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sexta-feira, 9 de março de 2012

Padre Cícero no panteão dos homens

Por: Wescley Rodrigues
Novamente o grande mestre Alcino, homem de fibra e arguição sem precedentes, nos brinda com um dos seus textos (ver postagem abaixo) , agora abordando um tema que para nós, estudantes da história nordestina, é muito caro e gera dificuldades em ser abordado devido o grau de polêmica e contradições que o envolve. Falar da figura do Pe. Cícero é debruçasse sobre toda uma realidade social e cultura que passava o Nordeste brasileiro em fins do Império e início da República.

Assim como o amigo Alcino, sou um pouco suspeito a falar do personagem do padre, pois por muito tempo despojei-o da áurea de santidade para colocá-lo no panteão dos homens de sua época que davam suporte a República Velha e ao poder das oligarquias. No entanto, como nenhuma concepção é cristalizada na história, porque pode cair no risco de se tornar dogma, atualmente estou revendo o meu conceito a respeito do dito “santo de Juazeiro” e como Alcino mesmo falou, o maior milagre do padre foi o Juazeiro do Norte.

Pedindo licença ao nobre amigo escritor, só faria uma ressalva. Discordo plenamente da ideia apresentada a respeito da Teologia da Libertação, pois essa imagem foi a imagem que uma elite nacional ligada a Igreja Católica quis proliferar. A Teologia da Libertação antes de tudo foi um grito dos excluídos, uma nova forma de vivenciar o catolicismo sem as amarras de cultos pomposos, vestes cobertas de requetrefes. Pregavam que a fé deveria se aproximar mais dos populares, que a Igreja deveria ser mais atuante nas causas populares, que o Cristo não é somente o dos altares, mas o Cristo se fazia vivo na figura de cada irmão que sofre e necessita de amparo e ajuda. Era necessário essa opção preferencial pelos pobres, coisa que a Igreja Católica só fará após o movimento da Teologia da Libertação. Sendo assim, demonizar esse movimento renovador é continuar realimentando um distanciamento entre a Igreja e os seus fiéis, proibindo que os pobres tenham o seu lugar dentro dessa instituição.

