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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

EM JARAMATAIA DE GARARU - FINAL

Por Nertan Macedo

Depois da comida o Capitão, a pedido do dono da casa, consentiu em deixar-se fotografal,só e acompanhado. Prometeu o doutor enviar-lhe as fotografias de presente, quando ficassem prontas.

Foto feita em Jaramataia por Eronides Carvalho

- Coronel, fique certo que eu mando cobrar estas poses ao senhor  - disse-lhe Lampião.

E solicitou em "particular" ao médico. Este já esperava pelo pedido e se preparava convenientemente. Indicou o seu quarto de dormir, fechando-se, ambos, nesse cômodo. Por medida de precaução, o doutor pusera a sua parabellum embaixo do colchão, nos pés da cama, para qualquer eventualidade. Sentaram-se lado a lado, no leito, com a mão direita apoiada no colchão, em cima do revólver. 

- Foi aí que eu notei a transformação- contou, mais tarde, o doutor. - As refeições do visitante cordial mudaram por completo. De um momento para o outro, aquela natureza estranha se transformou. Era, agora, outro homem, arrogante, grosseiro, autoritário, mais dono do que hóspede.

Falando quase num sussurro, como era de hábito. Lampião indagou:

- O senhor tem arma de fogo?

- Tenho e da boa, respondeu Eronides silabnado a resposta. 

- É igual a esta? - insistiu, puxando a Parabellum.

A arma, todavia, não saiu do coldre. O Capitão fez uma segunda tentativa, mas inutilmente.

- Está enferrujada, poderou o médico.

- Mas temos força - revidou Virgulino e, num gesto brusco e violento, arrancou a Parabellum do estojo de couro que a detinha.

Calmamente, o doutor pôs a mão sobre a do Capitão, que sustinha a arma, comprimindo o botão que liberou o pente de balas que saltou ao colo de Virgulino. Eronides apanho-o, guardando-o no próprio bolso, enquanto a mão, de novo, procurava com naturalidade disfarçada os pés da cama, onde ocultava a sua pistola. 

Desarmara o cangaceiro, este então pediu-lhe:

- Doutor, se as nossas armas são iguais, o senhor deve ter munição em casa. Estou desmuniciado e preciso de bala. O senhor vai me dar um pouco da sua;

- De fato, replicou Eronides, tenho uma caixa de munição em casa e posso cedê-la ao senhor.

Levantou-se. Foi a um armário próximo e retirou de lá uma caixa. Abriu-a sobre a cama e retirou um punhado de balas, que passou a Virgulino. Tirou um segundo punhado e quando apanhou o terceiro, quase esvaziando o conteúdo, Lampião obstou-o:

Basta, doutor. O senhor está morando nestas brenhas e precisa tanto quanto eu. Vamos dividir igualmente a munição - e ele próprio repartiu a caixa, após o que retornou ao alpendre para bater em retirada.

Na hora da despedida, o doutor fez-lhe presente de um par de perneiras do Exército.

- Na qualidade de Capitão, o senhor não pode andar sem perneiras, comentou Eronides.

- Não esqueça as fotografias, lembrou Virgulino. - Qualquer dia desse em mando buscá-las.

Tempos depois, estava o doutor Eronides na fazenda Cajueiro, descansando numa espreguiçadeira, quando um desconhecido dele se aproximou, trnasmitindo-lhe o seguinte recado:

- O Capitão Virgulino mandou buscar as poses da Jaramataia.

- Diga ao Capitão que eu não mando agora; Entrego depois, no lugar onde ele indicar.

- Pois pode mandar coronel para o Porto da Folha, entregar na venda que fica na entrada da rua. Basta chegar ao balcão e dizer – China!

Mais tarde, o doutor chamou um dos seus vaqueiros, fazendo-o portador das fotografias. Ensinou-lhe a senha indicada.

O vaqueiro foi a Porto da Folha, chegou à bodega, onde se achavam alguns fregueses, gritando:

- China!

O dono da mercadoria fez-lhe um sinal, levando-o, incontinenti, a um quarto no interior da casa. Ali recebeu das mãos do portador as fotografias tiradas em Jaramataia.

Um dia o bando de Lampião matou um vaqueiro do doutor Eronides, em Nossa Senhora da Glória. Num encontro com o Capitão, lamentou o acontecido de modo amargo:

- Seus homens mataram o meu vaqueiro, Capitão. Deram-me um prejuízo de quinze contos de réis, quantia que o homem levava, da venda de um gado nas Alagoas.

Lampião ouviu. A seguir justificou-se:

- Aquele vaqueiro não prestava, coronel, nem pra mim nem pro senhor. Falava demais! Dava conta de todos os meus passos pela sua propriedade. Vivia batendo com os dentes na feira. Quanto ao dinheiro, pode ter certeza de que não me apoderei dele. Deve estar com o defunto...

E mandou alguns dos seus homens abrir a cova do vaqueiro em cujo bolso interno, do paletó, foram encontrados, intactos, os quinze contos da venda do gado.

Pediu, mais de uma vez, montarias arreadas ao doutor Eronides e as devolveu depois, sem faltar uma corda, uma cela, um estribo.

Doutra feita, o médico aconselhou Virgulino a largar a vida erradia do cangaço.

- Não posso, coronel, é tarde demais. Em todo lugar querem me destruir.

Muitas vezes o Capitão voltou a pedir munição ao doutor. Não vinha recebê-la pessoalmente. Determinava o lugar onde devia ser enterrada. À noite ia buscá-la, com a sua gente.

Aproximava-se do fim.

Vez por outra, nas suas andanças por Sergipe, acoitava-se nas locas de pedra à margem do São Francvisco. Passava aí dias e dias, alquebrado, vinte anos de viver perseguido pelas tocas do sertão. Tinha quarenta anos de vida, mais da metade passada no cangaço.

Num dos seus derradeiros encontros com o doutor Eronides, que se achava doente, Lampião lhe disse:

- Vou mandar Maria Bonita tratar do senhor. Ela tem mãos de fada.

Morria, pouco depois, ao lado da amante, na Gruta dos Angicos. 

FIM

Fonte: Capitão Virgulino Ferreira: LAMPIÃO
Autor: Nertan Macêdo
Editora: Edições o Cruzeiro - Rio de Janeiro - 1970

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

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