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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O TREM DA PALMEIRA

Clerisvaldo B. Chagas, 7 de agosto de 2019
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.158

        Quem trafega pela BR-316, sobe o cuscuz sobre a antiga linha férrea de Palmeira dos Índios. Quem conhece a história lança de cima do viaduto, um olhar comprido para as terras planas Palmeira – Arapiraca e vê. Ver na mente um trem deslizando pelas planuras em busca do São Francisco, em busca do Porto Real de Colégio. Época de ouro em que os trens cortavam o vale do Paraíba do Meio, levando progresso entre os verdes canaviais. Cavaleiros do Sertão galopando até Viçosa em procura do cavalo de ferro no complemento da jornada a Maceió. A ansiedade do povo palmeirense no avanço da linha até Quebrangulo, descendo as montanhas até o centro da cidade. Uma festa e tanto a chegada do trem em Palmeira dos Índios.

ANTIGA ESTAÇÃO. (FOTO: CRISTIANO SOARES)
        
          Mas a programação anterior modificada não permitiu sua reta para o Sertão. E a Maria Fumaça quebrou de banda levando rolos de fumo pelo Agreste procurando o “Velho Chico”. Mais uma frustração para o Sertão velho de guerra que deixara escapar o miolo do progresso. Conforma-se em agarrar a rebarba ferroviária. Vem de caminhão a Palmeira e embarca no trem para Maceió. Para quem não tinha nada, qualquer coisa serve. Mas a política do não ao ferro e sim à borracha, também traz a grande decepção para o Agreste. Palmeira dos Índios não dispõe mais do trem. Fica a Maria Fumaça aprisionada em logradouro público, como peça de museu. O trem engolira o caminhão; o ônibus engoliu o trem; as vans engoliram os ônibus.
          E o trem de Palmeira dos Índios entra nos romances dos escritores palmeirenses Luis B. Torres, Adalberon Cavalcante Lins, Graciliano Ramos e do santanense Clerisvaldo B. Chagas. A estação, merecidamente transforma-se em Biblioteca Pública. Imagens de pessoas ilustres ocupam as paredes em forma de desenhos e... Quem sabe, se as estantes da casa de cultura não guardam boas histórias do trem de Palmeira dos índios!
          Trazemos o sonho de volta ao cuscuz, ao viaduto da via férrea, onde que manda agora são as voltas e os chiados dos pneus.
          Quem engolirá as vans?
          Diz o sertanejo: Para frente é que se anda.


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O SERTÃO É POESIA

*Rangel Alves da Costa

Ou a cegueira ou insensibilidade para não se encantar com os retratos que o sertão oferece. É bonito, é lindo demais!
Ou a indiferença ou a apatia para que os olhos não brilhem e o coração não se alegre perante os adornos sertanejos que se espalham por todo lugar. É belo, é cativante demais!
No sertão, creia seu moço, tudo é lindo, tudo é belo, tudo é poético, tudo é maravilhoso. E mais, e muito mais!
Ao caminhar pelas estradas de chão, basta olhar mais abaixo, nos beirais do caminho, para avistar a flor e o fruto da jurubeba.
Quem não despertará sentimentos diante daquelas cores amareladas, alaranjadas, avermelhadas? Olhares, admirações, contemplações. Poesia...
Pela mesma estrada, já no sombreado da noite ou logo ao primeiro alvorecer, possível será encontrar a flor do mandacaru ainda em pleno viver.
Infelizmente, como numa metáfora da vida humana, dura apenas um passar de horas a bela flor do mandacaru. Nasce e logo morre a bela flor do mandacaru.
Nasce a mais bela flor e começa a definhar logo à luz da manhã. O fruto vermelho-vinhático do mandacaru igualmente oferece uma encantadora visão.
E logo há de se indagar: por que um fruto tão belo e tão vivo nascido na magrez do cacto e ao lado de espinhos pontudos e vorazes?
E passa uma avoante. Um pássaro tem-tem anuncia a chegada de alguém naquelas distâncias matutas. Uma rolinha fago-pagô procura seu ninho. Estará bem ali!


Um pássaro quero-quero diz do seu desejo de um sertão chuvoso e com fartura. Nas folhagens esvoaçando, a dita do tempo se virá chuva ou não. O sertanejo conhece tudo isso.
Os pios de vez em quando surgem nos escondidos dos ninhos nas catingueiras. O calango sobre na pedra quente e começa a balançar a cabeça. Acredita, não acredita...
Uma pedra no meio do tempo, tão velha como a própria história, repousa paciente debaixo do sol. E chama todo andante a um proseado:
“Parece tudo calado, sem presença e sem voz, mas nunca há mudez no sertão. Farfalha o que resta de folhagem na mata, cantarola o passarinho ainda existe, a mãe-da-lua passa agourando, carcarás e urubus passam em rasantes em busca de bezerro caído. E eu, apenas uma pedra nem sempre avistada, vivendo para testemunhar o quanto há nestas vastidões sertanejas”.
Há, sim, beleza - e também tristeza - por todo lugar. A cabeça-de-frade, tão terra e tão chão sertanejo, ainda assim maravilha o olhar mais sensível.
A casa velha e abandonada faz a memória rebuscar o passado e o viver de um povo. Ouve-se um mugido. Não, não há gado ali, e então por que aquela voz entristecida de curral?
Ora, o curral vazio está ali, a porteira silenciosa também, e igualmente o mugido distante que ainda ecoa pelos carrascais.
E depois que o sol vai se cansando de tanto queimar, então seu candeeiro vai se apagando em lentidão que é só poesia. Tudo lentamente.
No alto, nos horizontes, o amarelado avermelhando entre as nuvens até a última faísca se apagar. Mas não demora muito e outro luzir ressurge.
A lua chega tão bela e grandiosa como todo luar sertanejo. E por tudo isso agradecer a Deus pelo sertão e por tudo que sobre seu solo sagrado existe, como um manto de sublime beleza, como um véu que clama para ser descortinado do olhar.
E amado. E amado.

