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domingo, 1 de abril de 2018

UMA BELA HISTÓRIA


Por Antonio Corrêa Sobrinho

AMIGOS,

Vejam que interessante e surpreendente a história abaixo, envolvendo Lampião, Maria Bonita e bando, publicada no "Diário de Pernambuco", de 27/01/1935.

Um Lampião menos selvagem e cruel, mais humano...


O GRUPO SINISTRO DE LAMPIÃO TEVE UM ENCONTRO, NO INTERIOR DE ALAGOAS, COM VÁRIOS EXCURSIONISTAS DA CACHOEIRA DE PAULO AFONSO.

Depois de um contato com uma das nossas maiores surpresas da natureza, a convivência, durante uma hora, com verdadeiros monstros humanos

O que relata ao “Diário de Pernambuco” uma das testemunhas do caso
MACEIÓ, 24 (Da Sucursal do “Diário de Pernambuco”) – Lampião está agora em território alagoano, anda realizando no interior do Estado vizinho as suas aventuras terríveis, que se requintam em barbaria.

Raro é o dia em que não nos chegam notícias sensacionais referentes a feitos extraordinários desse grupo de cangaceiros, que é chefiado pelo maior de todos os caudilhos do sertão nordestino.

Por onde passam esses heróis de alpercatas e chapéu de couro, deixam a terra empapada de sangue. Por isso à sua aproximação as populações sertanejas se sentem como sob ameaça da peste, de uma praga terrível, de uma desgraça.

O interior de Alagoas está sofrendo, nestes últimos tempos, essa visita dos celebres bandoleiros, que é das mais trágicas pelas suas consequências.

Os cangaceiros assaltam fazendas, roubam, matam, deixam toda a zona de Alagoas sob uma atmosfera de terror.

No princípio deste mês registrou-se um encontro do terrível bando com um grupo de excursionista da Cachoeira de Paulo Afonso.

A reportagem do “Diário de Pernambuco” conseguiu um relato fiel e sensacional de uma das testemunhas da impressionante cena, o senhor Bráulio Rodrigues Limeira, residente em Santana do Ipanema.

IMPRESSOES DE UM ENCONTRO SINISTRO

Foram estas as palavras que o Sr. Bráulio Limeira nos disse:

“O meu encontro com Lampião posso assegurar-lhe que foi por u’a maneira toda inesperada, algo de estranho e pitoresco. Não é, contudo, das mais agradáveis a surpresa que nos causa um tal acontecimento. Se a notícia de Lampião nos horroriza pela natureza trágica de suas aventuras, a sua presença nos inspira o mais indescritível terror. Isso é uma verdade. Os meus companheiros foram também dominados do mesmo sentimento de tortura.

Regressávamos no dia 6 do corrente de nossa visita à famosa Paulo Afonso. Compunha-se a “caravana”, ao todo, de 30 pessoas, sendo 12 mulheres e 18 homens, na maioria comerciantes do povoado Maravilha, deste município, acompanhados das respectivas famílias.

Alegres e despreocupados vinham, ainda sob o domínio das impressões bem vivas que nos ficaram do empolgante espetáculo da nossa mais deslumbrante catadupa. O caminhão que nos conduzia avançava sem incidentes, ora compassado, ora célere, pela larga estrada arenosa e pouco acidentada.

PARA! PARA!

Eram quase 6 horas da tarde, quando atingimos o sítio Lagoa do Feijão, ainda no município de Agua Branca, e de súbito, ouvimos um vozear profundo e apavorante, uma algazarra infernal, que nos deixou, atônitos e estarrecidos, sem compreendermos bem se eram vozes humanas, ou rugidos de feras.

Surgiu, então, à nossa frente, do lado esquerdo, um grupo armado que sinistramente gritava: “Para! Para!”

O caminhão estacou.

De momento ficamos cercados pelo bando, que de armas escaladas nos ameaçava.

CAPITAO VIRGULINO FERREIRA LAMPIÃO

Era o capitão Virgulino Ferreira que se aproximou do carro e ordenou autoritariamente a todos que descessem, com exceção das senhoras, que aterrorizadas, ali permaneceram, enquanto à investida dos bandidos eram revolvidas as malas bolsas de viagem, etc.

O capitão perguntou o nome e procedência de cada um e de onde era o caminhão. Alguns dos companheiros deram nomes trocados, para evitar consequências piores. Em seguida, ordenou que se queimasse o caminhão, não sendo executada a ordem, por muito pedido do chofer, que alegou não lhe pertencer o mesmo e que o proprietário ficara doente em Bom Conselho, de onde ele vinha.

Apesar do modo arrogante e descortês com que fomos tratados de início, Lampião procurou desfazer essa impressão, esforçando-se por tornar-se mais agradável. Pedindo-nos desculpas, disse que não tivéssemos receio algum, pois, não sendo fazendeiro, comerciante, ou agricultor, exercia um meio de vida que se aplicava bem à sua atuação, por isso, exigia apenas que lhe déssemos dinheiro e objetos de valor.