Cordial abraço

Prof. Ms. Wescley Rodrigues
Brasília - DF
Cariri Cangaço

quinta-feira, 8 de março de 2012

Padre Cícero

Por: Alcino Alves Costa
Alcino Alves Costa em dia de Cariri Cangaço em Juazeiro do Padre Cícero
No meu entender, um vaqueiro da história, um daqueles rastejadores das coisas de nossos sertões e de seu povo, tem que envidar todos os meios possíveis e imagináveis para não ser tendencioso em seus trabalhos literários, já que a história não é, nunca foi e não será teoria e sim, fatos acontecidos e registrados nas mais diversas versões, mas, infelizmente, tenho que reconhecer uma verdade absoluta. Em relação à vida e o viver do padre Cícero eu sou tendencioso. A realidade é que não tenho nenhuma condição de discorrer sobre esse tão apaixonante assunto. Por quê? Além da escassez de conhecimento sobre a história do notável criador do Juazeiro, o meu sentimento e o meu espírito não encontra nenhuma deficiência que possa desqualificar a quase que divina grandeza desse verdadeiro santo sertanejo. Portanto sou suspeito.
Tenho orgulho e prazer em idolatrar os padres Ibiapina, Damião, Donizete, Frei Galvão e o próprio padre Cícero. Mas, vejam a ironia do destino. Desde os tempos fulgurantes da Teologia da Libertação, quando alguns teólogos em seus brados inflamados e cheios de ódio para com aqueles que possuíam terra e gado, procuravam jogar família contra família, sociedade contra sociedade, povo contra povo, eu me afastei por completo da igreja. Deixando a igreja de lado, por não aceitar e nem acreditar naquele novo proceder dos representantes do catolicismo. E assim, não aceitando aquela nova posição da igreja, procurei refúgio e consolo espiritual nas palavras de Alan Kardec e Bezerra de Menezes, porém sem deixar em nenhum instante de minha vida de me valer de Nossa Amada Mãe Santíssima e de nosso Amado Mestre e Senhor Jesus Cristo.
Voltando ao Padre Cícero o assunto em pauta é: ele protegia cangaceiro? Ele protegia Lampião? Claro! O Padre Cícero protegia cangaceiros. Protegia Lampião. Sob qual fundamento e baseado em que eu faço essa afirmação? Ora, meus amigos, o padre Cícero nasceu e carregou por toda encosta de sua vida a sublimação do amor em toda a sua abrangência. Ele amava todos. O rico, o pobre, o preto o branco, o letrado o analfabeto, o caboclo o praciante, também o ladrão e o criminoso, o bandido e o malfeitor. Esses eram a sua grande preocupação. Aqueles que ele orava todos os dias para tirá-los do abismo do crime. Enfim, a todo ser humano, a todos os filhos de Deus, fosse cangaceiro ou qualquer desvalido da sorte; também os grandes e famosos cangaceiros foram por ele amados, dentre eles Sinhô Pereira, Luís Padre e o próprio Lampião.
Alcino Costa, João de Sousa, Ângelo Osmiro e Ivanildo Silveira, no Museu vivo de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, no Cariri Cangaço
Se em março de 1926, o padre Cícero recebeu ou não Lampião em sua residência ou em qualquer outra localidade, não deslustra a sua excelsa vida. Mesmo porque, o padre Cícero jamais iria se recusar em receber quem lhe procurasse.Aliás, nos registros históricos do célebre escritor Nertan Macedo, o filho do Crato diz nas páginas 136 e 137 de seu livro “Lampião”:“(...) Já muito alquebrado e, como de hábito, sentado a segurar velho e nodoso cajado, estava o Padre, em casa, quando a beata Mocinha irrompeu quarto adentro, comunicando”:
- Meu padrinho, aconteceu uma desgraça!
- Que desgraça, criatura? - perguntou o Padre.
- Lampião está aqui!
- Mas quem mandou esse homem entrar no Juazeiro? - insistiu o ancião.
E, chamando um dos seus caseiros, ordenou:
- Diga a Lampião que venha cá! Quero saber com ordem de quem ele veio ao Juazeiro!
Ai Lampião, na companhia de alguns cabras, compareceu à presença do Padre Cícero.
Este o recebeu em casa, cajado na mão, sentado na cama.
- Meu padrinho... - foi balbuciando, cheio de humildade, o Capitão, ajoelhando-se com os cabras.
Mas a palavra do patriarca saiu cortante:
- Cale a boca, Lampião! Você é um condenado! Você vai pro inferno pelos seus crimes praticados! Faça como Sinhô Pereira e Luís Padre: vá pra Goiás...
- Mas, meu padrinho, eu não posso atravessar tanto sertão a pé, numa viagem desta...
- Cale a boca, Lampião! - repetiu duramente o Padre, reiterando-lhe a exortação de que o Capitão abandonasse o cangaço e fosse embora para Goiás, como já havia feito os outros chefes de bando, Sinhô Pereira
e Luís Padre...
Esse registro da história atesta muito bem o tamanho descomunal da injustiça que se faz com o santo dos romeiros. Aqueles que não têm compromisso com as possíveis verdades da história não se cansam de registrar apenas aquilo que seja do seu agrado e que seja de sua vontade.
Queiram ou não, o padre Cícero foi um homem que tinha o seu espírito e o seu sentimento muito além das coisas terrenas. Porém, não poderia ser diferente, ele era um ser humano, alguém que também pecava e viveu suas provações. Todavia, nenhuma dessas provações, nenhum de seus pecados, nenhuma posição política alcançada, nem o seu desmedido amor pelo seu Juazeiro, que é sem dúvida alguma o seu maior milagre, nem sua luta em favor de seus amados romeiros desvirtuaram o seu sublime amor pelos preceitos divinos. Numa prova que o seu espírito estava além, muito além, do viver terreno e das vicissitudes da terra.
Beata Mocinha e Padre Cícero: Museu vivo no Horto, Juazeiro do Norte
Portanto, minha querida família sertaneja, desde aquele venturoso dia 24 de março de 1844, quando na então Vila Real do Crato, uma criancinha nasceu de Joaquim Romão Batista e dona Joaquina Vicência Romana, alcunhada carinhosamente de dona Quinô, era também o nascimento de uma nova era, a era comandada por um homem que só queria para a sua gente, para seu povo, para o seu amado cariri e seu amado sertão, PAZ E AMOR.
Saudações cangaceiras
Alcino Alves Costa
O Caipira de Poço Redondo
Conselheiro Cariri Cangaço, Sócio da SBEC
Extraído do Cariri Cangaço
http://cariricangaco.blogspot.com

