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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O QUE DISSERAM...


Por Antonio Corrêa Sobrinho

O QUE DISSERAM, após a sua morte, os jornais cariocas abaixo, do homem forte da “Sedição de Juazeiro” e do “Batalhão patriótico”, do amigo fiel, leal e devotado de padre Cícero Romão Batista - FLORO BARTOLOMEU DA COSTA.

O que disseram deste médico e político baiano-cearense, deste “guerrilheiro da política e estrategista das refregas que convulsionaram.


“O PAIZ” (RJ) – 09.03.1926

Faleceu ontem, nesta capital, às 17 horas, o deputado Floro Bartolomeu, representante do Estado do Ceará na Câmara Federal.

O parlamentar que ora desaparece era, sem dúvida, uma figura singular no senário político brasileiro.

Individualidade forte e combativa, homem afeito às mais extremadas lutas partidárias, dadas as circunstâncias que lhe envolveram sempre a carreira política, o Dr. Floro Bartolomeu era possuidor das energias viris e realizadoras, que tanto o caracterizavam nos momentos decisivos da sua vida pública.

Pode-se mesmo atribuir ao seu temperamento dinâmico a conquista das grandes simpatias e prestígio de que dispunha no seio de nossos sertões, onde, desde muito moço, se entregou ao exercício da sua profissão de médico.

Na firmeza dos seus princípios e na sinceridade da sua palavra partidária encontraram sempre os poderes constituídos um dos mais sólidos elementos de ordem e segurança legal.

Nasceu o Dr. Floro Bartolomeu em 17 de agosto de 1876.

Formou-se em medicina pela Faculdade da Bahia, em 1904. Da capital baiana seguiu, quando diplomado, para o interior cearense, depois de ter tomado parte, como influente fator da ordem, em 1907, no movimento repressivo ao banditismo então existente em Juazeiro.

No Estado do Ceará iniciou a sua carreira parlamentar, sendo eleito deputado estadual em 1913.

Em 1921 veio para a Câmara Federal tendo renovado o seu mandato em 1924 em cujo exercício acaba de desaparecer.
“O PAIZ” (RJ) – 11.03.1926

ECOS E FATOS

O amigo do padre Cícero

Com o falecimento do deputado Floro Bartolomeu, perde a Câmara uma de suas figuras mais interessantes. Era-o o representante do Ceará tanto pela sua fibra de lutador como pelo pitoresco de sua oratória, pois sabia enfrentar os inimigos, com igual êxito, nos campos de batalha e nos debates da tribuna.

Da mesma família política deste bravo pela ação e pela palavra, que é Flores da Cunha, não tinha, entretanto, os ímpetos magníficos e as arrancadas teatrais do deputado gaúcho. Os seus discursos eram antes verdadeiras palestras, em linguagem singela, quase sem gestos, ditos com uma voz anasalada, que lhes dava mais graça, imprimindo-lhes um tom de intimidade familiar.

Foi na sessão de 1923, se não nos enganamos, que o Sr. Floro Bartolomeu se fez ouvir com maior interesse pela Câmara. Um dos membros da comissão nomeada pelo Sr. Epitácio Pessoa, quando na presidência da República, para estudar as obras contra as secas, realizando em S. Paulo uma conferência sobre o assunto, criticara severamente o domínio do padre Cícero nos sertões do Ceará. Defendendo o famoso chefe do Cariri, o seu melhor aliado produziu uma série de excelentes discursos, ricos de narrativas e observações sobre a vida sertaneja do glorioso Estado nordestino.

Descreveu os costumes dos seus habitantes, os aspectos de seus povoados, as manifestações de suas crenças, o movimento de suas feiras, o brilho de suas festas, tudo, enfim, que pudesse realçar a vasta região por onde aquele sacerdote estende a sua influência. E da tribuna parlamentar surge um novo padre Cícero, bem diverso do que se conhecia através das versões jornalísticas, de modo a reabilitá-lo no conceito dos que o julgavam apenas um caudilho de batina, explorando o fanatismo religioso de turbas ignorantes em favor de suas paixões políticas.

Nas rodas da Câmara e nas colunas da imprensa era comum chamar-se o Sr. Floro Bartolomeu de “afilhado do Padre Cícero”. Não sabemos se o era, de fato. Mas o que ele ficou sendo, depois da maneira feliz porque lhe recompôs a figura aos olhos da Nação; foi o maior protetor de quem consideravam o seu padrinho, porque o libertou do juízo errôneo que tanto lhe diminuía o valor. Daí a justeza do título com que registramos a sua morte, pois deve ser mais grato à sua memória que qualquer outro.

