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sábado, 20 de junho de 2020

GRANDES PERSONALIDADES DO NORDESTE

José Bezerra Lima Irmão autor de “Lampião a Raposa das Caatingas”.
Escritores José Bezerra Lima Irmão e João de Sousa Lima

A cada dia, amadurece a consciência do povo nordestino sobre a importância de valorizar a sua história e a sua cultura.

Mais um passo nesse sentido está sendo dado pela Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), que acaba de lançar a série de “lives” Grandes Personalidades do Nordeste, compreendendo um conjunto de sete biografias de figuras do porte de Padre Cícero, Zumbi dos Palmares e Nísia Floresta. A primeira edição foi sobre Lampião, e o palestrante foi o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello.

Escritor e pesquisador do cangaço Frederico Pernambucano de Mello

Para julgar quem foi Lampião, é preciso situá-lo nas circunstâncias do seu tempo e no meio em que ele viveu. Costumo dizer que não se pode analisar o passado com os olhos do presente.

Lampião não foi nem herói, nem bandido. Foi um homem do seu tempo – uma época em que o sertão era dominado por chefes políticos e fazendeiros que se impunham em seus territórios com o apoio de jagunços. Quanto mais jagunços, mais respeitado era o ilustre cidadão que fazia questão de ser chamado de coronel.

Hoje, pessoas bem situadas na vida, que já nasceram no conforto da “civilização”, costumam referir-se aos cangaceiros como homens “fora da lei”. Mas, como fora da lei?

Onde estava a lei? Lei só havia – se é que havia – nas grandes cidades, onde imperava todo tipo de patifaria. Nos sertões ermos, nas caatingas bravias, sem estradas, sem escolas, assoladas pelas secas e pela fome, só havia duas profissões: ser cangaceiro ou ser soldado para ir atrás de cangaceiro. Aliás, não havia soldados – havia “contratados” ou “cachimbos”, homens rudes, analfabetos, valentões, muitos deles criminosos, que o governo arregimentava “para manter a ordem”. 

Ocorre que esses homens eram chefiados por um deles, igualmente rude e geralmente analfabeto. Os contratos eram “de boca”. E não havia delegados de carreira: os delegados eram “homens de confiança” do chefe político. Nas questões, tinha razão quem fosse amigo do chefe político, mesmo que estivesse errado. Quem estava com o “partido de cima” (no poder), não pagava impostos e podia fazer e acontecer, pois tinha a proteção das autoridades. Mas quem estava “por baixo” tinha de pagar imposto em dobro, e mesmo quando era vítima de alguma ofensa não tinha a quem recorrer, só a Deus.

O Cabeleira

Cangaceiros como Cabeleira e Antônio Silvino e valentões como Adolfo Meia Noite e Cassimiro Honório foram homens que se revoltaram com aquela situação de descaso e abandono, e já que não havia lei nem governo, decidiram impor a sua autoridade no sertão. O código do sertanejo levava a sério as “questões de honra”. Matar por vingança não era crime. O indivíduo que sofresse uma afronta e se vingasse “não era homem”. A mulher e os próprios filhos se envergonhavam dele.

O cangaceiro Antonio Silvino conversando com o presidente Getúlio Vargas

O Nordeste na virada do século XIX para o século XX era o mundo dos coronéis, dos jagunços, dos cangaceiros, dos beatos milagreiros, das secas e das epidemias. Como não havia lei nem autoridade, as questões políticas, as questões pela posse da terra e as questões de honra eram resolvidas pelo ronco do bacamarte. Todo homem no sertão tinha uma arma. O sertanejo ia para a roça com uma enxada num ombro e a espingarda no outro.

O cangaceiro Quinta-Feira já morto à esquerda.

Houve cangaceiros que eram homens ruins por índole. Outros entraram no cangaço devido às circunstâncias. O cangaceiro Quinta-Feira, que morreu em Angico, era um homem honrado, ex-vaqueiro da família Malta, de Alagoas. Tornou-se cangaceiro por razões que levariam qualquer homem de vergonha a também fazer o mesmo. É só ler a história dele. 

O cangaceiro Luiz Pedro

O mesmo aconteceu com Luís Pedro. Ezequiel, irmão de Lampião, talvez nunca tenha atirado em ninguém. O apelido dele era “Ponto Fino”, mas não porque tivesse boa pontaria, mas porque quando se juntou ao irmão tinha morrido um cabra chamado Ponto Fino (que morreu queimado no povoado Capim, atual cidade de Olivença, em Alagoas), e Ezequiel herdou o apelido.

Lampião e seu irmão Ezequiel Ferreira

Lampião era violento, como a polícia também era violenta – ocorre que a polícia matava, torturava e estuprava, mas agia “em nome da lei”, muitos soldados eram bandidos de farda. Evidentemente, houve policiais íntegros, como, por exemplo, Higino José Belarmino, Domingos Dultra, Manoel Campos de Menezes, Liberato de Carvalho, Aníbal Vicente Ferreira. Agora, houve chefes de volantes como José Lucena em Alagoas e Douradinho na Bahia, diante dos quais Lampião foi um anjinho.

Capitão Aníbal Vicente Ferreira

Naquele mundo primitivo, em que o poder público se omitia em face do sofrimento do sertanejo pobre, desassistido de tudo, entregue à própria sorte, espoliado pelo latifundiário, que sugava as suas forças, conspurcava sua família, sua mulher, suas filhas, sem ter o pobre a quem se queixar, Lampião era visto pelos “coiteiros” como um homem que fazia o que todos gostariam de fazer, mas não tinham coragem.

Zé Lucena responsável pela morte de José Ferreira da Silva (dos Santos) pai dos Ferreiras

Lampião não maltratava os pobres. Pelo contrário, pagava em dobro e em triplo o que consumia, uma galinha, uma vaca, ou um bode que abatia. Quem se via em aperreios eram os grandes proprietários, homens arrogantes, intocáveis, que se consideravam donos do mundo, que matavam e mandavam matar. O sertanejo pobre, que vivia explorado pelos grandes fazendeiros, admirava Lampião porque ele, um filho de almocreve, um zé-ninguém, era capaz de fazer os poderosos coronéis baixar a crista, submetendo-se aos seus caprichos. Acusam Lampião de se aliar aos coronéis. Lampião não se aliava aos coronéis. Ele os humilhava. Seus acordos com os coronéis tinham cláusulas unilaterais, que ele ditava e revogava quando e como queria. Os todo-poderosos do sertão tinham de atender aos seus bilhetinhos se não quisessem ver suas fazendas virar cinzas.

Não é possível mudar a história. O que aconteceu aconteceu. Precisamos assumir os fatos e fenômenos que fazem parte da nossa história, sem juízos de valor contaminados de hipocrisia.

Enviado por José Bezerra Lima Irmão autor do livro "Lampião a Raposa das Caatingas".
http://blogdomendesemendes.blogspot.com 

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