Os bandidos já haviam feito a devassa em tudo, arrecadando em joias e dinheiro, mais de 2 contos de reis. Houve condescendência, porém, para com algumas das vítimas, a quem Lampião mandou restituir parte do dinheiro e algumas joias.

Extratos e loções que encontraram, foram vazados sobre os passageiros, em homenagem ao encontro.

EM POSE

Na busca que faziam, um dos bandidos encontrou a um canto a Kodak e entregou-a ao Capitão, que perguntou pelo dono. Disse-lhe eu que era minha, mas podia o capitão dispor dela à vontade.

- “Não. Quero que tire o meu retrato e de minha gente”. Entregou-me e, rápido, posou à frente do grupo, já em forma.

Sem observação alguma, preparei-me e bati a chapa.

Pôs-se, a seguir, ao lado do “Dourado” para se retratar com ele. 

Observei-lhe:

“Capitão! Esta posição não está muito boa”.

- “E esta?...” – respondeu ele, dando um formidável salto, não obstante o peso do grande equipamento que o subjugava.

E caiu de pé, a prumo.

De novo bati a outra chapa.

Indaguei como lhe podia enviar as fotografias.

- “Não é preciso” – respondeu –, mande publicá-las nos jornais.

Referiu-se ao tenente Manoel Neto e mandou que lhe déssemos um abraço. Perguntou-nos ainda se conhecíamos o tenente José Joaquim.

- Olhem! Digam a ele que não tenho medo de morrer”.

E balançava dois embornais, à tiracolo, cheios de balas.

CANTOS E DANÇAS

Levávamos alguns instrumentos de corda, e um dos companheiros era tocador de harmônica.

Mandaram executar algumas peças conhecidas, e, ali mesmo, em plena estrada, quase ao lusco-fusco vespertino, improvisaram danças e cantaram, numa alegria frenética. No auge do entusiasmo, as mulheres puxaram dos revólveres e deram uma descarga de tiros para o ar.

PRECONCEITOS E USOS SERTANEJOS

Aprestavam-se para a retirada quando a mulher de Lampião, dirigindo-se às senhoras e senhorinhas que, impassíveis e tímidas observavam aquela inédita cena de sobre os assentos do carro, à vista das ameaças que lhes faziam alguns dos bandidos por trazerem cabelos cortados, aconselhava-lhes que não contassem os seus cabelos, sob pena de serem castigadas.

Dentre elas, uma, a mulher de Gato Preto, chamou um dos nossos companheiros, e deu-lhe uma pequena “aliança” e um papel escrito contendo o nome e a data do nascimento de seu filho, para entregar ao Dr. juiz municipal de Mata Grande, que o está criando, servindo tais indicações para o batizado do menino.

O GRUPO DE LAMPIÃO

Os nomes das mulheres que acompanham o grupo são: Maria de Déa (mulher de Lampião), Lacinha e Estrelinha. Usam túnica comprida azul marinho, culote e polainas que sobem até os joelhos; cinta larga com cartucheira, punhal e revólver; chapéus de feltro, com abas largas quebradas na frente e guarnecidas de medalhas de ouro e prata.

Os bandidos são conhecidos por Gato Preto, Cobra Viva, Chumbinho, Medalha, Juriti e outro, cujo nome não consegui apanhar. Usam roupa de azulão, chapéus de couro com as mesmas guarnições nas abas largas, destacando-se o chapéu do chefe, pelo maior número de moedas que contem e uma medalha muito grande na frente com a inscrição: “AMOR”.

DESPEDIDA DE LAMPIAO

Lampião conversou mais por algum tempo e despedindo-se, abraçou-nos afetuosamente, como o melhor dos amigos. E, por último, repetiu-me ainda:

- “Não se esqueça de mandar publicar os retratos nos jornais”.

Afastou-se seguindo o caminho, por onde havia mais de uma hora antes, que se nos afigurou secular, surgira com o grupo, e dentro em pouco, como o fantasma da morte, negro e terrível, o seu vulto desapareceu no mato próximo, confundindo-se em meio à escuridão da noite.

Eis, por alto, a resenha deste singular encontro, que nos ficará sempre em memória, com o célebre bandido que há cerca de 15 anos e apesar da perseguição tenaz e constante que lhe é movida à sua não menos famosa quadrilha, vem sendo o terror da população sertaneja nos estados nordestinos, tantos são os saques, depredações e chacinas que tem cometido e continua a cometer impunemente, aqui e acolá, ou onde o levam o instinto do mal e a sede de perversão, através dos sinistros empreendimentos que em felizes sortidas realiza com a mesma naturalidade, com a mesma razão de ser, como a que se exercita um direito próprio e legitimo.

Estivemos, pois, em face de dois abismos – um, de opulência e deslumbramento – a Cachoeira de Pulo Afonso; - outro, de ferocidade e terror – Lampião!”

“Diário de Pernambuco” - 27/01/1935

https://www.facebook.com/groups/lampiaocangacoenordeste/permalink/796429957232617/

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