O Sr. Floro Bartolomeu morre com as honras de general de brigada, que lhe foram conferidas pelo governo do Sr. Artur Bernardes, em homenagem aos serviços que prestou à ordem constitucional, combatendo os remanescentes dos sediciosos de S. Paulo, quando de passagem pelo interior do Ceará, na sua fuga à perseguição das forças legais. Portador de antiga arteriosclerose, os seus padecimentos se agravaram com as emoções, o desconforto e as canseiras da luta armada. É, pois, mais um bravo, um bom e um legítimo patriota que tomba, em holocausto à defesa da República contra as hordas de rebeldes, que as ambições facciosas desvairaram ao ponto de convertê-los em bandoleiro da pior espécie.
“O PAIZ” - 10.03.1926

Realizaram-se ontem os funerais do deputado Floro Bartolomeu, representante do Estado do Ceará na Câmara Federal.

O cortejo fúnebre, composto de inúmeros automóveis, conduzindo pessoas da nossa mais alta representação, amigos e admiradores do extinto parlamentar, saiu da casa mortuária, à rua do Catete número 83, às 16 horas, para a necrópole de S. João Batista, em Botafogo, onde teve lugar o sepultamento.

O Sr. Presidente da República, que se fez representar nesse ato pelo coronel Vieira Cristo, seu oficial de gabinete, mandou fossem prestadas honras militares ao enterro do Dr. Floro Bartolomeu, em virtude do decreto assinado a 2 do corrente.

Obedecendo a essa disposição, assim foi distribuída a força do exército:
Uma companhia da 2ª brigada de infantaria, com banda de música e bandeira, no cemitério de S. João Batista; uma companhia do 1º regimento de artilharia pesada, na praia de Botafogo, próximo ao pavilhão Mourisco, e um pelotão do 1º regimento de cavalaria divisionário que escoltou o coche fúnebre durante o trajeto.

Ao baixar o ataúde foram dadas as salvas regulamentares.

“O JORNAL” – 09.03.1926

FALECEU O DEPUTADO FLORO BARTOLOMEU

TRAÇOS BIOGRÁFICOS DO EXTINTO

Vítima de uma afecção no fígado, faleceu, ontem, às 19 horas, à rua do Catete, 83, o deputado Floro Bartolomeu, que, em estado de saúde muito melindroso, regressara, há dias, do norte do país, onde fora em missão especial do governo.

Filho de dona Eufrosina Bartolomeu e do Sr. Virgílio Bartolomeu da Costa, funcionário público na Bahia, nasceu o deputado Floro Bartolomeu naquele Estado, em 1876.

Em 1904, com vinte e oito ano de idade, após haver-se formado em medicina, seguiu para o Ceará, onde exerceu a sua profissão, passando, depois, a atuar na política estadual.

Íntimo aliado do padre Cícero, pode dizer-se que foi um dos elementos mais vigorosos nas lutas fratricidas criadas no interior cearense pelas ambições políticas e os traços mais significativos de sua biografia de homem de luta e de ação, surdem dos movimentos de rebeldia que o partidarismo, de um lado, e o fanatismo, do outro, deram durante épocas diferentes e periódicas, um curioso ambiente de agitação aos sertões cearenses.

Evocamos, em rápidos traços, páginas de história local que ainda se conservam muito vivas na memória de todos, a fim de fixar de maneira mais sensível os principais fatores que deram ao extinto certa notoriedade no mundo político brasileiro.

Em momentos diferentes, quando as lutas do cangaço empolgavam a terra cearense, o nome do deputado Floro Bartolomeu, ao lado do padre Cícero – esse como o que outro Antônio Conselheiro do extremo Nordeste – enchia o noticiário dos jornais, onde aparecia sob um prestígio quase lendário, que a distância e o exagero desses instantes tumultuosos só em dar.

Dizia-se que, graças ao seu prestígio de herói nas zonas remotas dos sertões cearenses – prestígio capaz de conduzir centenas de homens às armas – ingressaria o Dr. Floro Bartolomeu na Câmara estadual cearense, em 1913, na qual figurou até 1918.

