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quarta-feira, 24 de julho de 2019

PARA DESOPILAR - O DECEPADOR DE CABEÇA HUMANA

Por José Mendes Pereira

Chegou à cidadezinha montado num velho e desnutrido jumentinho. E logo os curiosos rodearam o homem de barba grande, com botas alongadas, chapéu de palhas, e uma enorme sacola sobre a pequena sela de montaria. Todos estavam ali, rindo do infeliz mendigo, que ao ver tanta humilhação contra si, saiu em busca de um bar, e lá, pediu, por favor, uma urgente e caprichada pinga.

O dono do boteco nem sabia a quem estava atendendo. Mas resolveu colocar no copo uma caprichada pinga. Os curiosos acompanharam-no até a venda. O mendigo bebeu a primeira, e em seguida, pediu bis.


O dono do bar fez gesto de que não estava gostando, imaginando que iria dançar na hora em que fosse cobrado o acerto de contas. E assim que o mendigo ingeriu a segunda dose, de imediato, pediu a terceira.

O sangue nas veias do velho comerciante esquentou de vez. E foi obrigado a dizer ao mendigo que só colocaria a terceira dose, se ele pagasse logo as duas primeiras.

Os curiosos estavam todos em risos, e até um deles ameaçou o barba grande, dizendo que se ele não pagasse as doses de cachaça ao comerciante, não iria sair dali com vida.


O mendigo concordou pagar logo as duas chamadas. Foi até ao seu jumentinho, retirou uma enorme sacola que estava sobre ele, e era nela que ele guardava o seu dinheiro. Em seguida, retornou para fazer o pagamento das chamadas ao comerciante. E pôs-se a procurar o dinheiro no meio de tantas bugigangas. Enfiou a mão na sacola, e ficou tirando algumas peças. Em seguida, retirou uma cabeça humana cheia de sangue, colocando-a em cima do balcão.

A cabeça de Lampião é só para ilustrar o trabalho

O comerciante ao ver a cabeça coberta com sangue e com os olhos fechados, admirou-se, dizendo em tom de susto e tremendo:

- Meu Deus!!! Que coisa triste, hein!!!

- Eu faço este trabalho muito bem e com perfeição. - Dizia o mendigo. - E adoro fazê-lo. Durante a semana são duas, três, até mais cabeças. Mas melhor do que eu, quem faz, é um parceiro meu, o "Negrão das Cavernas". Ele desceu aqui em busca do mercado central, e me disse que iria procurar vítimas para ver se negocia umas duas ou três cabeças.


O comerciante de tanto tremer não resistiu mais em pé, saiu desmaiando por cima de uma porção de mercadorias que estava sobre o chão. Os curiosos desapareceram em disparada carreira, e aos gritos, pelas ruas, pedindo clemência. A partir daí, a fama do homem barbudo e do "Negrão das Cavernas" aumentou no lugarejo.

Um velho que no momento entrou no bar, ao ver aquela terrível cena, isto é, a cabeça de um corpo humano sobre o balcão, ajoelhou-se diante do mendigo, pedindo-lhe que pelo o amor de Deus não o matasse. E o mendigo ficou sem saber o porquê daquela imploração do velho, pedindo-lhe que não o matasse.

Os moradores da cidade ao tomarem conhecimento do perigoso mendigo e do "Negrão das Cavernas" que haviam entrado na comunidade, entraram em choque, procurando por todos os lugares os seus filhos e parentes, temendo que eles fossem degolados pelos facínoras.

Imagem da internet

Logo que as mulheres ficaram sabendo da presença de dois delinquentes na cidade corriam pelas as avenidas do lugarejo em lastimosos choros, procurando por todas as entradas os seus filhos pequenos.

Imagem da internet

O prefeito quando recebeu a informação que na cidade tinha entrado dois perigosos marginais recolheu-se à prefeitura, ligando para tudo que era de autoridade, que cuidasse de prender com urgência os assassinos.

Além do contingente da cidade o prefeito solicitou dos administradores das cidades vizinhas, que liberassem os seus policiais para tentarem prender os dois bandidos.

Imagem da internet

- Os homens são perigosíssimos, amigos! - Dizia ele pelo telefone aos prefeitos das cidades adjacentes. Andam com cabeças humanas degoladas dentro das suas sacolas! Uns homens desse tipo estão com o capeta nas costas, e poderão bagunçar a minha cidade e depois invadirem as suas! Com a ajuda de vocês, prenderemos estes delinquentes"

Imagem da internet

O dono do açougue (o Ludugero), ao ser informado da entrada destes criminosos no lugarejo, foi curto e grosso. "- A culpa é do prefeito que não põe mais policiais nas ruas. Ele só pensa em si. Aos domingos, se manda com a família para as praias, como se fosse o governador do Estado".

A cidade já imaginava a quantidade de defuntos que iria ficar estirada nas ruas, depois que o mendigo e o "Negrão das Cavernas" saíssem do lugar.

Imagem da internet

Os coveiros do cemitério já haviam recebidos ordens para cavarem covas em quantidades. Os dois homens eram perigosíssimos, e com certeza, muitos moradores iriam perder as suas vidas sobre as miras das suas armas, ou nas pontas dos seus afiados facões.

Chegaram praças de todos os lugares. E obedecendo a exigência do prefeito, de imediato, morrendo de medo, os policias ocuparam os fundos e a frente do bar. E aos poucos, com muito cuidado, vendo a hora surgirem balas disparadas pelo barba grande, que naquele momento, ali, só se encontrava ele, todos foram fechando o cerco, e ao se aproximarem do infeliz, deram ordens de prisão. Assim que o algemaram, acusaram-no de decepador de cabeça humana.


Imagem da Internet

O mendigo tentava explicar quem ele era, mas a polícia não quis conversa, obrigando-o colocar a cabeça dentro da sacola, e que ele iria ser conduzido até à delegacia para as devidas explicações ao delegado.

Ao entrar na delegacia, de imediato ele recebeu um pescoção, aplicado pelo delegado. E um tenente que nem estava de serviços, não demorou muito para bofeteá-lo diante do delegado.

Exigido a comprovação do crime o mendigo retirou a cabeça humana de dentro da sacola. O delegado ficou rodeando-a, e observou que ela nem sangrava, apenas ainda permanecia como se tivesse sido decepada recentemente. E como inteligente e um pouco de psicologia, o delegado percebeu que não tinha nada a ver com cabeça humana.

Os dois homens não eram mendigos e nem marginais. Devido viverem andando pelas ruas, as roupas eram como de mendigos. Eram apenas dois escultores em madeiras que faziam as suas peças e saíam à procura de compradores. Ambos eram grandes talhadores com muita perfeição e enganava qualquer especialista. Até a pintura, tinha aparência de sangue vivo.

"Antes de julgarmos uma pessoa devemos esmiuçar a sua vida com cautela, para que ela não venha ser castigada injustamente e moralmente ofendida".

