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quarta-feira, 29 de julho de 2020

O ARTIGO ABAIXO DO JORNAL DE RECIFE-PE


Por Antônio Corrêa Sobrinho

O ARTIGO abaixo, do Jornal de Recife (PE), publicado em 1925, jornal que, num momento raro, deixa de lado o hábito, por sinal, da imprensa em geral, de, sem quase nunca confirmar, atribuir a Lampião ou aos seus asseclas a autoria de crimes praticados no interior nordestino, para informar à sociedade o quanto o sertão pernambucano vivia infestado de bandoleiros, além da presença do já célebre, em 1925, Lampião, nomeando e mencionando, até, as regiões de atuação dos grupos cangaceiros. E assim procedeu o Jornal de Recife, penso eu, para tornar mais contundente sua crítica ao Estado, de ineficiente no combate à criminalidade no interior, postura própria de órgão de comunicação situado na oposição ao governo, que penso ter sido o caso.

É verdade que Lampião foi contumaz na prática delituosa, da mesma forma que é vero que anônimos criminosos foram chamados de Lampião pela imprensa.

PERNAMBUCO FEUDAL

O cangaceirismo é um problema que não foi ainda suficientemente levado a sério, suficientemente combatido pelos poderes públicos do Estado.

No interior do Estado campeia livremente, impunemente, sem coação de nenhuma espécie o cangaceirismo que tudo leva de vencida, que aniquila, sempre vitorioso, sempre feliz.

Não conhecemos para um povo que se diz civilizado, manchas mais indeléveis, atestados mais frisantes de sua barbaria, de sua decadência moral, do que essas que são dadas pelos bandoleiros.

Em estado com polícia, tribunais, justiça, governo, enfim, todos os órgãos que constituem a civilização, um bando de homens armados, sob a direção de um bandoleiro se lança a uma empresa trágica, horrorosa de destruir, de incendiar, de matar, de roubar e nada sucede a esses facínoras.

Vivem do crime e para o crime, como se vivessem para o desempenho de uma utilíssima profissão.

Vivem do mal e para o mal, como se vivessem do bem.

Vivem da dor e para a dor, como se vivessem para o prazer.

E os poderes constituídos, esses poderes, a quem o cidadão entrega confiante a guarda, a defesa de tudo que lhe pertence, assistem impassíveis, de braços cruzados o desenrolar de todas as cenas de vandalismo no interior do Estado e não dá um passo decisivo, enérgico, bastante firme para exterminar de vez, radicalmente essa onda de bandidos que vai conduzindo uma grande faixa de território brasileiro, às tristíssimas condições de um feudo, de uma senzala.

Documentos, algo, as nossas asserções.

O cangaceirismo está aumentando consideravelmente no interior do Estado.

Afora os grupos de Sipaubas e Pequenos há os dos Marianos, dos Horácios e dos Sabinos.

Os Pequenos assentaram o seu quartel general no Riacho dos Navios, em Flores; Os Horácios naquele mesmo município onde assassinaram ultimamente um digno cavalheiro, incendiando depois as casas e os cercados da pobre vítima; os Sabinos predominam no município de Belmonte, e os Sipaubas e Marianos em Vila Bela.

O grupo dos Sipaubas atacou no dia 30 de julho alguns almocreves, no lugar denominado Macambice do município acima citado, roubando vários fardos de algodão.

A fazenda que foi roubada vinha do município de Rio Branco e se destinava a Salgueiro e Jardim, como se sabe, localizados, respectivamente, em nosso estado e no Ceará.

O grupo dos Marianos é chefiado pelos irmãos Joaquim e João Mariano.

É terrível. É doloroso.

Em um estado civilizado viver-se sob o regime do trabalho, das armas, como se se vivesse em um feudo cercado de barões feudais, onde a vida não era mais do que a escravidão, a humilhação, a miséria.

Mata-se, rouba-se, incendeia-se no interior de Pernambuco, como se tudo isso fosse a coisa mais simples, mais natural da vida.

Até quando esse viver de horrores, de miséria, de degradação?

Jornal de Recife – 29.08.1925


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