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quarta-feira, 2 de março de 2016

UM BARCO NO SONHO

Por Rangel Alves da Costa*

Toda vez que sonha chega há um barco dentro do sonho. Toda vez que sente pesadelo o barco naufraga e se vê à deriva.

Não precisa fazer exercício de interpretação para compreender o significado de um barco dentro de um sonho. Até porque o barco é colocado pelo sonhador e não pelo sonho.

Quando adormece e uma névoa de sonho vai se aproximando, logo procura saber se tem um barco ou não. Acaso não tenha, manda a névoa de sonho em direção ao primeiro cais.

E no cais da memória, onde sempre há um barco de partida levantando vela, afasta da margem a embarcação e aponta a distância verde e azulada na linha do horizonte e além.

Não somente no sonho como nos momentos que o antecedem. Ao deitar, logo começa a mirar para o alto. E lá em cima sempre um mar no telhado, sempre uma barco no cais.

De olhos abertos, mas envolto em viagem, fica imaginando o barco partindo rumo ao desconhecido. É a viagem no pensamento, o desejo de experimentar novas realidades.

Com os olhos ainda abertos, nada mais existe ao redor. O barco segue no voo de gaivotas, vencendo barreiras, se distanciando cada vez mais. E muito deverá encontrar.

Fugindo de seu instante noturno, simplesmente sonha de olhos abertos. Não quer estrada nem asas, não quer montanha ou jardim, mas um barco para singrar sem destino.

Uma das coisas boas da vida: sonhar, ainda que de olhos abertos. E melhor ainda: fugir da realidade num barco cujo cais de partida está logo adiante, no telhado do quarto.

É neste barco que se desprende do cansaço, dos problemas, das fadigas cotidianas. Precisa viajar para viver, precisa da ilusão para continuar pulsando, precisa sempre sonhar.

Precisa ir além de tudo, da conta, da fatura, do calendário, do relógio, da receita, da bula cotidiana. Depois de um dia inteiro na dureza da luta, então surge o cais com seu barco.


O ser humano necessita dessas ilusões para suportar as agruras reais. Ninguém merece simplesmente deitar e acordar com os mesmos problemas. Há um instante de querer viajar.

É no instante da viagem que sai de si. Caminha até o cais pelo olhar, encontra o barco no olhar, segue adiante no mar que encontra no olhar. E vai até onde desejar chegar.

E assim, nessa viagem que conforta alma e enternece o espírito, numa leveza de onda boa, de calmaria e canto, como boa música que faz voar, então vai aos poucos adormecendo.

E no sono o mar continua, o barco continua, a viagem continua. E ao sonhar já encontra na mente seu leve destino: remansando, balançando nas águas, sentindo o mar.

Não deseja encontrar uma ilha e seus nativos, não deseja encontrar um porto e seus marinheiros, não deseja encontrar sereias chamando ou penhascos. Apenas seguir no sonho.

Também não deseja encontrar tempestades, vendavais, turbilhões, nada que ameace sua calma viagem, sua calmaria sem pressa. É que o sonho precisa ser brando, terno, singelo.

As saudades não vão neste barco. Os amores desfeitos e os adeuses chorados também não possuem lugar neste barco. Não quer sofrer numa viagem assim, apenas seguir contente.

A noite avança, os minutos e as horas vão passando, irrompe a madrugada, o galo canta, mas está noutra realidade. Numa viagem boa não se deseja logo retornar.

Mas o cheiro da maresia, a força do vento, o leve vai e vem da embarcação e o tempo nas águas, tudo vai cansando o viajante, o sonhador. Então sente que precisa descansar.

Deita no barco e adormece inteiro. Deixa que o barco siga agora sozinho o seu destino. Certamente singrará mansamente até que acorde e prepare o percurso de volta.

Dorme um sono profundo. Nem gaivotas nem barulho das ondas conseguem despertar. Até que uma luz brilha no seu olhar: um farol de cais, no cais de partida e de chegada.

Mas não é um farol, e sim o despertador. Então desce do barco, caminha pela areia e retoma o seu mundo, o seu dia, sua realidade. E vai abrir a janela para o sol entrar.

Poeta e cronista
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CURIOSIDADES SOBRE O CANGAÇO - LAMPIÃO CABRA MACHO.

João Cândido da Silva Neto

Nunca vi um Capitão fazer tanto Coronel estremecer. Melhor dizendo, vi sim: Lampião. Sim, ele mesmo, o rei do cangaço.

Desde que o padre Cícero, então prefeito de Juazeiro do Norte, Ceará, outorgou ao cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva a patente de Capitão – mesmo sem ele nunca ter sequer sentado praça - muitos coronéis do sertão nordestino passaram a pensar duas vezes antes de praticar qualquer desatino contra fulano ou sicrano.

Bonzinho ele não era, não senhor. Empesteado talvez definisse melhor o seu temperamento. E era brabo. De uma brabeza que só vendo...

Os macacos – assim os cangaceiros chamavam os policiais que os perseguiam – sabiam muito bem que tal fama tinha sólidos fundamentos. Macaco nenhum cometia o atrevimento de subestimar a fama de Lampião. Mas nem a poder de reza!

A cada investida de Lampião e seus asseclas a Polícia tentava arregimentar homens e formar uma força volante para sair no encalço dos cabras. Mas a fama de Lampião já se propagara por muitas léguas, alcançando o povoado seguinte.

Homens corajosos, com os quais se podiam contar para os trabalhos mais estafantes, preferiam descascar um dente de alho e introduzir entre as nádegas, para fazer subir a temperatura do corpo até parecer uma febre altíssima e assim justificar a impossibilidade de participar de tais empreitadas suicidas. No amanho da terra, com todo o sacrifício, ainda era melhor continuar vivo. “Posso ir não, conterrâneo; tenho meus filhinhos pra dar o de comer”.