Em 1921, foi eleito deputado federal, cujo mandato até agora desempenhava

Temos ideia de que a sua eleição despertou comentários na imprensa carioca e de que o Dr. Floro Bartolomeu, da tribuna parlamentar, como das colunas ineditoriais da imprensa, procurou refutar os conceitos então em voga, produzindo a defesa do padre Cícero e legitimando sua ação nas lutas desoladoras dos adustos sertões do Ceará.

O seu falecimento ecoará, certamente, por todo o país, onde o seu nome se tornara suficientemente conhecido através dos múltiplos embates em que atuou de maneira notável.

O seu sepultamento terá lugar hoje, às 16 horas, saindo o féretro da rua do Catete, 83, para o cemitério de S. João Batista.

“O JORNAL” (RJ) - 10.03.1926

O Dr. Artur Bernardes, além de fazer-se representar nos funerais do deputado Floro Bartolomeu, pelo tenente-coronel Vieira Cristo, seu oficial de gabinete, mandou colocar sobre o féretro uma coroa com a inscrição: “Ao Dr. Floro Bartolomeu, o presidente da República. ”

“O JORNAL” (RJ) - 17.03.1926

Rezou-se ontem, às 10 horas, no altar-mor da igreja da Candelária, a missa de 7º dia do falecimento do deputado federal pelo estado do Ceará Dr. Floro Bartolomeu, mandada celebrar por seu irmão Otávio Costa e família do extinto.

Esse ato religioso foi muito concorrido, notando-se, entre o grande número de pessoas presentes, o dr. Artur Bernardes, presidente da República, representado pelo coronel Vieira Cristo, oficial de gabinete da Presidência; Dr. Alaor Prata, prefeito do DF, representado pelo Dr. Edmundo Machado; Dr. Miguel Calmom, ministro da Agricultura, representado pelo Dr. Paulo Vidal; Dr. Francisco Sá, ministro da Viação; padre Cícero Romão Batista, representado pelo Dr. Milton Prates; senadores, deputados, outras altas autoridades da República; famílias, representantes da imprensa e da agência americana, além de muitas outras pessoas.

“O JORNAL” (RJ) - 23.03.26

O GOVERNO CEARENSE NÃO DEMONSTROU PESAR PELA MORTE DO SR. FLORO BARTOLOMEU.

FORTALEZA, 22 (O JORNAL) – O falecimento do deputado Floro Bartolomeu não mereceu nenhuma manifestação de pesar por parte do governo deste Estado.

GAZETA DE NOTÍCIAS (RJ) – 09.03.1926

DEPUTADO FLORO BARTOLOMEU

SEU FALECIMENTO, ONTEM, NESTA CAPITAL

Depois de longos padecimentos, faleceu ontem, nesta Capital, à rua do Catete n. 83, onde residia.

Figura de relevo na política nacional, o deputado Floro Bartolomeu era, sobretudo, um temperamento combativo, assinalando-se a sua rápida, mas brilhante carreira pela campanha movida no Ceará, não há muito, contra o coronel Franco Rabelo, então chefe do governo cearense.

Amigo leal do padre Cícero, uma das mais prestigiosas forças políticas do interior, o deputado Floro Bartolomeu, assumindo a direção dos correligionários daquele sacerdote, esteve no campo da luta, chegando mesmo a exercer a posição de governo revolucionário, com a queda do coronel Franco Rabelo, como presidente da Assembleia Legislativa.

Naquele posto se manteve dignamente, cercado sempre da confiança dos seus conterrâneos, até que se normalizou a situação, em a vitória dos ideais que o animava e aos seus amigos, pela felicidade da terra que o viu nascer e que sempre contou nele um dos seus mais sinceros e ardentes defensores.

Morre o deputado Floro Bartolomeu, que era diplomado em medicina, aos 50 anos de idade, deixando o seu nome bem gravado na gratidão dos seus conterrâneos, pela firmeza das suas atitudes.

Eleito deputado federal, a sua ação na Câmara serviu para comprovar, mais uma vez, os seus muitos dotes pessoais, tendo ali se destacado como um parlamentar consciente da elevada missão de que fora investido pela vontade dos seus coestaduanos.

O enterramento do saudoso político e médico cearense será efetuado hoje, às 5 horas da tarde, saindo o féretro da rua e número acima citados para o cemitério de S. João Batista.
“GAZETA DE NOTÍCIAS” (RJ) – 10.03.1926

FLORO BARTOLOMEU

Por decreto de 2 do corrente, ontem divulgado, foi, pelo Sr. Presidente da República, nomeado general de brigada o deputado Floro Bartolomeu, que ontem, exatamente, falecia de moléstias que o vinham, de há muito, combalindo.

