Seguidores

Mostrando postagens com marcador Paralelo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paralelo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A AÇÃO NOBRE DE UM RUDE

Por: Ângelo Osmiro

Conta o escritor Ângelo Osmiro Barreto, que em 1910, durante o período da Semana Santa, o lendário Cassimiro Honório, um velho cangaceiro do alto sertão pernambucano, da afamada região do Navio, promoveu um formidável cerco a um dos seus inimigos José de Sousa.



Melânia, era filha de Cassimiro Honório, havia sido roubada por José de Sousa. O pai da moça, inconformado com a atitude do jovem sertanejo, arregimentou um grande contingente de cangaceiros e retomou a filha do jovem apaixonado. O episódio criou grande rivalidade entre os dois sertanejos, homens valentes e acostumados às lutas, numa época em que as divergências eram resolvidas à bala. A justiça, pouco ou nada fazia para resolver essas pendengas.

Durante um grande cerco promovido por Cassimiro Honório à fazenda de José de Sousa que durou sete dias, um fato interessante chamou a atenção de todos.

Dentre muitos homens valentes de ambos os lados, um iria se destacar pela sua atitude nobre. José Rajado, sertanejo rude com sangue no olho como se diz até hoje naqueles sertões, brigava entrincheirado ao lado dos comandados de Cassimiro Honório.

Passados três dias de luta renhida, José Rajado escutou um choro de criança vindo de dentro da casa sitiada. O choro persistente chamou a atenção do cangaceiro.

Aquela criança aos prantos só poderia estar com fome, pensou o cangaceiro naquele momento da luta. Em ato repentino José Rajado levantou as mãos, e aos gritos, pediu para que o tiroteio fosse suspenso.

Surpresos com a atitude pouco comum do bravo sertanejo, os contendores pararam os tiros, e o silêncio tomou conta do lugar por alguns momentos. O cangaceiro José Rajado, propôs aos sitiados que se prometessem não alvejá-lo, iria ao curral, ordenharia umas cabras e levaria o leite para a criança que estava chorando com fome.

José de Sousa prometeu todas as garantias a José Rajado, que confiando na palavra empenhada do inimigo, foi ao curral encheu um balde de leite e deixou-o em frente à porta da casa sitiada. Retornou ao seu local de combate e após estar novamente seguro, o tiroteio recomeçou.

O cangaceiro José Rajado, apesar de toda sua rudeza, acabara por praticar um ato da mais alta nobreza.

Esta informação é do escritor e pesquisador do cangaço, Ângelo Osmiro Barreto, com a colaboração do confrade natalense Ivanildo Alves Silveira, colecionador e pesquisador do cangaço.

 lampiaoaceso.blogspot.com

terça-feira, 1 de maio de 2012

"Não façam isso comigo, sou um sacerdote católico!"

Por: José Romero Araújo Cardoso

Notas sobre o sangramento do Padre Aristides Ferreira da Cruz
Convivi e conversei muito com o brioso oficial da Polícia Militar Coronel Manuel de Assis, pois assim como eu, o valente guerreiro das caatingas nasceu na velha terra de Maringá. Arruda era um homem espetacular, ser humano formidável, possuía prosa animada, muito atencioso e dotado de memória prodigiosa.

Apesar das qualidades ímpares, Arruda era afoito demais, pois querer enfrentar a Coluna Miguel Costa - Prestes quando da passagem por Piancó (PB), em fevereiro do ano de 1926, foi um ato temeroso e intempestivo, mas que lhe rendeu honraria do governo do Presidente João Suassuna por bravura - a espada do herói! Arruda negava peremptoriamente os fatos, mas sem sombras de dúvidas foi ele quem abriu fogo contra a vanguarda dos militares insurrectos, abrindo os portais dos infernos para a cidade de Piancó e seus defensores.

Nas inúmeras conversas sobre a passagem da Coluna pelo desditado município paraibano, havia incontida emoção quando o velho combatente falava sobre o Padre Aristides Ferreira da Cruz, vigário e chefe político da cidade sertaneja literalmente arrasada em fevereiro do ano de 1926.

O Coronel Manuel Arruda de Assis informava que o Padre Aristides nasceu no então distrito pombalense de Lagoa. Quando de minha fixação no Estado do Rio Grande do Norte, efetivamente a partir do ano de 1998, fiquei sabendo por intermédio de informações fornecidas por dileto amigo de nome Raimundo Soares de Brito, verdadeiro arquivo vivo da cultura potiguar, que o Padre Aristides havia exercido o cargo de vigário em Caraúbas (RN).
Arruda narrava que o Padre Aristides era inimigo de muita gente em Piancó, mas que todos o respeitavam. O vigário andava com inseparável F. N. Brown na cintura, acompanhado de grupos de capangas, era metido em tudo que não prestava no sertão daquela época, viveu maritalmente com jovem da localidade, tiveram filhos, enfim, como dizemos no sertão, era mais desmantelado do que vôo de anum molhado ou galope de vaca amojada.

Quando os informes enviados de Pombal (PB), notificando sobre a passagem da Coluna Prestes por Malta (PB), chegaram em Piancó (PB), o Padre Aristides se animou em enfrentar, telegrafando para Júlio Lyra, o chefe de polícia de Suassuna, comprometendo-se a conseguir dois mil homens em armas em quarenta e oito horas, prontamente aceito pelo governo do Estado. Não obstante os esforços, Padre Aristides não conseguiu reunir o número de homens prometido para a defesa.