Sobre o túmulo de Lampião alguém poderia ter colocado a seguinte inscrição: “Fez da Caatinga o seu mundo e do seu mundo essa catinga”.

Mas, na verdade, o mundo dos cangaceiros era tão ruim que só a muito custo Lampião conseguiu piorá-lo. Pouca coisa, mas piorou.

Meu avô que, certa vez, acolheu Lampião e seu bando para um almoço, aliás, preparado às carreiras por minha avó – Deus os tenha em bom lugar -, não era homem de acoitar cangaceiro, de jeito nenhum. Mas, quando o próprio chefe, de rifle às costas, se apresenta à frente do bando e pede comida para todos, é melhor relevar sua postura crítica pelo menos um bocadinho e liberar as penosas para o almoço. Vida de cangaceiro é muito sacrificada, carece de se alimentar com sustância. (E quem é que não sabe disto?)

Convencida da veracidade de tal assertiva e ainda esconjurando o último bando de ciganos que tinha reduzido visivelmente a taxa de ocupação demográfica do seu galinheiro, minha avó não poupou esforços para agradar “aqueles excomungados mortos de fome”.

Foi um almoço tipicamente domingueiro: feijão de corda, farinha de macaxeira e galinha, muita galinha. E melancia de sobra para o arremate. Repasto pra Coronel nenhum botar defeito.

Mas um negro do bando desfeiteou. Disse que era uma pena ela ter se esquecido de “botar sal na galinhada”. Viche! Pronto, foi o quanto bastou! Cabra safado! Onde já se viu? Se o oficial Capitão comeu calado e apreciou, que direito tinha aquele peste de emitir opinião pouco lisonjeira sobre a graciosa atitude da dona da casa (minha vó, já disse) que, mesmo de pernas bambas, atendera a todos com extremada generosidade. Deixa estar, esse negro vai ver...

O tal cabra foi morto por ordem do Capitão logo após se retirarem. Que fique o exemplo: hierarquia é pra ser respeitada, jamais abjurada!

Contam no Nordeste uma história que aqui vai relatada com alguns acréscimos, imitando um costume popular bastante difundido.

Lampião chama um cabra:

- Muriçoca!

- Apois sim, meu Capitão.

- Conhece o Coronel Fortunato?

(O cabra põe o rifle na posição de tiro).

- Não senhor, meu Capitão, mas já tô com raiva dele!

- Não é nada disso, cabra. Vá lá com alguns cabras buscar as armas e a munição que ele prometeu arrumar. Vá num pé e volte no outro. Se avexe...

O cabra vai saindo; Lampião o chama.

- Se ele não tiver as armas e a munição... traga a cabeça dele no embornal. Se avexe...

O cabra argumenta:

- Se o meu Capitão me permite, não foi a filha desse Coronel que mandou recado pro meu Capitão? O meu Capitão não quer mandar dizer nada pra donzela?

- Tá bestando, cabra! Maria Bonita me capa se cismar que eu ando de cochichos e arremates com filha de Coronel! Já se esqueceu da última enrascada em que você me meteu, já? Pois eu não! Ainda sinto o frio da peixeira dela, pra lá e pra cá, roçando-me as bo... Se avexe! Vá num pé e volte no outro!...

Lampião era um cabra decidido. E de uma brabeza que só vendo...


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UM SIMPLES BOATO QUE PROVOCAVA MEDO AOS SERTANEJOS

Foto/Imagem: Jornal “A NOITE”. Edição nº 7.030 de 22 de junho de 1931.

Um simples boato sobre uma provável aproximação de Lampião e seus comandados já era o suficiente para que moradores de povoados, fazendas e outras pequenas localidades abandonassem suas casas e partissem em busca de refúgio nas cidades mais desenvolvidas próximas a sua região.

Esse artifício provocava o ódio e a fúria dos bandoleiros que em represália tocavam fogo nas casas e plantações, além de matar as criações daqueles que fugiam de suas casas para se protegerem.

Na imagem acima, podemos ver uma família de “fugitivos” da localidade chamada Várzea da Ema, refugiada na cidade de Uauá/Bahia no ano de 1931.

Fonte: facebook
Página: Geraldo Júnior
Grupo: O Cangaço - Geraldo Antônio de Souza Júnior (Administrador)

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RELAÇÃO DE LIVROS À VENDA (PROFESSOR PEREIRA - CAJAZEIRAS/PB).


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O BATIZADO DE "VIRGULINO"


Naquele tempo, os pais pouco davam importância de registarem os filhos em cartório.

Isso dar uma tremenda dor de cabeça aos pesquisadores que seguem a senda de um personagem histórico.

As pessoas davam mais vazão para o Batismo, para que seus filhos não ficassem pagãos.

A mortalidade infantil era tanta, que muitos batizados só tinham o objetivo do filho não morrer “Pagão”.

Às vezes os pais eram ‘moradores’ de determinado latifundiário, coronel, e o mesmo apoiava determinada pessoa nas eleições. Então, o patrão se 'acercava' dos moradores e impunha seus votos. Os adolescentes já taludos eram mandos aos cartórios para que fossem registrados, porém, a data do nascimento que se colocava no documento, tinha que dar certo para que o registrado pudesse dar seu voto.

Isso causou uma desordem nas idades das pessoas muito séria. Mas, fazer o quê? Mandavam os poderosos, os mandados, com juízo e sem coragem, aceitavam.

Os registros do batizado de Virgulino estão lavrados no Livro de Termo de Batismo da Paróquia de Floresta - PE, que faz parte da Diocese de Pesqueira – PE. Ou pelo menos, na época fazia.