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

CRÔNICA - FEIRA DE CABEÇAS

De Aurélio Buarque de Holanda (*)

A Carlos Domingos


Aurélio Buarque de Holanda 
IN: http://majellablog.blogspot.com.br/2010/05/mestre-aurelio-na-sua-biblioteca.html

De latas de querosene mãos negras de um soldado retiram cabeças humanas. O espetáculo é de arrepiar. Mas a multidão, inquieta, sôfrega, num delírio paredes-meias com a inconsciência, procura apenas alimento à curiosidade. O indivíduo se anula. Um desejo único, um único pensamento, impulsa o bando autômato. Não há lugar para a reflexão. Naquele meio deve de haver almas sensíveis, espíritos profundamente religiosos, que a ânsia de contemplar a cena macabra leva, entretanto, a esquecer que essas cabeças de gente repousam, deformadas e fétidas, nos degraus da calçada de uma igreja.

Cinco e meia da tarde. Baixa um crepúsculo temporão sobre Santana do Ipanema, e a lua crescente, acompanhada da primeira estrela, surge, como espectador das torrinhas, para testemunhar o episódio: a ruidosa agitação de massas que se comprimem, se espremem, quase se trituram, ofegando, suando, praguejando, para obter localidade cômica, próximo do palco.

Desenrola-se o drama. O trágico de confunde com o grotesco. Quase nos espanta que não haja palmas. Em todo caso, a satisfação da assistência traduz-se por alguns risos mal abafados e comentários algo picantes, em face do grotesco. O trágico, porém não arranca lágrimas. Os lenços são levados ao nariz: nenhum aos olhos. A multidão agita-se, freme, sofre, goza, delira. E as cabeças vão saindo, fétidas, deformadas, das latas de querosene - as urnas funerárias -, onde o álcool e o sal as conservam, e conservam mal. Saem suspensas pelos cabelos, que, de enormes, nem sempre permitem, ao primeiro relance, distinguir bem os sexos. Lampião, Maria Bonita, Enedina, Luiz Pedro, Quinta-Feira, Cajarana, Diferente, Caixa-de-Fósforo, Elétrico, Mergulhão...

Observem à esquerda, a cabeça de Lampião ainda em cima do caminhão.
Fonte: Livro " Iconografia do cangaço " Ricardo Albuquerque.
Adendo Kydelmir Dantas
O escritor Alcino Alves Costa no seu livro: "Lampião Além da Versão - Mentiras e Mistério de Angico" cita os mortos na chacina de Angico, sendo: Lampião, Quinta-feira, Maria Bonita, Luiz Pedro, Mergulhão, Alecrim, Enedina, Moeda, Elétrico, Colchete e Macela. Segundo vários escritores afirmam que a lista dos mortos na madrugada de 28 de Julho de 1938, na Grota de Angico, no Estado de Sergipe, a mais correta é a do escritor Alcino Alves Costa.

A multidão se acotovela pra ver de perto o espetáculo bizarro
 Fonte: Livro "Iconografia do cangaço" Ricardo Albuquerque.
- As cabeças!

- Quero ver as cabeças!
Há uma desnorteante espontaneidade nessas manifestações.
- As cabeças. Não falam de outra coisa. Nada mais interessa. As cabeças.

- Quem é Lampião?

Virgulino ocupa um degrau, ao lado de Maria Bonita. Sempre juntos, os dois.
- Aquela é que é Maria Bonita? Não vejo beleza...
O soldado exibe as cabeças, todas, apresenta-as ao público insaciável, por vezes uma em cada mão. Incrível expressão de indiferença nessa fisionomia parada. Os heróis de tantas sinistras façanhas agora desempenham, sem protesto, o papel de S. João Batista...

Sujeitos mais afastados reclamam:
- Suspende mais! Não estou vendo, não!

- Tire esse chapéu, meu senhor! - grita irritada uma mulher.
O homem atende.
- Agora, sim.
A pálpebra direita de Lampião é levantada, e o olho cego aparece, como elemento de prova. Velhos conhecidos do cangaceiro fitam-lhe na cabeça olhos arregalados, num esforço de comprovação de quem quer ver para crer.
- É ele mesmo. Só acredito porque estou vendo.
Houve-se de vez em quando:
- Mataram Lampião... Parece mentira!
Virgulino Ferreira, o rei do cangaço, o "interventor do sertão", o chefe supremo dos fora-da-lei, o cabra invencível, de corpo fechado, conhecedor de orações fortes, vitorioso em tantos reencontros, -Virgulino Ferreira, o Capitão Lampião, não pode morrer.

E irrompe de várias bocas:
- Parece Mentira!
No entanto é Lampião que se acha ali, ao lado de Maria Bonita, junto de companheiros seus, unidos todos, numa solidariedade que ultrapassou as fronteiras da vida. É Lampião, microcéfalo, barba rala, e semblante quase doce, que parece haver se transformado para uma reconciliação póstuma com as populações que vivo flagelara.

Fragmentos de ramos, caídos pelas estradas, durante a viagem, a caminhão, entre Piranhas e Santana do Ipanema, enfeitam melancolicamente os cabelos de alguns desses atores mudos. Modestas coroas mortuárias oferecidas pela natureza àqueles cuja existência decorreu quase toda em contato com os vegetais - escondendo-se nas moitas, varando caatingas, repousando à sombra dos juazeiros, matando a sede nos frutos rubros dos mandacarus.

Fotógrafos - profissionais e amadores - batem chapas, apressados, do povo, e dos pedaços humanos expostos na feira horrenda. Feira que , por sinal, começou ao terminar a outra, onde havia a carne-de-sol, o requeijão de três mil-réis o quilo, com o leite revendo, a boa manteiga de quatro mil reis, as pinhas doces, abrindo-se de maduras, a dois mil-réis o cento, e as alpercatas sertanejas, de vários tipos e vários preços.

Ao olho frio das codaques interessa menos a multidão viva do que os restos mortais em exposição. E, entre estes, os do casal Lampião e Maria Bonita são os mais insistentemente forçados. Sobretudo o primeiro.

O espetáculo é inédito: cumpre eternizá-lo, em flagrantes expressivos. Um dos repórteres posa espetacularmente para o retratista, segurando pelas melenas desgrenhadas os restos de Lampião. Original.

Um furo para "A Noite Ilustrada".

Cabeças dos cangaceiros expostas em Santana do Ipanema/AL
Fonte: Livro " Lampião e as Cabeças Cortadas, pg. 204, Antonio Amaury e Luiz Ruben.

Lembro-me então do comentário que ouço desde as primeiras horas deste sábado festivo: - "Agora todo o mundo quer ver Lampião, quer tirar retrato dele, quer pegar na cabeça...Agora..." Há, com efeito, indivíduos que desejam tocar, que quase cheiram a cabeça, como ansiosos de confirmação, por outros sentidos, da realidade oferecida pela vista.