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Morre Monsenhor Assis, defensor dos mártires do RN

Corpo de Monsenhor Assis sendo velado
A igreja católica potiguar está em luto pelo Monsenhor Francisco de Assis Pereira, 76 anos. O religioso faleceu na manhã de ontem, dia 13, vítima de câncer de garganta. Desde o início do ano, o padre era submetido ao tratamento e estava internado desde a última segunda-feira, no Hospital São Lucas. A missa de corpo presente será celebrada a partir das 8h, pelo arcebispo Dom Matias Patrício de Macedo, na Catedral Metropolitana de Natal, onde o corpo é velado desde a tarde de ontem. São esperados para a cerimônia, cerca de 25 sacerdotes do Rio Grande do Norte e estados vizinhos para concelebrar a missa. Outras duas missas foram celebradas às 16h30 e às 19h de ontem.
Natural de Santa Cruz, na região Agreste potiguar, Monsenhor Assis, que era capelão da Igreja de São Judas Tadeu, no Tirol, ficou conhecido por defender a causa da beatificação dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu. O sacerdote, eleito postulador romano da Santa Sé junto às Congregação das Causas dos Santos, foi responsável por investigar e reunir documentos históricos e defender a argumentação perante o então papa João Paulo II que comprovou a autenticidade da fé durante o massacre.
"Ele foi o braço forte do processo de beatificação dos mártires de Cunhaú e Uruaçu", disse o arcebispo Dom Matias Patrício de Macedo. O arcebispo lamentou a partida do religioso e ressaltou ainda a grande contribuição deixada enquanto professor e diretor de estudos do Seminário São Pedro. "Foi uma vida dedicada a formação intelectual e espiritual dos nossos padres", acrescentou.