Assim reza o escrito no livro paroquial: “Certifico que, revendo os livros de termos de batizados realizados nesta paróquia, foi encontrado o teor seguinte: Livro 15; fls. 146, do ano de 1898, a três de setembro do mesmo ano, na Capela de São Francisco. Batizei solenemente a Virgulino, nascido a 04 de junho de 1898, filho legítimo de José Ferreira e Maria Vieira da Soledade, desta freguesia. Foram padrinhos: Manoel Pedro Lopes e Maria José da Soledade. Do que mandei passar este termo que assino: Pe. Cônego e vigário Joaquim Antônio de Siqueira.” (Lampião – Memórias de um Soldado de Volante – LIRA, João Gomes de.)

A Capela de São Francisco, onde Virgulino foi batizado, hoje, encontra-se submersa pelas águas da barragem da Serrinha, no município de Serra Talhada – PE, onde, com os amigos Edinaldo Leite e Marcos Brito, fomos pescar por diversas vezes.

Como todo sertanejo, pajeuzeiro, ou de outra localidade qualquer, ele foi batizado. Ninguém nasce ‘bandido’. Torna-se por ‘n’ razões ou, pior, o forçam a tornar-se... em outro lugar qualquer, mas, também nas quebradas do Sertão.

Fonte/foto Ob. Ct.

Fonte: facebook
Página: Sálvio Siqueira

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O SANGUE DO CAIPIRA DE POÇO REDONDO

Alcino Alves Costa...!

UMA FOTO, até os dias de hoje, permanece viva na minha memória. Trata-se de uma visita que fiz em companhia do Mestre Alcino, há alguns anos atrás à FAZENDA MARANDUBA / Poço Redondo-SE (local de um dos maiores combates de Lampião). O mestre, ávido para me mostrar a geografia do local e, os detalhes do combate, se descuidou e, uma planta espinhenta o atingiu na mão. Perguntei-lhe, se necessitava de cuidados, se queria um auxílio. O mestre me disse: - "Sou acostumado com as coisas do sertão e, vamos em frente "... Essa lição está em minha mente até hoje e, continuará para sempre...

Que Deus o tenha em um bom lugar "caipira de Poço Redondo "...!

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POÇO DO NEGRO, SEGUNDA MORADA DE LAMPIÃO


Poço do Negro, segunda morada de Virgulino Ferreira da Silva Lampião, nos aguardem! Estamos chegando. CARIRI CANGAÇO FLORESTA 2016.


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JOANA GOMES DE JACARÉ OU MOÇA DE CIRILO? - ...DA SÉRIE “PERSONAGENS POUCO CONHECIDAS!”


O tema pelo qual nos apaixonamos é, por deveras, bastante complexo. Inicia-se nos longínquos idos de 1755/56, mais ou menos, com o “Cabra Cabeleira” na Zona Metropolitana da cidade do Recife.

Porém, por incrível que parece, a parte do Fenômeno Social mais estudada é a era lampiônica, que teve seu começo em princípios de 1917/18.

A maior dificuldade que os pesquisadores encontram para a realização de suas obras nas pesquisas, são o não registro das pessoas, fatos e locais do acontecido. Sabe-se muito por ‘ouvi dizer’, isso ou aquilo de determinada personagem que viveu e conviveu na história.

Há obras literárias publicadas quando ainda se vivia o Fenômeno e, pasmem, são onde encontramos as maiores controvérsias narradas sobre o mesmo.

Depois de determinado tempo, após o fim do cangaço, maio de 1940, podendo mesmo se dizer, atualmente, é que se tem feito, por parte dos pesquisadores, uma maior pesquisa, mais detalhada cientificamente. No entanto, ainda existe a sólida e intransponível barreira da falta de dados registrados, e o tempo não pára, deixando, com certeza, muito da verdade encoberta por ele. Há fatos e atos sobre o tema que jamais saberemos como realmente se deram.

Registrou-se, através da rede de comunicação em massa, existente na época, jornais e revistas, muito daquilo que se ‘queria’ mostrar. Vemos nitidamente a ‘intenção’ das matérias publicadas.

Então, meus caros amigos, esse detalhe também recai sobre as identificações das personagens que dele, o Fenômeno, fizeram parte.

Tomaremos como exemplo a passagem da senhorita Maria Gomes dos Santos pelas trilhas sinuosas e escorregadias do cangaço.

Ela, em determinadas literaturas é identificada como sendo a cangaceira Joana Gomes, companheira do cangaceiro Jacaré. Em outras, vem como a cangaceira “Moça”, companheira do cangaceiro Cirilo de Engrácia.


A falta de conjectura entre as informações, causa um ‘desmantelo’ na mente da gente, simples humanos leitores, que necessitamos de várias obras literárias para que se tenha uma noção positiva de que trata-se da mesma pessoa.


Ela nasceu em oito de fevereiro de 1912, numa casa do sítio Santo Antônio, próximo ao povoado de Várzea da Ema, no município de Chorrochó, no Estado baiano.

Era filha do casal de roceiros, Sr. Antônio Gomes dos Santos e de D. Joviniana Gomes Varjão. Desse casal, geraram-se nove filhos vivos, se teve abortos e/ou mortes prematuras, não dispomos de tais informações.

Os pais do Sr. Antônio Gomes, foram O Sr. Justino e D. Brasilina e de D. Joviniana, o Sr. Cláudio Cardoso Varjão e D. Tereza do Bonfim Varjão.

Dentre os filhos do casal Antônio Gomes e Joviniana, uns foram fazer parte da Força Pública, outros seguiram outras veredas e, especialmente, Joana, foi trilhar o caminho árduo e incerto do cangaço.

