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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

LEMUEL RODRIGUES: O SERTANEJO ENTRE O CANGAÇO E A RELIGIOSIDADE


Hoje vamos relembrar na sessão "Do fundo do Baú" , a primeira de todas Conferências já realizadas em nosso Cariri Cangaço, na noite de 23 de setembro de 2009, na abertura da primeira noite do evento, o professor Lemuel Rodrigues; que depois veio a ser presidente da SBEC; nos trouxe o tema: Cangaço e Religiosidade, suscitando deste aquele primeiro momento a verdadeira essência do Cariri Cangaço.  

Personagens como Padre Ibiapina, Antônio Conselheiro, Padre Cícero, Beato Zé Lourenço, Sinhô Pereira e Lampião, desfilam a partir de um estudo lucido e abalizado do professor Lemuel Rodrigues trazendo as repercussões desses personagens e de suas narrativas na vida do sertanejo. Dentro da programação do Cariri Cangaço 2009, na cidade de Crato, na noite de abertura no Teatro Salviano Arraes em mesa que contou ainda com os pesquisadores Ivanildo Silveira, Ângelo Osmiro e Paulo Gastão, segue a grande Conferência de Lemuel Rodrigues . As imagens são de Aderbal Nogueira e sua Laser Video.

Veja na íntegra...


Fonte: You Tube  Canal: Aderbal Nogueira

Palestra do professor Lemuel Rodrigues
Realizada no Cariri Cangaço 2009
Cidade de Crato,CE
23 de Setembro de 2009

CANGAÇO EM POÇO REDONDO A PELEJA DO VAQUEIRO "SANTO" COM O CANGACEIRO CORISCO

Texto de Alcino Alves, transcrito por José Mendes

Disse o escritor Alcino Alves Costa em seu livro “Lampião Além da Versão Mentiras e Mistérios de Angico", que em Poço Redondo, o maior criador de gado era um senhor de nome Manoel do Brejinho. Homem do trabalho, e com isso conseguiu amealhar grandes posses de terras, tornando-se um dos mais ricos da região daquela cidade. Mas o Manoel do Brejinho era filho de Porto da Folha, e todas as suas fazendas eram em terras de Poço Redondo, no Estado de Sergipe. Possuidor de grandes rebanhos de bovinos, caprinos e ovinos. O seu gado era em torno de 4 e 5 mil reses.

O velho caipira não tinha desejos de luxar ou demonstrar ser rico, e nunca desejou ser coronel ou ter outra patente semelhante. O seu desejo era somente permanecer entre as suas fazendas, e cuidando dos seus animais. Não costumava sair para frequentar feiras..., e quando saía a um lugar qualquer, era confundido com qualquer um catingueiro, ninguém o via como um senhor proprietário de grandes fazendas e animais. O portofolhense tinha a fala mansa e arrastada, e suas fazendas eram: Brejinho, Exu, Propriá, Emendadas, Craibeiras, Poço Dantas, São Joaquim, Logrador, Quiribas e Carnes.

Manoel do Brejinho tinha o maior prazer de andar pela caatinga para ver a sua bezerrada engordar, e, além do mais, acompanhar passo a passo o seu crescimento. E ainda andar no pino do meio-dia pastoreando o gado, que procurava uma sombra embaixo das árvores daquelas terras do rio São Francisco. Isto para ele era o mais importante para o seu viver, considerando um paraíso. Mesmo não gozando de certos confortos, para seu Manoel do Brejinho, nada melhor do que viver entre aquela caatinga que o viu nascer. Era um tanto sovina, mas atendia todos os pedidos que lhe faziam os exploradores.

Na sua fazenda “Exu” o vaqueiro era o Santo sendo este filho lá da cidade de Poço Redondo, grande e veterano pelejador de gado, este era casado com uma senhora carinhosamente chamada de Caçula, que era da família dos Santanas. O casal tinha uma numerosa família, os quais eram: Manoel, Daniel, Rosalvo (aqui abro um parêntese para informar ao leitor que o escritor Alcino Alves não diz se este Rosalvo era aquele que acoitou o ex-cangaceiro Juriti em sua casa, e por infelicidade, ele foi capturado em sua residência pelo sargento Deluz, e que o matou em uma fogueira em plena caatinga), Miguel, Pedro, Angelino, Celestina, Maria Mariquinha e Josefina. Angelino e Josefina uma febre que assolou aquele sertão foram vítimas e faleceram.

