jumentos soltos no centro da cidade seriam apreendidos e os porcos e cachorros abatidos. Eu vi, com muita pena dos pobres animais, fiscais da Prefeitura atirarem em alguns porcos e cães vadios, que, atingidos, corriam gruindo ou ganindo até caírem mortos. Essa providência, embora drástica, diminuiu o número de bichos soltos nas ruas.

Com o tempo, o panorama dessa rua foi mudando. Augusto da Escóssia construiu uma casa com frente para a Riachuelo, onde moraram, entre outros, o a sogra do senhor Raimundo Couto, sra. Maria Cunha de Azevedo. Raimundo Couto era sogro de Lauro da Escóssia, que também residiu nela residiu. Também o sr. Edmundo Femenick, de nacionalidade croata, casado com Maria José Rodrigues Femenick, pais do escritor e professor Tomislav Rodrigues Femenick; os srs. João Newton da Escóssia, Emery Costa, Rubens Dias, além de outros. Pedro Leão de Moura, por sua vez, mandou levantar quatro quartos para alugar. Em um deles morou durante alguns Vicente Ferreira (Vicentinho do Cartório, a quem Raimundo Nonato dedicou uma crônica no livro “Reencontro Com As Imagens do Tempo – II). Nos demais, Marcelino teve uma oficina de marceneiro; Bem-Te-Vi uma funilaria e o Galego um depósito de bananas. A idéia de se aproveitar o terreno existente nos fundos das casas com frente para a rua Pe. João Urbano se generalizou e vários proprietários edificaram pequenos armazéns para locação, tanto no primeiro quarteirão, no início da rua, quanto no segundo. João Niceras, na esquina, também o fez. Por trás da casa de José de Almeida, num quartinho, morou por muitos anos Cearense, cosinheira, baixinha, gorda, branca, cabelos ruivos em coque. Dizia-se que chegara a Mossoró num circo e decidira ficar, mas não conheço o que a motivou.

Atualmente, a fisionomia do que foi o Beco das Frutas está transformado, comparando-se com a de algumas décadas atrás, convindo esclarecer que os antigos depósitos, que deram origem ao seu nome, eram situados no lado ímpar dos dois quarteirões, isto é, do armazém de Chico Bernardo até o Beco de Zé Gregório e deste até o que Raimundo Nonato chamava de Beco de Jeremias Cego, hoje Rua Almino Afonso, que se estende, perpendicularmente, da Rua Almir de Almeida Castro até confinar com a Desembargador Dionísio Filgueira. Situaram-se nesse trecho devido à proximidade do Mercado Público – então mercado de carnes, pescados, frutas, ervas, legumes, hortaliças, leite e seus derivados, bodegas de diversos gêneros etc. Qualquer coisa que alguém quisesse vender levava ao Mercado. Entretanto, com a instalação da Central de Abastecimento, onde funcionava a antiga COBAL – construída no espaço conhecido, naquela época, como “Salgado” – não existem mais, no beco, aqueles antigos depósitos de frutas.. Permanece apenas a lembrança do seu nome.

A idéia aventada, certa vez, na Gazeta do Oeste, pelo jornalista Mário Gerson, de se fazer a revitalização do Beco das Frutas é interessante, embora não se possa dizer que o nosso Beco das Frutas tivesse uma paisagem digna de preservação, ou que tenha sido freqüentado, em qualquer época, por boêmios, poetas ou músicos, como foi e continua sendo, em Natal, o chamado Beco da Lama. Foi um espaço de feirantes com alguns poucos bares freqüentados, nas noites, por bêbados, párias e mulheres ditas “da vida”. Pelo que observei recentemente, seu cenário atual está quase totalmente transformado, comparando-se com o de algumas décadas atrás.

Esta reconstituição do Beco das Frutas e adjacências está baseada no que vi e, de certo modo vivi, ao longo de muitos anos, desde quando era simples “beco das frutas” até seu alongamento com o nome de Rua Riachuelo, que é a atual Rua Francisco Peregrino Rodrigues, com inicio na Praça Otávio Lamartine, ao contrário do que, por engano, informa nosso mestre e amigo Prof. Raimundo Soares de Brito, em o “Dicionário Ruas e Patronos de Mossoró”, quando a limitou até a Rua Almino Afonso. A Rua Francisco Peregrino Rodrigues, prossegue até o final, na confluência, hoje, com a Av. Dix-neuf Rosado. Foi uma justa homenagem proposta em 1954 – ano do seu falecimento – pelo então vereador, seu conterrâneo, Joaquim da Silveira Borges, a um modesto componente da grande colônia sobralense que se formou em Mossoró do final do Século XIX até as duas primeiras décadas do Século XX, atraída pelo extraordinário homem de empresa, de excepcional visão administrativa – o maior do seu tempo – Cel. Miguel Faustino do Monte.

