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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Raimundo Piancó

       Por: Luza Vilar

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Este é um comentário de Luza Vilar, no dia 29 de dezembro de 2009, Recife-Pe, sobre a foto de Raimundo Piancó, pai de João de Sousa Lima

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Copiei a foto sem  autorização, suponho que guardá-la nos meus arquivos significa pouco se comparado ao tempo em que o trago no meu coração. Sangue do meu sangue, doce lembrança dos velhos tempos em que frequentava a minha casa. Certo que o conheci já bem mais velho, pois em 1940 ainda não era nascida, mas na minha casa relatos do meus antepassados substituiam as novelas da globo que hoje mantém as famílias ocupadas por demais para prosearem com seus membros.

A propósito, certo dia li um artigo sobre uma criança que gostaria de ser uma televisão, pois, dizia ela, só assim todos a escutariam e ela teria prioridade sobre todas as coisas. Muitas vezes, nascer em uma pequenina cidade, onde só tinha energia elétrica de 6 às 10 da noite, nos dá o privilégio de ouvir a palavra dos nossos pais, dos nossos avós, que nos passam suas experiências de vida, seus princípios e seus valores.   Saudades, muitas saudades dos velhos tempos, velhos dias!

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João de Sousa Lima é escritor e pesquisador do cangaço. Autor de 09 livros. Membro da Academia de Letras de Paulo Afonso e da SBEC- Sociedade Brasileira de estudos do Cangaço.

Telefones para contato:
75-8807-4138 - 9101-2501

email:


domingo, 4 de setembro de 2011

AO MEU PAI RAIMUNDO PIANCÓ

Por João de Sousa Lima

 
Sempre vi meu pai como um homem grande, forte, imbatível.
Na minha infância não me lembro de tê-lo visto chorar, nunca, em hipótese alguma, ele era um rochedo inabalável, como se tivesse um coração de pedra.


Na minha inocência um dia perguntei:
- Papai, o senhor não chora?
- Minhas lágrimas ficaram no passado!
A princípio não pude entender a resposta daquele homem trabalhador, de mãos grossas e de veias salientes, semblante sempre sério, de expressivas marcas do tempo no rosto, poucos sorrisos, andar meio pendido para um dos lados, porém extremamente preocupado e carinhoso com os filhos e com os netos.
O tempo passou, cresci e um dia pude compreender as dores que esse homem enigmático carregava no coração e entender por que ele havia deixado suas lágrimas no passado, ele me confidenciou:

João, o irmão amado de meu pai Raimundo Piancó, onde em cuja fotografia  ele escreveu: "MEU INESQUECÍVEL IRMÃO"

- Eu sou o filho mais novo e meu irmão mais velho chamava-se João, tinha o nome igual ao seu, eu fui muito ligado a ele e ele a mim, João tinha um caminhão e como eu vivia sempre ao seu lado, acompanhava ele nas viagens e nos trabalhos, um dia estávamos indo pra Campina Grande, estávamos pertinho de Soledade, próximo ao sítio Corta Dedo, o caminhão, um FORD, teve um problema mecânico e fomos consertá-lo, estávamos consertando o pino do feixe de molas, colocando a trava, estávamos embaixo do carro, com partes dos corpos pra fora, eu  com as pernas pro lado de fora e João com  as pernas embaixo do caminhão e a cabeça pra fora.

 Raimundo Piancó.

Ao longe ouvimos barulho de um outro veículo que se aproximava, o condutor vinha, conhecido como Mané Vermelho, vinha de Princesa Isabel, no caminho havia consumido bebida alcoólica, vinha totalmente  embriagado, o carro desgovernado, não tivemos chances de defesa, um grande barulho de ferragens se retorcendo, madeiras quebrando, gritos, ele nos atropelou, passou por cima de minhas pernas, me arrastei pra ver como estava meu irmão, muito sangue no chão, ele agonizava ferido, não falava nada, só olhava meus olhos.

Papai e o irmão Miguel depois da reforma da Casa Grande.

Tirei uma caixa de fósforo do bolso e acendia os fósforos e colocava na mão dele como era o costume daquele tempo em acender  velas e colocar nas mãos de alguém que estava morrendo. Gastei todo o fósforo, João suspirou e morreu, perdi meu companheiro, meu  amado irmão-amigo, desmaiei, acordei dentro de outro carro, passei seis meses em um leito de um hospital, recuperação lenta e dolorida, perdi parte dos movimentos de  um dos pés, me recuperei dos ferimentos, da dor da perda e das lembranças do meu querido irmão nunca consegui sarar, por noites banhei de lágrimas os lençóis do leito do hospital e de minha cama, trago em minha alma uma dor eterna...

Da esquera para a direita:
O primo Zézé, João de Sousa Lima, Nequinho, Rosália e Beta.

Eu era noivo, acabei o noivado e me preparei pra vingar a morte do meu irmão, antes que acontecesse a vingança, Mané Vermelho morreu em outro acidente, a justiça terá que ser divina...

Saudades da Casa Grande (para meu pai Raimundo José de Lima, em referência a última visita que fizemos ao sótão da casa onde ele foi nascido e criado)

Na década de 80, já rapaz, tive a oportunidade de ir com meu pai e minha irmã Betinha, na casa grande onde ele havia nascido e sido criado, fomos ao sótão e sob as madeiras envelhecidas  do casarão abandonado ele relembrou fatos passados, de como eles haviam quase enchido aquele sótão de café, plantado e colhido na fazenda dos Piancó.

Tio Raimundo e Rosália, sua esposa, segurando o neto Osvalny Lima.

Diante das lembranças ele marejou os olhos, pela primeira vez vi aquele homem forte chorar, quais seriam as lembranças que ele tinha no momento foi um segredo dele, talvez, suposição apenas, tenha lembrado além do café estocado, também dos pais, dos irmãos, dos momentos alegres na comunhão da grande família, dos verdes campos e das colheitas, da fartura, dos pássaros cantando nas relvas circundantes, do cheiro da chuva, dos riachos, dos banhos nas biqueiras, das brincadeiras de crianças, do amado irmão João brincando, ensinando-lhes as coisas da vida, do abraço apertado e da companhia eterna do irmão e da pessoa que ele mais amou na terra.

Minha irmã Betinha, um dos meus anjos de luz na terra.

Betinha com sua sabedoria  interrompeu dizendo:
- É, mais agora o senhor tem os filhos e os netos e todos amam muito o senhor!
Papai retornou das lembranças, passou um lenço no rosto, enxugou as lágrimas e entrou em um silêncio profundo, as conversas continuaram entre umas sete pessoas que se aglomeravam naquele lugar de tantas lembranças e de momentos únicos na vida. Naquele dia compreendi o que era deixar lágrimas no passado e rever as dores que os homens verdadeiros carregam na alma, sentidas nos olhos molhados de um homem que tanto amei.
Seu filho que muitas vezes chorou e ainda quando sente saudades chora, João de Sousa Lima.

Casa grande que saudade
Eu sinto dos velhos tempos
Quando das tuas varandas
Ouvia o clamor dos ventos
Sinto a saudade cravada
Pelas unhas dos pensamentos

Só saudades é o que resta
De um passado vivido
Ainda brilha no pensamento
Aquele velho tempo querido
Onde os mais belos momentos
No teu chão foi percorrido

(Do livro "No Silêncio do Ocaso" de João de Sousa Lima)