Escritor
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GOVERNOS QUEREM PAGAR CABEÇAS DE CANGACEIROS


Por Sálvio Siqueira

O governo, ou governos, pois foram em sete Estados dos nove que compõem a Região Nordeste em que se deu o fenômeno social, principalmente as ações de Lampião, decretaram, deram a liberdade, para que os ESPÓLIOS dos cangaceiros, ou seja, tudo o que era encontrado com eles, em poder deles, no corpo deles fazendo parte da sua tralha de guerra, ficassem de posse daquele que o matasse. Não importando se fosse um militar, um contratado, um 'cachimbo' ou simplesmente um voluntário.

Acreditamos que essa determinação tratou-se de mais um incentivo para que saíssem a cata de bandoleiros dentro da Mata Branca, território difícil, hostil, porém, bastante conhecido pela caterva.

Isso, além de um valor estipulado pela captura ou abatimento de cada bandoleiro estipulado pelo governo baiano.

VEJA A LISTA COM OS VALORES QUE TINHA CADA CANGACEIRO ABAIXO:



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O SAUDOSO COMBATENTE AO BANDITISMO RURAL TENENTE JOÃO GOMES DE LIRA


Por Sálvio Siqueira

A história cangaceira foi vivida por várias personagens. Dentre estas tivemos aquelas que praticaram o crime, aquelas que formaram frente contra aos criminosos, aquelas que serviam de colaboradores para um e outro lado e as pobres e inocentes vítimas.

Destaca-se bastante a narração literária e oral, principalmente no cangaço implantado por Virgolino (Ferreira), o chefe cangaceiro alcunhado de Lampião, o famoso “Rei dos Cangaceiros”, quanto às peripécias realizadas pelo próprio e por seus ‘meninos’, esquecendo em parte, ou às vezes em um todo, de darem as devidas atenções, o devido valor histórico merecido àqueles que enfrentaram de peito aberto dentro da Mata Branca os bandos e, consequentemente, as inocentes vítimas. Vítimas não só das ações cruéis dos cangaceiros, mas, também das atrocidades terríveis causadas por alguns comandantes e/ou membros das volantes em todos os Estados nordestinos por onde se propagou o fenômeno social.

Saibamos um pouco mais quem foi o nazareno tenente João Gomes de Lira:

“(...) Nesta semana, é a vez de João Gomes de Lira, ex-soldado volante nazareno que combateu o cangaceirismo e o banditismo no sertão.

Filho de Antônio Gomes Jurubeba e Luciana Maria da Conceição, este pernambucano nasceu em 13 de julho de 1913 na Fazenda Jenipapo, distrito de Nazaré do Pico, município de Floresta, no Estado de Pernambuco.

Ingressou na Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) em 16 de julho de 1931 e, aos 17 anos, integrou a força volante que tinha como comandante o coronel Manoel de Souza Neto, que perseguia Virgulino Ferreira da Silva, o temido Lampião, e seus irmãos Antônio e Livino. Na época, seu alistamento foi uma necessidade, pois a região de Floresta estava sendo ameaça pelo bando do Rei do Cangaço, que Lira conheceu antes de virar policial.

Assim que se alistou, o comandante geral da PMPE, Roberto Pessoa, indicou o cabo Lira e os dois soldados Manoel Heráclito da Silva e Francisco Wilson Dourado para acompanharem o então juiz de Direito da Comarca de Inajá, Pedro Malta, que era jurado de morte, para fazer os registros dos candidatos a prefeito e vereadores daquela localidade e permanecer para a eleição e apuração naquela região.

Lira não fez parte do grupo de policiais que matou Lampião, em 28 de julho de 1938, na Grota de Angicos, em Poço Redondo, em Sergipe, porém, participou de confrontos com o temido cangaceiro.

Ao longo da carreira na PMPE, mesmo com pouco estudo, passou pela hierarquia militar, se destacando como soldado, comissário, delegado e, por último, tenente. Com o fim da campanha contra o Cangaço, por muitas vezes, fora ouvido pela imprensa para contar relatos da luta dos seus conterrâneos e, embora o experiente combatente integrasse a força policial pernambucana e estivesse em lados opostos ao Rei do Cangaço, sempre soube reconhecer Lampião como líder nordestino.

Homem de fala mansa e de uma tranquilidade congelante, Lira se aposentou como primeiro-tenente da PMPE, mas antes trabalhou em Recife e em municípios do interior pernambucano. Em um deles, em Carnaíba, foi vereador na década de 1970 e, na ocasião, desmembrou a Câmara Municipal de Vereadores e tornou aquela edilidade independente. Seus filhos Ruberval e Clóvis Lira também foram vereadores na mesma localidade.

Pela Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco e Companhia Editora de Pernambuco, escreveu o livro “Lampião: Memórias de um Soldado de Volante”, fruto de 35 anos de pesquisa. Nele, descreveu, com exatidão e presteza, os lances épicos daquela época, narrando sua vida e suas andanças em busca dos cangaceiros. Para isso, o militar passou dias em frente à máquina de escrever, rebuscando na memória os fragmentos das verdades históricas que ele mesmo ajudou a construir.

Antes de lançar esse livro, um episódio mereceu intervenção do então governador do Estado de Pernambuco, Roberto Magalhães, já que, ao entregar as escritas a um representante de uma instituição pública com titularidades acadêmicas para que houvesse a publicação, Lira teve confiscado todo seu material. Na época, o nazareno fora recebido no Palácio do Governo Estadual e tratado com respeito e honras militares.

Após esse encontro, teve todas as escritas devolvidas e, em seguida, o livro lançado. É considerado referencial para todos os amantes da História do Brasil e, em especial, para os soldados nazarenos.

Tido pela população de Nazaré do Pico como homem de bem, de caráter, sério e batalhador, recebeu condecorações e diversas homenagens, como a do seu Centenário de Nascimento em 2013 e a instalação de um busto na praça do distrito, pois se tornou uma espécie de lenda. A Rodovia PE-329, que liga Carnaíba ao Distrito de Lagoa da Cruz, passando por Quixaba, no sertão do Pajeú, também recebeu seu nome.