Evidentemente que aqui estão apenas alguns apontamentos não devidamente metodizados. Não é, pois, um levantamento completo e bem fundamentado, eis que elaborado com base apenas em minhas lembranças e no concurso de alguns poucos amigos da minha geração, aos quais telefonei. Por isso, está até um tanto desordenado e repetitivo, certamente com omissões e falhas. Poderá, porém, ser um ponto de partida para quem se proponha a um estudo mais detalhado.

Hoje, o panorama dessas ruas está muito mudado. Na Mário Negócio, quase todas as casas residenciais passaram – reformadas – a ser estabelecimentos comerciais. Restam poucas moradas.

Pedindo desculpas pelas digressões que alongaram esta reconstituição, reafirmo que não sei como possa ser “restaurado” o antigo Beco das Frutas, cuja imagem está na minha memória como uma fotografia um tanto desbotada pelo tempo.

Mencionei aqui apenas alguns dos antigos moradores da minha velha Rua Pe. João Urbano, pois tenho o propósito – projeto só, por enquanto – de fazer sua recomposição, casa a casa, pois foi ela o cenário das minhas mais afetivas lembranças que, além de revisitado em constantes e saudosos retornos espirituais, povoa de recordações muitas de minhas noites insones. Será um périplo, um passeio emocional, visualizando seus antigos moradores, como que conversando com velhas almas amigas, desde o início, ao lado da Catedral, de um lado e, do outro, começando pelo saudoso prédio onde funcionou o Ginásio Diocesano Santa Luzia – no qual estudei cinco anos, de 1938 a 1942 – indo até o final, onde morou Israel Damião, numa bonita casa hoje destroçada. Devendo ser um cometimento que pretende recompor toda a sua paisagem, certamente demandará tempo. E, como já estou caminhando para os oitenta e dois anos, não sei se haverá esse tempo. Sempre o tempo… Ademais, não sei se valeria a pena.

Este mapeamento, repito, está passível de falhas, troca de nomes e omissões, pois, para escrevê-lo, tive que forçar um exaustivo rastreio em minhas recordações mais remotas, evocando tantas figuras já desaparecidas, entre as centenas que ainda estão guardadas nos desvãos da minha memória. Em tardes de solidão, muitas delas costumam vir agulhar-me a alma com as relembranças mais longínquas, até as que já supunha perdidas no tempo para sempre. Agora, na velhice, estou constantemente a visualizar velhas figuras ou antigos lugares que freqüentei ainda na infância, experimentando, assim, a sensação de que tais evocações constituem um acalanto a embalar as muitas saudades de quem tantas emoções já experimentou ao longo do caminho, ciente e consciente de que todos aqueles momentos, figuras e paisagens se perderam definitivamente no tempo e jamais as poderei reviver, senão assim, mentalmente.

3.DIVAGAÇÕES SOBRE OS BECOS

Atualmente, não existem mais os becos em Mossoró, alguns foram fechados, outros rebatizados como travessas. Suponho que consideraram feio o nome. Num levantamento das ruas de Mossoró, de 1992, encontrei 16 (dezesseis) travessas, nenhum beco.

Vários escritores, em prosa ou em poesia, evocaram seus becos, quase todos já desaparecidos do panorama das cidades, alguns sobrevivendo apenas na tradição: o da lama, o das frutas, o do lixo; o beco do “pau não cessa”, do canhão, da quarentena, do escorrego, da caveira; o das putas, o da solidão, o beco do amor, o da luz, becos dos mais variados nomes – como os conheceram, lembrados com saudade ou com tristeza, Transcrevo alguns dos que me pareceram mais expressivos:

“Beco que cantei num dístico / Cheio de elipses mentais / Beco das minhas tristezas, / Das minhas perplexidades / (Mas também dos meus amores / Dos meus beijos, dos meus sonhos) / Adeus, para nunca mais!”, foi o lamento do poeta Manoel Bandeira na “Última Canção do Beco.”