Diz o escritor Alcino Alves que no ano de 1932, a seca assolou aquela região. Sentindo dificuldade para tanger o barco, isto é, para sustentar a sua família, o “Santo” resolveu pedir aumento ao seu Manoel do Brejinho, alegando que o seu ordenado não estava dando para o sustento de casa. Mas o seu Manoel do Brejinho não cedeu o solicitado, alegando que se ele estava em dificuldade, ele também estava, e assim não poderia lhe ceder um possível aumento.

Santo desgostoso, deixa a fazenda Exu e vai morar na Fazenda Mandaçaia, na intenção de melhorar aquele sofrimento, isto é, talvez achava ele, que o seu ordenado não estava à altura dos seus trabalhos.

Mas infelizmente, o Santo não se deu bem com a sua decisão, deixar a Fazenda Exu do seu Manoel do Brejinho para se  tornar morador da Fazenda Mandaçaia (Lamento, leitor, pois o escritor Alcino Alves não fala quem era o verdadeiro dono da Fazenda Mandaçaia).

Santo está ali, achando ele que estava tudo bem, mas, infelizmente, ele havia feito mal escolha. E meses depois, sem desejar, recebe a visita inesperada do cangaceiro Corisco.

 Subgrupo de Corisco, 1º a esquerda

O bandido que o conhecia desde quando ele morava na Fazenda Exu, ordena que, vá até a casa do seu ex-patrão Manoel do Brejinho levando um bilhete, solicitando uma quantia de três contos de Reis. E sem muita demora, o Santo vai até a casa do ex-patrão com o bilhete.

O seu Manoel não nega a solicitação, e diz ao seu ex-vaqueiro que diga ao cangaceiro Corisco, que no momento não tem, mas irá providenciar a quantia solicitada dentro de oito dias. O prometido não foi com oito dias, mas 10 dias, e que não fez tanta diferença, o cangaceiro Corisco iria receber o valor pedido ao fazendeiro, aliás, a exploração. Santo recebe o valor em sua nova residência, localizada na Fazenda Mandaçaia, e o guarda cuidadosamente, até que o Diabo Loiro apareça.

Na mesma semana, era um sábado, Lampião visita o vaqueiro, e como sabia da solicitação que fizera o Diabo Loiro ao Manoel do Brejinho faz-lhe a seguinte pergunta:

- Santo, o dinheiro que o compadre Corisco pediu ao fazendeiro Manoel do Brejinho já está com você?

Sem puder negar, Santo diz:

- Já, capitão! Estou aguardando a sua presença aqui para ele levá-lo.

Lampião muito esperto, e possivelmente estava precisando de alguns trocados, para comprar alimentos para os seus comandados, diz-lhe:

- Este dinheiro é para ser entregue a mim, Santo.

Sem outra solução, e também não iria desobedecer a ordem do capitão, vai lá dentro da casa e traz a quantia, entregando-a ao famoso Lampião.

O rei a recebe, guarda-a em seu embornal, e, em seguida, faz outro bilhete, endereçado ao Manoel do Brejinho, pedindo-lhe mais três contos de reis, porque o que era para o compadre Corisco ele precisara, e que o fazendeiro não se aborrecesse, que com certeza, um dia qualquer seria recompensado.

Mesmo aperreado e resmungando, e sem outra alternativa, o velho caipira vende mais alguns bois, e uma semana depois, a outra quantia, desta vez, solicitada pelo capitão Lampião, chega às mãos do vaqueiro Santo em sua residência Fazenda Mandaçaia.

Mas o pobre vaqueiro não estava com sorte. Misteriosamente dois sargentos, o Ernani e Amintas que trabalhavam no destacamento de Poço Redondo, tomaram conhecimento do envio deste dinheiro para o Diabo Loiro, pelo o Manoel do Brejinho. E astuciosos, intimaram o vaqueiro para suas devidas explicações sobre este envio de dinheiro.

Santo que era um homem honesto e que nunca havia sido intimimado para nenhuma explicação na vida, sentira-se desonrado. Sem outro meio de escapar desta intimação, foi atender ao pedido dos espertos sargentos, e lá, foi logo trancafiado, e todas as perguntas que os patenteados lhe fizeram, não obtiveram respostas. A causa, vingança, por ter sido decepcionado, coisa que nunca havia lhe acontecido, ser chamado aos pés de uma autoridade. Santo foi solto no cair da tarde, mas numa condição, avisar ao destacamento quando os cangaceiros aparecessem em sua casa.