Desce a noite, imperceptível. A afluência é cada vez maior. Pessoas do interior do município e de vários municípios próximos, de Alagoas e Pernambuco, esperavam desde sexta-feira esses momentos de vibração. Os dois hotéis da cidade, literalmente entupidos Cheias as residências particulares - do juiz de direito, do prefeito, do promotor, de amigos dessas autoridades. Para muitos, o meio da rua.

Entre a massa rumorosa e densa não consigo descobrir uma só fisionomia que se contraia de horror, boca donde saía uma expressão, ainda que vaga, de espanto. Nada. Mocinhas franzinas, romanescas, acostumadas talvez a ensopar lenços com as desgraças dos romances cor-de-rosas, assistem à cena com uma calma de cirurgião calejado no ofício. Crianças erguidas nos braços maternos espicham o pescoço  buscando romper a onda de cabeças vivas e deliciar os olhos castos na contemplação das cabeças mortas. E as mães apontam:
- É ali, meu filho. Está vendo?
Alguns trocam impressões;
- Eu pensava que ficasse nervoso. Mas é tolice. Não tem que ver uma porção de máscaras.

- É isso mesmo.
Os últimos foguetes estrugem nos ares. Há discursos. Falam militares, inclusive o chefe da tropa vitoriosa em Angico. Evoca-se a dura vida das caatingas, em rápidas e rudes pinceladas. O deserto. As noites ermas, escuras, que os soldados às vezes iluminam e povoam com as histórias de amor por eles sonhadas - apenas sonhadas... Os passos cautelosos, mal seguros sobre os garranchos, para evitar denunciadores estalidos, quando há perigo iminente. Marchas batidas sob o sol de estio, em meio da caatinga enfezada e resseca, e da outra vegetação, mais escassa, que não raro brota da pedra e forma ilhotas verdes no pardo reinante: o mandacaru, a coroa-de-frade, a macambira, a palma, o rabo-de-bugio, facheiro, com o seu estranho feitio de candelabro. A contínua expectativa de ataque tirando o sono, aguçando os sentidos.

O sino toca a ave-maria. Dilui-se-lhe a voz no sussurro espesso da multidão curiosa, nos acentos fortes do orador, que, terminando, refere a vitória contra Lampião, irrecusavelmente comprovada pelas cabeças ali expostas. Os braços da cruz da igrejinha recortam-se, negros, na claridade tíbia do luar; e na aragem que difunde as últimas vibrações morrediças do sino vem um cheiro mais ativo da decomposição dos restos humanos. Todos vivem agora, como desde o começo do dia, para o prazer do espetáculo. As cabeças!

A noite fecha-se. Em horas assim, seriam menos ferozes os pensamentos de Lampião. O seu olhar se voltaria enternecido para Maria Bonita. 

Que será feito dos corpos dissociados dessas cabeças? O rosto de Maria Bonita, esbranquiçado a trechos por lhe haver caído a epiderme, está sinistro. Onde andará o corpo da amada de Lampião? A cara arrepiadora, que mal entrevejo à luz pobre do crescente, não me responde nada.

E Lampião? Sereno, grave, trágico. O olho cego, velado pela pálpebra, fita-me. (1938).

(*) Autor do mais importante dicionário da língua portuguesa publicado no Brasil neste século. Texto do livro esgotado "O chapéu de meu pai, editora Brasília, 1974.
Fonte:
Diário Oficial Estado de Pernambuco
Ano IX - Julho de 1995
Material cedido pelo escritor, poeta e pesquisador do cangaço: Kydelmir Dantas
Pescado no http://blogdomendesemendes.blogspot.com 

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Observação: As fotos  foram inseridas por Ivanildo Silveira para enriquecer ainda mais a excelente matéria.


A PISADA DE LAMPIÃO NA BAHIA

Passagens pela Fazenda Angico em Cansanção.

Por: Florisvaldo Santos

O relato a seguir, foi concedido por Augusto Lopes (Augusto Baiana) em que retrata a passagem de Lampião na Fazenda Angico no município de Cansanção/BA no final da década de 20. Augusto Baiana é historiador e neto do Senhor Pedro Lopes, conceituado fazendeiro deste município, proprietário da Fazenda Angico, conforme descrito a seguir:

Começo da manhã do dia 22 de dezembro de 1929, após tirar o leite das vacas o então vaqueiro Pedro Lopes voltou para casa para tomar o café e continuar com a sua lida. Quando ia sentando a mesa para começar a tomar o café percebeu uma inquietação dos animais lá pra banda do curral, saiu para o avarandado da casa velha da fazenda para ver o que era e foi logo cercado pela cabroeira de Lampião, um dos cabras de Lampião muito ríspido chamou seu Pedro pelo nome assim:
- Pedro sabe quem esta aqui” seu Pedro respondeu afirmativamente com a cabeça.

 Pedro Lopes Dona Nininha Moura e Aparecida Lopes Marinho do colo.
Acervo de Augusto Bahiana.

Eles falaram assim
Nos acompanhe até o curral”.
O curral estava cheio de cavalos e éguas, pois tinham sido vaquejados para ferrar e curar os potros novos. Quando seu Pedro chegou à porteira do Curral Lampião estava escolhendo o melhor cavalo da fazenda já laçado por ele. Seu Pedro diz:
Bom dia, quem é o capitão Lampião?
Lampião responde:  
Sou eu, o que queres?
Pedro Lopes diz:
Tenho instrução do dono dessa fazenda, para que tudo que o senhor necessitar, está as suas ordens.
No entanto, Lampião responde:
 – Não quero nada, só às montarias e quero que você venha comigo até à vila de Cansanção para trazer os cavalos e arreios.
Após selar os animais com ajuda de Pedro Lopes ele os convidou para acompanhar ele até a casa. O bando inteiro foi atrás dele. Chegando lá só Lampião entrou, Pedro Lopes ofereceu café, leite, coalhada ou umbuzada, mas Lampião falou que não queriam nada.
 - Só quero que você se arrume para ir a Cansanção. 
Dona Nininha Moura, esposa de Pedro Lopes, tremia de medo. Lampião percebendo a aflição dela falou
- Parece que você não quer que ele vá com a gente. 
Mesmo com muito medo ela respondeu
- E não quero mesmo que ele vá, estou aflita.
Lampião a tranquilizou:
Não se preocupe, ele vai, mas ele vai voltar, só quero que traga os cavalos e arreios de volta. 
Neste momento Lampião percebeu a inquietação de Pedro Lopes, que ia de um canto a outro, pé dentro pé fora. Puro nervosismo. Indaga Lampião
O que procuras Pedro? 
Pedro Lopes responde Minhas alpercatas e esporas. 