O local, a fazenda em que moravam, Várzea da Ema, era propriedade do coronel Petro, Petronilio de Alcântara Reis, homem que tinha traído Lampião até em questões financeiras. Devido à traição, o “Rei do Cangaço” passa a ferir o coronel naquilo que, talvez, tenha sido a principal causa de fazê-lo um traidor, seus bens. Passou a matar seus animais e incendiar suas fazendas. A Várzea da Ema foi, por vezes, atacada e incendiada pelo bando do chefe mor dos cangaceiros.

Joana Gomes se engraça do ‘cabra’ Cirilo de Engrácia. Homem rude, valente e destemido. Tem em seu funesto currículo, somando a varias outras, a morte de seu próprio irmão. Juntando-se a ele, vai aumentar o contingente do bando. Recebe como alcunha o apelido “Moça”.

Após quatro anos, mais ou menos, de vida nas brenhas sertanejas, em agosto de 1935, Joana Gomes, agora a cangaceira Moça, fica ‘viúva’. Como não era permitido ter-se mulher sozinha, sem companheiro, nos bandos de cangaceiros, ela se junta com o cabra chamado Adermórcio, que tinha o apelido de Jacaré.


Convive com o cangaceiro Jacaré por um determinado período e, quando o mesmo é abatido, Moça é mandada de volta para casa de seus pais.


“(...)"Moça (Joana Gomes dos Santos), de Cirilo de Engrácia (Cirilo Aleixo Ribeiro da Silva), e depois de Jacaré (Ademórcio)". Mais adiante, na página 379, o ilustre autor nos mostra, "(...) Quando um cangaceiro casado morria, a mulher geralmente se juntava a outro cangaceiro. Caso curioso foi o de Joana Gomes, que viveu quatro anos com o citado Cirilo de Engrácia e quando ele morreu se juntou com Jacaré(...)". ("Lampião - A Raposa das Caatingas", 2ª edição de 2014 - José Bezerra Lima Irmão)

Chegando a casa, agora Joana Gomes dos Santos, sente o prazer de estar em um lar. No aconchego de uma família.

Joana segue sua vida e vai morar na cidade de Uauá, BA. Passa grande tempo nesse lugar. Arranca dali e vai para o povoado do mocambo na Barra do Tarrachil, onde consegue trabalho em uma pensão. Dali vai para Bendengó, trabalhar em um hotel. Nesse lugar, Joana “junta-se” e vive como companheira de um Soldado de Polícia.

Há notícias de que Joana Gomes teve um filho, Petrônio, e que o mesmo fora enviado para um comandante da Força Pública, o comandante Gama. O mesmo aceita a criança e contrata para que cuide dela, da criança, a D. Arcanja.

(...)adoeceu e a doença lhe causava dores fortíssimas, tendo ela que ficar de cócoras pra aliviar-se. Descansou em um domingo, ás cinco horas da manhã do dia 26 de abril de 1953 (...)”. ( Lampião – O Cangaceiro!” - João De Sousa Lima)

Há, dentre os pesquisadores/escritores, uma atenção especial quanto a identificação da cangaceira citada, por determinadas imagens terem sido capturadas pelo Benjamin Abrahão Botto, em 1936/37, data essa que já se iam um ou dois anos da data da morte de Cirilo de Engrácia, agosto de 1935. Porém, mesmo entre os escritores há aqueles que desconhecem que Joana Gomes, Moça, teve o cangaceiro Jacaré como companheiro. Entretanto, em minha pesquisa, dentro dos escritos nas obras literáriAs de vários autores, cheguei, particularmente, a conclusão de que a cangaceira 'Moça" e a cangaceira "Joana Gomes" são a mesma pessoa, Joana Gomes dos Santos... que viveu com Cirilo e depois com Jacaré, nas quebradas do Sertão ardente.
Fonte Obs. Cts.

Foto Benjamin Abrahão
Lampiãoaceso.com

Fonte: facebook
Página: Sálvio Siqueira‎
Grupo: OFÍCIO DAS ESPINGARDAS

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CONVITE!


AMIGO(A), 

este é um convite especial, feito somente aqueles(as) que tenho elevado apreço. Sua atenção à minha pessoa, mais uma vez será demonstrada pela sua presença no próximo dia 18 de março (sexta-feira), às 19:30 horas, no auditório da OAB-Mossoró, para assistir ao meu discurso de Elogio ao Patrono da ACJUS-Academia de Ciências Jurídicas e Sociais de Mossoró. Venha me proporcionar este prazer. Receba o meu muito obrigado antecipado, mas o abraço só depois da Sessão Solene, no coquetel de confraternização.

Professor e escritor Benedito Vasconcelos Mendes

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PADRES ...e... CANGACEIROS...!

Por: Angelo Osmiro Barreto (*)
Ângelo Osmiro e Ivanildo Alves da Silveira

A relação entre religiosidade e banditismo no sertão nordestino é antiga. O sentimento religioso do sertanejo é especialmente voltado para o culto católico, este ainda remetendo ao catolicismo medieval, onde Deus estava ligado ao castigo, ao fim do mundo.

Predominou por muito tempo essa cultura religiosa nessas paragens, onde a religião ainda repleta de superstições, os milagres ajudavam a suportar as agruras.


A ligação entre cangaceiros e padres atingiu os dois extremos: amigos e conselheiros, mas também ferrenhos inimigos, chegando a travarem combates bélicos.

O cangaceiro Adolfo Meia Noite

O cangaceiro ADOLFO DA MEIA-NOITE ainda no século XIX, após entendimentos prévios com o Padre Bernardo de Carvalho Andrade, sacerdote que ficou conhecido como bom samaritano dos flagelos da seca em virtude de sua atuação em favor dos flagelados da seca de 1877, uma das mais devastadoras que aconteceu no nordeste, conseguiu a realização de seu casamento. 