Em 1987, Lira voltou para Nazaré do Pico, em Floresta, onde viveu até sua morte em 4 de agosto de 2011, aos 98 anos. Embora tenha falecido no Hospital Militar de Pernambuco por complicações de um edema pulmonar, seu corpo foi sepultado no distrito de Nazaré. O ex-volante era viúvo de Gisélia de Lira, com quem viveu por 60 anos, e deixou 11 dos 12 filhos, além de netos, bisnetos e demais familiares.”


Abaixo veremos um vídeo de produção do pesquisador incansável, daquele que não se mostra a frente da história, pelo contrário, sempre procurou ficar nos bastidores, Aderbal Nogueira.


Ten Joao Gomes de Lira - as primeiras intrigas em Nazaré


Publicado a 15/02/2019

João Gomes fala sobre o ferimento de Livino Ferreira e do casamento de uma prima de Lampião.
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FAZENDA PACHECO - BARRA DO MENDES - BA


Por Aderbal Nogueira

Venho aqui levantar uma polêmica: muitos dizem que Zé Rufino foi covarde pois matou um aleijado, será? Eu discordo, Rufino poupou a vida de Corisco quando podia tê-lo sangrado, poupou também Dadá e não deixou ninguém tocar nela. Se Corisco se entregasse na hora do cerco, Rufino teria garantido sua vida. 


Não estou defendendo Rufino, estou apenas analisando o que realmente aconteceu e acho que muitos conceitos tem que ser revistos. Vocês acham que Dadá teria se encontrado com Rufino anos depois se ela não tivesse a certeza de que o culpado do tiroteio não tivesse sido eles mesmos?


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A HISTORIA DA CANGACEIRA ARISTÉIA - ARISTÉIA CHORA A MORTE DA IRMÃ, A CANGACEIRA ELEONORA - PARTE III



Eleonora vivia com o cangaceiro Serra Branca, que chefiava um grupo de aproximadamente cinco cangaceiros. Grupo esse pouco conhecido por viver sempre escondido nas terras alagoanas. Os cangaceiros desse bando não ganharam destaque em combates, saques e nem crimes, fugindo da realidade do mundo que cercava os caminhos dos cangaceirismo, vida cheia de entrechoques perigosos e violentos.

No dia 20 de fevereiro de 1938, com as rodagens cercadas por policiais, que davam segurança e proteção ao interventor Dr. Osmar Loureiro, de viagem pelos sertões alagoanos, o tenente João Bezerra deixará sua volante nas proximidades do Inhapí, ao cômodo do soldado Juvêncio, totalizando nove homens no grupo, que estavam arranchados perto de uma cacimba.

Os soldados estavam bem á vontade ao redor da cacimba, desarreados dos bornais, chapéus e cartucheiras, estando alguns sem alparcatas.

Com o amanhecer, entre nove dez horas, enquanto Antonio Jacó tirava água do riacho, ele observou um cachorro que se aproximou da cacimba e desconfiou que, pela ornamentada coleira que possuía, só podia ser cachorro de cangaceiro. Os soldados tinha realmente razão, era o grupo de Serra Branca que vinha se aproximando.

O chefe trazia nas costa, uma banda de bode, sendo seguido pela mulher Eleonora e mais dois companheiros, entre eles o Ameaça Antonio Jacó viu quando o soldado Cornélio levantou-se e empunhou o fuzil, se preparando para atirar, enquanto ele ajeitava, na cintura, suas cartucheiras com inte e cinco cartuchos. O tiro zoou, partindo da arma de Cornélio Jacó correu em perseguição aos cangaceiros, sendo acompanhado pelo soldado Zé Gomes. Na frente de Antonio Jacó corria o cangaceiro Serra Branca e na frente tentava fugir Eleonora. Jacó gritou:

- Se vira cabra, pra brigar. Se vira pra brigar! 

( Acompanhem a perseguição sendo relatada pelo próprio Antonio Jacó ):-Eu atirando, atirando e correndo. Aqui e acolá ele ( o cangaceiro ) se virava, dava um tiro e corria. Até que ele se apadrinhou numa catingueira, mas ficou assim meio de fora eu tive a oportunidade de atirar bem nele. A bala pegou assim na altura da pá com as costelas e saiu do outro lado, ele se torceu, jogou a banda de bode prum lado e correu. Ai eu vi que tinha ferido ele, porque das costas saia sangue. Quando ele saiu correndo eu sai na carreira atrás dele de novo. Adiante tinha um riacho, ele pulou embaixo, já com pouca força. O riacho tinha assim um metro e meio de fundura, mais tava seco. Na carreira que eu ia nem deu para parar na ribanceira do riacho. Ele tava com o rifle armado e pronto para atirar e como não deu pra mim parar eu pulei encima dele. Ele assombrou-se com o que viu e ocorreu. Quando ele virou as costas, ai eu aproveitei e pá. Ele caiu debruçado. Mais eu i que ele não tinha morrido. Quando ele caiu, a mulher que ia na frente dele viu que ele não podia mais correr, virou-se abriu os braços. Não sei porque ela abriu os braços assim, porque foi tudo rápido, não deu para pensar em nada. Naquele instante, Zé Baixinho vinha atrás de mim e eu não sabia que ele vinha atrás de mim, acompanhando aquela correria toda. Zé Baixinho que vinha correndo mirou o mosquetão e atirou na mulher de braços abertos e acertou bem no meio da testa. Foi um tiro só. A mulher tombou no chão na mesma hora. 