Santo ficou triste, como se estivesse depressivo, não queria mais se alimentar, o jantar que a dona Caçula preparara, não foi usado por ele. Deita-se e quer ficar sozinho, imaginando a grande desonra que ora ganhara. Não imaginava ele qual a verdadeira desgraça que o esperava.

O cantar do galo está próximo, e alguém o chama:

- Santo! Santo! Abra a janela! Sou eu, Corisco, vim apanhar o dinheiro, não precisa acender candeeiro não, estamos com pressa e já vamos.

O vaqueiro estranhou aquela voz, achando que não era a voz do Corisco, mas melhor entregar aquele maldito dinheiro, do que partir para uma discussão. Santo jamais poderia imaginar que aquela voz não fosse de cangaceiro algum, mas a do sargento Ernani que estava acompanhado do outro que juntos, queriam roubar o dinheiro do cangaceiro Corisco. Santo estava condenado, poderia ser justiçado injustamente por policiais ou cangaceiros.

Uma semana depois o cangaceiro Corisco visita a cidade de Poço Redondo, e de lá, sai bêbado, levando preso, sobre ordens, um jovem chamado “Airton” um rapaz filho de um senhor chamado “Horácio”. O destino do Diabo Loiro seria a Fazenda Mandaçaia, lugar onde está o vaqueiro Santo, e que é lá, que ele deveria receber o envio da quantia, mandada pelo Manoel do Brejinho, mas desta vez, solicitada pelo capitão Lampião.

O dia amanheceu claro, alegre e simpático. Santo já estava na roça cuidando das suas obrigações, acompanhado de alguns amigos. Lá da roça, ele ver os cangaceiros chegarem em sua casa, seu coração fica agitado, como se estivesse lhe avisando algo ruim. Estava com medo, mas o que fazer?

Santo diz aos amigos que temia algo que pudesse acontecer naquele momento. Os amigos o aconselharam para não ir até a sua casa. Mas ele pensava na sua família, pois os cangaceiros poderiam fazer algo contra ela. Jamais deixaria sua esposa e filhos sozinhos no meio daqueles delinquentes. Se algum deles morressem causados pelos cangaceiros, possivelmente ele queria ser vítima também. Afinal, era pai e esposo daquela gente.

Assim que chegou, deu bom dia a todos os cangaceiros que ali estavam.

Corisco respondeu o cumprimento e perguntou:

- Cadê o dinheiro? Vim buscá-lo!

Santo fica apavorado com o que estava ouvindo, dito pela boca do Diabo Loiro, respondendo-lhe:

- Ôxente! Eu lhe entreguei na semana passada? Naquela noite?

Na verdade, Santo enganadamente, havia entregue aos sargentos a quantia de dinheiro que o Manoel do Brejinho enviara para Corisco, mas desta vez, solicitada pelo então capitão Lampião, porque a primeira quantia, fora Lampião que ficara com ela. E a segunda, fora roubada pelos dois sargentos que se passaram por Corisco.

Ouvindo isso do Santo Corisco ainda bêbado, achou que o vaqueiro estava querendo lhe enganar.

Agora Santo irá morrer.

O cangaceiro Diabo Loiro ficou louco, e logo apontou a sua arma para Santo, e não pensou duas vezes. Infelizmente, o Santo caiu morto, a bala estraçalhou a cabeça do coitado catingueiro.

 

Foi-se mais a vida de um um homem honrado por assassinato. Um bom pai, um bom marido, um bom trabalhador. Os filhos e a dona Caçula viram seu pai e esposo ser assassinado, por um delinquente que não tinha dó de ninguém.

Fonte:“Lampião Além da Versão Mentiras e Mistérios de Angico”.
Páginas: 145, 146, 147 e 148.
Autor: Alcino Alves Costa

Pescado em Minhas Fantásticas Histórias

blogdo Kikop Monteiro = http://lampiaoaceso.blogspot.com/



SANTANA E SUA FEIRA

Clerisvaldo B. Chagas, 24 de janeiro de 2020
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.252

Continua se segurando a Feira da Agricultura Familiar em Santana do Ipanema. São dois anos da feirinha realizada as sextas, um dia antes da tradicional feira livre da cidade. Idealizada para incentivar a agricultura de roça e assentamentos, o comércio leva aos clientes produtos de qualidade e vai ganhando a preferência dos que procuram opção segura na alimentação. Desde o início o evento das sextas foi apontado para funcionar à Avenida Arsênio Moreira vizinha a Caixa Econômica Federal. Hortaliças, legumes, frutas, pequenos animais, artesanato e demais produtos fazem parte daquele comércio com suas barracas padronizadas. Chama atenção até para os menos exigentes, a limpeza dos pontos de vendas e os arredores. Um contraste com a do sábado.
FEIRINHA EM SANTANA (FOTO: B.CHAGAS/ARQUIVO).