Após a realização da cerimônia o padre foi autorizado pelo cangaceiro a dizer o seu paradeiro, pois segundo o mesmo, estava pronto para morrer sem escolher ocasião.


Henry Koster no seu excelente trabalho Viagem ao Nordeste do Brasil cita o padre Pedro, que na década de 1800 mantinha em suas terras, a vinte léguas do Recife, grande número de cangaceiros a seu serviço.

O Padre PEDRO foi chamado pelo representante de Dom João VI para prestar esclarecimento sobre os mesmos. Compareceu acompanhado de alguns cangaceiros armados até os dentes. Chegando ao Recife declarou que não tinha culpa de o sertão ser violento, não havia criado aquela situação, porém precisava de proteção, e a solução que encontrara para se resguardar dos inimigos veio por meio dos cangaceiros.

Antes mesmo da fama de Virgulino Ferreira da Silva, o LAMPIÃO, que ainda submetia-se ao comando de Sinhô Pereira, ficou conhecido no sertão o ataque ao padre Lacerda do Coité. José Furtado de Lacerda era inimigo do Major José Inácio do Barro, esse, por sua vez, amigo de Sinhô Pereira, primeiro e único chefe de Lampião.

Aproveitando-se da amizade com o chefe de cangaceiros, o Major José Inácio arregimenta homens que junto aos cangaceiros do Pajeú atacaram o reduto do PADRE LACERDA . seu grande inimigo. O combate durou cerca de uma hora e meia, sendo inclusive ferido no mesmo, Antônio Ferreira, irmão mais velho de LAMPIÃO. Este ataque desencadeou uma perseguição ferrenha ao Major José Inácio pelas autoridades cearenses, que culminou com sua retirada para o estado de Goiás.

O cangaceiro Lampião, por exemplo, manteve contatos com padres que ficaram marcados na sua biografia. O encontro com o padre Cícero em 1926 em Juazeiro e sua relação com o padre JOSÉ KHERLE em Serra Talhada, ambos dignos de nota.

O primeiro encontro de Virgulino Ferreira com padres deu-se no seu batismo realizado pelo Cônego Joaquim Monteiro Tôrres, então vigário em Floresta de Navio. Seu relacionamento com o padre alemão JOSÉ KHERLE, deu-se em virtude dele ter sido vigário em Vila Bela, quando das estripulias praticadas por Lampião naquele território.


Durante 16 anos o padre KHERLE foi vigário na terra natal de Lampião. O cangaceiro devotava-lhe grande admiração e respeito, sempre o obedecendo. 

Prova da obediência que LAMPIÃO nutria pelo padre deu-se em junho de 1923 quando do casamento de sua prima Maria Licor Ferreira com Enoque Menezes. LAMPIÃO invadiu o povoado de Nazaré, distrito de Floresta do Navio/PE, acompanhado com cerca de quinze homens, dispostos a brigar com os nazarenos, seus ferrenhos inimigos.

O padre JOSÉ KHERLE interveio pedindo a retirada de Lampião e seu bando do povoado para evitar brigas e até mortes, pois além da aguerrida população do povoado, estava para chegar uma força policial ao lugar. LAMPIÃO atendeu o pedido do padre amigo, porém antes exigiu levar a sanfona, pois se ele não iria dançar, ninguém também dançaria no povoado. Assim foi feito e por intermédio do padre JOSÉ KHERLE evitou-se uma tragédia no pequeno povoado pernambucano.


O relacionamento de Padre e Cangaceiro mais comentado, sem dúvida é o de Virgulino Ferreira com o Padre CÍCERO ROMÃO BATISTA, em Juazeiro no Estado do Ceará.

O cangaceiro, atendendo o chamado do Dr. Floro Bartolomeu da Costa, grande amigo do PADRE CÍCERO, uma espécie de braço armado do líder juazeirense, adentra em Juazeiro em maio de 1926 com intuito de alistar-se no Batalhão Patriótico a fim de combater a Coluna Prestes. Por esses tempos a Coluna vinha adentrando no sertão nordestino.


Por motivos de saúde o médico baiano FLORO BARTOLOMEU não se encontrava na cidade, sendo o cangaceiro e seu bando recebidos pelo Padre Cícero. O desenrolar dessa história culmina com a famosa patente de Capitão do Batalhão Patriótico outorgada ao famoso cangaceiro.

PADRE CÍCERO, também teve participação decisiva na retirada para Goiás dos cangaceiros de SINHÔ PEREIRA (primeiro e único chefe de Lampião), neto do Barão do Pajeú e LUIS PADRE, primos e integrantes da família Pereira de Serra Talhada, na época em guerra com a família Carvalho.

Em setembro de 1926, LAMPIÃO adentra em Granito, estado de Pernambuco, acompanhado por mais de cem homens. A população amedrontada procura a casa paroquial em busca de refúgio.

O padre do lugar reverendo JOAQUIM de ALENCAR PEIXOTO, destemido e polêmico, que inclusive havia tido desavenças políticas com o Padre Cícero Romão, procura o cangaceiro, mesmo antes que esse o faça. Os dois entraram na casa do padre, conversaram por alguns minutos em particular, nunca se soube o teor do diálogo, o que se sabe é que os cangaceiros, depois dessa conversa, vão embora e inclusive pagam todas as despesas feitas nas bodegas da cidade.