A governadora Rosalba Ciarlini prestou os últimos respeitos ao sacerdote. "É com profundo pesar que nos despedimos de uma personalidade que tanto fez pela Igreja Católica. O Rio Grande do Norte perde um grande sacerdote e uma figura humana de extrema bondade", lamentou a governadora.
O capelão de reserva da Polícia Militar, padre Tarcísio Pereira de Carvalho, 73 anos, e irmão do religioso enfatizou ter o Monsenhor Assis dedicado parte da vida para "mostrar a autenticidade dos nossos santos nordestinos. Era voltado para a causa regional, como postulador".
Padre Tarcísio lembra que a vocação do irmão para a vida religiosa iniciou desde a infância. "Aos oito anos, depois que papai faleceu, ele foi para o monastério em Garanhuns, Congregação dos Dominicanos. Uma vida entregue ao trabalho para Deus", disse.
Dois anos depois, o segundo de oito filhos retornaria a Natal e entraria para o Seminário São Pedro, onde viveu maior parte da vida.
Ordenado sacerdote em 13 de abril de 1958, Monsenhor Assis estudou em Roma, onde fez doutorado em Filosofia e em Teologia. Ade volta a Natal, atuou junto as paróquias de Nossa Senhora Aparecida, em Neópolis, da Sagrada Família, nas Rocas, e de São João Batista, em Lagoa Seca.
Paralelo ao trabalho como postulador, Monsenhor Assis atuava na construção do Arquivo da Arquidiocese de Natal. Considerado um intelectual e pesquisador incansável, escreveu e acumulou vasto acervo sobre estudos eclesiais, tendo publicado apenas dois livros, um sobre a história os Protomártires do Brasil e outro sobre o Beato Mateus Moreira, patrono dos Ministros da Eucaristia. Também foi professor da UFRN, do Departamento de Filosofia.
"Era um intelectual, homem reservado, mais conhecido pelo dom da escrita, do que da oratória", disse a sobrinha, a irmã Vilma Lúcia de Oliveira, que assumirá as atribuições junto ao Arquivo Eclesial. "A Igreja perde um arquivo", lamentou a sobrinha irmã Vilma Lúcia de Oliveira, sucessora
Três processos de beatificação estão em andamento
Nos últimos anos, o Monsenhor Francisco de Assis Pereira se dedicava de três processos de beatificação - o de Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira (Olinda - PE), Padre José Antônio de Maria Ibiapina (Guarabira-PB) e de reabilitação histórico-eclesial do padre Cícero Romão Batista, do Juazeiro (CE). Esse último buscava reverter a excomunhão do padre Cícero. (*) 
Os processos se encontram no Vaticano, para ser submetido à análise da Congregação das Causas dos Santos. De acordo com o chanceler da Cúria Júlio Cezar, o postulador era responsável por reunir documentos que atestassem a integridade e vida dos religiosos investigados.
Desde 2002, levantava a história de vida e santidade do padre João Maria Cavalcanti de Brito, o "padre João Maria", e do Cônego Luiz Gonzaga do Monte, o "cônego Monte", à pedido do arcebispo Dom Heitor de Araújo Sales. De acordo com o chanceler da cúria padre Júlio César, nesses se trata ainda de investigações ainda junto às paroquias, não tendo ainda previsão de quando serão, sobretudo agora, concluídos para apreciação da Santa Sé.
O padre Júlio Cezar frisa ainda ser cedo para falar em substitutos aos processos de beatificação e canonização dos santos do nordeste. Entretanto, assegura que o processo dos 30 mártires de Cunhaú e Uruaçu terá prosseguimento, com observância a todas exigências e cautelas que rodeiam tal investigação antes da proclamação como santos.
"Ele foi o maior propulsor da devoção aos mártires no nosso Estado. Uma pessoa firme e decidida, capaz de se comover diante da necessidade do outro e ajudar", lembrou o chanceler da Cúria.

Foto: Adair Dantas

Nota do editor do Blog do Juazeiro
Tudo que diz respeito a história do Padre Cícero é muito polêmica e o Jornal pode estar equivocado na afirmação que ele teria sido excomungado. A pena teria vindo de Roma, é verdade, contudo, segundo relatos, a partir de documentos catalogados por Lira Neto no livro Poder, Fé e Guerra no Sertão, não aplicada.
Dom Quintino, na época Bispo de Crato, vendo o estado debilitado de saúde do Padre Cícero e, segundo algumas interpretações, receoso de que a informação agravasse o estado do religioso podendo lhe levar a morte e uma reação do Dr. Floro Bartolomeu e do próprio povo, enviou o documento de volta a Roma, prevalecendo apenas à suspensão das ordens sacerdotais, ou seja, não podendo mais realizar sacramentos, o que já era um absurdo, diga-se de passagem.
Fico com a contextualização histórica do Lira Neto, baseada em documentos da própria Diocese de Crato, cedidos por Dom Fernando.
O professor Jose Carlos dos Santos, Secretário de Turismo e Romaria de Juazeiro, me disse que o Monsenhor Assis, era um religioso vocacionado e profundo conhecedor da história. Certamente realizou um bom trabalho buscando a reabilitação das ordens sacerdotais do Padre Cícero, considerado santo popular no nordeste brasileiro.

