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quarta-feira, 6 de maio de 2020

LAMPIÃO E O SEGREDO DA VELHINHA


Osvaldo Abreu ( Abreu)
Alto da Compadecida, 6 de maio de 2020

E a chuva saltitava no telhado
E naquele dia, chovia o dia inteiro,
A chuva corria pelo regado,
Era mês de julho,
O milho se molhava no terreiro
Casa de chão batido, a segurança é o esteio

A chuva continuava a cair.
Vivia saudade a velhinha,
Lembrava da coleguinha Lili,
Dadá a chamava de Descaradinha,
Se entregava acolá e ali...
Era tão bonitinha.

Viver a dois é melhor sem traição.
O cangaceira Moita Brava a amava,
De amor morre e se mata de paixão.
Beijar quem não se gosta, trava.
Pobre Lili, tiro na cabeça, foi ao caixão.
Traição no cangaço se matava.

Chovia no sertão,
Estava tão velhinha, a ex-cangaceira,
Casinha de batido chão,
De passos lentos ia à feira.
Tão silenciosa em seu torrão.
Nada dizia, não falava besteira.

Era preciso conservar à memória
Do capitão Virgulino, Lampião,
Sem muita conversa e sem muita história.
Não era um homem falador, não.
Guerreiro, determinado a toda hora,
Dadá dizia: “Lampião era um pai, um irmão.”

Era chuva que caía...
Era chuva de invernada...
A velhinha ria
Com a correnteza de água na estrada.
A Padim Cícero ela agradecia
E a nossa Senhora, a imaculada.

O sertanejo não sabia
Que aquela inofensiva velhinha
Foi uma cangaceira que da volante corria,
Uma cangaceira, de Lampião uma cabrinha.
E se soubesse o que diria?
Todas tinham como uma coitadinha.

A chuva trouxe recordação,
Massacre de Angico,
Traíram Lampião,
Pedro de Cândido, fogo amigo.
Será que lá foi morto o capitão?
A velhinha tinha isso dentro do espírito.

A chuva caia na madrugada,
Em Sergipe, Porto da Folha,
A gente só vai na hora marcada,
Fugir da velhinha foi a escolha,
A velhinha ficou de boca calada.
Sangue não se tira com vassoura.

Cabeças foram cortadas,
Mortos cangaceiros e cangaceiras,
28 de julho de 38, período de invernada.
Tristonha e medonha bagaceira.
Em Salvador, cabeças expostas pra nada.
O Instituto Nina Rodrigues virou feira.

E foi num dia de chuva que a velhinha morreu.
A cachorra Lalá latia demasiadamente,
O menino triste uma velinha acendeu.
Guardou seu segredo de cangaço em mente
E fé que Lampião em Angico não morreu.
Angico é mistério e quem desmente?

Informação: 

O massacre de Angico ocorreu em Porto da Folha, a partir de 1950, foi criado o município de Poço Redondo em Sergipe. A área do Massacre passou a pertencer ao criado município.


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