O movimento das feirinhas é organizado no estado inteiro. Em centros maiores, como a capital, existe a mudança de lugares para prestigiar outros bairros, mas sempre acontecendo com a mesma qualidade dentro de Alagoas.  Além de o cliente levar produto  superior, o incentivo à agricultura de roça gera mais emprego e melhora a economia das famílias envolvidas no projeto. A exemplo dos programas de criação de galinha caipira, abelhas, caprinos e ovinos, o semiárido vai gerando renda e melhorando significativamente o antigo cenário sem expectativa. As vendas para as escolas do governo também têm assegurado o ânimo da agricultura familiar, principalmente quando o pagamento é feito em dia.
Na última vez em que estive na feirinha de Santana do Ipanema, até sanfoneiro animava o ambiente. Sim senhor, sanfona, triângulo e zabumba. O evento semanal tornou-se até ponto de encontro mesmo dos que nada vão comprar. Saí de banca em banca igual a conferente, vendo produtos que há muito não via no mercado. Banha de porco, doces caseiros feitos nos sítios, guloseimas de goma e até garrafinhas de mel de abelha italiana. Diante de uma banca com artesanato de metal deparei-me com o famoso artesão Roninho. Ganhei na hora uma peça bonita e pesada como cortesia.
Viva o homem do campo que produz a nossa alimentação.
Parabéns à Feirinha pelos dois anos de existência.

http://clerisvaldobchagas.blogspot.com/2020/01/santana-e-sua-feira.html

NOTA DE PESAR!


Por Relembrando Mossoró

É com tristeza que comunico o falecimento de Francisco Antônio de Oliveira, 83 anos, conhecido como Veinho, acontecido ontem, as 23H, no HRTM, onde o mesmo estava internado com problemas cardíacos.

Veinho, ex-músico percussionista da Banda Municipal Artur Paraguai, integrou a Banda por mais de 3 décadas. Se distinguia por ser muito alegre e simpático. 

Que Deus o tenha!


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HISTORIADOR FREDERICO PERNAMBUCANO E MANOEL LUÍZ BEZERRA, CASTRADA POR UM CANGACEIRO EM BUIQUE.


Material do acervo do pesquisador José João Souza

O dia 19 de maio de 1936, uma terça-feira, poderia ter sido igual a todos os outros no povoado do Morro Redondo, distrito de Catimbau, do município do Buíque, Pernambuco, com a população - toda ela conhecida entre si, quando não aparentada ou unida pelo compadrio - entregue às tarefas cotidianas da vaqueirice e do trato do algodão e da mamona. Pelas duas horas da tarde, quase todos já tinham almoçado, o silêncio é quebrado desde longe por aboios e rinchos de jumento, num crescendo de tropel de cavalos em disparada. Todos atribuem a aproximação rápida a vaqueiros, com seus chapelões de couro, e se tranquilizam, ainda que curiosos por tanto barulho tão de repente.

Logo os fatos iriam mostrar que estavam enganados, que não se tratava de vaqueiros farreando alegremente e que o lugarejo humilde, arredado do mundo e até mesmo das trilhas do cangaço, estava sendo ocupado por uma das frações mais brutais do bando de Lampião, comandada pelo cunhado do chefe, o não menos famoso cangaceiro Virgínio Fortunato, o Moderno. Com dez pessoas, oito homens e duas mulheres, todos a cavalo - o que denotava estarem seguros da ausência da polícia -, deslocavam-se divididos taticamente em três grupos separados entre si por cerca de quinhentos metros. No "coice", apenas o chefe Virgínio, em companhia das mulheres, inclusive a sua própria, a bela Durvalina Gomes, a Durvinha, a quem a cabroeira tratava por Maria Bonita para disseminar o pavor de que Lampião, em pessoa, estivesse por perto, e mais Rosalina, a Doninha, mulher do cabra Rio Branco. O cangaceiro Moreno, de coragem comprovada, lugar-tenente do chefe, fazia a "cabeceira" ou vanguarda com mais dois cabras. Todos tinham se juntado momentaneamente para a tropeada em direção ao Morro Redondo, cientes de que surpresa e pavor eliminam reações. Ali estavam, além de chefe e lugar-tenente, os cangaceiros Chumbinho, Jararaca, Ponto Fino, Serra de Fogo, Canário e Rio Branco. No mato, à espreita para possível ação de "retaguarda", o cabra Azulão.