Beto Fernandes
Editor
Extraído do "blog do Juazeiro"

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CAPITÃO JOSÉ GONÇALVES BEZERRA

Por Fernando Maia Nóbrega

“O senhor, Capitão, vai pagar caro”. o couro de Trancelim” (Severino Tavares)


Nome: José Gonçalves Bezerra
Nascimento: Sem informações
Morte: 10 de maio de 1937. –Sítio Conceição, Crato-Ce.
Motivo: Vingança
Acusados: Severino Tavares e Fanáticos do Caldeirão.

Antecedentes 

Por volta de 1890, chega a Juazeiro atraído pelos milagres ali ocorridos no ano anterior e pela fama de santidade do Padre Cícero um paraibano de nome José Lourenço da Silva.

De princípio, fixa-se na cidade e vai trabalhar como agricultor pelos sítios. Aos poucos vai se inserindo, de maneira marcante, na vida religiosa e se transforma em renomado beato.

Ao correr do tempo passa a ser admirado por sua capacidade de trabalho e inteligência. Observado pelo Padre Cícero é aconselhado a arrendar terras na região onde pudesse trabalhar por conta própria. Seguindo o conselho recebido, José Lourenço aluga um sítio, pertencente a João de Brito numa localidade chamada Baixa da Anta na cidade do Crato.
 



José Lourenço em foto do livreiro Luis Maia.


Na nova paragem fez grandes plantações de macaxeira, feijão, cana de açúcar de açúcar e inúmeras fruteiras. Em virtude de sua fama de caridoso e acolhedor de pobres, logo seu sítio recebe grande quantidade de fanáticos que lá foram morar em busca de trabalho e religiosidade.

Uma ou duas vezes por mês, José Lourenço, juntamente com seus moradores, ia a Juazeiro assistir missas e visitar o Padre Cícero. Em uma de suas idas, recebeu do reverendo um boi Zebu, chamado Mansinho, para ser criado na Baixa da Anta.

O animal foi cuidado com todo zelo e carinho pelos fanáticos, mormente por se tratar de uma doação feita pelo “Santo Padim Cícero”, como gostavam de se referir ao sacerdote. Aos poucos, a estima dedicada ao Boi Mansinho foi se transformando em adoração. Os chifres eram adornados com flores e fitas; sua urina transformada em remédio milagroso e as pontas das unhas em amuletos.
 


Monsenhor Joviniano Barreto, pároco de Juazeiro, denunciava às autoridades eclesiásticas da região que na Baixada Anta os fanáticos estavam se desviando da ortodoxia da Igreja Católica, e se praticando o fetichismo em total heresia aos cultos da Santa Igreja.  Blog do Sanharol  


Dr. Floro Bartolomeu atendendo os anseios do Monsenhor e evitar críticas
da imprensa, pôs fim no totemismo ao prender o Beato José Lourenço e mandar sacrificar o Boi Santo na presença de muitos fanáticos.

Em 1926, João de Brito, cedendo às pressões, desfaz o acordo de arredamento do sítio Baixa da Anta forçando o Beato José Lourenço ocupar uma propriedade do Padre Cícero conhecida como Caldeirão dos Jesuítas também localizada na cidade do Crato.

Exatamente como antes procedera, o Beato José Lourenço juntamente com 300 famílias faz grandes plantações de algodão, imensos canaviais, constrói dois açudes, ergue uma capela e várias casas no novo assentamento. Tudo que era produzido pertencia a todos inexistindo um dono exclusivo.

Em 1934, com a morte do Padre Cícero, muitos os sertanejos desamparados de um líder foram ter guarida nas terras do Caldeirão. Se havia falta de emprego no Cariri, nas terras do Beato,ao contrário, todo mundo trabalhava e mais ainda: o que era plantado ou criado pertencia à coletividade inexistindo a figura do patrão.
 