O soldado Zé Baixinho aproximou-se de Serra Branca. O cangaceiro apesar do tiro que havia tomado, levantou-se e atirou. Zé Baixinho caiu entre os matos. Antonio Jacó atirou no estômago do cangaceiro acabando de mata-lo. Zé Baixinho levantou-se apenas atordoado pelo susto do tiro, sem ser ferido. Antonio Jacó cortou a cabeça do casal, amarrou um crânio no outro pelos cabelos e retomou trazendo os dois troféus, na direção da cacimba, onde estavam arranchados. Na cacimba, Cornélio estava com a cabeça do cangaceiro Ameaça, separada do corpo cortada por facão. O tenente João Bezerra que estava um pouco distante na hora do tiroteio, mas que havia ouvido os tiros, já se encontrava na cacimba quando Antonio Jacó foi avistado seguindo por dentro do riacho, trazendo as cabeças e os pertences dos cangaceiros. Os soldados levantaram as cabeças cortadas mostrando-as aos amigos. Depois de alguns minutos de conversa, diante da observação do tenente João Bezerra, foi que eles foram ver que Antonio Jacó tinha perseguido os cangaceiros, estando descalço, sem camisa e sem chapéu.

Os soldado retornaram pra piranhas, transportando as cabeças. De Piranha foram pra pedra de Delmiro e de lá seguiram pra Santana di Ipanema, onde entregaram as cabeças aos coronéis Zé Lucena e Teodoro de Camargo Nascimento. Os coronéis deram a patente de cabo a Antonio Jacó repassou a patente para o amigo Juvêncio.

Em Santana do Ipanema, os soldados Cornélio, Zé Baixinho, Elias, Octácilio, Zé Gomes e mais alguns companheiros, prestaram contas aos seus superiores hierárquicos, tendo por provas os crânios das vitimas abatidas em combate.

Entre as macambiras espinhentas da caatinga, três corpos alimentavam animais selvagens, enquanto na fazenda Lajeiro do Boi, os pais de Eleonora sofriam a perda de uma filha querida. Aristéia soube através dos coiteiros da morte da irmã e por ela verteu lágrimas sentidas.

O padre Demuriês, que celebrava a missa na região de Mata Grande, Canapí, Inhapí e nas fazendas circunvizinhas, criava em segredo o filho de Eleonora e Serra Branca, um menino chamado Francisco de Sá. Assim que o padre ficou sabendo da morte da amiga cangaceira, convocou alguns fiéis e foi, em segredo, enterrar Eleonora. O padre chegou com facilidade onde estava o corpo, sendo auxiliado por vaqueiros conhecedores da região. No local, o Ministro de Deus encomendou o corpo e o enterrou em côa rasa, aberta na urgente necessidade do momento e coberta por facheiros e macambiras, deixando sepultada uma vitima que antes de tudo fazia parte de sua vida, ficando, por recordação da amiga, um filho deixado por ela.


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APÓLOGO DA LIBERTAÇÃO

Por Francisco de Paula Melo Aguiar

Da libertação...
Enquanto o último
Clarão não se apagar
No final do túnel.

Da libertação...
Do caso ao ocaso
De acabar tudo
para fazer tudo.

Da libertação...
Outra vez
Ainda pior
Só para dizer que fez.

Da libertação...
Onde a emenda
É pior que o soneto
Do homem-só.

Da libertação...
Dos messias de plantão
Ditadores da vontade alheia
Construtores de obra feita.

Da libertação...
Das reformas preconizadas
Maneira sutilmente velada
De tirar direitos.

Da libertação...
Do Executivo arrogante
Preponente, valente
Presente e onisciente.

Da libertação...
Do legislativo judicante
E não adjudicante
Apto ao desmonte.

Da libertação...
Do judiciário judicioso
De joelho sangrando
No julgamento de ação.

Da libertação...
Sonhada por Tiradentes
Ideal republicano
Coisa do povo, pública.

Da libertação...
Da segurança pública
Educação e saúde também
O povo tudo paga e não tem.

Da libertação...
Do meio ambiente
Sistema de ar limpo
Rios e matas viventes.

Da libertação...
Da ignorância popular
Que fecha os olhos
E deixa tudo passar.

Da libertação ...
Do nunca mais
O roubo do erário
E do não se meta.

Da libertação...
Da ave de bico curvo
Que costuma roubar
Sem cessar.

Da libertação...
Do homem de razão
Esse não rouba
Nunca um cobre.

Da libertação...
De não ter vergonha
De ser pobre
Eis a lição.

Da libertação...
Do desemprego estimulado
Mais de 14 milhões
Desempregados sem razão.

Da libertação...
Ter vergonha da opressão
Da falta de casa e de comida
Porque vergonhoso é ser ladrão.

Da libertação...
Da insegurança telefônica
Da rede de boatos
Cada mentira é fato.

Da libertação...
Do foro privilegiado
Onde o povo paga tudo
E ainda é culpado.

Da libertação...
Da propina direta
E indireta também
Não importa aquém.

Da libertação...
Dia e noite da ideologia
Do quero, posso, mando
E desmando da Constituição.

Enviado pelo autor

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DIA DOS PAIS

Por Ivone Boechat 

No desencontro diário, na corrida desenfreada pela sobrevivência, o que poderia substituir o calor doabraço amigo de um pai ?

Quando a humanidade se desorganiza, atônita na fumaça da poluição e na palidez de medos e violências, uma voz se firma no aconchego da prece: seu pai.

Você, papai, não está superado, quadrado, caduco ou fora de moda. Seu Autor o desenhou, detalhadamente, no figurino do Universo para o equilíbrio do Lar.

Pai, você tem sido atacado de todas as maneiras e tem sofrido os dissabores da ingratidão e do abandono. A tecnologia se especializou na guerra contra a família e, muitas vezes, você lutou, quase sozinho, porém os séculos não apagaram seu discurso de amor.

Você ajoelhou-se, diariamente, e clamou por seus filhos. No exemplo, fortaleceu-se como homem correto e jamais se deixou abater nos apertos financeiros. Sempre estendeu a mão amiga nas horas tristes e mesmo não tendo muito para oferecer, deu tudo o que possui.