A homenagem, que se pode dizer póstuma, a esse chefe sertanejo, é das mais merecidas. Ele, que a havia conquistado, jamais a reclamara e, pode-se dizer mesmo, jamais pensara em prêmio tão significativo e tão alto.

O deputado cearense, que ontem desapareceu, era, em verdade, uma dessas figuras que nascem, naturalmente, de um estado de civilização. Domiciliado no alto sertão cearense, entre gente belicosa por natureza, a sua missão consistiu em aproveitar, política, econômica e militarmente, todas aquelas energias desvirtuadas por falta de orientação. Amigo do padre Cícero, fez do Cariri, com esses elementos, um centro de trabalho, de atividade e de riqueza. E trilhava esse caminho pacificamente, quando, no movimento contra o governo Franco Rabelo, lhe coube chefiar a avançada sobre a capital, onde, afinal, entrou, depois de derrotar a polícia estadual em todos os encontros que teve.

Comandando forças irregulares, contingentes enormes de jagunços do mais alto sertão, era natural que se temesse essa gente, sabidamente sanguinária. Os jagunços de Floro Bartolomeu portaram-se, entretanto, de tal maneira, com tal honestidade e tamanho respeito, que não se teve notícia de uma única depredação praticada por eles, num percurso de oitenta léguas, que percorreram combatendo.

Esse homem disciplinador, temido pelos mais valentes, era, contudo, na cidade, a mais atenciosa das criaturas. Na Câmara, todos o queriam, todos o estimavam. Sabia comandar, porque sabia, também, obedecer.

O sertão perdeu, em Floro Bartolomeu, uma das suas figuras prestigiosas. O seu nome ficará, entretanto, na terra em que viveu, cujas energias soube domesticar paulatinamente, e utilizar em proveito da pátria, sempre que foi preciso.
“GAZETA DE NOTÍCIAS” (RJ) – 12.03.1926

O deputado Floro Bartolomeu, cuja personalidade só agora passou a ser discutida, deixou vaga, na Câmara Federal, uma cadeira que ocupou, sem grande brilho, mas também sem deslustre, durante quase duas legislaturas. Exerceu bem o seu mandato?

Que importaria sabê-lo agora quando, contra ele, quaisquer recriminações “post mortem” seriam serôdias, senão selvagens pela desumanidade de que se revestiriam?

Representava o sertão agreste do Brasil. E como sertanejo era bem o tipo do caboclo destemeroso, rebelde aos requintes da civilização metropolitana, sabendo arremeter contra os perigos, desdenhoso da vida, com a coragem característica da gente sertaneja. As eventualidades da política fizeram-no, certa vez, revolucionário. Dizem que foi leal na peleja e generoso na vitória. Depois do triunfo, consolidou o prestígio, graças ao qual, mais tarde, havia de ser deputado. A cadeira de legislador, porém, lhe não pertencia, exclusivamente. Tinha-se a impressão de que ela era sua e do padre Cícero – essa personalidade de complexa psicologia, que os sertões encobrem e a lenda tanto tem deturpado. O padre Cícero é o oráculo. Nos sertões do Cariri quem manda é ele. Nem as pedras rolam das montanhas altas se não for ao impulso da sua vontade quase onipotente. Há multidões que pensam pela sua cabeça e legiões de guerrilheiros audazes que se movem aos acenos de suas mãos. Floro Bartolomeu era o aliado e amigo de todas as horas: completavam-se. Quem dispõe de votos no Cariri e adjacências é o padre Cícero. Quem faz eleições e deputados é ele. Os seus domínios são um Estado, praticamente autônomo, dentro do estado do Ceará. Lá, a política dos outros não entra nem medra. Logo quem vai decidir da escolha de substituto de Floro Bartolomeu, na Câmara, não são os partidos: é o padre Cícero. E, em primeira mão, podemos informar que já ele designou o seu candidato: é o Dr. José Geraldo Bezerra de Menezes, sertanejo também, seu compadre e seu amigo.

Está eleito. Nem haja dúvidas sobre isto. Falou o padre Cícero e, nestas cousas, quando ele fala... “Roma locuta est”.

