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terça-feira, 13 de maio de 2014

Fazenda Ipueiras,Cenário de Histórias e Decisões Cangaceiras Parte 2

 Por Maria Thereza e Aristides Camargo
Cel. Izaias Arruda

O Cariri, região sul do Estado do Ceará, celeiro de coronéis do sertão,  aqueles que fizeram história na região, nas décadas de 1920 e 1930. Rota de saída de produtos do Ceará e de estados vizinhos, Cariri era, também, porta de entrada e saída dos bandoleiros, liderados por Lampião e considerada a menor distância entre os sertões do Pajeu e do Cariri.  Esse espaço geográfico foi local  de acontecimentos que movimentaram a sociedade política nordestina, diante da manutenção do oligopólio dos “coronéis”, envolvendo em suas estratégias logísticas, a obtenção  de sucesso em suas intensões (Correio de Aracajú de 23 de maio de 1930).  Coronel Isaias Arruda, filho da cidade de Aurora e dono de Ipueiras, foi o coronel que se destacou no episódio de Mossoró.

A cidade de Aurora é uma dessas portas de entrada e saída dentro do estado do Ceará, terra de padre Cícero, conselheiro dos muitos que fizeram a história do Nordeste ser polêmica, tanto, devido à ousadia dos coronéis como dos cangaceiros. Cariri, onde a base da alimentação é o xerém e carne de bode e para adoçar café usam rapadura, pois o açúcar branco é só para “mainha”.  Onde, seis chuvas por ano, já se chama inverno e onde, para todos os efeitos, o rifle substituía a lei, nos tempos de cangaço. Cariri, por onde Lampião, o rei do cangaço, e seu bando, se embrenhavam, deixando ali, as maras de sua passagem, teria dito, quando entrevistado pelo Sr. Alves Feitosa, ao pé da serra do Araripe: “Não sou cangaceiro por maldade minha, mas pela maldade dos outros” (O Povo, de 4 de junho de 1928).

Região do Cariri cearense, sul do estado do Ceará

A caatinga de Ipueiras, como as outras tantas, pelo nordeste a fora, sem dúvida, imagina-se ter sido partilhada por toda sorte de sertanejo que, desde tempos passados, ali procuraram viver, sobretudo, os cangaceiros em sua vida errante, ora fugindo de seus perseguidores, ora buscando abrigo seguro.  Mas, a caatinga do tempo do cangaço, nos  anos 20 e 30, do século XX, deixou para a história, tristes lembranças, por exemplo, quando da execução de certos planos para o extermínio dos grupos de cangaceiros, os alvos eram os coiteiros, aqueles que escondiam os bandos, irritando os poderosos coronéis e políticos daquele começo do século XX.

(...) Aqueles que não colaboravam  com a polícia eram eliminados sumariamente.  O efeito foi devastador: inocentes foram enterrados na caatinga, outros passaram anos presos sem processo e alguns ingressaram nas volantes, com medo da represália policial.  (...) Naqueles anos 20 e 30 o povo se encontrava dividido.  Quem morava na cidade, temia e odiava os cangaceiros. Os camponeses ou vaqueiros moradores de vilarejos ou de casas isoladas na caatinga, que dependiam de suas roças para sobreviver, admiravam a coragem dos cangaceiros.  Eles apontavam os melhores esconderijos e despistavam as volantes (...) (Diário de Pernambuco,  7/7/1997, p.4 e 7, respectivamente)

Local onde era a sede da fazenda Ipueira em Aurora

A catinga de Ipueiras, outrora turbulenta, com seu chão poeirento e pedregoso, parece estar ali, numa linguagem muda, mostrando ao sertanejo a arte da sobrevivência.  Convivendo com os prolongados períodos de seca, esta caatinga e as outras que se espalham pelo nordeste, faz com que parte de sua vegetação perca as folhas, transformando-se numa floresta esbranquiçada.  Esta, todavia, uma das extraordinárias estratégias da natureza a fim de manter a caatinga sempre viva, visto que o cair das folhas, logo no início do período de seca, significa menos perdas hídricas, armazenando água em diferentes partes da planta, até a chegada das chuvas hibernais.  E, ainda, favorecidas pelo clima, as folhas que caem passam por um processo de fenação, tornando-se alimento para os animais (Rizzini & Mors, 1976).