Lampião apontado com o cabo do rebenque para debaixo do banco na sala:
Seriam aquelas, Pedro?
E não é que é, parece que ela me cegou. Disse seu Pedro, aliviado. 
 Quando Pedro Lopes estava calçando as alpercatas com as esporas Lampião elogiou as peças:
Bonitas esporas, Pedro!
As esporas eram feitas de alpaca, um material semelhante à prata da época do império. Pedro Lopes de imediato tirou as esporas e falou
Pode usar Capitão, pode usar
Após calçar as esporas, saíram todos eles em direção ao curral e outra vez Lampião olhou para dona Nininha Moura e disse.
Não se preocupe ele vai voltar.

Seu Pedro Lopes

Saíram todos em direção a Cansanção, com Lampião gabando a montaria e as esporas. Tinha um do bando que estava muito mal montado com um animal fraco e que não chegaria a Cansanção. Passando pela parelha encontraram o Lúcio lavando um burro bem bonito na lagoa.

De imediato Lampião ordenou que selasse o burro e Lúcio os acompanhasse, junto com Pedro para trazer o burro de volta.

Chegando a Cansanção Pedro Lopes e Lúcio Ficaram perto do Cemitério a mando de Lampião. Toda cabroeira entrara em Cansanção fazendo a maior bandalheira, entrando nas lojas com cavalo e tudo, bebendo, puxando rolos de fumo e peças inteiras de tecidos pela rua. Depois de algumas horas voltava Lampião com os animais todos "perfumado" de banhos de perfumes roubados das lojas locais e uma peça inteira de pano, Peça que ele entregou a Pedro Lopes. Dizendo assim
Tome, isso é pra você, pode ir, mas tenha cuidado que a volante vem ai atrás de meu bando, obrigado e vá embora
Volta Pedro Lopes com Lúcio. Segundo Pedro Lopes pelo nervosismo poucas palavras ele trocou com o Lúcio. Queria logo era chegar em casa. Chegando em casa ele foi abraçado aos prantos por dona Nininha e foi logo narrando o que tinha ocorrido. Pegou o presente que Lampião deu para ele e foi esconder em um buraco de umburana no fundo da casa, para que no próximo dia da feira, devolver para o comerciante dono da loja de tecidos.

No outro dia, quase no mesmo horário da visita de Lampião, chegou uma Volante, acompanhado por Lúcio, Pedro Lopes os mandou entrar e perguntou se queriam comer e eles de pronto aceitaram, enquanto seu Pedro era interrogado pelo tenente, toda a volante era alimentada por dona Nininha e eles na maior falta de educação quebraram porcelanas e roubaram todas as colheres de prata que foi emprestada para sorverem da umbuzada.

No interrogatório do tenente seu Pedro falou tudo o que realmente tinha acontecido. Só ficou com receio de falar sobre o presente. Quando o tenente já ia saindo, Lúcio segredou no ouvido dele que Lampião tinha dado um presente a Pedro Lopes...

Ai a coisa mudou de figura, o tenente partiu para cima de Pedro Lopes falando assim.
- Coiteiro, descarado quer dizer que você é moleque? Me dê logo este presente, antes que eu te arrebente. 
De nada adiantou Pedro Lopes dizer iria devolver o presente ao comerciante, ele foi empurrado até o pé da umburana para pegar a peça do tecido e entregar nas mãos do tenente. Por muito pouco, Pedro Lopes não apanhou muito, tudo por culpa do Lúcio, que por muitos anos Pedro Lopes guardou esta mágoa. Em resumo, o tecido não foi devolvido para o comerciante.
 Pedro Lopes, Dona Nininha, 
Augusto Bahiana e Cristine Lopes (1984).

Na segunda passagem de Lampião na fazenda Angico, infelizmente no momento nas minhas pesquisas não sei com exatidão o ano. Lampião já foi encarado por Pedro Lopes de outra maneira. Após toda a retaliação que sofreu pela volante, faltando pouco para consequências maiores ou até mesmo a morte.

Com ajuda do nosso bom Deus, não aconteceu e Pedro Lopes viveu até quase 101 anos e até a hora de sua morte totalmente lúcido, pôde passar para nós, muitos ensinamentos e historias.

Era comum, na época que Lampião andava pelos lugares, saia na frente alguém para avisar as pessoas das comunidades ou fazenda na suposta trilha por onde ele iria passar muitas vezes por segurança ele mudava o roteiro por outro totalmente contrario. Assim aconteceu um amigo de seu Pedro. Que saiu montado na frente de todos até chegar à fazenda Angico. Falou que Lampião tinha chegado à localidade de Periperi e estava com os bofes virados, batendo em muita gente e até nos parente de Pedro Lopes.

Com todo este sofrimento seu Pedro já tinha preparado na caatinga um esconderijo, uma barraquinha de pindoba, para ficar com a família escondido na passagem de Lampião. Assim o fez Pedro Lopes. Ainda mais agora que ficou sabendo que até seu irmão e outros parentes apanharam. Só que antes de fugir ele deixou a casa aberta com mantimentos e utensílios para que Lampião e seu bando se servissem à-vontade.

Pedro Lopes fugiu para o referido esconderijo, com a família toda, um monte de filhos, cachorros, papagaios, parentes e agregados que moravam com ele. Havia mocinhas e senhoras que ajudavam a cuidar dos seus mas de vinte filhos. Imagine essa quantidade de gente toda sem poder deixar rastros (pegadas) no chão.

Chegando a fazenda Angico, apesar de encontrar as portas abertas e a casa com alimentos franqueados a ele e seu bando, Lampião ficou muito revoltado, alegando que não tinha feito nada com Pedro da primeira vez que passou por que razão ele fugiu?

Neste momento um dos cabras do bando identificou os rastros de Pedro e família e gritou
- Espia Capitão, por onde eles vão aqui. Vamos atrás? 
E desceu todo o bando atrás da família pela variante escolhida da fuga de Pedro Lopes. Nesta época em Cansanção estava tendo uma seca muito grande, e o rancho de pindoba de Pedro Lopes foi construído após uma cacimba na beira do riacho, leito de rio muito arenoso e por razão da seca, muita gente das localidades vizinhas pegava água e os rastros... foram confundidos por graça de Deus.

Lampião resolveu suspender a busca, mas não sem antes mandar um recado por moradores que estava pegando agua, dizendo assim.
- Digam a Pedro, que da próxima vez que passar aqui, quero encontrar ele em casa, não fiz nada com ele? Não devia ter fugido. Vamos embora cambada pra Cansanção. 
E por milagre de Deus Pedro Lopes e família escapou e para maior tranquilidade, Lampião poucos anos depois morreu e não retornou mais para as banda de Cansanção.

Esta foram as passagem da família de seu Pedro Sousa Lopes e dona Nininha Moura Lopes com o rei do cangaço, Capitão Lampião.
Obs. Este relato foi tirado das muitas vezes que ouvi meu avô de coração, Pedro Lopes, contar e do que está contido no livro escrito por sua filha Davina Moura Lopes Marinho.


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PARA ONDE VOCÊ SE VIRA... LÁ ESTÁ O "HOMEM".

Como se já não bastasse toda a popularidade que possui o "Capitão" agora virou garoto-propaganda de uma marca de cigarro de palha.