“Que pode acontecer com as palavras ocas, / as que estiveram num desastre ou que vivem / nos becos ou nos lupanares imundos, ou as / que esqueceram suas razões, como se fossem bêbadas / ou depois da noite sufocante se tornaram ocas?”, pergunta José Godoy Godoy Garcia, em “A verdade é que um grito na minha boca…”

Décio Bittencourt ensina como encontrar sua casa:

“Mais à frente / Entras em becos estreitos / Becos pequenos e apertados / É fácil, é só teres isto em mente / Becos e suas enxurradas / Becos e suas águas estagnadas.”

“Beco da minha terra… / Amo tua paisagem triste, ausente e suja. / Teu ar sombrio. / Tua velha umidade andrajosa. / Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. / E a réstia de sol que ao meio dia desce, fugidia, / e semeia polmes dourados no teu lixo pobre, / calçando de ouro a sandália velha, / jogada no teu monturo.” Foi assim que Cora Coralina começou seu poema de amor e despedida dos seus queridos e saudosos velhos “Becos de Goiás”.

Também o poeta José Conçalves recorda, com nostalgia, entre outros, o Beco do Escorrego, o do Releixo, o Beco do Chupa, o da Quarentena e o da Caveira, em “Os Becos da Minha Cidade”.

Em Natal, na Rua Dr. José Ivo, sobrevive o Beco da Lama, reduto noturno da boemia local. Sobrevive também, este engastado na Rua Frei Miguelinho, na Ribeira, o Beco da Quarentena, onde funcionaram antigos cabarés.

Em “Getúlio Vargas – As Areias Brancas da Memória”, Francisco Fausto Paula de Medeiros se refere ao “Beco da Galinha Morta”. José Maria Brasil, nem seu irmão Titico Brasil lembram-se da existência de outro beco em Areia Branca, mas informam que apesar de atualmente estar pavimentado, limpo e iluminado preserva o nome.

Como se vê, o nome “beco” parece estar sempre associado à idéia de sujeira, de tristeza ou zona de prostituição ou de boemia. Em Mossoró, no Beco do Canhão (hoje, final da Rua Des. Dionísio Filgueira, já saindo na Augusto Severo), que conheci, moravam algumas prostitutas em quartos feios e certamente sujos; aliás, a palavra “canhão” pode significar também mulher feia, bruxa. O Beco do Pau Não Cessa, o trecho que ficava entre a atual Rua Machado de Assis e a Almeida Castro, era uma zona também de meretrício, com freqüentes brigas e assassinatos.

Ruas… podem ser caminhos, no percurso dos quais, mesmo curtos, por vezes nos entediamos, até nos perdemos. Avenida… é apenas uma rua mais comprida, “avenue”, um galicismo, uma vaidade. Travessa… é um passadiço, uma vida curta. Praças são espaços maiores onde pessoas costumam reunir-se; palcos onde os velhos ruminam suas recordações, ou picadeiros onde as crianças, antigamente, brincavam sem preocupação. Ruas, travessas, “avenues” – emaranhadas, formam um labirinto, do qual somente saímos para o NADA. O beco é diferente; não é só uma passagem, um traço de união entre uma rua e outra. Pode ser um elo entre o amor e o ódio. Uma afinidade entre o prazer e a dor. Um curto intervalo entre a vida e a morte. Pode ser também um pequeno poema – quem sabe?