No Ceará, em 1927, o Padre VITAL LUCENA tomaria parte da história do cangaço, dessa vez em LIMOEIRO. Após frustrado ataque a cidade de Mossoró no Rio Grande do Norte, o grupo de facínoras adentrou a região jaguaribana no território cearense. Chegando a cidade de Limoeiro, Lampião e seu grupo foram recebidos pelas autoridades do lugar, que temendo saques e mortes preferem receber os bandoleiros em paz.

Entre os membros da recepção estava o Padre VITAL LUCENA, que ficou encarregado de arrecadar a quantia de dez contos de reis exigida pelo cangaceiro. Sob o comando do padre, a população consegue arrecadar cerca de dois contos. O próprio padre Vital foi incumbido da árdua missão de entregar o dinheiro arrecadado incompleto ao cangaceiro, mas Lampião recebeu a quantia e de nada reclamou, ficando satisfeito com a quantia recebida.

O Padre VITAL ainda pediu um favor ao cangaceiro do Pajeú: que soltasse os reféns que vinham presos desde o Rio Grande do Norte, o que foi negado pelo bandoleiro, alegando precisar de dinheiro. Mesmo assim para ser agradável ao padre, soltou o refém de nome Manoel Barreto Leite.

No dia 19 de abril de 1929, na cidade de Poço Redondo, estado de Sergipe, o padre ARTUR PASSOS estava tranquilamente rezando uma missa para sua comunidade quando de repente aparece na igreja Lampião e seus cabras, num total de dez homens muito bem armados.

O padre, segundo seu próprio depoimento, continuou a missa, apesar de constrangido pela presença do bando sinistro do rei do cangaço. Após a celebração religiosa o PADRE ARTUR manteve um diálogo com o cangaceiro, tendo inclusive LAMPIÃO deixado um bilhete de próprio punho com os nomes de todos os cangaceiros visitantes com suas respectivas idades, exceto o de nome José Alves dos Santos, vulgo Fortaleza, cuja idade não consta na referida carta.

Outro interessante episódio ocorrido envolvendo padre e cangaceiro deu-se em 1937, mas precisamente no dia 10 de outubro, quando do casamento do cangaceiro CORISCO, o Diabo Louro, e DADÁ. Resolvido a casar com sua companheira de longas datas, Corisco pediu ajuda de um fazendeiro amigo para trazer o padre José Bruno da Rocha, pároco da igreja de Porto da Folha, para oficiar seu casamento. O fazendeiro escreve um bilhete ao padre pedindo sua presença urgente na fazenda para professar uma extrema unção.

O padre atendeu ao pedido o mais rápido possível, ficando surpreso ao chegar ao local solicitado e se deparar com os cangaceiros. O fazendeiro explica a situação e o padre JOSÉ BRUNO rapidamente faz o casamento de CORISCO e DADÁ. O cangaceiro ainda pergunta se para casar é mesmo ligeiro daquele jeito, o padre com pressa de ir embora, apavorado com a situação, realizou a cerimônia bem mais rápido do que o habitual.

O cangaceiro CORISCO teria ainda uma ligação muito forte com o PADRE BULHÕES, de Santana do Ipanema, em Alagoas, homem muito respeitado em toda a região. Ao referido padre seria entregue seu filho SILVIO , criado pelo reverendo e hoje economista, morando em Maceió.
PARTE FINAL:

Fato deveras pitoresco foi contado pelo ex-cangaceiro Ângelo Roque da Costa, vulgo LABAREDA, ao Dr. Estácio de Lima e que foi transcrito no seu livro O Mundo Estranho dos Cangaceiros, eis o relato. Em uma fazenda no município de Santo Antônio da Gloria, estado da Bahia, chegaram os cangaceiros onde estava havendo uma festa com a presença do PADRE EMÍDIO, vigário do lugar. Relata o cangaceiro que chegaram em paz, almoçaram com o padre, além dele, o chefe LAMPIÃO e ainda Ezequiel, irmão do chefe, e Virgínio, cunhado.

Após o farto almoço resolveu se confessar com o PADRE EMÍDIO e assim o fez. Conta o cangaceiro que após a confissão o padre aconselhou:

"Num mate mais os macaco, meu fio. Nos mandamentos tá proibido. Quando pegá um, você cape ele, i sorte capado".

A correlação existente entre PADRES e CANGACEIROS no sertão, apesar das exceções, reforça mais uma vez o poder que a igreja representava (e ainda representa, hoje em menor escala) para os nordestinos de um modo geral.

O respeito de LAMPIÃO, aqui representado como o cangaceiro em geral, para com a autoridade dos padres, traduz de certa maneira o respeito às Leis de Deus e santos representados aqui na terra pelos sacerdotes. Dos poderes oficialmente constituídos, a Igreja parece ser o que mais os cangaceiros respeitavam.

(*) "ANGELO OSMIRO BARRETO", (Historiador e Pesquisador do cangaço/Membro da Sociedade Cearense de Geografia e História- Cadeira nº 09) -

Fonte: facebook
Página: Voltaseca Volta
Grupo: Lampião, Cangaço e Nordeste

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O RASTEJADOR DA VOLANTE POLICIAL...!

Por: Ronnyeri e Volta Seca
Rastejador Batoque - Imagem acervo da escritora Marilourdes Ferraz

Diante situação de embaraço em que ficava em risco o sucesso da campanha, entrava em ação um personagem merecedor de apoteoses e medalhas porque não matava, e representava a inteligência inculta, mas ágil, perspicaz, ativa: o rastejador.

Ranulfo Prata em seu Grande livro “Lampião”, descreve assim o rastejador:

O RASTEJADOR é um homem de sentidos agudíssimos, cujos olhos percucientes são objetivas poderosas que visionam o microscópico. 