Sempre digo que se o "Capitão" tivesse lutado apenas contra os coronéis e os poderosos de sua época, seria hoje o maior herói dessa nação, mas infelizmente resolveu trilhar por outros caminhos e perdeu o foco inicial, passou a visar apenas o saque e a espalhar a morte e o terror. Mesmo assim é uma das figuras mais populares da história nacional. Virgolino Ferreira da Silva "Lampião".

Geraldo Antônio De Souza Júnior


É HOJE O ENCERRAMENTO

Clerisvaldo B. Chagas, 24 de julho de 2019
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.149

MATRIZ DE SENHORA SANTANA. (FOTO: B. CHAGAS).
Encerrar-se-á hoje (quarta-feira) a maior festa religiosa do interior alagoano.
“Nossa Senhora Santana é aquela criatura que Deus predestinou e escolheu para ser, na terra, Mãe da Virgem Imaculada, Mãe da Mãe de Deus e avó de Jesus Cristo, Nosso Salvador.
Santa Ana, São Joaquim e o Glorioso São José, os Pais e o Esposo castíssimo de Maria, estão envoltos no silêncio e na humildade.
Bem pouco deles se conhece. E, no entanto, o universo inteiro há séculos não cessa de cantar os seus louvores.
Santa Ana, depois de São José, foi a criatura mais íntima do Verbo Encarnado, a Intimidade do sangue e do parentesco, Mãe de Maria, a Virgem concebida sem pecado, e por Maria, avó de Jesus Cristo. Há um véu de mistério e um grande silêncio da História e das Escrituras sobre Santa Ana.
Dela bem pouco nos diziam a História e a Tradição, mas basta para sabermos o que Ela é e quão grande é seu poder e sua glória. Basta-nos só isto: É Mãe da Mãe de Deus e Avó de Jesus Cristo!
Segundo a tradição dos antepassados, Joaquim (São Joaquim), chegado o tempo de contrair matrimônio, foi procurar, na família de David, entre a gente da sua estirpe, uma esposa digna e virtuosa. Encontrou Santa Ana, privilegiada criatura do seu ideal. Não era rico, mas possuía alguns bens, e segundo a tradição, vivia do comércio de lãs e de carneiros. (Acta Sanct Martir Ton. III – Anne Chretienne). (...).
(...) Santa Ana é, pois, da família nobre do Rei – Profeta. Maria, quer da parte de São Joaquim, quer de origem materna, é filha de David.
(...) O pai de Santa Ana chamava-se Mathan e a mãe, Maria”.

(Trecho extraído do livro “Santana do Ipanema conta sua História”, dos irmãos Floro e Darci Araújo de Melo, págs. 15-16).

O DELEITE DE VOLTA SECA O PASQUIM ENCOSTA NA PAREDE O "JÉSSE JAMES" DO NORDESTE.


Quando a estrada chegou ao Sertão um tipo de banditismo e rebelião estava fadado a desaparecer. O cangaço morreu de morte natural, substituído por outros tipos mais sofisticados de rebelião e assim vai a vida e assim todo o mundo e a Lusitânia. 

Alguns homens, poucos, sobraram para contar a história. Entre eles a figura pequena, frágil e ainda perplexa de Volta Seca, que matou pela primeira vez aos 10 anos, entrou para o bando de Lampião aos 11 e foi preso e condenado à prisão perpétua (minto, há 145 anos) aos 14. 

Aqui está ele, entrevistado pelos cabras D'o pasquim, lembrando a dor, a injustiça, a luta contra a morte dia a dia, revivendo as angústias do Sertão na paz de uma casa em Santa Cruz (zona rural do Rio), cercado pela mulher e pelos 13 filhos. (Millôr).

Clique no link abaixo e leia a grande entrevista que o cangaceiro Volta Seca cedeu aos jornalistas do jornal "O Parquim". Não afirmo ser tudo verdade, mas é uma longa entrevista.

http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2009/12/entrevista-de-volta-seca-jornal-o.html

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

O CANGAÇO ARRUDIANO ITABAIANA/SE


Por Robério Santos

SAIBA QUAL A RELAÇÃO ENTRE ITABAIANA E O CANGAÇO

O banditismo social, como é rotulado por muitos, é um fato que atravessa os séculos. Começou basicamente quando o colonizador europeu chegou por essas bandas no século XVI trazendo a corja de malfeitores que nos viam como simples objetos de lucro (mudou alguma coisa?). Começou a montar suas barracas no litoral e explorando o interior em busca de ouro, prata, terra para o gado, lavoura e umas indiazinhas safadas para seu deleite. Em Itabaiana não foi diferente. Itapváma (segundo José Almeida Bispo, o V era colocado no lugar do U por dificuldades tipográficas), cresceu muito desde quando Simão Dias Francês nasceu debaixo da quixabeira no final do século XVI onde hoje fica a Igreja de Santo Antônio e Almas. Este recém nascido era filho de um francês com uma índia daqui do agreste, se tornou o primeiro itabaianense e foi amamentado por uma cabra (Rômulo Dias ou Remo Dias?). Pronto, a mentira vem de longe. Mas, uma pergunta que sempre me fiz foi: por que o valente Lampião e seu bando nunca invadiram Itabaiana, já que aqui tinha tanta riqueza na década de 20 e 30? Será que por medo do que podia encontrar aqui ou por ter amigos coiteiros no local? Será que aqui a concorrência era grande por ter bandidos ou heróis demais? Qual a relação entre o cangaço e Itabaiana? Foi aí que fiquei encucado desde minha adolescência, quando comecei a bisbilhotar as ideias históricas da terra da cebola (e também uns engraçados que disseram que não há relação). Toca a procissão adiante.


Comecemos por um cabra ruim virado na gota serena. Seu apelido (aqui não temos nomes de batismo): Mata Escura, parido em 1821 com o nome de (Santo) Antônio (São) José e (Simão) Dias. Assassino e ladrão profissional, foi levado à forca aos 25 anos de Idade no dia 08 de março de 1847 (primeira vez que a forca foi usada em Itabaiana) após assumir nove assassinatos e mais umas caridades (citado em Vila de Santo Antonio de Itabaiana, do escritor Vladimir Souza Carvalho. Pg. 252, 2009. Aracaju-SE). Seu enforcamento se deu em frente à Igreja Matriz de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. Mas, qual a relação dele com o cangaço? Bem, Virgulino só nasceria 50 anos depois da execução de Mata Escura. Mas, dia 13 de março de 1918, nas brenhas de Saco Torto, então povoado de Itabaiana, nasce Antônio dos Santos, que onze anos mais tarde, ao viajar para a Bahia em 1929, dá de cara com Lampião e é convidado a ingressar no bando deste. Passa a ser chamado instantaneamente de Volta Seca e apelidado de “menino”. 


