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domingo, 12 de junho de 2022

A MULHER DE ROXO

Por Conrado Matos – Psicanalista, Poeta, Filósofo e Escritor.


Artigo publicado no Jornal Tribuna da Bahia, Quinta-Feira, 07.03.2019.

Foto: Um recorte de um Jornal, possivelmente, baiano, com a foto da Mulher de Roxo.

Quem já está com mais ou menos 50 anos de idade e morou em Salvador nos anos 80, deve se lembrar da "Mulher de Roxo". Seu nome verdadeiro, Florinda Santos. Quando eu passava pela Rua Chile, pelo passeio da bonita Loja Sloper, a Mulher de Roxo se aproximava de mim e, em voz baixa, ela me falava: "Me dê uma esmolinha pelo amor de Deus". Eu oferecia para ela uma moeda e a mesma me agradecia. Ela demonstrava muita educação, porém, dava para perceber sua subjetividade apagada e sem brilho.

Florinda Santos foi uma mulher misteriosa. Diziam que ela teria enlouquecido por ter sido abandonada pelo noivo. Vi sempre falando sozinha na porta da Sloper. Qualquer pessoa poderia notar seu nível mental degradante. Mesmo parecendo uma pessoa silenciosa, de certa calma, dava para notar a demência.

Notável figura lendária, pouco se sabe da verdadeira origem de Florinda. Vestia-se com uma manta de freira, em cor roxa, com um terço, um grande crucifixo e andando descalça. Ficava andando de um lado para outro, demonstrando preocupada e ansiosa. Não falava alto e não costumava xingar ninguém, somente quem viesse a perturbar.

O que se sabe da sua vida é que ela teria nascido em 1917 e morrido no ano de 1997, aos 80 anos de idade. Ela era muito presente na Rua Chile e dormia em um albergue público. Falavam que ela era de boa família. De acordo, com algumas matérias que li em jornal, Florinda apresentava déficit de memória, um enorme esquecimento. Não se lembrava do seu passado e dificultava fornecer informações da sua verdadeira origem. Toda história dela partiu do depoimento de terceiros. Muitas coisas foram ditas sobre a Mulher de Roxo. Algumas pessoas diziam que ela foi rica, perdeu tudo e se desencantou com a vida. Outros disseram que foi uma bela mulher, frequentadora da Rua Chile nos anos 60. Chegaram a relatar que a mesma fora uma professora no Bairro de Paripe, Subúrbio de Salvador.

Pois é, a Mulher de Roxo diante dos meus olhos e dos demais não passou de uma mendiga solitária, sem residência própria e sem família. Quando encerrava o dia, ela voltava para dormir em um albergue, na Baixa dos Sapateiros. Eu soube por terceiros, que Florinda era alimentada pelas freiras do Convento São Francisco, da Igreja São Francisco, no Pelourinho. Tem sentido o que dizem. Da Rua Chile para o convento é um pulo.

A Florinda Santos se tornou uma figura mitológica. Foi personagem de diversos comentários, vídeos, reportagens, documentários e filmes. Ela foi inspiração do cineasta Glauber Rocha, no filme "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969)”. A Mulher de Roxo fora palco de artistas importantes. Morreu e se tornou um mito na vida de todos nós, baianos, principalmente, na memória dos soteropolitanos.

Conrado Matos - Psicanalista, Filósofo, Poeta e Escritor sergipano, radicado em Salvador (BA). Autor dos livros, A RECEITA da Felicidade vem de Você e de O SERtão em Versos.

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