Por que desapareceram os becos de Mossoró? Era uma vez um Beco das Frutas…

Foram muitas as figuras relembradas neste levantamento retrospectivo, no limitado espaço de, praticamente, apenas duas ruas, que receberam, no tempo percorrido, diversas denominações. Fruteiros, bodegueiros, donos de restaurante, de bares, de casas de pasto, barbeiros, botequineiros, maleiro, padeiros, marceneiros, fogueteiro, flandeiro (funileiro), poeta de cordel, advogados, jornalistas, biscateiros, trampolineiros, cabeceiros, proprietário de salinas, representantes comerciais, donos de caminhões-mistos de transporte, bancários, radialistas, leiteiros, pãozeiros, lojistas – pessoas das mais variadas atividades que ainda permanecem na minha memória. Isso sem falar nos passantes, nos transeuntes habituais, que exerciam seu ofício ou as que circulavam ou perambulavam pelas redondezas, tais como Benício Gago, “botador” de água; O preto Pedro das Vassouras, vendendo vassouras e varas de espanar, sempre pegando a xepa em alguma casa caridosa; interessante era vê-lo tocar em sua rabeca “Atirei o pau no gato” e outras musiquinhas populares. Jucá era limpador de fossas (que ofício!), Chico Crocodilo, caiador; Manoel Cachimbino, Sebastião Cabeludo, Regina da Caroço, Zé Alinhado, Maria Pata Choca, Jordão, Miss Pé de Marreca, Meu Pai, Manoel Quebra Ovo, Zé Abel – que se intitulava o “Rei da Bossa, o Rei da Fala Grossa”, estes e vários outros, toda uma fauna de atores que faziam a paisagem tragicômica daquela época.
O Beco das Frutas, depois Rua Riachuelo, e, finalmente, Rua Francisco Peregrino, de um lado; e do outro, a Rua do Rosário, a seguir Rua João Pessoa, atual Rua Mário Negócio foram os caminhos de quem morava nas Barrocas ou no Paredões. Lembro de muitos dos que transitaram por lá, alguns dos quais costumavam parar no estabelecimento do meu pai: Oscar Amaral, Zé Minan de Medeiros, Sérvulo Moura, Edgar Burlamaqui, João Severo… Não dá para mencionar todos, mas tenho seus nomes guardados na lembrança.
Concluo aqui este trabalho. Não sei se tem algum valor. Os da minha geração, os raros que sobrevivem, poderiam confirmar e recordar comigo esse cenário. Se nas gerações novas houver alguém que goste de revolver o passado, talvez encontre algo, vasculhando neste baú de ossadas.

Observações:

1) Falo rapidamente sobre o velho Chico Bernardo em “Minhas Lembranças de Mossoró”, no qual disse que deveria pesar uns 150 quilos. Não foi exagero; talvez até pesasse mais, pelo corpanzil que ostentava. Nunca o vi de pé; estava sempre sentado numa cadeira especial, de onde comandava os empregados, com sua voz fina; sabia os lugares onde se encontrava qualquer mercadoria e seus preços. Era casado com dona Elvira e morava em uma boa casa na antiga Rua Pe. João Urbano, cujos fundos davam para o Beco das Frutas e correspondia à porta principal do armazém. Conversando com Aluízio Moura, seu sobrinho afim, soube que Chico Bernardo era dono de vários imóveis em Mossoró, inclusive da casa onde morou Pedro Leão, na mesma Rua Pe. João Urbano e, também, dos dois armazéns onde o mesmo Pedro negociou por muitos anos, na Rua Cel. Gurgel. Ainda segundo Aluízio Moura, Chico Bernardo foi um dos primeiros proprietários de automóvel em Mossoró; possuía um Chevrolet. Em 1927, ante a ameaça de entrada de Lampíão, fugiram, ele, ainda moço àquela época, com a mulher Elvira, mais Pedro Leão, seu cunhado, a esposa deste, dona Nicácia e Aluízio, então com quatro anos, indo parar em Cascavel, no Ceará. Era uma figura bizarra. Não tinha filhos. Raimundo Soares de Brito, em “Ruas e Patronos de Mossoró – Dicionário”, registra uma rua em Mossoró em homenagem a Francisco Bernardo, mas esclarece que seu nome verdadeiro era Francisco Bernardes de Oliveira. O historiador Raimundo Nonato da Silva em interessante crônica contida no livro “Gerações do Meu Tempo”, fala sobre a fama do armazém de Chico Bernardo, aonde os comboieiros vindos do sertão costumavam abastecer-se devido ao grande sortimento e preços mais baratos. Diz Nonato que seu armazém tinha quatro portas na frente, seis de lado, com um balcão escuro de bem meia légua de comprimento e prateleiras altas como os pés de coqueiro de Antônio Queiroz.”

2) Zé Gregório foi antigo sacristão que antecedeu a Raimundo Nunes Rodrigues, mais conhecido como Raimundo Sacristão. Moreno, alto, de bigode, austero, taciturno, trajando paletó, gravata e chapéu de feltro de cor cinza, é a imagem que me ficou dele. Não sei quantos filhos teve; sei que um deles morreu afogado no Rio Mossoró, em um ano de grande cheia. Apesar de residir muito perto das bodegas de Segundo Marques e Elias Morais, do bar de Chico Benévolo, da padaria de Chico Apolinário, nunca o vi participar das rodas de conversas desses amigos, que meu pai também freqüentava, às vezes me levando. O antigo sacristão tinha uma vida arredia e sua casa, a única do seu beco, me parecia sombria, não existe mais; em seu lugar vi, recentemente, um armazém com largo portão de ferro, que me informaram pertencer a José Serafim. Uma figura bizarra, esfíngica, que, assim como muitas outras, ficou no meu imaginário, marcando uma época que se perdeu no tempo.