Mas o que ninguém sabia em Piancó era que esta consistia em uma tática de Prestes, a guerra de movimento, depois usada por Mao-Tsé-Tung, quando da grande marcha pela China, a fim de ludibriar o inimigo. Prestes dividia a coluna em inúmeros subgrupos que se reuniam em local previamente determinado em cartas e mapas.

Quando a Coluna entrava em Piancó, descargas certeiras alvejaram cavalos e cavaleiros. Daí por diante fechou-se o tempo, quando intenso tiroteio transformou Piancó em praça de Guerra. Vinha de ambas as partes, mas com maior intensidade, devido ao número de componentes, disparado pelos integrantes do movimento tenentista originado no sul do País.
Coluna Miguel Costa–Prestes Costa é o quarto sentado (esq. para dir.) e Prestes, o terceiro.In Ijuí Memória Virtual 
O ódio que a Coluna Miguel Costa - Prestes passou a devotar ao piquete do Padre Aristides teve seu recrudescimento quando ato considerado de alta traição inflamou os ânimos acirradíssimos dos combatentes.
Arruda contava, parece até que o estou ouvindo neste momento, que havia um preso de justiça em seu piquete. Esse detento, por bom comportamento, tinha tratamento diferenciado. Apelidaram-no de "preá", pois bastava dar-lhe uma rapadura que ele conseguia trazer do meio da caatinga qualquer cabra ou bode espavorido que por ventura se desgarasse do rebanho.

Conforme Arruda, havia visualizado sinal do Tenente Antônio Benício, delegado de Piancó, para que levasse quatro fuzis e um cunhete de balas para o piquete dele, ao que "preá" retrucou com toda razão ser impossível furar as mil modalidades de ataque dos revoltosos e chegar ao piquete do Tenente do outro lado da rua. Arruda teve a idéia de instruir "preá" para pendurar a camisa branca que vestia em um dos fuzis. Quando o defensor de Piancó saiu à rua com o fuzil hasteando a bandeira branca, imediatamente o código ético-militar da Coluna Miguel Costa - Prestes foi acionado, com os combatentes ensarilhando armas e respeitando a decisão contida no símbolo internacional.

Talvez por não saber o que acontecia na área defendida pelo então Sargento Manuel Arruda de Assis, o piquete do Padre Aristides aproveitou o momento de distração da Coluna Miguel Costa - Prestes para intensificar o tiroteio em direção ao grupo revoltoso. O resultado foi catastrófico, pois a Coluna teve muitos integrantes mortos e feridos.

Daí em diante era ponto capital para os comandados pelo General Miguel Costa e pelo Capitão Luiz Carlos Prestes chegarem ao piquete do Padre Aristides Ferreira da Cruz. A Coluna, então, lutou com gosto, botando para quebrar. Foi em direção aos defensores sediados na residência do vigário de Piancó com vontade de esbagaçar.

Arruda me contava que o Padre Aristides quando viu a coisa ficar preta mandou seu guarda-costa, de nome Rufino, subir no muro para ver o que acontecia. Rufino informou desesperado que a situação era periclitante, pois se fugissem morriam, se ficassem morriam do mesmo jeito. Nesse momento, a Coluna lançou duas bombas de efeito narcótico dentro da casa do Padre. O pessoal que lutava bravamente começou a demonstrar sonolência, ao que o Padre Aristides instruiu comerem açúcar. A luta era nos corredores, nas salas, em todo canto, quando uma ordem do comandante da investida, que calassem as baionetas de uma vez só, cessou a luta, enquanto o Padre Aristides pedia incessantemente garantias de vida para todos.

Covardemente o comando da Coluna Miguel Costa - Prestes assegurou as garantias. Todos que estavam na casa, incluindo o Padre Aristides e o prefeito de Piancó, o Sr. João Lacerda, bem como o filho deste, foram conduzidos a um barreiro e lá sangrados, um a um, e não fuzilados. A Coluna Miguel Costa - Prestes era formada majoritariamente por gaúchos, notabilizados pela selvageria das degolas, dos sangramentos, das lutas fraticidas que encharcaram os pampas em épocas passadas.

Padre Aristides, sentindo-se mortalmente ferido, implorou para que não fizessem aquilo com ele, pois era um sacerdote católico. As humilhações foram intensificadas, pois o martírio do Padre Aristides Ferreira da Cruz e sua gente foi um episódio macabro patrocinado pela ignominiosa covardia, pela efetiva traição de membros de um movimento que se autointitulava revolucionário, reformista, ou seja lá o que tenha sido ou digam ter sido, mas que não teve hombridade Enem humanismo para respeitar as vidas daqueles que já se achavam dominados e impossibilitados da mínima defesa.
Trabalho louvável, de suma importância para a compreensão de nossa história regional, intitulado "A Vida do Coronel Arruda, Cangaceirismo e Coluna Prestes", de autoria do ilustre Promotor de Justiça paraibano, Dr. Severino Coelho Viana, um dos mais cultos e inteligentes pombalenses, orgulho da terra de Maringá, constitui-se em brilhante contribuição para a literatura sobre o assunto que tanta polêmica suscitou, sobretudo quando dos embates do Padre Manoel Otaviano com o Coronel Manuel Arruda de Assis na época que ocupavam cadeiras na Assembléia Legislativa do Estado da Paraíba.

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor do Departamento de Geografia do Campus Central da UERN. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

Imagem pescada no site da prefeitura municipal de Piancó. Confira um outro excelente texto sobre a passagem dos revoltosos por esta cidade:
 Clique aqui