“CORREIO DA MANHÔ (RJ) – 07.03.1926

O deputado Floro Bartolomeu havia regressado do sertão cearense, no fim do ano passado, muito doente. Reconhecia que se lhe impunha um tratamento rigoroso. Entretanto, o Sr. Floro Bartolomeu se viu na contingência de voltar ao seu Ceará, para prestigiar os amigos. O deputado cearense acaba de volta dessa missão, e ainda mais doente...
“CORREIO DA MANHÔ (RJ) – 09.03.1926

Otaviano Costa participa o falecimento, ontem, de seu irmão deputado FLORO BARTOLOMEU e convida a todos os seus amigos para o enterro que se realizará hoje, às 5 horas da tarde, saindo da rua do Catete, 83, para o cemitério São João Batista, pelo que antecipa seus agradecimentos.
“CORREIO DA MANHÔ – 10.03.1926

O deputado Floro Bartolomeu teve honras militares.

Para prestar honras fúnebres ao deputado Floro Bartolomeu, formou ontem em frente à sua residência, à rua do Catete, um pelotão de cavalaria, que escoltou o coche até o cemitério de S. João Batista.

Em frente à necrópole uma companhia de guerra do 3º regimento, prestou honras, tendo uma bateria dado as salvas regulamentares, por ocasião de baixar o corpo à sepultura.
“JORNAL DO BRASIL” – 20.03.1926

UM OBSERVADOR DO SERTÃO

Não houve nenhum favor nas honras militares que acompanharam o enterro do Sr. Floro Bartolomeu. Na sua existência de lutas, ele mereceu os bordados do generalato. Basta considerar que chegou a comandar uma força de cerca de 8.000 homens, na revolução de 1914, quando o general Pinheiro Machado resolveu derrubar o governo do Sr. Franco Rabelo. E a influência pessoal que exercia nos meios sertanejos era o melhor testemunho de suas qualidades belicosas. Sem bravura e sem atitudes guerreiras não se impressiona, nem se domina a população nordestina. Floro Bartolomeu empunhou, também, um rifle de guerra e soube usar o chapéu de couro e as cartucheiras de combate. A ação de suas tropas teve a eficiência bastante para destroçar a polícia estadual e encurralar o Sr. Franco Rabelo na cidade de Fortaleza. É certo que, daí por diante, a parte militar desapareceu para que se exercesse a pressão política, a que devia Floro Bartolomeu, desde os primeiros momentos, o apoio, para a campanha guerreira, desde o fornecimento de munições, até os telegramas com que entibiar a resistência dos rabelistas. Nem por isso se dissimula o relevo da atuação militar, não obstante as críticas e as reservas apaixonadas do ilustre Sr. Rodolfo Teófilo, no livro em que descreve.

Suspeito, porém, de que os melhores títulos do Sr. Floro Bartolomeu não são esses merecimentos militares, a que se deu no último instante, o prêmio de um generalato e a honra, de alguns tiros de canhão. No Brasil, devemos considerar, nas vitórias guerreiras, menos o merecimento dos triunfadores do que a falta de mérito dos derrotados. Parece que vencem as tropas menos abnegadas e costuma haver extraordinária boa vontade em ceder o terreno. Acresce que a documentação a respeito desses episódios deriva de fontes apaixonadíssimas, desde que as pessoas serenas não escrevem, por isso mesmo, as suas impressões. Os valorímetros mais aperfeiçoados fracassam na apreciação das virtudes militares e não chegam a apresentar resultados, se não os maneja o partidarismo.

O Sr. Floro Bartolomeu tem outras virtudes, com que se impõe a atenção pública. Ele foi um dos melhores observadores do sertão nordestino. Quando teve oportunidade de explicar, na Câmara, fez um discurso magnífico, pelo que disse do Juazeiro. Raramente se terá visto o sertão sob uma luz mais clara do que nas páginas desse volume, que foi a melhor e mais eficiente defesa até hoje feita em benefício do Padre Cícero.

Respondia o Sr. Floro Bartolomeu ao Sr. Paulo de Moraes Barros, quando este ilustre engenheiro realizou uma conferência sobre o Nordeste, no regresso da viagem que fizera em inspeção às obras contra as secas. O Sr. Moraes Barros dissertou como um viajante apressado e cheio dos prejuízos de nossos costumes litorâneos. Disse o que havia de diferença entre o sertão e os centros semicivilizados que se estenderam às margens do Atlântico. As notas, que trouxe, tiveram o vício e o defeito de semelhante paralelo, com que tanto se vem deturpando o sertão e mentindo às realidades.