Com o passar dos anos, este mascote se mostra muito destemido e cruel, mas por um ato heróico tenta salvar um amigo baleado e é pego pela polícia baiana em 1932. Durante sua passagem pelo bando, acabou compondo uma música em ritmo de xaxado chamada “Sabino e Lampião”. Depois de sair da cadeia, casou-se e foi morar no Nordeste, quando recebe um convite para morar em São Paulo, do cineasta e diretor Lima Barreto, para assistir e criticar o filme, O Cangaceiro (1953), mediante uma gratificação. O excangaceiro condenou a cena em que Lampião chicoteia um cabra na cara. Diz que nos sertões, não se faz isso com homem, se mata, pois cara de homem no Nordeste é sagrada. Graças às novas amizades conseguiu emprego na Estrada de ferro Leopoldina, onde trabalhou por vários anos. Por essas desventuras, no ano de 1957, é chamado pela Rádio Nacional para gravar um disco que retratasse as músicas do cangaço. Entre uma faixa e outra, há ainda curtos trechos de narração de Paulo Roberto, o então apresentador da Rádio Nacional. Neles, o radialista dá as devidas introduções às canções, explicando-as com um tom romanceado característicos dos anos 50. Antes da devida música, que citarei na íntegra adiante, ele fala:


 “Quando entrou para o bando de Lampião, Antônio dos Santos era um menino de apenas 11 anos. Passou desde logo a ser Volta Seca, um simples tratador de Cavalos promovido mais tarde por merecimento a bandoleiro de fuzil marchetado, facão de três palmos e cartucheira cruzada. Agora, ele recorda a cantiga em que os cabras faziam uma brincadeira perigosa, mas fariam o mesmo de mexer com o Capitão Virgulino, o Terror do Sertão”. 

Segue-se abaixo a letra da música:
Sabino e Lampião - xaxado
E lá vem Sabino
Mais lampião
Chapéu de Couro
E o Fuzil na mão
Vem Sabino mais Lampião
Chapéu quebrado
E o Fuzil na mão
Lampião diz que é valente
É mentira, é corredor
Correu da Mata Escura1
Que a poeira levantou
Lá vem Sabino mais lampião
Chapéu de Couro
E o Fuzil na mão
Lampião tava dormindo
Acordou muito assustado
Deu tiro numa brauna
Pensando que era um soldado.

Volta Seca, Cantigas de Lampeão, São Paulo-SP, 1957 Volta Seca cita Mata Escura como se fosse algo amedrontador, capaz até de botar para correr o Capitão Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. Lógico, pode ter sido inconsciente, mas o terrorista itabaianense do século XIX era algo que servia de inspiração para os pais dizerem em tom de ameaça a seus filhos: “Vá pro mato não, Mata Escura te pega”, da mesma forma que se fala de saci, caiporas e luzernas. Há também uma entrevista feita com Volta Seca pelo Grande cartunista, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor, Millôr Fernandes para o Pasquim de setembro/outubro de 1973, no221. Em uma abertura simples e uma resposta seca inicia-se a entrevista: 

“O Pasquim encosta na parede O „Jésse James‟ do nordeste: ‘Volta Seca’ - O cangaceiro Millôr - Você morava a que distância de Aracaju? VOLTA SECA - A seis léguas. Em Itabaiana Grande.” 


Viagem minha? Pode até ser, mas que é lógica é. Podem contestar. Vocês não viram nada ainda. Vamos para a próxima relação? O cinema. Pois é, o cinema... Segundo relata Joãozinho Retratista no jornal O Serrano, no 187 de 10 de dezembro de 1972 na matéria História do Teatro e do Cinema em Itabaiana: “Nos meados da primeira década deste século (ainda no XX), um trio, composto por Santinho de Tetéu, Zezé da lagoa e Oseas Preto, montou o primeiro cinema fixo em terras de Itabaiana. Funcionou ele, na Rua Tobias Barreto (Rua do Futuro), esquina com a General Siqueira, em casa especialmente para se servir de sede do cinema. Demorou pouco, e apesar da aceitação popular, o trio dispersou-se, e o cinema foi parar em Capela”. Pois bem, agora o cinema estava instalado lá pra riba depois dos Enforcados (atual Nossa Senhora das Dores). Dando voltas em páginas dos livros sobre o cangaço acabei me deparando com um fato interessante sobre Capela: o dia que Lampião foi ao cinema. O lagartense Ranulfo Prata em 1934 já havia narrado este fato, mas foi mesmo no livro do jornalista Fernando Portela e do advogado carioca Cláudio Bojunga no aclamado livro Lampião, O Cangaceiro e o Outro de 1982, que encontrei mais detalhes sobre o evento. No capítulo VI “Capela se rende e Lampião vai ao cinema”, tem um trecho interessante: “O telegrafista de Capela estava no cinema sentado ao lado do Juiz de Direito. Era o dia 15 de outubro de 1929. (...) o filme se chamava O Anjo das Ruas. Janet Gaynor se agitava, portanto na tela do único cinema daquela cidade (...). (após entrar no cinema a sombra de Lampião foi projetada na tela) Quem virou a cabeça (e todas se viraram) viu o Capitão Virgolino em pé, perto da última fila. Pavor, pânico, reboliço. Lampião gritou „daqui num sai ninguém. 

Quem corrê vê o gosto de uma bala atrás‟” (...) (depois de umas conversas e de desafinar a banda) „E agora, quero ver cinema‟. Compadre Ramos apagou a luz e Janet Gaynor voltou à tela. Por pouco tempo. Lampião não gostou (do filme). Os músicos se sentiram aliviados, alguns empunhavam o violino de cabeça para baixo” (pg. 39 e 40). Coincidentemente o filme fala de Angela (Janet Gaynor) que é presa após tentar roubar dinheiro para pagar o remédio de sua mãe, mas consegue escapar do reformatório e se esconde em um circo. Lá conhece Gino (Charles Farrell), um pintor. Ângela quebra seu tornozelo e tem que se aposentar do circo, mas não pode voltar para Nápoles, onde ainda é procurada pelo roubo.

Anos no futuro, em uma película de Paulo Caldas e Lírio Ferreira de 1996 chamada Baile Perfumado (filme centrado nas fotografias e filmes de Benjamim Abrahão) há uma citação clara a Itabaiana. Era assim: “Ói, os Firimento foram muitos. (...) O derradeiro (ferimento) foi coisa leve aqui no quadrí, lá em Pinhão, „Tabaiana‟, 1930”. A descrição dos “ferimentos” de Lampião, encontra-se também inserida no livro "Quem foi Lampião” pg. 151, do renomado pesquisador/escritor, Frederico Pernambucano de Mello. Assim se deu a passagem pelo cinema de Capela com a aparelhagem de Itabaiana e no filme nacional. Acha pouco? Não viu nada, pule para o próximo parágrafo, cabra!