As missões de rapina, chamadas pelos cangaceiros de "volantes", para mexer com os policiais que denominavam assim as suas tropas móveis, não eram incursões aleatórias. Algum planejamento as antecedia, assuntando-se sobre a abertura dos caminhos, locais sujeitos a tocaia, presença de força policial próxima e, sobretudo, o levantamento dos ricos da terra. Não foi surpresa que entrassem na rua trazendo preso, montado em um cavalo, o capitalista do lugar, Firmino Cavalcanti, mais conhecido como Firmino de Salvador, dominado, com o irmão, o velho Epifânio, em seu sítio de nome Breu, um centro algo próspero de agricultura e de compra de couros e cereais. Muito ao estilo do bando de Lampião, vinham presos a resgate, cumprindo às famílias, além de levantar o dinheiro, arranjar um "positivo" de coragem que viajasse até encontrar o grupo e resgatar a vítima. Uma dificuldade, se considerarmos, além de tudo, que esse resgate não era menor do que a quarta parte do valor de um automóvel à época, podendo ir, em alguns casos, ao dobro de tal valor. O equivalente a dois carros pela vida de fazendeiro próspero foi moeda comum no sertão dos anos 20 e 30 do século passado. No tempo de Lampião.

Os bandidos, ágeis, saltam dos cavalos e vão ganhando as casas a chicotear a todos pela frente, aqui e acolá brandindo o coice dos fuzis sobre os mais apavorados, lançando ameaças, nivelando a população pelas denominações comuns de "fi' da peste", "fi' d'ua égua", "cão", "amancebado", "descarado", ditas em altas vozes. O cangaceiro Serra de Fogo impressiona por gritar a cada instante: "Veja logo o dinheiro pr'eu não ser mais ruim do que já sou!" Outra marca negativa vem das mulheres cangaceiras, que não poupam os chicotes no rosto e no lombo dos mais próximos, numa ação de gênero de todo incomum nos sertões.

O chefe Virgínio, faiscando de ouro sobre o traje colorido e imponente, se exalta por não encontrar em casa o filho do prisioneiro Firmino, a quem incumbiria, no plano traçado, ir ao Buíque levantar o dinheiro do resgate. O jovem Pedro de Albuquerque Cavalcanti se achava no mato, "dando campo", no traquejo do gado da família. No bando havia dez anos, desde que enviuvara de uma irmã de Lampião morta pela peste bubônica no Juazeiro do padre Cícero, Virgínio desce do burro e entra na casa de Pedrinho Salvador - como era conhecido - advertindo a mulher deste, dona Ester, com palavras graves. Botando os olhos muito vermelhos sobre ela, recomenda que Pedrinho "vá ver o dinheiro no Buíque assim que chegar". E se recosta numa mesa, servindo-se de cerveja quente, cara fechada, importante, consciente de seu poder absoluto. Chumbinho bota a cara bexigosa na janela, avisando o chefe de que as montarias estavam cansadas. Este, numa demonstração de que o absolutismo tinha limite, recomenda cuidado na devolução dos cavalos, "porque tem um que é do coronel Arcelino de Brito".

Saindo à ruazinha de lama, Virgínio divisa entre os curiosos um rapaz alto, magro, 22 anos de idade, caboclo quase índio, a quem se dirige com energia: "Venha cá, cabra! Se correr, morre!" O jovem, que jamais vira um cangaceiro em sua frente, se aproxima sem receio, sendo-lhe indagado se era da terra, ao que responde afirmativamente. Segue-se nova pergunta: "Você sabe onde fica o Xilili? Quero que você me bote na estrada que vai pra lá. E vamos logo, cabra!" Para sua surpresa, o jovem - que sabia onde ficava o lugar levado pela ingenuidade põe-se na frente dos animais e responde que ignorava aquele rumo.