O Nordeste não é para ser visto sob a estreiteza de semelhantes preconceitos. Ele cresceu lentamente, sob a influência de fatores próprios. E assim se veio formando, pouco a pouco, uma população perfeitamente autônoma nos seus traços característicos e na sua mentalidade. O Nordeste é um país, que deve ser estudado nas suas peculiaridades, observando-se o seu povo dentro do ambiente em que vive e não através dos costumes de centros litorâneos, desenvolvidos sob a atuação de outros elementos e de outras causas.

Euclides da Cunha fez sobre si mesmo o esforço enorme dessa investigação, mas lhe faltou, ao trabalho ingente e glorioso, a contribuição de um fator indispensável: a sua maior identificação com o ambiente sertanejo, por meio de uma longa permanência no Nordeste. Por isso, o quadro em que nos descreveu o sertão, tem a altiloquência das epopeias e vale, no fixar os heróis, como um alto-relevo de Pantheun.

Mas, na sua vida bravia, o sertanejo tem o mesmo merecimento com que nós outros levamos a nossa existência pacífica. No Nordeste e aqui, todos nós cedemos ao ambiente, adaptados às circunstâncias que nos rodeiam e às necessidades da vida comum. São destinos diversos traçados sob a mesma força da adaptação.

O Sr. Floro Bartolomeu, no seu discurso, descreveu o Nordeste sem espantos e sem desprezo. Observador perspicaz, a realidade surge completa e espontânea, sem pompas de estilo e sem exageros de conceito. E se fosse necessário comprovar a agudeza com que ele compreendeu o Nordeste, aí estaria a sua vitória, no prestígio conquistado e mantido em toda a zona que tem no Juazeiro a sua capital.

Esse homem experiente e lúcido recebeu no seu espírito as lições que a vida reserva para os que a respeitam: “Como homem prático – disse ele – entendo que, sobre umas tantas cousas não devemos falar conforme pensamos; ao contrário, somos forçados a obedecer a um critério especial, encarando-as de acordo com as circunstâncias que as cercam. ”
Eis aí um programa de filósofo, digno dos que mais se aprofundam nas sutilezas da sociologia. E foi esse preceito que o conduziu, na sua observação do Nordeste. O Sr. Floro Bartolomeu não se deteve na aceitação aparente do princípio. Ele fez daquela norma uma das diretrizes do seu pensamento e tanto nela se abeberou, que os seus olhos depois puderam ver, na sua realidade, o sertão, que só se desvenda aos que se sujeitaram aos rigores dessa educação prévia.

A sua explicação da influência do Padre Cícero sobre o sertanejo e o modo como nos expõe o renome da Santidade do sacerdote ficam no domínio das coisas compreensíveis e naturais. Os fanatismos enfileiram-se na sua narrativa sem demasias de descrição, perfeitamente justificados na ambiência em que se revelam. Não abusa da sugestão, nem da loucura, no explicar os fenômenos e vê, lucidamente, o que há de normal nesses episódios, se se atende no meio sertanejo.

O Sr. Floro Bartolomeu soube escapar do exagero desses pseudos saltos, que fazem da analogia o fundamento de seus volumes. Ele retratou, em narrativas simples e exatas, o sertão e o sertanejo. Compreendeu a normalidade das vinganças, como processo de justiça; disse da honestidade e da bravura do nordestino; relatou as suas virtudes domésticas, com que se formam solidamente as famílias; não escondeu a crendice fácil e a ignorância.

No termo da leitura, não sabemos como julgar o Nordeste e, nem o absolvemos, nem condenamos. Mas o próprio sertão, no seu desenvolvimento espontâneo, entre circunstâncias ásperas e difíceis, sob o castigo das secas, de certo que não pensou em se orientar para o bem, ou para o mal...

Barbosa Lima Sobrinho
“O PAIZ” - 12.05.1926

O governo, tendo na mais alta conta os serviços militares dos nobres deputados Flores da Cunha e Floro Bartolomeu, no Ceará, concedeu a esses bravos compatriotas as honras do posto de general de brigada, para lhes significar o seu reconhecimento pela dedicação, denodo e desinteresse com que defenderam a ordem legal, pondo à prova as mais eminentes qualidades no comando de tropas em operações.

Praz-nos sobremaneira fazer constar aqui, como uma demonstração de virilidade moral de nossos compatriotas, afeitos à luta honesta pela vida, a formação de batalhões patrióticos constituídos de cidadãos desejosos de servir dignamente ao país para preservá-lo da ação funesta dos egressos da ordem.

Imagem de Floro Bartolomeu

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