3) Cazuzinha, Chico Pindura, Luiz Pé de Lancha, o poeta Manoel Dantas e Niel foram algumas das figuras enigmáticas que ficaram na minha lembrança. De todas as outras que conheci nesta minha já longa jornada, tenho algum roteiro, sei de onde eram, onde moravam, se tinham família ou outra qualquer informação. De Cazuzinha, de estatura mediana, moreno claro, de cabelos pretos lisos, muito calado, só posso dizer que foi fogueteiro por muitos anos, inicialmente no Beco das Frutas, por último num dos quartos que Pedro Leão construiu no terreno correspondente aos fundos de sua casa. Muitos dos artefatos que fabricava abrilhantaram, iluminaram e alegraram as noites de festas de Santa Luzia. Às vezes ia por lá, apreciá-lo ocupado em seu ofício. Não ousava perguntar-lhe nada, também nada me dizia, nem parecia reprovar minha presença. Um dia, desapareceu. Já Chico Pindura era um tipo diferente, alto, corcunda, de boné e bigode, fabricava canecas, panelas, bacias, lamparinas e outros utensílios de flandres, que me pareciam muito bem feitos. Só me ficou dele a figura; nenhuma informação, além disso. Luiz Pé de Lancha parecia um gorila, alto, forte, bigodão, imensos pés descalços, porém manso. Nunca ouvi falar que se tivesse metido em alguma encrenca, mesmo porque sua aparência inspirava temor. Todos os dias, estava na bodega de Luiz Marques, de quem era uma espécie de secretário. Depois que Luiz Marques transferiu seu estabelecimento para um sobrinho, Luiz sumiu. Quanto ao poeta Manoel Dantas evaporou-se misteriosamente, assim como apareceu lá em casa para alugar um quarto que era do meu pai, nos fundos da nossa casa. Via-o sempre com folhetos de poesia de cordel. Meu pai dizia que ele era poeta. Um tipo esquisito, alto, magro, espadaúdo, de paletó, chapéu e gravata, sempre de branco. Esteve lá alguns meses. Um dia, falou com meu pai, entregou o quarto dizendo que ia embora. Não disse para onde, nem meu pai perguntou. Já Niel era um trampolineiro. Sua especialidade era vender perfumes falsificados. Simpático e com boa lábia conseguia ludibriar muita gente. Sempre ia lá por casa. Algum tempo passado, notou-se sua ausência; nunca mais apareceu. Esses cinco tipos fixaram-se em minha lembrança. Houve outros, muitos outros, entre os quais o também flandeiro, conhecido por “Meu pai”, que tinha a fama de comer gatos. Teve Zé Marreira, dono de carroça puxada a burro, muito ligado ao mestre Chico André, Jucá, Zé Batista, cada qual com suas peculiaridades. De alguns conhecia suas vidas; de outros, quase nada.

4) “Arruamento antigo com algumas casas esparsas que se estendiam da praça do mercado para o lado da baixa do Caetaninho. Nos primeiros tempos, foi simples caminho que levava ao porto de Santo Antônio e por onde trafegavam carros de boi carregados de sal. Por ela transitavam as pessoas que iam para Areia Branca e para as praias. Certamente foi por esse caminho que Henry Koster abandonou Mossoró em 1810, seguindo no rumo de Tibau. A Rua do Rosário era famosa porque nela moravam vários negros libertos, entre os quais Rafael Mossoroense da Glória, Presidente do Clube dos Espártacos, que fora escravo de Alexandre Soares do Couto e pelo seu senhor alforriado. Aí havia a festa dos negros, a festa do Rosário, com a coroação do rei e da rainha. Nessa rua ficavam as casas de pessoas modestas que tiveram as mais diversas atividades na Cidade, como José Saraiva, Ló e Israel, velho martinense, guarda-costa dos abolicionistas nos dias da campanha de 1883. Nela ficava a garagem de Paturi e as bodegas de João Caetano, Casimiro e de seu Beta. Duas malarias trabalhavam em armazéns que nela se situavam: a do português Arthur Céa e a de Luiz Torquato, o homem que cavava botija. Depois da Revolução de 1930, a Rua do Rosário passou a denominar-se João Pessoa. Hoje, é Rua Dr. Mário Negócio, onde residiu esse advogado e professor. Atualmente, fica a sede social do Clube Ipiranga e a Biblioteca Municipal funciona aí.” (Prof. Raimundo Nonato da Silva, em “Ruas, Caminhos da Saudade”.) A propósito, um comentário e duas observações. Comentário: Por que se mudam tão freqüentemente os nomes das ruas em nossa Mossoró? O leitor não concorda que, diante de uma história tão bonita, rica de tradições, esse nome Rua do Rosário deveria ter sido preservado? Primeira observação: Seu Beta, casado com dona Adilina, pais de numerosa família, foram nossos vizinhos na antiga Rua Pe. João Urbano. O famoso barbeiro e seresteiro Zé de Beta era um dos seus dez ou doze filhos. A bodega de seu Beta não era bem na Rua do Rosário; situava-se nas proximidades do zona do meretrício, depois chamada de Art Nouveaux. Segunda observação: Noutra parte do livro, o Prof. Raimundo Nonato informa que a malaria de Arthur Céa ficava na esquina do Beco das Frutas com a esquina do Beco de Jeremías Cego, creio que sua localização correta.

