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terça-feira, 13 de maio de 2014

INSTINTOS SELVAGENS OU SELVAGERIAS HUMANAS?

Por Rangel Alves da Costa*
Rangel Alves da Costa

De vez em quando - e nos últimos tempos com maior recorrência - a imprensa noticia fatos que são verdadeiras bestialidades humanas. Quando ameaçado ou atacado, é instintivo que o homem se defenda e até revide com violência. Contudo, não é próprio nem normal que aja com selvageria diante de situações que apenas lhe revolta ou causa indignação. Ao partir para ações de violência extremada logo demonstra um desvio comportamental que não é próprio de sua natureza.

Desvio comportamental ou não, verdade é que o instinto humano de defesa está ultrapassando os limites e o fazendo agir com requinte de crueldade. Nem ao instinto animal pode ser comparada, vez que a ação brutal deste obedece a regras de ataque e defesa, de situações que motivam a ação violenta na intensa e difícil luta pela sobrevivência. Assim, o instinto animal não é opcional, mas necessário. Muito diferente do que vem ocorrendo com a reação instintiva de parte da população.

Não pode ser considerado instintivo, senão como pura selvageria a covardia praticada por um grupo de moradores da cidade de Guarujá, no litoral paulista no início desse mês. Ali, algumas pessoas simplesmente resolveram fazer justiçamento contra uma mulher erroneamente acusada de estar tramando o rapto de crianças para fins de magia negra. Seu cerco e trucidamento sem a devida comprovação de culpa ou participação nos fatos servem apenas como um dos exemplos da brutalidade que vive oculta no homem.

Após a divulgação numa rede social de que uma mulher poderia estar atraindo crianças para a prática de rituais macabros, Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, inocente, mãe de duas filhas, teve a infelicidade de ser apontada como a responsável pelos atos e linchada por populares. Apenas parecida com o retrato falado divulgado, ela caminhava em direção à sua residência com uma Bíblia à mão, foi cercada e sumariamente atacada com pontapés, paus e pedras, sofreu traumatismo e morreu no hospital. Contudo, não é um caso isolado.


Muitos outros casos podem ser relembrados, como os de supostos assaltantes amarrados em postes nas vias públicas. Apenas de cuecas, um jovem foi amarrado a um poste de energia elétrica e chicoteado por populares na cidade mineira de Ipatinga, em abril deste ano. Acusado de fazer parte de uma quadrilha, no final de janeiro um adolescente de 15 anos foi encontrado agredido a pauladas e acorrentado pelo pescoço também a um poste. Tal fato ocorreu no Rio de Janeiro. E são inúmeras as notícias de ocorrências assim, onde flagranteados ou acusados são alcançados pela população decidida pelo justiçamento.

Aliás, o termo justiçamento está na pauta do dia, nas atitudes da parcela da população que procura tornar hábito cotidiano o fazer justiça com as próprias mãos e sem qualquer direito de defesa. Antiga prática de tortura seguida de morte levada a efeito por pessoas que não tinham autoridade para decidir acerca da extrema condenação, o justiçamento foi ganhando novos contornos com a sensação de insegurança vivida pela sociedade. Desse modo, aqueles alcançados pela população em situação de flagrante ou por suspeita de alguma prática delituosa, se tornam alvo da ira dos revoltosos.

Geralmente sem procurar aprofundamento nos fatos, buscar a certeza da acusação ou simplesmente porque ficou comprovada a prática do delito, e diante da ausência dos agentes da segurança pública, a turba raivosa decide sumariamente e parte para a ação. E daí em diante o acusado passa a ser torturado, agredido de todas as formas e com as armas encontradas pelas pessoas, num verdadeiro ritual de linchamento. Outras vezes, como ocorreu com aqueles amarrados em postes, a intenção é apenas de ferir e deixá-los imobilizados nas vias urbanas como recados sangrentos.

As imagens dos rapazes amarrados aos postes, de roupas rasgadas, com os corpos lanhados e marcas de violência por todo lugar, faz recordar outras imagens que ainda hoje causam revolta e indignação nas pessoas. Quem não se recorda dos desenhos de Debret e outros artistas retratando o açoitamento dos escravos presos aos troncos, naqueles tempos da escravidão? Ora, as cenas de agora não são muito diferentes. E se as imagens ainda são utilizadas pelos professores para ilustrar as atrocidades praticadas contra os escravos, o que dizer agora diante das imagens retratando as mesmas cenas no mundo novo?

Noutras partes do mundo onde o apedrejamento de mulheres é até previsto em lei diante de determinadas condutas, as cenas geralmente provocam grande repulsa no mundo ocidental dito civilizado. Logo classificam como barbárie os castigos e clamam pelos direitos daquelas mulheres. Contudo, torna-se contraditório demais que pratiquem o mesmo noutras situações e com outros requintes de violência, e ainda pretendam ter como expressão de revolta social tais bestialidades.

Verdadeiramente, nem mesmo os animais ditos selvagens chegam a práticas tão extremadas. Em casos tais, a outra conclusão não se chega senão a de que o estado mais brutal e selvagem do homem volta a ser revelado em sua plenitude. E logo quando se acha plenamente civilizado.

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

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