É a testa das volantes, que se lhe entregam de corpo e alma, uma cega confiança à proverbial lealdade sertaneja, ele as conduz meses a fio em marchas incessantes pelo deserto. O bom ou mal êxito das batidas depende dele, exclusivamente. 

É tudo na coluna, porque é a visão, maior do que o cérebro, no sertão ínvio.

Detém-se, de repente, em lugar onde a vegetação rala e o solo entorroado e pedrento nada evidenciam a olhos vulgares. Esbarra, acocora-se, examina com simples toque de dedo grosso, seixos e cascalhos, "assunta" de mão no queixo, "magina" minutos, e, volvendo a face tostada de sóis, onde chispam olhos vivazes, conta ao tenente, em fala remorada, o seu achado, apontando, com segurança inabalável, a pista do bando. Segue-a a tropa pressurosa, com o batedor a frente, "escanchado" no rastro. Sem perdê-la, trazendo-a sempre de baixo dos olhos atentos, a marcha se estira por dias e semanas , até que as feras humanas, acuadas longe, ofereçam combate, negaceiem e escapem em fuga precipite.

Recomeça novo trabalho de pesquisa de rumo, descobrimento de novo rastro, seguindo-se a caminhada exaustiva que tem como remate escaramuça quase sempre descompensadora.

Não é adivinho nem mágico, porém, o matuto privilegiado. Ele enxerga "realmente" vestígios, baseia-se, nas suas afirmativas, em indícios tangíveis, concretizados em pequena folha machucada, cinza de cigarro ou borralho, um fósforo, touças de capim acamado, pegadas de levíssimo desenho. O mais é ilação, agudeza, experiência de gerações, trabalho de inteligência vivacíssima e o que eles chamam - o "dom".

Ao debruçar-se sobre um rastro diz se é fresco, isto é, recente ou se velho, de dias, e de quantos dias.

Enumera os homens e mulheres que compõem o bando. Afirmar se Lampião está em pessoa a chefiá-lo, ou se é Corisco ou outro qualquer dos seus lugar-tenentes.

Pormenoriza estupendamente, adiantando se após o grupo passou gente que lhe é estranha, e dissociando os sexos.

Adiante, sob a copa derramada dos umbuzeiros amigos, informando que os bandoleiros ali pernoitaram, precisa o número de homens e mulheres, apontando os lugares que serviram de coitos a solteiros e a casais. 

E alongando-se em detalhes pitorescos e maliciosos, dizem ainda, pela marca dos joelhos e dos cabelos entrouxados, dos "cocós" femininos, se o amor andou ali a fazer das suas, atraído pela doçura da noite tropical e pelo dossel de folhagem verdejante, suavemente bólido por uma brisa macia, carregada de perfumes agrestes.

E não e só pegada humana que o batedor descobre e segue. 

Rasteja todos os animais, avantajando-se, muita vez, aos próprios cães, dando, muito antes deles, com o rastro da caça que lhes atrita no focinho para avivar-lhes o olfato.

Sem falar na caça graúda, a suçuarana que marca o chão com enorme pata, e o tamanduá, que deixa após indícios gritantes, o rastejador lobriga, sem ajuda de lentes, meia dúzia de finos grãos de poeira que a ponta ferina de um casco de veado depôs, mal trocando-a, em corrida veloz, sobre uma Lage.

Segue os pequenos animais, o preá, de pata minúscula, o teiú, que mal acama a vegetação sob o seu peso Ieve, o tatu-bola, todo delicadeza, a pisar o chão com sutileza de quem traz veludo nos pés. As próprias abelhas são "rastejadas" nos ares, seguidas no seu pesado voejo, mato a dentro, ate os troncos onde tem as suas "casas".

Para neutralizar, porém, a ação do rastejador, os bandidos contrapõe em artimanhas e ardis. 

Com o fito de o desnortear, passam a andar trechos e trechos do caminho a um de fundo, todos a pisarem cuidadosamente a mesma pegada, simulando um só vajor. Invertem as alpercatas, ficando com os calcanhares para a frente, produzindo atrapalhação de rumo.

Quando sentem a tropa perto, pega não pega, trepam nas cercas e a firmarem-se como equilibristas desengonçados, varam quilômetros e quilômetros, suspensos do solo, onde não ficarão vestígios delatores.

Vezes outras, em estradas largas, um deles desloca-se do grupo, e armada de espesso e folhudo galho de arvores. segue-o à distancia, apagando sinais da marcha, "baraiando" o rastro.

Pelo que eu li na literatura cangaceira, o maior RASTEJADOR em minha opinião foi o "BATOQUE", que enxergava, onde ninguém via nada. Ele andou muitos anos com os nazarenos (maiores inimigos de Lampião), e, várias vezes em combate, foi ameaçado de ser sagrado pelos cangaceiros, que o odiavam.

Ainda, segundo a literatura lampiônica, o rastejador era muito visado pelos cangaceiros, que o tinham como o grande inimigo, pois descobria os rastros e o paradeiro dos perseguidos.

Em armadilhas (emboscadas) feitas pelos cangaceiros, o rastejador da policia, era o primeiro a morrer, uma vez que sempre andava á frente da tropa, e os cangaceiros atiram nele "DE PONTO".

Esse homem, da foto abaixo, é o famoso "rastejador" BATOQUE.

Fonte: facebook
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ANTONIO DE CHIQUINHA E SEUS HEROICOS COMPANHEIROS DE FAÇANHA CONTRA JOSÉ BAIANO FORAM DESARMADOS! DISPENSADA A VOLANTE DE ALAGADIÇO

Antonio Corrêa Sobrinho


NOS idos de 1937, Lampião ainda perambulava, segundo consta, e sem carreiras, diga-se de passagem, pelo sertão e agreste sergipanos, para não dizer por todas as partes do pequeno torrão brasileiro, região onde ele, ainda hoje, certamente por razões consideráveis, e que não entro no mérito, é mais atestado do que detestado; nestes idos, o Estado sob a batuta política do psiquiatra e capitão do Exército, doutor Eronides de Carvalho, filho do popular Antônio Caixeiro, este tido já à época como protetor de Lampião.