Outra surpreendente estratégia de sobrevivência dos vegetais nas caatingas está em sua extraordinária capacidade de adaptação ao meio ambiente, ao desenvolver compostos químicos com a função de estabelecer condições para a continuidade das espécies dentro do ecossistema.  São os meios de proteger as plantas das radiações solares e de predadores, desenvolvendo recursos mecânicos de defesa, como espinhos e acúleos, assim como viscosidade em folhas repelindo insetos predadores e, sobretudo, criando atrativos para os polinizadores, a partir de substâncias com odor, representadas pelos óleos essenciais voláteis e substâncias com cor em flores, frutos ou outras partes das plantas, desenvolvendo, ainda, os flavonoides de múltiplas atividades farmacológicas – anti-inflamatórias, anti-infecciosas, antissépticas, antioxidantes, antipiréticas, cicatrizante, antinociceptivo, muitas vezes concentradas numa mesma planta, comumente em casas.  Enfim, substâncias essenciais para o homem que vive ali, fornecendo-lhes alimentos, sobretudo, em frutos e tubérculos, além de remédios para diferentes males.  Plantas que já nos idos de 1910, já foram tratadas pelo botânico cearense, Francisco Dias da Rocha, cujos dados bibliográficos encontram-se no final.

 
Vegetação típica da Caatinga

Com a chegada das chuvas, como num processo mágico, todo aquele emaranhado da galharia, aparentemente seca, transforma-se num manto verde matizado por uma cobertura florística multicolorida, cumprindo seu papel de atrair os polinizadores para a tarefa da reprodução das espécies nativas, não permitindo que a caatinga pereça. (Braga, 1976; Salatino, 2012; Carvalho et al, 2001)

Em meio àquele ambiente de caatinga, hoje transparecendo tranquilo, bem diferente daqueles agitados anos vinte do século passado, quando, ali fervilharam tramas dantescas, envolvendo coronéis, coiteiros, volantes, jagunços e cangaceiros.   Gente brava!

Hoje, Ipueiras, parece viver “clima ameno” entre aqueles que ali vivem.Durante nossa peregrinação pelos sítios históricos do período do cangaço, durante o Cariri Cangaço 4, ao nos determos, logo à entrada do caminho que nos levaria à sede da antiga fazenda Ipueiras, estava, ali, postada, à frente de sua casa, uma senhora, parecendo nos aguardar. O seu semblante sereno e ligeiro sorriso nos lábios, ali, em plena caatinga sob um sol ardente, foram suficientes para nos determos, a ponto de não prosseguirmos na caminhada e, então, ficarmos a conversar com ela, seu marido e filho, este, aparentemente com algum distúrbio mental, se não nos enganamos.Junto à entrada de sua habitação, um casebre de pau-a-pique, já bastante desgastado pelo tempo, com dois cômodos e o mínimo de pertences em seu interior, nos fez, logo, perceber a extrema pobreza em que vive aquela família.

Maria Thereza e Mario Camargo em uma das visitas Cariri Cangaço 2014.

Mas, sempre com aquele semblante sereno e sorriso nos lábios, ia a senhora trocando conosco um descontraído diálogo, nos contando como era a vida vivida naquele canto do mundo.  Perguntada como resolvia os problemas de saúde, morando distante da cidade, contou-nos sobre as plantas medicinais que tinha por perto e com as quais, preparava os remédios, destacando o poder das rezas reforçando o poder de cura.

Afinal, a senhora é uma benzedeira.  Com uma singeleza ímpar, falou-nos sobre o poder da fé, fato que nos encantou. Benzeu-nos, é claro. Falou-nos sobre os remédios que obtém à sua volta, citando as cascas de árvores que são remédio, destacando o juazeiro, ao dizer tratar de árvore sagrada, visto ter sido esta árvore sob a qual Padre Cícero descansou, quando saiu do Crato, em direção a Juazeiro.

Sobre o que nos disse respeito ao poder da fé, logo mais tarde, encontramos testemunhas, quando, ao entardecer, em Aurora, enquanto passeávamos pela cidade, em dado momento, nos deparamos com uma estátua de padre Cícero, bem ao centro de uma praça.  Já era noitinha, quando circulavam por ali moradores da cidade, os quais se detinham diante da imagem, a fim de, acendendo velas aos seus pés, lhe rendendo homenagens.  Era dia 20 de setembro, aniversário da morte daquele que representava a salvação das aflições daquele povo cheio de fé.  Dia de luto, quando as pessoas mais velhas se vestem de preto, como contou-nos uma moradora da cidade. Não tardou para que, logo, as  inúmeras velas acesas, iluminassem a silhueta daquele que o povo elegeu como seu santo protetor, proporcionando-nos uma visão mágica, naquela noite, em Aurora.

Continua..

Maria Thereza Camargo, Etnofarmacobotânica, especialista em plantas medicinais na medicina popular no Brasil.
Aristides Camargo, Arquivista, especialista em patrimônio cultural brasileiro.

http://blogdomendesemendes.blogspot.com
http://jmpminhasimpleshistorias.blogspot.com

Um comentário:

  1. Anônimo16:28:00

    Pois é caro Mendes, "QUANDO O RIFLE SUBSTITUI A LEI", a história fica mesmo triste. Era isso que acontecia nos nossos velhos tempos nordestinos, conforme cita a escritora Maria Thereza Camargo no texto acima.
    Abraços,
    Antonio Oliveira - Serrinha

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