No seu Dia, receba o sincero reconhecimento por tantas horas de renúncia, de perdão, de afeto. Os filhos crescem para o mundo, todavia, ao seu lado, são crianças frágeis, sem juízo, peraltas. Mesmo discordando de suas idéias, na vaidade de conceitos “atualizados” e modernos, a última palavra é a sua. 

Antigamente, quando pequenos, os meninos olhavam para cima para escutá-lo, e hoje, mais altos do que você, continuam a olhar para cima, porque o exemplo ficou muito acima deles.

Enviado pela autora.

SBEC - SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS DO CANGAÇO

Por Wescley Rodrigues

Caros(as) amigos(as),

Saudações cangaceiras e volantes!

A Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), fundada há 25 anos a partir do idealismo do pesquisador Paulo de Medeiros Gastão, nasceu com o nítido objetivo de lutar pela preservação da memória dos principais acontecimentos constitutivos da nossa história regional, servindo como uma trincheira de resistência aos discursos que minimizam a experiência histórica do povo nordestino, principalmente a história do sertão. A preservação da memória e da identidade nordestina está no bojo e na alma da SBEC.


Nos próximos dias os sócios serão convocados para eleger a sua nova diretoria, responsável por conduzir por um tempo os rumos da nossa Sociedade. Tarefa árdua diante das inúmeras adversidades que se descortinam e que precisam ser vencidas por intermédio de uma reestruturação e volta a fonte essencial que dar sentido a SBEC.

Esse retorno é necessário e urgente. Para isso é preciso avaliar o percurso, rever atitudes, escutar os sócios, convocar novos sócios, e consolidar-se como a Instituição Mãe, pois os estudos sobre o cangaço não estariam na pauta do dia sem os primeiros passos que foram dados pela SBEC e os seus fundadores. Todos os pesquisadores, eventos e grupos que trabalham a temática do cangaço devem muito a “Mãe SBEC”, sendo o Grupo de Estudos do Cangaço da Paraíba, o Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará e o Cariri Cangaço bons frutos que nasceram a partir das sementes lançadas pela SBEC e através do apoio desta.

Os desafios são muitos, o trabalho maior ainda, mas a força de vontade e a esperança de que por meio da união conseguiremos continuar colhendo bons frutos motivam e dão sentido ao que está por vir. Diante disso, como divulgado nas redes sociais, foi formada a Chapa 2, “Chapa Unindo Forças”, que tem a frente como candidato a presidente Lívio Rocha Ferraz e como vice-presidente Wescley Rodrigues Dutra.

De antemão salientamos que o nosso desejo é de contribuir para alavancar a Sociedade, darmos as mãos e reestruturamos o legado do memorável Paulo Gastão e de todos os grandes nomes que nos antecederam. Não pretendemos criar animosidades desnecessárias e maléficas para os objetivos que nos propomos, pois isso não contribuirá nesse processo de resgate dos princípios norteadores da nossa Instituição.

Esse é o momento de somar, ouvir, dialogar, acolher, para que assim possamos construir um projeto duradouro. A presente eleição em nenhum momento pode configurar-se como uma disputa de egos, sendo que, desde já, colocamo-nos a disposição da Chapa 1 composta por Drª. Elane Marques e Drª. Juliana Pereira, caso logrem êxito, como também convidamos essas competentes mulheres para comporem conosco o grupo de reestruturação da SBEC, caso os nossos confrades achem por bem conduzir-nos a presidência.

Diante do posto, criamos algumas diretrizes que buscaremos seguir caso eleitos. Óbvio que são ilustrativas, pois ainda precisamos conversar de forma mais amiúde com os amigos para colhermos ideias, analisarmos críticas e assim construirmos um sólido projeto para a SBEC. Dentre as nossas propostas, eis algumas:

a) Reelaboração do Estatuto da SBEC e registro da Instituição junto aos órgãos oficiais;

b) Recadastramento dos sócios para que possamos saber quem somos e onde estamos, contribuindo para solidificação dos nossos laços;

c) Campanha de integração e associação de novos pesquisadores, artistas, poetas e estudiosos dos temas que versam sobre o Nordeste;

d) Criação da Revista da SBEC, um periódico semestral que viabilizará a divulgação das produções dos associados e colaboradores;

e) Introduzir a SBEC no mundo virtual através da criação do site da SBEC e das contas junto ao Instagram e ao Facebook;

f) Criação da Comissão de Eventos da SBEC;

g) Resgate do tradicional Fórum do Cangaço;

h) Articulação do V Encontro Nacional do Cangaço, importante evento de projeção acadêmica que viabiliza a integração da SBEC com o mundo universitário;

i) Criação da TV SBEC através de um canal no YouTube, onde se poderá postar entrevistas, relatos de viagens, eventos e palestras inerentes as temáticas norteadoras da nossa Sociedade;

j) Criação de Grupos de Estudo do cangaço nos Estados da federação, a exemplo do Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará e do Grupo de Estudos do Cangaço da Paraíba;

k) Criação de Comissões nos Estados com a finalidade de promover palestras e divulgar o cangaço nas escolas;

l) Criação da Circular SBEC, jornal bimestral que divulgará os feitos da SBEC e a produção dos sócios;

m) Visitas e encontros semestrais da diretoria da SBEC com os seus sócios nos vários Estados. Além de ser um encontro de integração, tal evento possibilitará um rico debate sobre o cangaço;

n) Criação anual da Coletânea de artigos dos pesquisadores do cangaço a serem publicados em e-book;

o) Criação do Núcleo para jovens pesquisadores, afim de facilitar o acesso de tais pesquisadores a bibliografia e documentos sobre a temática;

p) Criação de Comissões de Trabalho dentro da SBEC;

q) Criação de um arquivo digital para documentos sobre o cangaço, facilitando o acesso aos pesquisadores como também aos jovens pesquisadores;

r) Integração entre a SBEC e o mundo acadêmico por meio de parcerias para eventos, pesquisas, palestras e viagens técnicas.

Essas são algumas propostas iniciais que não anulam as muitas que ainda queremos receber dos sócios e de toda a comunidade civil para que assim possamos fazer da SBEC uma Sociedade mais sólida e colher bons frutos.