Lampião que morreria um ano depois, em 28.07.1938, como todos sabem.

Pois bem, este governador, por razões que não me pareceram justas, extinguiu a volante que ele próprio criara e patrocinara para fins de proteção a Antonio de Chiquinho, ou de Chiquinha, não sei, logo após este, auxiliado por amigos, um ano atrás, ter assassinado com tintas heroicas o temível cangaceiro José Baiano e três cabras que com ele estavam; criada esta volante civil, com o fito de também combater o banditismo na região.

Organizar, fardar, municiar e remunerar o homem que matou um dos mais perigosos cangaceiros das hostes de Virgulino Lampião, ou seja, protegê-lo dando-lhe poderes de polícia, penso eu, algo proposto pelo próprio Antonio de Chiquinho, era o mínimo que o Governo tinha que fazer e fez, em favor de quem tomou para si uma atribuição do Estado, e não do cidadão.

Daí para, estando Lampião e seus ferozes comparsas ainda vivos, vivíssimos à espreita de Antônio de Chiquinho, esperando tão somente uma oportunidade para vingar a morte do companheiro, rico cangaceiro, agiota e ferrador, o governo simplesmente desfazer o grupo de defesa, é muita irresponsabilidade, ainda que sob alegação de que os volantes de Chiquinho e ele inclusive andavam bêbados e causando problemas, o que foi por este veementemente contestado, mas, ainda que tenha isto sido fato, ao governo não foi dado desconhecer que viver às voltas com a bebida e praticar certas ilicitudes era muito próprio dos grupos volantes, e dos cangaceiros.

Realmente, o governo de Eronides, ao extinguir a volante de Alagadiço, não só deixou quem deu cabo de um dos principais lugares-tenentes de Lampião, à mercê da avidez deste implacável bandoleiro, como deu aos opositores do seu governo motivos de sobra para insinuações de que a bandidagem em Sergipe imperava sem combate.

Penso que esta decisão de Eronides de Carvalho, tomada em meio a críticas já recorrentes da oposição, de que seu governo fazia vistas grossas ao cangaço, teve, no meu entendimento, a ver com o fato dele, Eronides de Carvalho, andar nas graças e gozar da confiança plena do detentor do poder político maior, de Getúlio Vargas, e que, naquele período, penso, o ditador já havia lhe confidenciado que logo, logo criaria um Estado Novo, e que ele, Eronides de Carvalho, seria o seu ditador na terra-berço deste que agora traça estas sofridas linhas.

Leiam a matéria sensacionalista do Correio de Aracaju, de 04 de agosto de 1937, sobre o desfazimento da volante do povoado Alagadiço, de Frei Paulo, naquele tempo, São Paulo, isto um ano antes de o tenente João Bezerra ter comandado a morte de Lampião, para surpresa deste interventor, que, na ocasião, se encontrava repousando na Capital Federal, Rio de Janeiro, hospedado em hotel. Ficou sabendo, portanto, pelos jornalistas de um jornal carioca que lhe procuravam à cata de informações sobre a morte do facínora na terra sergipana, pela polícia alagoana. Segundo consta, uma foto do rei do cangaço estampada na página da gazeta que os repórteres traziam, Eronides afirmou, sem nenhum constrangimento, disse ter sido ele o autor da imagem, tirada que fora anos passados numa das fazendas do seu pai Antonio Caixeiro.



A VOLANTE DO ALAGADIÇO FOI DISPENSADA
ANTONIO DE CHIQUINHA E SEUS HEROICOS COMPANHEIROS DE FAÇANHA CONTRA JOSÉ BAIANO FORAM DESARMADOS! ...

A iniquidade que se acaba de praticar com Antonio de Chiquinha e seus bravos companheiros de façanha contra José Baiano e seu perigoso grupo, brada aos céus! Antônio e seus companheiros residem no povoado alagadiço onde vivem ilhados pelo banditismo que infesta a zona paulistana do Estado.

A vida desses sertanejos que se constituíram inimigos de Lampião e seus comparsas corre grave risco nessa hora que o governo toma suas armas. O senhor governador não se inculpará do que vir a acontecer no Alagadiço ou nas pessoas desses rapazes destemidos que puseram termo à existência cheia de perversidade de José Baiano e seu famigerado grupo.

Chamamos à atenção do Eronides de Carvalho, pedindo a sua Excelência que reflita no seu gesto precipitado, tomando as armas desses humildes e ordeiros cidadãos visados pelos façanhudos bandoleiros que intranquilizam o nosso Estado.

Não compreendemos a atitude de Sua Excelência. Lemos todos os dias na imprensa paga que em Sergipe se combate o banditismo com interesse e sem desfalecimentos, mas na realidade não é isso que se vê. O caso da volante de Alagadiço bem define a nossa situação.
Entoa, onde o estímulo para outras façanhas como a de Antônio de Chiquinha, citado até na mensagem de 1936? Quem imitará o gesto do denodado sertanejo, vendo que ele e seus companheiros foram abandonados e desarmados pelo poder público? Cabe ao doutor governador ponderar no seu ato para que ninguém tenha o direito de dizer que em Sergipe não se quer combater o banditismo.


Imagem de Antonio de Chiquinho extraída do blog do mendes mendes

Fonte: facebook
Página: Antonio Corrêa Sobrinho
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