5) João Caetano de Souza era um tipo curioso, uma figura excêntrica. Contam-se muitos fatos pitorescos a seu respeito. Fui muitas vezes à sua bodega a mando dos meus pais comprar mercadorias em falta em nossa casa. Falo sobre ele no livro “Minhas Lembranças de Mossoró” e o Prof. Raimundo Nonato faz-lhe referência em algumas páginas em “Memórias de Um Retirante – Minhas Memórias do Oeste Potiguar.” Transcrevo alguns trechos: “João Caetano era um homem de muitas amizades. Se estabelecimento tinha muito movimento e ficava de portas abertas até às nove horas. Coisa que pode parecer esquisita: João Caetano só saía de casa duas vezes: uma para assistir à Missa do Galo, na Noite de Natal; outra para visitar seu compadre Xico Freire, no Alto da Conceição. Vendia fiado a todo mundo e tomava nota da conta num volumoso caderno de papel de embrulho, um papel grosso chamado de Papel Homero. No começo do ano, abria um novo, e o velho borrador encostado com as contas perdidas.” Também falo a seu respeito no livro “Minhas Lembranças de Mossoró”, no qual narro algumas histórias que se tornaram folclóricos.

6) Um quadro triste ficou gravado em minha lembrança, ocorrido acho que na década de 30. Diagnosticado que o sr. Epaminondas estava com hanseníase, veio um carro de Natal, parecido com uma Kombi, preto, todo fechado, a fim de levá-lo para Natal. As casas do quarteirão fecharam as janelas à passagem do lúgubre veículo. Foi um dia triste na vizinhança. Naquele tempo, era uma doença considerada incurável e contagiosa.

7) A propósito de Chico Batista, mencionado no livro “Minhas Lembranças de Mossoró”, no Boletim do Centro Norte-Rio-Grandense”. Nº 6, de março de 1968, há o registro de sua morte em 24.12.1967, dizendo que foi o proprietário de um dos mais antigos salões de barbearia de Mossoró. “Pertencia a uma tradicional família e era uma figura muito popular, muito ligado aos grupos de folguedos populares, sendo afamado como “tirador” de quadrilhas”.

8) A confirmação desse fato, obtive-a recentemente quando, relendo a revista “Consagrando Uma Data – Mossoró Ontem e Hoje”, comemorativa dos 50 anos da libertação dos escravos, nela encontrei uma reportagem sobre a administração do Pe. Mota como Prefeito. A certa altura, informa o seguinte: “De acordo com o Decreto-Lei nº 7, de 8.7.1940, doou à sociedade civil CLUBE IPIRANGA um prédio em construção no valor de l5.000$000 e mais l0.000$000 como auxílio para suas instalações. O CLUBE IPIRANGA obrigando-se a estabelecer um centro de cultura física e a criar uma biblioteca franqueada ao público faz jus a esse auxílio.” Diante dessa informação, gostaria de saber como a ACEU se apropriou do edifício e a que título hoje ele pertence à UERN, segundo fui informado.


