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terça-feira, 5 de abril de 2011

As Mulheres e Divisor de Águas...

. Olho no Olho!
por Juliana Ischiara...

Juliana Ischiara em noite de Cariri Cangaço, ao lado de Kiko Monteiro,
Wescley Rodrigues e Narciso Dias

                Sem sobra de dúvida a entrada das mulheres no universo cangaceiro foi um divisor de águas, tanto para o cangaço, exclusivamente masculino, quanto para tudo o que diz respeito à mulher nordestina, que embora vista como uma mulher forte, guerreira e trabalhadora, era essencialmente do lar, uma mulher criada para casar e cuidar do marido e dos filhos, bem como dos afazeres domésticos.

                Sem querer forçar um anacronismo, pode se dizer que houve uma espécie de retrocesso em relação ao que se entende por salutar rotina familiar. Sabemos que nossos antepassados eram nômades e a fixação em um lugar para formar uma família, conforme os padrões sociais vigentes, foi uma grande conquista e um grande avanço, posto que o homem tornou-se gregário, iniciando-se uma vida social mais intensa.

                Viver no cangaço era deixar de ser gregário e passar a ser nômade e, se para um homem era difícil, imagine para mulheres que dependem ou têm necessidades maiores de uma intimidade especial como tomar banho, fazer asseios, trocar de roupas, dentre muitos outros momentos, que para mulher é mais complicado que para o homem, imagine fazer grandes caminhadas nos períodos menstruais, durante a gravidez e depois dos partos.

                Em sendo assim, entrar para o cangaço, com certeza, era uma decisão bem mais difícil para a mulher que para o homem. Os motivos foram os mais diversos e cada uma tinha seu motivo particular. Moviam-se por amor, por encanto, pela aventura, pela força, enfim, eram inúmeros. O fato é que não se pode dizer que a mulher era uma figura descartada nas fases anteriores à sua entrada no cangaço e, tanto é verdade, que muitos homens que entraram para essa vida, tinham mulheres e filhos, mas por pensarem na proteção e comodidade deles não os levavam junto. Evidente que a presença das mulheres e de crianças dificultaria a vida bandoleira, pois nos momentos de combates, além de terem que se preocupar com sua própria segurança, teriam que se preocupar, também, com a segurança de sua família, o que lhes deixariam em desvantagem em relação à força coercitiva do Estado.

Mulher Cangaço, de Marcus Plech

                 Acredito que a entrada das mulheres para o cangaço é fruto da necessidade humana de querer viver em família, antes de serem embrutecidos e ferozes, acostumados com as incertezas entre a vida e a morte. Eram homens que sentiam a necessidade de ter uma família, de viverem em um núcleo familiar, mesmo em meio à caatinga e aos perigos comuns de suas rotinas.

                 Para alguns cangaceiros, a entrada das mulheres significava a decadência, a desgraça e a fraqueza do cangaço, enquanto para outros, a entrada destas mulheres seria uma forma de humanizar mais o bando, uma forma de diminuir os muitos acessos libidinosos e desenfreados que alguns tinham, diminuindo a grande ocorrência de estupros. Para ser mais precisa, quero falar de duas mulheres em particular, mulheres estas que tiveram entradas distintas, uma por amor, outra pela força.

                 A primeira mulher, Maria Gomes de Oliveira, então Maria de Déa, entrou para o cangaço por livre e espontânea vontade, embora tenha se enamorado do mais temido dos cangaceiros, Lampião. Este segundo consta na literatura cangaceira, não a forçou, mas sim, convidou-a. Maria, que vivera um casamento mal sucedido, era inquieta e sentia falta de uma vida mais emocionante, onde a paixão fosse condutora de seu destino. Em sendo assim, ao se apaixonar por Lampião e ser correspondida, não teve dúvidas ao se entregar e optar pela vida no cangaço. A Maria de Déa se entregou ao amor e à vida que seu amado lhe oferecera. Uma vida de perigos, dificuldades, aventuras, emoções e paixão, morreu como uma rainha ao lado de seu rei.
Maria Bonita
                
                 Já Dadá, embora tenha se apaixonado por Curisco, acredito que ela tenha sido vítima da Síndrome de Estocolmo, um estado psicológico desenvolvido por pessoas que são vítimas de sequestros, raptos. Este estado se desenvolve a partir de tentativas da vítima de se identificar com seu captor ou de conquistar a simpatia do sequestrador. 
                As vítimas começam por identificar-se emocionalmente com os sequestradores, a princípio como mecanismo de defesa, por medo de retaliação e/ou violência. Esta relação de amor e ódio em relação ao seu algoz é considerado uma estratégia de sobrevivência por parte das vítimas. A identificação afetiva e emocional com o sequestrador acontece para proporcionar afastamento emocional da realidade perigosa e violenta a qual a pessoa está sendo submetida. Entretanto, a vítima não se torna totalmente alheia à sua própria situação, pois parte de sua mente conserva-se alerta ao perigo e é isso que faz com que a maioria das vítimas tente escapar do sequestrador em algum momento, mesmo em casos de cativeiro prolongado.

                 Porém, Dadá ao que parece, tomou gosto pela vida cangaceira e, depois de se apaixonar por seu raptor, a vida não lhe parecia mais difícil, não havia mais uma violência imposta, mas um intenso prazer em viver ao lado de seu amado, aquele que já fora um monstro impiedoso. Assim como Dadá, outras mulheres que entraram para o cangaço por imposição, se apaixonaram e seguiram seus companheiros até o fim, sendo-lhes cúmplices, não só nos momentos ruins, mas, também, nos momentos de prazer.
              
                Eu me pergunto o que podemos pensar sobre essas mulheres, que largaram suas vidas pacatas e tranquilas, embora muitas destinadas à miséria?

                Para mim, são mulheres dignas de admiração, pois a valentia não estava apenas em saber empunhar uma arma, mas na atitude corajosa de seguir seus homens pelas veredas perigosas e cheias de abismos.
 

Juliana Ischiara
Historiadora e pesquisadora
Quixadá-Ceará .

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