O chefe cangaceiro se enfurece, risca o cavalo novo em que se montara e grita não entender como alguém dali não conheça o lugar procurado, próximo de onde se encontravam. Atordoado, o jovem mantém a negativa implausível. E o mundo lhe desaba sobre a cabeça, todo o seu futuro vindo a se definir nos poucos minutos que se seguem. É arrastado pelos cabras para trás de uma cerca, derrubado no chão a coice de fuzil e fica à espera do chefe, numa eternidade de segundos. Virgínio apeia calmamente, calça umas luvas amarelas e vai até às mulheres pedindo que procurassem uma sombra porque tinha que fazer "um serviço". Uma delas lhe atira no rosto sem nenhum respeito: "Que tanto 'serviço' é esse, rapaz! Chega de tanto 'serviço'!".

Sem se alterar, o chefe vai até onde estava o jovem, levanta-o pela abertura da camisa, encara-o, e sentencia com uma dureza de Velho Testamento: "Eu agora vou fazer um 'serviço' em você mode você não deixar descendença de famia em riba do chão. Desça as calças!" O rapaz cobre o rosto e cai, compreendendo finalmente no que se metera. Sai o grito: "Valha-me Nossa Senhora!" E a resposta incrível: "Ah, não tem o que fazer. É Nossa Senhora mesmo que está mandando". O punhal longo corre rápido pela virilha da vítima e estoura o cinturão com movimento de alavanca. Calças arriadas, Virgínio ordena: "Segure [os testículos] senão eu toro com tudo [com o pênis]". Embainha o punhal de quatro palmos e dois dedos - seria perdido horas depois e recolhido à delegacia do Buíque - e bate mão de uma "peixeira", faca ainda pouco conhecida no sertão à época. Um golpe só e o bandido tem nas mãos bolsa e testículos do jovem. Caminha, ainda lentamente, reingressa no arruado e chega à porta de dona Ester, com as mãos em concha ensanguentadas, e diz, educadamente: "Dona, eu tinha visto que a senhora tava com feijão no fogo. Quer os colhões de um porco?" E despeja tudo na panela de barro, sem esperar resposta. O feijão espuma. A mulher agradece. Virgínio sai e vai juntar-se aos companheiros. Risadagem. De cima do cavalo, dirige-se ao jovem caído, a perder muito sangue, e receita exatamente a assepsia eficaz da vaqueirice: "Bote sal, cinza e pimenta!".

O lugar-tenente Moreno volta da rua, onde se detivera a ameaçar com o mesmo "serviço" ao também jovem Antônio Leite Cavalcanti, o Antônio Grosso, e ao prisioneiro Epifânio que, velho e desiludido do futuro, reage duramente ao bandido, caindo-lhe na admiração. Moreno grita na rua: "Oh, veio macho! Ninguém me toca mais num fio de cabelo dessa onça... Só assim eu vou sabendo que muié pariu home no Morro Redondo!".

No dia 25 de maio, vindo de Rio Branco (atual Arcoverde) na segunda classe do trem da Great Western, o jovem Manuel Luís Bezerra, o "Mané Lulu", filho de Francelina e Luís Bezerra, naturais, como o filho, ali mesmo do Catimbau do Buíque, chegava ao Recife, ficando por um mês no Serviço de Pronto-Socorro, após o que voltaria a pé para a sua residência. O Morro Redondo ganhava uma espécie de eunuco.

FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor de Guerreiros do sol violência e banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A Girafa Editora, 2004. O autor agradece à equipe do posto médico do Catimbau do Buíque, Pernambuco, o apoio que lhe permitiu, quando do levantamento dos fatos aqui narrados, fazer a constatação anatômica da lesão sofrida por Manuel Luís Bezerra.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2 nº 13 - Novembro 2004


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REUNIÃO DO GECAPE- GRUPO DE ESTUDOS DO CANGAÇO DE PERNAMBUCO


Por Wasterland Ferreira

No sábado passado (18), durante a reunião do GECAPE- Grupo de Estudos do Cangaço de Pernambuco, tive a grata oportunidade de rever o querido e preclaro amigo Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho, e de finalmente completar meu acervo de livros de sua autoria e que compõem a monumental e importante série literária intitulada "Coleção Pernambuco no Tempo do Cangaço", já com 5 livros publicados.