Na certeza de que podemos contar com todos vocês na (re)construção desse sonho, deixamos o nosso fraternal abraço.


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RUÍNAS DA ANTIGA CASA DE LAMPIÃO NO POÇO DO NEGRO.


Por Geraldo Antônio de Souza Júnior



Da antiga casa que no passado pertenceu a família de Lampião no Poço do Negro (Floresta/PE), resta apenas um amontoado de tijolos e pequenos pedaços de telhas, que aos poucos estão desaparecendo devido as intempéries. Em frente às ruínas da casa ainda hoje permanece vivo um velho pé de Umbu-cajá que conta com mais de cem anos e que foi plantado pela família Ferreira, durante o período que ali residiram.

Nesse documentário faremos um passeio pela região e iremos conferir de perto as ruínas da antiga casa de Lampião e ver de perto o centenário pé de Umbu-cajá.

Inscrevam-se no canal. Divulguem a nossa história e cultura.
Geraldo Antônio de Souza Júnior


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DOM PEDRO II É EXPULSO DO BRASIL

Por José Mendes Pereira

Honesto no Brasil tem que ser expulso. 

Só porque Dom Pedro II era honestíssimo foi expulso do seu país para deixar o Congresso Nacional do Brasil correr frouxo. Dom Pedro II passou 49 anos no poder e nunca quis aumento. O seu ordenado era apenas reparado de acordo com a inflação. Veja a seguir que belo texto sobre a partida de Dom Pedro II para Portugal.

15 DE NOVEMBRO DE 1889, A REPÚBLICA NO BRASIL

O EMBARQUE PARA O EXÍLIO
Por Antônio Sérgio Ribeiro

Todos permaneceram o dia 16 detidos no Paço, com soldados com baionetas e cavalarianos cercando o prédio. Ficou acertado que no dia seguinte, domingo, 17/11, por volta das 15 h, D. Pedro II e os demais embarcariam, tendo sido permitido a ele assistir de manhã à missa na Capela do Carmo, vizinha ao palácio. Mas, de madrugada, o Conde d´Eu foi inesperadamente despertado com a chegada do seu ajudante de ordens, o tenente-coronel João Nepomuceno de Medeiros Mallet, acompanhado do brigadeiro José Simeão de Oliveira, que lhe comunicou que o governo provisório temia o derramamento de sangue na partida da família imperial, pois soubera que havia um grupo disposto a provocar atritos quando da saída do monarca. 

Acordado, o Imperador foi informado que deveria se vestir para embarcar. Surpreso e revoltado, disse "que não sairia como um negro fugido...". Mas, por volta das três da manhã, foi escoltado juntamente com a Imperatriz e toda a família, além de alguns amigos, para o Cais Pharoux, bem atrás do Paço Imperial, hoje Praça XV. Somente um coche negro puxado por dois cavalos estava à disposição, onde foram os imperadores e a princesa Isabel; os demais seguiram a pé. Uma lancha do Arsenal de Guerra, tripulada por quatro alunos da Escola Militar, aguardava-os, sendo transportados para o pequeno cruzador Parnaíba, apelidado de "gazela do mar", fundeado na Baía da Guanabara, próximo à Ilha Fiscal. 

Às 10 horas da manhã chegaram os três jovens príncipes, Pedro de 14 anos, Luiz de 11 anos, e Antônio de 8 anos, que se encontravam em Petrópolis, acompanhados pelo seu preceptor, o Barão de Ramiz Galvão, e do engenheiro André Rebouças, amigo da família imperial, que havia subido a serra especialmente para trazer os filhos da Redentora e do Conde D´eu. A bordo, profundamente abalada, estava a Imperatriz D. Thereza Christina, que muito chorava; não menos comovida estava a Princesa Isabel, mas aliviada com a chegada dos seus filhos. 

O segundo decreto assinado por Deodoro concedia ao Imperador deposto uma soma de dinheiro para sua viagem à Europa. O tenente Jerônimo Teixeira França foi incumbido de levar esse documento do governo provisório a D. Pedro; primeiramente deveria ser entregue no Paço, mas o major Mallet, receando que o imperador pudesse criar algum mal estar no momento, não deixou entregá-lo, o que foi feito somente a bordo do Parnaíba. Mas ele recusaria por mais de uma vez a oferta monetária. Entre os poucos amigos que foram se despedir de D. Pedro II, estava o velho almirante Joaquim Marques Lisboa, o marquês de Tamandaré. 

Ao meio-dia de 17 de novembro de 1889, a embarcação sob o comando do capitão-de-fragata José Carlos Palmeira, levantou ferros e partiu em direção à Ilha Grande para encontrar o paquete Alagoas, da Companhia Brasileira de Navegação a Vapor, o mais novo e moderno navio de passageiros da marinha mercante do Brasil, que fora requisitado pelo governo republicano, para levar a realeza destronada para o exílio na Europa, e o seu pequeno séquito. Além dos membros da família imperial, de André Rebouças, viajaram o barão e baronesa de Loreto, Franklin Américo de Meneses Dória, e a sua esposa Maria Amanda Lustosa Paranaguá; o marquês e a marquesa de Muritiba, Manuel José Vieira Tosta e sua esposa Maria José Velho de Avelar, amiga e dama da princesa Isabel; a octogenária viscondessa de Fonseca Costa, Josefina de Fonseca Costa, dama da Imperatriz por mais de 40 anos; o professor de línguas orientais dr. Cristian F. Seybold; o médico do imperador Claudio Velho de Motta Maia, conde Motta Maia, e seu filho Manoel Augusto, de 14 anos; as criadas da imperatriz Joana de Alcântara, Leonídia L. Esposel, Ludomilla de Santa Mora, Maria da Gloria e Julieta Alves; o criado do príncipe D. Pedro Augusto François N. Boucher; os criados dos filhos da princesa Isabel, Eduardo Damer, e Guilherme Wagner Camerloker; o professor dos príncipes mais novos Fritz Stoll, além de Francisco de Lemos Faria Pereira Coutinho, o conde de Aljezur, substituindo o mordomo imperial. O transbordo dos passageiros para o navio Alagoas foi realizado com dificuldades e perigos de um mar agitado, sendo a Imperatriz ajudada por dois marinheiros. 