No seu inventário, o Padre Cícero deixara todas as terras que lhe pertenciam para os padres salesianos. E como a Igreja já se pronunciara contra as distorções religiosas praticadas na comunidade do Beato Zé Lourenço e, principalmente, tendo receio que os fanáticos se apoderassem das terras ocupadas, o bispo procurou um meio de expulsá-los de lá.
  
Usando o prestígio do seu partido político, a LEC – Liga Eleitoral Católica – representantes da Igreja pressionaram o governo para extinguir a comunidade do Caldeirão sob o argumento de uma possível célula comunista.

Reunidos no Palácio da Luz em Fortaleza:



O Governador do Estado, Dr. Menezes Pimentel  


Juntamente com...


Secretário de Estado Andrade Furtado. 


O Chefe de Polícia Cordeiro Neto e o...
 

Bispo do Crato D.Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva 


Decidiram acabar com o Caldeirão. (01)

A primeira atitude tomada pelo Chefe de Polícia foi enviar dois agentes secretos ao Caldeirão para se inteirar da realidade. O primeiro era um agente civil que se infiltrou como fanático; o outro era o Capitão Zé Bezerra que se passando por industrial dizia estar ali com o intuito de instalar uma usina de beneficiamento de oiticica.

Depois de dias de observação, embora não tenha verificado a existência de armas, o relatório do militar classificava a situação como “perigosa” e era favorável a sua desativação em virtude do caráter comunista na distribuição dos lucros.

Em setembro de 1936, sob o argumento que a comunidade do Caldeirão, com mais de 1500 habitantes, era uma ameaça ao Estado, um contingente de 150 policiais foi enviado para a desocupação do lugarejo. Enquanto os pobres sertanejos abandonavam suas casas, o Capitão Zé Bezerra, nomeado interventor do arraial, ordenou o desarmamento dos moradores, sendo encontrado somente instrumentos de trabalho: enxadas, foices e machados. Em seguida, deu-se o prazo de cinco dias para os casados abandonarem o local e dois aos solteiros. Por último, a polícia queimou os casebres, os depósitos de algodão e víveres. Consta que saqueou todo bem que tivesse e liquidez imediata.

Foi precisamente durante sua permanência na direção do Caldeirão que Zé Bezerra cometeu duas faltas gravíssimas aos olhos dos fanáticos: a tortura praticada numa mulher em meio a um interrogatório sobre o paradeiro de José Lourenço e ter causado a morte do cavalo Trancelim animal preferido do Beato. A revolta dos moradores se transformou em ódio e num sentimento perpétuo de vingança.

Após a expulsão, os fanáticos se reagruparam sob o comando do Beato José Lourenço em um lugar inóspito na Serra do Cariri que englobava dois sítios: Mata dos Cavalos e Curral do Meio.
 
A Morte do Capitão Zé Bezerra 


José Gonçalves Bezerra era reconhecidamente um homem bravo, corajoso, experiente policial, sendo o oficial escolhido pela Polícia Militar para combater o cangaço no Estado na segunda e terceira décadas do século translato.

A literatura cearense é pródiga em referência sobre o José Bezerra. Otacílio Anselmo eminente escritor caririense, oficial da polícia e contemporâneo do Capitão, o descreve como “(...) policial arbitrário e cruel”. O autor de “O Padre Cícero – Mito e Realidade” – diz ter presenciado uma surra aplicada por aquele policial em um cabo da polícia dentro do quartel da capital. (02).

Nertan Macedo, outro escritor, define o Capitão Zé Bezerra como “(...) um dos maiores bandidos autoridades que se teve notícias no Ceará.”. (03)

É bem verdade que na incessante procura a pistoleiros e cangaceiros no Ceará, verificada entre os anos de 1920 a 1930, coube na época aos Tenentes Peregrino Montenegro e Zé Bezerra a missão de exterminar banditismo no interior do Estado.