Como estudioso do Ciclo épico e histórico do Cangaço, estou muito feliz com a deliciosa leitura do livro-monumento Theophanes Ferraz Torres. O centenário da prisão do cangaceiro Antônio Silvino e o júri do século, publicado pela Editora Bagaço, em sua 1a.edição de 2014, com 545 páginas, ilustrado. A obra é um verdadeiro Tratado, e foi escrita em linguagem fácil, com textos absolutamente consubstanciados, seja em depoimentos, transcrição de jornais, relato denso e rico em informações e detalhes históricos - com comprovação rigorosa dos fatos e datas apresentadas ali -, além da consulta a livros biográficos da melhor monta e do uso da gesta sertaneja para enriquecer esse trabalho de fôlego, dentre outras fontes.


Não tenho dúvidas que, tanto este "Theophanes Ferraz Torres"..., quanto à totalidade da Coleção Pernambuco no Tempo do Cangaço, é o que há de melhor na bibliografia especializada do tema estudado, e portanto, o parabenizo Geraldo por tão grande e magistral contribuição a todos nós que estudamos nossa pujante e rica história regional nordestina, para mim a mais importante, abrangente e completa História deste país.

Wasterland Ferreira Leite.
Pesquisador e Presidente do GECAPE- Grupo de Estudos do Cangaço de Pernambuco.


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OS DESPREZÍVEIS DO CANGAÇO POR:JUNIOR ALMEIDA


Existe na vasta literatura cangaceira centenas de narrativas de passagens sangrentas em solo nordestino. Algumas mortes aconteceram com certo heroísmo, outras por encomenda, algumas por azar e muitas por inveja, cruzetas, ou mesmo por puro e simples fuxico, o mal que assolou o Sertão naqueles tempos, como disse tão bem o mestre Alcino Alves Costa. De certo é que em nossa terra jorrou o sangue de muitos inocentes. 


Muitos homens caíram em desgraça, entrando para o cangaço ou para as volantes, por falta de perspectivas de vida, ou faziam isso ou morriam. Já outros tantos, participavam da luta indiretamente e lucravam muito com as desgraças alheias. Lampião, como ele mesmo disse em Juazeiro do Padre Cícero em 1926, era um pé de dinheiro. Era bom negociar com o rei de todos os cangaceiros. Ele comprava em quantidade e pagava muito bem o que comprava. Muito enriqueceram às suas custas.

Se um coiteiro ganhasse a confiança do “Rei Vesgo”, estava feito na vida. Além de faturar alto com isso, financeiramente falando, tinha a vantagem de ninguém se atrever mexer com ele, e não era difícil, por exemplo, que comprasse uma propriedade por muito menos do que ela valia, só por ser amigo de Lampião. Quem danado queria se indispor com Virgulino ou um protegido seu?

Virgulino Ferreira da Silva em foto de 1926 e Juazeiro do Norte

O cangaceiro mor era leal a quem o servia com a mesma lealdade, e de sua maneira, tratava bem seus colaboradores. Esses por sua vez, não tinham qualquer tipo de escrúpulos para que tão vantajosa relação fosse mantida. Valia tudo. Foram dezenas, centenas de servos de Lampião durante o seu reinado e para esses, o que valia era o dinheiro e outras vantagens que Virgulino podia lhes proporcionar, não importando laços de amizade ou sangue, se muitas pessoas ficariam na orfandade por conta de seus atos ou mesmo que sofrimentos sem fim seriam vitimados vários desditos, por conta de determinada atitude covarde e muitas vezes mentirosa do coiteiro caluniador ou do simples adulador de bandidos.

Quem mais sofria era quem não tinha um lado na peleja, o roceiro simples, o cidadão de bem. Envolvido com as partes, ninguém era santo, isso é certo. Foram muitos cangaceiros e volantes sanguinários. Pessoas que nem sei se pode-se chamar de gente, pois eram feras humanas, carniceiros da pior qualidade. Gato, Moreno, Zé Baiano, Corisco ou o próprio Lampião, dentre outros, estão nessa lista, pois foram tudo de ruim já descrito pela história, mas algumas pessoas daquela época foram até piores mesmo sem estarem presentes no campo de luta, pois com seus atos foram responsáveis por grandes atrocidades.

Os casos são muitos, os personagens mais ainda, mas particularmente destaco três que são símbolos do que pior pode existir no ser humano e do que existiu na triste história do cangaço. São na minha opinião seres desprezíveis do cangaço.