O novo governo determinou que o encouraçado Riachuelo da Marinha de Guerra, sob o comando do então Capitão-tenente Alexandrino Faria de Alencar (seria ministro da Marinha em três governos da República), fizesse a escolta até a linha do Equador do Alagoas, já fora de águas territoriais brasileiras. Durante a viagem Dom Pedro notou a que a velocidade da embarcação estava muito lenta e indagou ao comandante do navio - português, mas brasileiro por adoção -, João Maria Pessoa, a velocidade do Riachuelo. Foi informado que era de apenas sete ou oito milhas náutica. Apesar de não ser antigo - tinha apenas pouco mais de cinco anos de uso - e D. Pedro II de muita boa memória, sabia que quando foi construído sua velocidade máxima era de 16 milhas. Concluiu-se que a embarcação de guerra estava com problemas mecânicos. Um dia o imperador reclamou ao capitão Pessoa, e apontando ao 1º Tenente João Augusto do Amorim Rangel, oficial da Marinha que estava a bordo para cumprir as determinações das autoridades republicanas, juntamente com seu colega, o 2º Tenente Antônio Barbosa de Magalhães Castro: 

- Diga a esse moço que vem a bordo, que se o Riachuelo é honraria, eu dispenso; se quer dizer receio, eu não quero voltar. O Brasil não me quer, vou-me embora! 

Na altura da Bahia, no dia 22 de novembro, para alívio de todos, e em especial de D. Pedro, o Riachuelo encerrou sua missão, e deu meia volta para dirigir-se a Salvador, e o Alagoas pode então seguir sua longa viagem, em uma velocidade compatível com suas caldeiras. 

Durante a viagem, o jovem príncipe D. Pedro Augusto, neto de D. Pedro II, e por ele criado e pela imperatriz, desde a morte de sua mãe a princesa Leopoldina de Bragança, quando contava com quase cinco anos de idade, começou a dar sinais de debilidade mental. Com mania de perseguição, no seu primeiro surto psicótico, tentou esganar o comandante do navio, a quem acusava de ter recebido dinheiro para eliminar a todos. Contido e confinado em seu camarote, foi acometido de delírios persecutórios, chegando a envolver seu corpo numa boia salva-vidas, temendo que o navio fosse bombardeado. Alternando momentos de excitação e de letargia, Pedro Augusto jogava garrafas ao mar com pedidos de socorro. Pelo menos uma dessas mensagens, foi encontrada na praia de Maragogi, próximo a Maceió, em Alagoas. Posteriormente seu pai, o príncipe austríaco Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota, o internou primeiro em Graz, e depois em um sanatório em Tülln an der Donau, onde permaneceu por quarenta anos, até sua morte em 1934. 

No dia 1º dezembro, houve uma parada para reabastecimento em São Vicente, no arquipélago de Cabo Verde, uma possessão portuguesa, no oceano Atlântico, próxima da costa africana. Os passageiros foram autorizados a descer, e foram visitar alguns pontos da cidade, incluindo uma igreja, onde rezaram. Dessa escala, foi içada na popa do Alagoas uma bandeira imitando o "M" do Código Internacional de Sinais, com o fundo completamente vermelho e sobre filetes brancos as 21 estrelas em filete azul, sendo a estrela do centro maior. Essa bandeira foi entregue em alto mar pelo comandante do Riachuelo ao capitão Pessoa, como símbolo do novo regime brasileiro. A nova bandeira iria causar uma quase crise com Portugal, que determinou a sua retirada por não ser reconhecida de acordo com as normas internacionais. Para evitar maiores problemas, o governo provisório brasileiro determinou que durante a permanência do navio em águas portuguesas não fosse arvorado nenhum pavilhão. 

Quando da partida do Alagoas, o navio da marinha portuguesa Bartolomeu Dias, que estava no porto, deu uma salva de 21 tiros de canhão. Nesse momento, foi içada a bandeira do Império, e todos que estavam a bordo, se levantaram e bateram palmas, alguns emocionados até as lágrimas. Da embarcação lusitana e de alguns navios alemães que ali se encontravam, tripulantes e passageiros sacudiram lenços brancos. No dia seguinte, foi comemorado a bordo o 64º aniversário do Imperador, que ficou muito comovido ao ouvir as palavras de saudação do comandante Pessoa em sua homenagem, quando este ergueu um brinde, ao lado dos presentes. D. Pedro respondeu com palavras trêmulas: 

- Bebo a prosperidade do Brasil! 

Em Portugal 

Em 7 de dezembro, com a bandeira do Império tremulando no mastro, o Alagoas finalmente chegou a Lisboa. D. Pedro foi recebido com honras por seu sobrinho D. Carlos, e toda a corte portuguesa. Permaneceu na capital lusitana por 15 dias. Nesse curto período, visitou o túmulo de seu pai D. Pedro I (D. Pedro IV para os portugueses), na Igreja de São Vicente de Fora, onde rezou, e depositou, no mesmo local, uma coroa de flores no túmulo do Rei Luís, recentemente falecido, tendo participado de uma missa em intenção da alma desse seu sobrinho. Foi a escolas superiores, associações científicas, como o Museu do Carmo, a Escola Politécnica, o Curso Superior de Letras, onde assistiu aulas, o bairro lisboeta da Alfama, o Jardim Zoológico, a Escola Médica, o Hospital São José, a Academia de Ciências, o Mosteiro dos Jerônimos, onde colocou uma coroa no túmulo do poeta e escritor português Alexandre Herculano, e no hotel onde ficou, recebeu algumas visitas. Esteve também nos palácios das Necessidades, residência dos reis de Portugal, e de Queluz, em Sintra. Nesse permaneceu em silêncio por muito tempo, meditando, diante da cama aonde havia falecido seu pai. Esteve ainda na Ajuda, palácio real de verão, e em Belém, residência oficial dos príncipes reais, para retribuir as visitas do Rei e da família real portuguesa fizeram no hotel Bragança, onde estava hospedado com sua família e comitiva. 