Agora vamos aos coiteiros e intrigados. Segundo Luis Antônio Barreto em “Lampião em Sergipe II”, publicado em 09 de julho de 2004 nas páginas do portal na internet, Infonet: “Antes de chegar a Poço Redondo em 29 de abril de 1929, Lampião esteve em Ribeirópolis, Pinhão e no povoado do Alagadiço, pertencente a Frei Paulo. Parecia procurar alguém ou reconhecer um terreno onde contava com amigos, como Otoniel Dória, de Itabaiana, terra de Volta Seca. A amizade entre Lampião e Otoniel Dória certamente evitou a entrada do cangaceiro e do seu grupo em Itabaiana. No dia 21 de abril Lampião estava em Ribeirópolis, de lá foi para Pinhão, voltou para Ribeirópolis, foi a Alagadiço, seguindo viagem até chegar a Poço Redondo, a terra que mais contribuiu com gente – homens e mulheres – para os bandos de cangaceiros”. De Saco do Ribeiro (Atual Ribeirópolis) Lampião manda uma piadinha para Itabaiana. Segundo Ranulfo Prata em “Lampião”, nas páginas 84 e 89 de 1934 diz: “Do Saco do Ribeiro-SE, lugarejo da fronteira (com Itabaiana), telefonou ao delegado de polícia e chefe de Itabaiana/SE, Otoniel Dórea, chamando-o de „colega‟. - Colega, por quê? Indaga intrigada, a autoridade. Explica Lampião: -„Pruque você é cego de um oio cumo eu!‟“, finalizou esse bate papo produtivo de mangações entre os dois cangaceiros (agora fui eu quem zoei kkkkkk).


Ainda em outros dois livros e em uma memória nada enferrujada, acabei encontrando outros fatos relacionados ao bando de Lampião à Itabaiana. Lendo há alguns anos um livro de semiverdades chamado Os Tabaréus do Sitio Saracura de um amigo itabaianense chamado Antônio Francisco de Jesus (pense num cabra gente boa esse tal de Chico Saracura, fã de Breguedela), li um relato semifantasioso na página 116 chamado “Lampião no oitão da Tenda”. O conto falava da passagem do Capitão pelo povoado Flechas, a poucos quilômetros de Itabaiana. Também, claro, poderia ser o bando de Zé Sereno ou de Curisco separados do grupo principal, como também o de Zé Baiano (que inclusive mataram-no aqui perto de Itabaiana no povoado de Frei Paulo, Alagadiço). Um trecho do conto (se quiser ler todo compre o livro, oras): “Nessa passagem pelas flechas, Lampião não fez mal a ninguém, a não ser a surra que deu na mulher de João de Ioiô, da Água Branca. Foi logo na chegada! O bando parou na bodega sortida com a intenção de comprar algum mantimento. A mulher do bodegueiro afobou-se e desacatou o chefe com impropérios, pois era conhecida como abusada mesmo. 

Lampião mandou um cabra segurar a malcriada, levantou-lhe a saia e deu-lhe vinte rebengadas com gosto”. Ao ser indagado sobre o fato, Tonho disse: “Rapaz, o povo conta né?”. Quem mora por essas bandas sabe muito bem como é isso. 

O segundo relato citado em livros sobre Itabaiana e o cangaço é no livro autobiográfico de Ilda Ribeiro de Souza, mais conhecida como a Cangaceira Sila, esposa de Zé Sereno. O livro me foi cedido por Fefi que provavelmente será um dos primeiros a ler este texto. No livro de 1995, publicado no Recife e de nome Sila, Memórias de Guerra e Paz ela relata algo extraordinário sobre Itabaiana. Segue-se adiante partes do capítulo que narra os fatos de 1938, depois da Tragédia de Angico, páginas 54, 55 e 56:
  


“(...)Ficamos no mato, nas terras de Sergipe, aquela cena triste não saia da nossa imaginação, andamos muitas horas sem trocar nenhuma palavra (...). Fomos para a fazenda de Etelvino (Mendonça), um fazendeiro de Itabaiana; era de confiança, amigo nosso e valente, porque para ter amizade com cangaceiro, precisava ser destemido e valente.

Zé Sereno disse a Etelvino, que eu precisava fazer um tratamento dentário. E indagou se podia fazer. Etelvino disse que eu podia ficar lá em Itabaiana, pois teria todo cuidado, em não atacarem. Então Zé disse a Etelvino, que eu ia me preparar e Etelvino ficou de marcar a hora, o dia do dentista (...). Fui para a casa de Etelvino, como estava combinado. Zé Sereno continuou no mato (...). Todo dia eu ia ao dentista com Etelvino. O dentista porém, cheio de curiosidade, começou a me indagar:

– Onde você estudou? Onde comprou essas roupas? De onde você é? (Itabaiana nunca muda mesmo).

Saí da casa de Etelvino e fui para a casa de Fonseca, que também era amigo de Zé Sereno e delegado de Itabaiana. Terminei o tratamento.


Zé Sereno organizou um baile de despedida do cangaço, em Pinhão; com a força sergipana estava com os cangaceiros, principalmente contra Zé Sereno (porque ele se entregaria às forças da Bahia), houve um tiroteio e um soldado foi morto.

Os macacos observaram e viram que eu não estava presente. Começaram então a me procurar. Fonseca soube dessa notícia. 

Chegando em casa, contou-me sobre o tiroteio em Pinhão e falou: Em minha casa eles só tiram você se passarem por cima de meu cadáver. 

Seguiu para a rua. O ambiente já estava calmo. Recebemos uma carta de Zé Sereno, avisando que ia mandar um coiteiro me buscar. Para sair da cidade, foi muito difícil; todos já sabiam que eu estava na casa de Fonseca e podiam me atacar para se vingar de José. O coiteiro chegou à casa de Fonseca, ele havia deixado os animais fora da cidade, para ninguém desconfiar.

Saímos pelos fundos da casa à noite, pegamos os animais e seguimos. Zé Sereno já estava em um local me esperando (...)”.

Ilda Ribeiro de Souza (Sila), relatando os fatos de 1938 após o massacre de Angico. 


Segundo o Advogado Bosco Carvalho, o dentista que tratou Sila foi Dr. Alfredo e segundo Fefi, o delegado Fonseca (mais conhecido em Itabaiana como Fonsequinha) foi indicação de “Dorinha”, ou melhor, Otoniel Dórea. Outro comentário foi feito pelo ilustre Mozart Fonseca. Este jura de pé junto que o tal dentista que tratava cangaceiros era o senhor Antônio Agostinho de Oliveira, seu pai, que na época também era promotor público. Um fato marcante de nossa Itabaiana, esquecido pela cidade e lembrado na memória da já falecida excangaceira e sócia-honorária da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), Ilda Ribeiro de Souza, conhecida como Sila de Zé Sereno. Faleceu em São Paulo no dia 15 de abril de 2005. Ela era natural de Poço Redondo-SE e tinha 80 anos quando foi para o céu dos carneirinhos.