Joca Bernardo

Joca Bernardo, essa ignóbil criatura é foi uma dessas pessoas que infelizmente a história tem que registrar. Invejoso, cruzeteiro, mentiroso e extremamente covarde. Por conta de sua aversão aos cangaceiros, por ser corneado por um, o cabra Jacaré, do bando de Corisco, Joca decidiu procurar o sargento Aniceto, e delatou quem sabia onde Lampião com seu bando estavam acoitados. Por conta do seu fuxico morreram doze em Angicos, e para piorar, esse cabra ainda mentiu para Corisco, para que esse cometesse mais uma barbaridade, matando mais seis pessoas da Família Ventura. Ou seja: Joca Bernardo foi o responsável direto por 18 mortes, sendo seis inocentes, que nada deviam a cangaceiros ou volantes. Dizem que em Piranhas morreu no desprezo, que quando passava na rua, as pessoas davam-lhe as costas.


Horácio Grande, ou Horácio Novaes foi outro bandido de atitudes bem reprováveis. Ladrão, covarde e mentiroso, esse ser que não se sabe se tinha alguma virtude, além de ter roubado a tropa de burros da honrada família Gilo, se sentiu ofendido em ser pego com a boca na botija e ser desmoralizado por ser ladrão. Quis se vingar dos Gilos, numa total inversão de papéis, como se a honrada família fosse a errada da história. Na primeira investida se deu mal, pois perdeu um companheiro de empreitada, o cabra Brasa Viva, e ainda levou um tiro no saco, que quase lhe capa. Não desistindo de seu intento, Horácio Grande se aliou a Lampião e o envenenou contra a família do Sítio Tapera em Floresta. O cangaceiro tão esperto caiu nas mentiras do sicário florestano, e em agosto de 1926 com cerca de cem homens cometeu uma das maiores atrocidades que se tem conhecimento em sua vasta história de crimes. Por conta da sórdida atitude de Horácio Grande morreram treze pessoas da família e mais um soldado que veio em socorro dos desafortunados Gilos.

Outro personagem de triste memória também tem seu nome ligado à hecatombe da Tapera em Floresta. Antônio Muniz de Farias, oficial da polícia pernambucana, que teoricamente deveria dar segurança aos cidadãos de Floresta e região, foi também responsável pela morte da Família Gilo e um dos seus comandados, mesmo sem ter apertado o gatilho. O capitão Muniz Farias tinha dado a sua garantia aos Gilos que se Lampião fosse atacar a Tapera, ele mesmo iria com seu efetivo do quartel em Floresta, para acudi-los. Balela. Em cerca de dez horas de tiroteio o covarde oficial não só deixou de cumprir com a palavra empenhada, como proibiu seus comandados de agirem. Só o destemido Manoel Neto, num ato de insubordinação foi em auxílio do Gilos, perdendo com isso um soldado. 

Manoel Severo e o autor, Junior Almeida

Conta-se em Floresta, que o portador do pedido de socorro no quartel argumentava com água nos olhos que o oficial tinha dado a sua palavra, por tanto deveria Muniz, como homem que acreditavam que fosse, deveria cumprir.


Antônio Muniz Farias com esse ato de extrema covardia apagou da sua história qualquer ato de bravura que tenha feito e manchou de forma vergonhosa o nome da corporação. Sicários da pior espécie existiram muitos, mas um covarde como esse, que se escondia atrás da farda e foi responsável pela perda de 14 vidas, é um dos piores.

Junior Almeida, pesquisador e escritor
Conselheiro Cariri Cangaço
Capoeiras-Pernambuco

MAGÉRBIO DE LUCENA E O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ


Mossoró, a capital do oeste potiguar, ficou famosa a partir da literatura do cangaço, como a única cidade que resistiu e rechaçou o bando de Lampião; apesar de Uiraúna na Paraíba e Ipueira dos Xavier em Pernambuco haverem realizado façanhas semelhantes; polêmicas a parte hoje vamos relembrar na sessão "Do fundo do Baú" , uma das lendárias Conferências realizadas em nosso Cariri Cangaço, desta vez com o médico, pesquisador e escritor Magérbio de Lucena; autor ao lado de Hilário Lucetti do festejado "Estado Maior do Cangaço". Dentro da programação do Cariri Cangaço 2009, na cidade de Barbalha no Teatro Nelory Figueira, Magérgio traça as principais linhas do famoso episódio de ataque à cidade de Mossoró pelo bando de Lampião. As imagens são de Aderbal Nogueira e sua Laser Video.

Veja na íntegra a Conferência de 
Magérbio de Lucena


Fonte: You Tube Canal: Aderbal Nogueira

Palestra do Dr Magérbio de Lucena
Realizada no Cariri Cangaço 2009
Cidade de Barbalha,CE
26 de Setembro de 2009