Enviado pelos pesquisadores Rogério Dias Xavier e José Edilson de Albuquerque Guimarães Segundo


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DE ONDE VEM A LÁGRIMA (OU A NASCENTE DE NOSSOS OLHOS)

*Rangel Alves da Costa

Quem chora sente os olhos encharcados, os transbordamentos descendo na face, aquela gelidez do entristecimento, mas nem sempre sabe de onde vem a lágrima.
Quem pranteia sente a turbidez na visão, o enevoamento na íris, tudo com se uma vidraça encharcada estivesse diante de si, mas nem sempre conhece a nascente do lacrimejar.
Quem lacrimeja, apenas sente um rio se abrindo, um mar querendo transbordar, um oceano além dos limites molhados, mas nem sempre sabe de onde vem a dolorosa enxurrada.
Quem se entrega a dor do pranto, e pranteando se dissolve como geleira que se dispersa, apenas se deixa escoar sem sequer imaginar de lhe veio aquele turbilhão.
A verdade é que as pessoas choram, pranteiam, lacrimejam, deixam-se transbordar em sentimentos molhados. As lágrimas, contudo, nem sempre chegam pelos motivos que costumeiramente conhecemos.
Sim, a perda de alguém faz chorar. O adeus inesperado faz chorar. A saudade de um amor distante faz chorar. O reencontro com o outro através de imagens de relembranças também faz chorar.
Então a lágrima vem. Primeiro a pulsão sentida, depois os olhos sendo despertados ao acolhimento e transbordamento daquela vazão interior. O olhar vai apenas recebendo mensagens, sentindo que logo virá um rio, um oceano, um mar.
Quando as comportas da alma são abertas, quando as ribanceiras interiores são quebradas, quando nada mais pode segurar a angústia, a dor ou a aflição, então os olhos abrem passagem às torrentes.
E como é triste o choro sofrido, de agonia, de entristecimento. A pessoa em si já não se doma, já não comanda seus sentimentos. Tudo parece querer explodir, irromper da alma e buscar um alento qualquer exterior. Não pode, contudo.


Por não poder bater asas e voar, deixar fluir pelos ares os sentimentos agonizantes, então tudo faz junção no olhar. E ao invés de olhos gritarem, ao invés de olhos urrarem a dor, então simplesmente passam a transbordar o que já não pode mais suportar.
E lágrimas existem que são desmedidas, incontroláveis, indo além de qualquer querer. Escorrem, jorram, extravasam. E assim acontece porque ali, ali nos olhos, a saída única para que o motivo da dor encontre sua fuga.
Impossível e insuportável seria que além da dor interior, do íntimo sofrimento, o corpo também tivesse que tudo represar, trancando em si mesmo todos os males do mundo, ou apenas daquele instante que se perdura.
A lágrima serve, assim, como uma vazão necessária, como um modo de que o corpo não fique ainda mais sufocado pelo sofrimento. Há de se chorar sim. Chorar muito, intensamente. E chorando deixar que o mal vá se dissipando.
Mas as lágrimas não se derramam apenas com os dolorosos sofrimentos. Elas chegam também numa simples saudade, numa nostalgia, numa relembrança de algum momento marcante na vida. Até pela intensa alegria ela pode chegar.
A solidão e a tristeza, e ainda que esta não tenha motivo aparente, também chamam lágrimas. De repente, e até sem perceber, a pessoa se vê lacrimejando. O que foi, se pergunta. O que está acontecendo comigo, indaga. A resposta: o sentimento se expressando através da lágrima.
Então vem o lenço. O lenço encharcado, depois é lavado e colocado em varal. Mas que não se imagine que ele já está enxuto e pronto para ser guardado. Eis que o lenço continua molhado de lágrimas.
Somente o lenço sabe o quanto ele já foi estendido em adeus, levado aos olhos como amigo, silenciosamente compartilhado dos noturnos sofrimentos. Por isso que todo lenço é tão triste. E sempre chora pelas lágrimas daquele olhar.

Escritor
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SAIBA A HISTÓRIA COMO OCORREU!


TV MARIA BONITA
LAMPIÃO: A MORTE DE ANTONIO FERREIRA - A CABEÇA



"Sucesso" no linguajar sertanejo significa acidente. Foi o que aconteceu com Antonio Ferreira, vulgo Esperança, irmão de Lampião.


Acompanhamos em visita guiada, os historiadores, pesquisadores e amantes da saga sertaneja do cangaço e fomos ao local desse famoso acidente que tirou a vida de Antonio Ferreira, conhecido como um cabra valente e que agia no bando de Lampião como estrategista de retaguarda, garantindo os ataques e retiradas dos cangaceiros nos cenários de refrega.

