Por Robério Santos
Ao unir estas três emblemáticas palavras “maior”, “mistério” e “cangaço” construímos previamente uma equação perfeita, na qual todas as histórias contadas passam por nossa mente procurando particularmente qual delas seria a cereja do bolo, a última rapadura do tacho. Eu, como escritor e pesquisador, trago para minha tipoia este fardo pesadíssimo, mas pessoal, ao identificar tal acontecimento. Qual seria, na sua opinião, o maior mistério. Eu mesmo tenho um preferido: o cão na Grota do Angico.
Todas as teorias foram descritas como verdadeiras, a partir do ponto de vista de cada um. Mas, a história tem que ser apenas uma, intacta, sem arrodeio e nem floreios. Mas, para tal proeza deveríamos ter uma máquina do tempo e ser onipresente em todos os pontos de interesse entre os dias 27 e 28 de julho de 1938; entre Delmiro Gouveia (Pedra de Delmiro) e a Grota do Angico pertencente então a Porto da Folha. Teríamos que estar em várias frentes. Desde a casa de Joca Bernardo até o encalço dos filhos de Guilhermina e Cândido; da mensagem passada pelo telégrafo até seu recebimento; o aprontar das tropas e o repouso dos cangaceiros. Da luz do dia até o clímax. Montar este quebra-cabeças (SIC) não é fácil. Desde Amaury, passando por Frederico Pernambucano; de Alcino a Archimedes, nenhum deles ousaram bater o martelo, mas hoje eu quero fazer isso, mesmo sem saber se conseguirei tal proeza.
Já estive na grota por 17 vezes nos últimos vinte anos. Já fui pela manhã, meio-dia, pela tarde e até durante a madrugada. Queria respostas e não mais perguntas. Uma das coisas que mais me indagam no canal O Cangaço na Literatura é “Por que os cães não latiram naquela manhã, alertando Lampião e comparsas?”. Primeiramente, não haviam cães, mas apenas um, o cão Guarani, pertencente a Virgulino. Este, que era um cão escuro, magro e fiel, raramente latia. Por mais que cangaceiros como Zé Sereno tenha dito futuramente em depoimento que “os cães do cangaço só faltavam falar”, esta expressão aqui no Nordeste quer dizer que eram de extrema inteligência, mas não que eles latiam desenfreadamente, pois “o bom cabrito, não berra”, como dizia Barrerito em sua canção; então, o bom cachorro cangaceiro, não late, pois poderia entregar o coito ou espantar a caça.
Analisando nosso primeiro ponto, nota-se que cães que são “adaptados” para o mato, apenas dão sinais sutis de alerta. O melhor da espécie, o perdigueiro, no qual já cacei codornas com um deles várias vezes, define seu alerta através e uma pausa brusca no caminhado, levantar de orelhas, de rabo e caminhado manso, até nos levar ao alvo. Se ele latir, vai obviamente espantar a caça, recebendo uma dura de seu dono e com o tempo ele aprenderá que não pode latir e assim, se tornará um bom hounddog. Assim eram os cães no cangaço, eles alertavam, mas não latiam (seria inútil se alertassem as volantes à direção que os cangaceiros estavam através do latido, assim como choro de criança sinalizava). Olhando por este ponto de vista, tecemos nossa primeira tese: o cão alertou a chegada das volantes naquela madrugada escura de lua nova, mas os cangaceiros, principalmente Lampião, estavam dormindo após uma noite de beberagem e o alerta do cão, o levantar de orelhas e rabo, não foi suficiente para ligar o alerta dos 35 indivíduos que estavam naquela “cova de defunto”. Outro ponto interessante é que o alerta pode ser facilmente confundido com os diversos animais que ali residem. Eu pessoalmente notei que aparecem no final do dia, madrugada e nascer do sol, mocós, onças-pardas, cobras, saguis e lagartixas, tornando o alerta do cão confundível, caso houvesse alguma aproximação anterior. As tropas demoraram muito, se posicionaram e esperaram amanhecer para facilitar o ataque. Seus odores se misturaram facilmente ao ambiente e ao cheiro comum dos cangaceiros que estavam mais próximos do cão. Devemos lembrar que quando usamos um determinado perfume, nosso nariz passa por algo chamado “estresse olfativo” que é a saturação do cheiro, levando-nos a crer que o odor já se esvaiu, levando-nos à surpresa quando alguém fala “nossa, como tu tá cheiroso”, e já nem sentimos mais que estamos. Com o cão acontece o mesmo, mesmo numa proporção diferente, pois o olfato canino é 100 mil vezes que o humano, isso é um ponto a ser levado em conta.
Outro fator é o barulho causado pelos passos dos Volantes. Como João Bezerra e sua tropa demoraram horas para fazer o percurso que facilmente se cumpre em meia hora com passos rápidos, eles se locomoveram com cuidado. Inclusive aconteceu algo inusitado. Durante o trajeto, um cavalo se posicionara entre a Grota e a Volante. Todos pararam ao sinal, prenderam a respiração e esperaram o animal sair naturalmente do caminho, pois temiam que ele se espantasse e alertasse os cangaceiros.
Entre a noite do dia 8 e a madrugada de 9 de fevereiro de 2018, eu e meu fiel escudeiro Nininho fomos à Grota do Angico tentar responder algumas perguntas e obter mais perguntas sobe o fato. Não levamos um cão, claro, mas pedi pra que Nininho em total silêncio se deslocasse de onde eu estava (na cruz de Lampião) até a encosta onde uma das Volantes se posicionou com a Metralhadora, arrastando os pés. Novamente sabemos que o cão consegue ouvir a uma frequência de 10hz, levando em comparação à humana que é de no mínimo 40hz, temos um Super Ser incrível que é o cachorro. Por isso pedi que meu parceiro fizesse barulho e pisasse firme, para compensar a frequência auditiva. Ele não chegou a caminhar cinquenta metros e o som desapareceu completamente, dei um grito e pedi para que parasse. Sugeri que ele gritasse e o som chegou muito baixo, quase abafado, devido a altura da encosta da serra e o forte vento na copa das árvores. Vento este que além de dissipar o cheiro, encobria o som. Temos aí fortes teorias que impediram tanto o cão de farejar e ouvir quanto os cangaceiros de ouvirem os passos das tropas.
Por fim, há uma história que e bastante propagada pela literatura na qual alega que alguns cangaceiros saíram cedo para pegar leite na sede da fazenda Angico, levando com eles o cão Guarani. Ao ouvir os tiros, o cão voltou e foi morto por uma bala perdida de metralhadora e os cangaceiros fugiram. Inclino-me a refutar esta hipótese. Como que os cangaceiros saíram e não se toparam com as Volantes? Com o cão, desta vez em alerta, à vista dos acordados não deixaria de alertar, levando os planos de João Bezerra a saírem dos trilhos. Os cães eram “treinados” sim, mas não adestrados a ponto de darem piruetas, mas para serem exímios caçadores e bons companheiros. Sei que existem mais perguntas que respostas e minha meta não é responder todas elas, mas neste momento abrimos um novo afluente na pesquisa e quem sabe estaremos mais próximos da verdade do que antes, pois devemos seguir em frente e não ficarmos presos à Teoria da Espiral do Silêncio de Elisabeth Noelle-Neumann. O cangaço é fascinante e devemos olhar melhor os fatos, sentir os cheiros e transformar nossa sensação na mais pura experiência sinestésica, pois Lampião não morreu envenenado, nem em Minas Gerais, sua morte já foi passada a limpo, mas isso ficará para um outro texto. Parabéns, cãozinho, você merece uma cruz na Grota do Angico.
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