Ressalte-se que foi sob o comando de Zé Bezerra que ocorreu a “Tragédia das Guaribas”, onde Chico chicote e seus companheiros foram trucidados em 1927 em Brejo Santo - CE.



 

Ruínas da casa de Chico Chicote. Fotos de Manoel Severo. 


Entretanto, em que pese os inúmeros riscos de vida passados nas refregas contra cangaceiros, foi durante a pacífica tomada do Caldeirão em 1936, que o Capitão Zé Bezerra cometeu dois graves erros, os quais foram fundamentais para a execução de sua morte no ano seguinte. O primeiro, quando em um interrogatório sobre o paradeiro do Beato José Lourenço, Bezerra usou de meios torturantes ao queimar os seios de uma mulher com o charuto que fumava. O outro, talvez o mais grave aos olhos dos crentes, quando sob o efeito de bebida alcoólica, cavalgou o Trancelim, cavalo de estimação do Beato. Durante toda noite percorreu a região, açoitando o animal e às carreiras passava pelas ruelas do arraial. Recolhido à estrebaria, exausto o cavalo viria a morrer no outro dia. Ressalte-se que havia a crença entre os fanáticos, aceita como a mais pura verdade, que ao morrer o Beato subiria aos céus montado no Trancelim. O Capitão Zé Bezerra cometeu a heresia de profanar a religiosidade daquele povo.

Tempos depois, quando já ocupavam a Mata dos Cavalos, os moradores se dividiam em duas correntes de pensamento. De um lado, sob o comando teocrático e pacifista de José Lourenço, pregava-se o perdão aos responsáveis pela diáspora do grupo. Do outro, sob a liderança político-militar de Severino Tavares, clamava-se pela vingança e a reconquista do Caldeirão.

Os seguidores de Severino Tavares nutriam e armazenavam um ódio e um desejo de vindita contra o Capitão José Bezerra. Para a consecução de seu intento, tramaram um plano arrojado e inteligente que seria o de atrair o militar à Mata dos Cavalos e assassiná-lo! Uma cilada foi tramada e posta em prática.

Em maio de 1937, apareceu no quartel da polícia em Juazeiro um cidadão de nome Sebastião Marinho a procura do Capitão José Bezerra para apresentar uma queixa. Ao ser atendido pelo militar, informou que suas terras haviam sido invadidas pelos fanáticos do Beato José Lourenço e que é conhecedor de um plano de Severino Tavares de invadir e saquear a cidade do Crato. Embora muito experiente, o Capitão de nada desconfiou e tomou somente uma providencia antes da diligência: o querelante teria que ir com a polícia ao local.
 

No dia 10 de maio de 1937, formou-se uma volante com objetivo de ir a Mata dos Cavalos assim estruturada:
1 - Capitão José Bezerra
2 - 1º Sargento Anacleto Gonçalves Bezerra
3 - 2º Sargento José Marcolino Brasileiro
4-  2º Sargento Marcelino
5 - 3º Sargento Jaime Olimpio Rocha
6 - Cabo Benigno Gomes
7-  Soldado Raimundo Pereira
8 - Josafá Torquato Gonçalves
9 - Soldado José Dantas (Corneteiro)
10 - Soldado Eugênio Cesário da Silva
11 - Soldado Álvaro Gomes Bezerra (03)
  
Ressalte-se que o sargento Anacleto e o soldado Álvaro eram filhos do Capitão.

Ao constatar o pequeno número de policiais destacado para a missão, Sebastião Marinho, talvez com o intuito de despistar suspeita, disse: •.
  - “Capitão, os soldados são pouco...”.
  Talvez por ser conhecedor do caráter pacifista dos fanáticos e ignorar a nova faceta belicista no grupo, respondeu:
  - “São suficientes.”

Partindo em cima de um caminhão cedido pela prefeitura de Juazeiro passaram pela delegacia do Crato, onde o Capitão foi alertado pelo tenente João Lima, comandante do destacamento daquela localidade, sobre o pequeno número de soldados. Mais uma vez o José Bezerra dispensou ajuda.