Lampião esteve uma primeira vez no Pinhão, que pertencia a Itabaiana nas décadas de 20/30. Segundo Juarez Conrado (in memoriam), no seu recém lançado “Lampião: Assaltos e Mortes em Sergipe”, ele fala no capítulo 11 que “(...) Lampião esteve a 22 de abril de 1929 no lugarejo Pinhão, onde, embora não cometendo qualquer atrocidade, em companhia de Ponto Fino, Moderno, Corisco, Luis Pedro, Mariano, Arvoredo, Volta Seca (Menino), Labareda e Fortaleza, promoveu grande saque”. Um personagem que guardou muito bem esse fato se chama Joãozinho Veneno que foi matéria do jornal Cinform em 06 de maio de 2001 na edição 942. João Batista da Costa, conhecido em Pinhão como Joãozinho de Danona ou Joãozinho Veneno, nascido em 04 de julho de 1914 no povoado Lagoas. Ele foi duas vezes vereador, caminhoneiro e delegado, tudo em Itabaiana. Pelas bandas de Itabaiana ele era conhecido como Joãozinho da Padaria, como relata Fefi e Zé Almeida ao serem perguntados se conheciam o cabra. Falecido em 05 de janeiro de 2007 viveu a vida inteira narrando os fatos da passagem de Lampião por duas vezes no Pinhão. “de dez palavras que falava, ele tinha que pôr Lampião no meio”, relatou Zé Almeida. Um dos fatos mais marcantes, relatado por Joãozinho foi o seguinte: "Na passagem do bando de Lampião em 14 de outubro de 1938, o cangaceiro Zé Sereno matou o soldado José Paes da Costa". Com emoção ele continua seu relato: "Quando chegou a volante, que veio brigar aqui à noite, o Zé Sereno pediu ao soldado José Paes, que era amigo deles, para tirá-los da cidade, porque eles não conheciam muito

bem a região. Zé Paes saiu com os cangaceiros e, mais adiante, depois de tê-lo guiado, sem mais nem menos Zé Sereno atirou nele, pelas costas, na traição. Não tinha motivo, foi só maldade", trechos da matéria do Cinform.


Voltando ao capítulo 11 do livro de Juarez Conrado: “(...) Entre os mais entusiasmado pelo bando destacava-se o garoto Joãozinho, que aliás, fez amizade com o temível Zé Baiano, coisa impensável, em se tratando de um bandido cruel e sanguinário como ele”. Pois é, o livro foi lançado dia 14 de abril de 2011, Joãozinho Veneno não se viu eternizado nas páginas do já falecido jornalista baiano que foi conversar com São Pedro aos 79 anos no dia 25 de outubro de 2011. Tá vendo? Era verdade de Joãozinho, muitos diziam que era lorota.

Mas, não para por aqui as relações de Itabaiana com o cangaço. Agora vamos para Terezinha Teixeira Lobo, filha do ilustre retratista Itabaianense João Teixeira Lobo, o Joãozinho Retratista. Segundo Dona Terezinha: “Papai tinha os negativos fotográficos que ele fez do bando de Lampião. Ele passou a vida inteira contando essa história e mostrando as placas de vidro em contraluz. Ele não os tinha revelado ainda, mas contava que seu Etelvino Mendonça o chamou na época (1929 e eu nem era nascida ainda) para tirar foto dos cangaceiros na fazenda deste. Chegando lá e vendo o bando, papai que não gostava de armas (nunca precisou de uma em toda sua vida), ficou amedrontado. Tanto foi que na hora de se fazer um dos retratos, papai disse ao ver as armas apontadas para ele em pose para a foto, disse: „virem essas armas pra lá, senão não faço a foto‟, o medo das armas apontadas era maior que o temor ao bando naquele instante. Muitos anos depois ele sai de casa novamente para fazer umas fotos das cabeças do bando morto que passaram em cima de um caminhão por „Itabaiana‟. Papai morreu em 1982 e junto com ele uma caixa de madeira contendo esses negativos que sumiram, ninguém sabe onde foi parar”, finaliza pela décima vez dona Terezinha, senhora de boa prosa e feliz de quem tem alguns minutos com ela para um bom papo. Todas as vezes que me conta essa história eu fico pensando “onde estariam os negativos?”. Já sonhei inúmeras vezes com esse achado. Imaginem se achássemos e revelássemos as fotos do nosso Benjamim Abrahão Tupiniquim?! Isso seria o achado fotográfico do século. Outro fator é que, Etelvino pode ter chamado Joãozinho para sua fazenda no Pinhão em 1929, este com 33 anos já e no auge da carreira de fotógrafo. Já em 1938 ele pode ter ido fazer fotografias de Sila, em sua passagem por Itabaiana ou até mesmo ido a Maceió ou Salvador fazer fotografias das cabeças recém arrancadas no fatídico 28 de julho de 1938. Terezinha era uma jovem de apenas oito anos de idade, mas cresceu ouvindo o pai contar essas histórias que foram enterradas pelo tempo.

Por fim, em 2009 em oficina de cinema no Curso e Colégio Alternativo, eu e um grupo de alunos produzimos um stop-motion de doze minutos chamado Lampião em Itabaiana, usando quatro maquetes, 120 bonequinhos de barro e mais de 4000 fotografias para dar movimento a uma fictícia invasão de Lampião à Itabaiana em 1930. O filme está completo no Youtube em duas partes no:
www.youtube.com/roberioxiquita.

Cangaço, tema que nunca se esgota. Seja em livro, filmes, novelas, cordel, prosa popular, músicas, memória, desenhos, cicatrizes, capitalismo, linguagem, roupas, mentiras, piadas, comida, toadas, xilogravuras ou qualquer que seja a forma cultural de se localizar em meio ao cangaço, ele sempre estará presente. Seria assim o nosso bang-bang do Old-West norteamericano. Mas, se for assim, os cangaceiros seriam os índios Pele Vermelha e os mocinhos bonitões que atiram rapidamente sem pestanejar seriam José Osório de Farias, o famoso Zé Rufino e seu bando? Pensando dessa forma, será que Lampião foi bandido ou herói? Eu mesmo não me atrevo a me posicionar, só sei que se Virgulino tivesse vindo para Itabaiana ele teria sim asilo político e ai de quem mexesse com ele, tendo uns cabras valentes (citando Wanderlei da Marcela), como General João Pereira, Otoniel Dórea, Manoel Leite Sampaio, Etelvino Mendonça e o delegado Fonseca. Imagine a cena, um novo bando de cangaceiros seria formado em Itabaiana. Bem, olhando o corpo do texto e relendo, vejo que nada mudou, pois Itabaiana ainda aporta assassinos, desocupados e coisas ruins. Os lampiões existem e os coiteiros mais ainda. Proteção política e assassinatos são o que não falta na nossa Sucupira Sergipana que teima em continuar parada. Hasta luego, fiducansos!

Robério Barreto Santos
É escritor, fotógrafo, professor, cineasta,
jornalista e de vez em quando historiador.
DRT/SE 1539


http://blogdomendesemendes.blogspot.com