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LAMPIÃO: A MORTE DE ANTONIO FERREIRA - O CORPO

TV MARIA BONITA
VENHA OUVIR E CONHECER O LOCAL EM QUE O IRMÃO DE LAMPIÃO ANTONIO FERREIRA ESTÁ ENTERRADO.

Em continuação ao episódio A Morte de Antonio Ferreira - A Cabeça, passaremos agora a tecer comentários e a postar o pequeno documentário feito por nós, quando fizemos o percurso da cidade de Floresta até à Fazenda Poço do Ferro do Coronel Ângelo da Jia, ou Anjo da Gia, como era e é conhecido pelos sertanejos dessa região, para visitarmos o local do "sucesso*" de Antonio Ferreira, irmão mais velho de Lampião.

Existia um boato naquela época, dezembro de 1926, que o cangaceiro tinha sido baleado no grande fogo, ou batalha, da Serra Grande. Mas a estória verdadeira é que tinha sido morto por acidente (sucesso) como dissemos no artigo anterior.

Como vimos e ouvimos do bisneto do coronel, o Sr. Washington Lima, Lampião estava fora da fazenda quando ocorreu o acidente.

Segundo alguns escritores do cangaço, Lampião estava na Fazenda Vassoura, na cidade de Betanha, cidadezinha da região, com o propósito de assistir uma missa, provavelmente a Missa do Galo, pois gostava de lembrar da infância, quando ia com seus pais e irmãos para a bonita festa de Natal em Vila Bela.

Mandou então seu irmão Antonio Ferreira, à fazenda Poço do Ferro para buscar umas encomendas que fizera ao amigo "Anjo da Gia" - provavelmente munição, pois estava quase sem, devido ao combate de Serra Grande.

Mas deixemos de lado as palavras e entremos no mundo mágico das imagens, registradas por ocasião dessa visita feita ao cenário dos acontecimentos;

A Morte de Antonio Ferreira - O Corpo


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O CANGACEIRO ZÉ SERENO USANDO MOLETA

Do acervo do pesquisador do cangaço Geraldo Junior

Da esquerda para a direita no primeiro plano da fotografia estão: 

Uma amiga da família, Ubiratan (Bira) neto do casal Sila e Zé Sereno e filho do casal Tercília T. de Souza e Ivo Ribeiro de Souza, Tercilia Teco de Souza, Sr. Arthur Rodrigues esposo de Gilaene “Gila” de Souza Rodrigues filha do casal Sila e Zé Sereno, Ivo Ribeiro de Souza filho do casal cangaceiro e o Cabra Zé Sereno que dispensa maiores apresentações. 

Essa fotografia, segundo a amiga Tercilia T. de Souza foi registrada na cidade de Aparecida do Norte/SP entre os anos de 1974 e 1976. 

Fica o registro para a alegria dos curiosos e amantes da história.


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PELA PRIMEIRA VEZ...


Por Geraldo Antônio De Souza Júnior

Mostraremos a cova rasa onde foi enterrado o cangaceiro Sabiá III. Morto por Lampião após estuprar a jovem Rita Maria de Jesus, filha de um coiteiro.

Local exato onde está enterrado o cangaceiro Sabiá III.

Local exato onde está enterrado o cangaceiro Sabiá III.

Maria Rosa irmã de Rita Maria de Jesus estuprada por Sabiá

O nosso amigo Sandro Lee, incansável pesquisador, conseguiu localizar e filmar o local exato onde foi enterrado o cangaceiro Sabiá III e em breve estaremos publicando o vídeo no canal CANGAÇOLOGIA (YouTube).
Aguardem.
Fotos: Sandro Lee


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ANTÔNIA DE GATO


Por João de Sousa Lima

Foi uma das minhas descobertas. Grande depoimento.

Um fato curioso sobre ela era que ela tinha um filho capitão da polícia e ele estando de férias veio para a tribo Pankararé, e uns primos o mataram para roubar. Então todos da comunidade ficaram sabendo quem tinha sido e Antônia foi até Salvador e falou com o comandante geral e pediu três policiais para vir com ela e fazer vingança. O comandante mandou e ela junto com os três policiais mataram os três assassinos.

Ela depois passou a ser pensionista do filho e recebia a pensão como capitã da polícia.

Uma cangaceira recebendo o soldo de capitã.


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