Seu sobrinho D. Carlos seria coroado rei de Portugal em 28 de Dezembro, e D. Pedro resolveu então realizar uma visita à região do Minho, no norte do país. No dia 22, chegou a Coimbra, sendo recepcionado pelos estudantes e professores da velha universidade, e depois seguiu para a cidade do Porto. Seu único intuito era não perturbar os festejos reais. No Porto, enquanto visitava a Academia de Belas-Artes, no mesmo dia 28, a imperatriz D. Thereza Christina, com a saúde debilitada, sofrendo de bronquite, amargurada e abalada com a situação causada com a proclamação da República, e o consequente exílio, faleceu repentinamente, aos 67 anos de idade. Avisado do grave estado, retornou rapidamente ao hotel, mas quando chegou sua companheira por longos 46 anos, estava morta. Sua tristeza foi profunda; em silêncio, chorou a partida de sua amada Thereza Christina. Sua filha Isabel, com seu marido Conde D´Eu, e seus filhos tinham ido à Espanha visitar os tios, os condes de Montpensier que lá residiam, e retornaram a Portugal assim que receberam a notícia do passamento da imperatriz. 

O corpo de D. Thereza Christina, depois de embalsamado, e velado na igreja da Lapa - local onde permanece guardado o coração do imperador do Brasil, D. Pedro I - foi transportado de trem do Porto para Lisboa e depositado no Panteão dos Braganças na Igreja de São Vicente de Fora, ao lado da segunda imperatriz do Brasil, D. Amélia, com a presença da família real portuguesa, e autoridades. Após os funerais de sua esposa, permaneceu poucos dias em Lisboa, seguindo para a França, hospedando-se em Cannes, para fugir do forte inverno europeu. 

Exílio e morte do imperador 

Menos de dois anos depois, o Imperador se encontrava em Paris, para participar das sessões do Instituto de França, na Academia de Ciências, da qual era sócio. Em 24 de novembro, foi fazer um passeio em carruagem aberta até Saint-Cloud, nas margens do rio Sena, onde apesar do frio do inverno resolveu fazer uma caminhada. No dia seguinte, amanheceu febril, contraindo um forte resfriado e seu estado de saúde foi se agravando. 

O último imperador do Brasil veio a falecer aos vinte minutos do dia 5 de dezembro de 1891, vitimado por uma pneumonia aguda no pulmão esquerdo, em um modesto quarto do Hotel Bedford, três dias após completar 66 anos de idade. 

D. Pedro II, em seu leito de morte, estava vestido com o uniforme de marechal do Exército imperial brasileiro, com as condecorações do Brasil, França, Portugal, e um crucifixo em suas mãos, que havia recebido do Papa Leão XIII. Um livro, significando que descansava sobre o conhecimento, foi colocado embaixo do seu travesseiro com terra de todas as províncias (hoje estados) brasileiras. Um pedido que havia deixado por escrito. 

O governo francês resolveu prestar as últimas homenagens de Estado ao Imperador brasileiro, e comunicou à princesa Isabel que aceitou as honras oficiais, mas o governo brasileiro protestou por essa atitude. No Brasil, ao saberem da morte do antigo monarca, o comércio fechou as portas, e várias missas foram realizadas por sua alma por todo o país. 

O corpo embalsamado do imperador foi levado para a Igreja da Madalena, situada perto da Praça da Concórdia, a poucos passos do hotel onde morreu. Ao meio dia de 9 de dezembro, com o caixão coberto com a bandeira do Império brasileiro, colocado em um catafalco elevado na nave da igreja, foi celebrada as exéquias solenes, pelo arcebispo de Paris, com a igreja totalmente lotada, e a presença da Casa Militar do presidente da França, Sadi Carnot, que o representou. Além dos presidentes da Câmara e do Senado da República francesa, esteve presente o cônsul-geral de Portugal em Paris, o escritor Eça de Queiroz, todo o corpo diplomático, dentre inúmeras autoridades. 

Pelas ruas de Paris, 80 mil homens das tropas francesas participaram das honras. O coche fúnebre, puxado por oito cavalos cobertos de negro, foi escoltado pela guarda republicana, acompanhado por uma banda de música militar tocando a marcha fúnebre de Chopin, e nada menos que 300 mil pessoas, apesar do frio, foram prestar as homenagens a D. Pedro II. Quando o cortejo passou pela Praça da Concórdia, foram prestadas as honras militares, e uma bateria de artilharia deu as salvas de estilo. O corpo foi transportado em um trem especial para Lisboa, com uma parada em Madrid, onde a Casa Real espanhola prestou também suas homenagens. Em Lisboa, o rei D. Carlos, toda sua família, o ministério, altas autoridades, e milhares de pessoas participaram também das honras e despedidas ao velho imperador brasileiro. Na igreja de São Vicente de Fora, o cardeal Dom José Sebastião de Almeida Neto, Patriarca de Lisboa, recebeu o esquife. Depois de rezada uma missa, o corpo do Imperador foi colocado ao lado da imperatriz Thereza Christina, no panteão da família Bragança. 

No governo Epitácio Pessoa, em 1920, foi revogado o decreto de banimento da família imperial, e no ano seguinte a bordo do encouraçado São Paulo, da Marinha de Guerra, os restos mortais de D. Pedro II e de D. Thereza Christina foram trazidos para o Brasil. No ano de 1939, foram finalmente depositados em um túmulo especialmente construído na catedral de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, em solenidade presidida pelo então presidente Getúlio Vargas. 

*Antônio Sérgio Ribeiro, advogado e pesquisador. É diretor do Departamento de Documentação e Informação.