Ao chegar perto do local destinado, O Capitão Zé Bezerra mandou parar o carro e ordenou que os policiais entrassem em forma. Em seguida, deu alguns esclarecimentos e ordenou que o sargento Marcelino e soldado Cesário ficassem guarnecendo o caminhão. Aos demais, que o seguissem.

Adentraram por uma vereda que dava acesso ao arraial. Em dado momento, inesperadamente saiu de dentro de um espesso matagal uma mulher correndo. Com receio que ela fosse avisar aos fanáticos, o Capitão com o grupo saiu em sua perseguição.

Eis que inopinada e inesperadamente os militares são cercados e atacados ferozmente por vários fanáticos, surgidos como fantasmas do meio da mata, armados de cacetes e foices.

Em poucos minutos, jaziam inertes Capitão Zé Bezerra, sargento Anacleto, cabo Benigno e o soldado Josafá.

Do caminhão se ouviu o estampido de tiros oriundos da mata. O soldado Cesário falou para o sargento Marcelino:
  - “O Capitão foi atacado, sargento”.
  “Tenho pena do Capitão, mas ele foi avisado que os soldados eram insuficientes” Respondeu.
  Cinco minutos depois Cesário viu um vulto se arrastando pelo mato: era o sargento José Olímpio sangrando e com golpes profundos na cabeça. Arquejando, a vítima disse:
  -“Não deixem que os bandidos acabem de me matar...”.
  Logo após, ouviram uns novos gemidos. Era o sargento Marcolino com alguns soldados feridos.
  - “Fomos atacados de surpresa. Vi o Capitão estirado no chão e o Anacleto também. Acho que morreram.” - Disse Olímpio.

O sargento Marcelino reuniu os soldados capazes de se moverem, mesmo os feridos em pequena gravidade, e foram ao encontro do Capitão. Lá se depararam com um quadro tenebroso: com a cabeça esfacelada, ainda segurando o parabelum, jazia morto o Capitão Zé Bezerra. Ao seu lado, o filho Anacleto. Mais adiante o corpo do cabo Benigno, e do soldado Josafá e mais três cadáveres de fanáticos.

Assim morreu como viveu o bravo militar: da maneira mais trágica e cruel. Morreu como um dia lhe dissera Severino Tavares:

-“O senhor, Capitão, vai pagar caro o couro de Trancelim!” (04). 


N O T A S


01 - João Xavier de Holanda – Polícia Militar do Ceará em Meio Século de República 1939 Vol. 3 pág. 47. Editora INESP. Fortaleza 2003.
02- Otacílio Anselmo e Silva. Brejo Santo sua história e sua gente – A Tragédia de Guaribas pág.190. Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Fortaleza 1981.
03 - N.A. A relação completada dos componentes da volante policial nos foi fornecida pelo sargento Eugênio Cesário da Silva, na cidade de em Juazeiro do Norte em 1981. Em1937, Cesário era soldado da Polícia Militar e esteve presente no massacre dos policiais.
04 - João Xavier de Holanda, O.c.pág.58.

BIBLIOGRAFIA

HOLANDA, João Xavier. Polícia Militar do Ceará em meio século de república 1889-1939
Fortaleza. Editora INESP ,2003

SILVA, Otacílio Anselmo. Brejo Santo sua história e sua gente – Tragédia de Guaribas
Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Fortaleza 1981.

Pesquei em
História de Juazeiro


Foto de Menezes Pimentel: blog fortaleza nobre
Foto de Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva: Arquivo particular do Diácono Policarpo Rodrigues.


Este é trasladei do blog: "Lampião Aceso" 

terça-feira, 19 de julho de 2011

Documentário sobre o Padim


Padre Cícero, O patriarca de Juazeiro
Curta-metragem de 9:36 min
Material original 11 min (1955 / 1972)

Direção: Alexandre Wulfes