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quarta-feira, 27 de abril de 2016

BEBEZÃO, O JAGUNÇO CHORÃO

Por Rangel Alves da Costa*

Bebezão, esta era sua alcunha, seu apelido forjado no inimaginável. Um codinome, aliás, que ninguém tinha coragem de citá-lo em voz alta, de modo que o próprio apelidado pudesse ouvir. Acaso ouvisse como o chamavam, certamente a bala comia solta por todos os lados.

Seu verdadeiro nome? Acreditava-se que nem ele mesmo sabia. E ninguém perguntava por que todo mundo tinha medo de lhe dirigir a palavra. Mas o coronel seu patrão, assim que gritava para dar ordem, sempre repetia Coivara. Coivara vem cá, Coivara faça isso, Coivara vá queimar mais um! Mas o restante da população, sempre falando baixinho, simplesmente o conhecia por Bebezão.

Mas por que Bebezão? Porque chorava feito menino depois de cada maldade feita. Não era um chorinho não, mas um choro aberto mesmo, de soluçar. E em qualquer lugar que chegasse depois de ter feito a tocaia e derrubado mais um. Emboscava o cabra, esperava o tempo que fosse preciso, dava o tiro certeiro, mas depois, já despistado da cena mortal e na presença de estranhos, então se danava a chorar.

Foi o fofoqueiro do Toniquinho quem descobriu a razão do chororô. Adepto de um pé de balcão, de um proseado em torno de uma cachaça com raiz de pau, o fofoqueiro começou a perceber que toda vez que o jagunço do Coronel Targino chegava por ali para tomar pinga e em seguida começar com a choradeira, não demorava muito e alguma morte era anunciada.

Toniquinho foi juntando os fatos, morte após morte, até ter a certeza de que o jagunço era o responsável por tantas desgraças na região. E mais: a cada choro no pé de balcão correspondia uma vida a menos. E fez o desfecho do pensamento: o jagunço chorava pelas mortes que causava. Mas por que, se todo matador de aluguel ou de mando é mais frio que moringa d´água ao amanhecer à janela?

Como ninguém sabia ainda das conclusões do fofoqueiro - que já estava ávido para espalhar a descoberta -, de ouvido a ouvido foi-se firmando o nome de Bebezão. Ninguém era besta de comentar qualquer coisa na sua presença, mas todo mundo ficava encafifado querendo saber o porquê de um jagunço desalmado beber e chorar e quando mais bebia mais chorava. Até que o fofoqueiro chamou os amigos de bar a um lugar seguro e revelou a descoberta.


Todos ficaram espantados com a revelação, principalmente porque demonstrava ainda maior frieza daquele desalmado matador. Ao retornarem ao botequim, logicamente ainda arrebatados pela notícia, eis que à porta logo avistam o Bebezão. Alguns quiseram correr, mas por medo de acontecer o pior ante a fuga, foram forçados a entrar. E quando entraram logo se depararam com o Bebezão que mais parecia uma criança de doce roubado ou pé furado de espinho. O jagunço estava num choro que quase esperneava, alto sofrido, lamentoso.

Então Toniquinho, impensadamente, se viu de boca aberta e perguntando ao chorão o que havia sucedido para estar assim tão aflito. Todo mundo tinha certeza que aquelas seriam as últimas palavras do amigo fofoqueiro, vez que certamente iria tomar chumbo nas fuças. Com efeito, quase se despede mesmo da vida, pois ao ouvir a pergunta o jagunço colocou a arma diante de sua testa e disse. Não disse nada, pois chorava tão alto que deu as costas, saiu apressado, montou no cavalo e se lançou em disparada.

Certificando-se de que estava vivo, e coisa que o fez depois de virar copo cheio, Toniquinho causou mais uma surpresa ao afirmar: “Vocês vão ter logo notícia, mas tenho certeza que Bebezão dessa vez passou dos limites. Aquele choro todo não era à toa não, dessa vez ele matou foi mais de um, quem sabe uns dois ou três. Infelizmente, disso eu tenho certeza”. Mal fechou a boca e chegou gente em correria gritando que o Coronel Targino e mais dois capangas haviam sido encontrados mortos.

Todos os olhos se voltaram, estupefatos, para Toniquinho. Este apenas disse: “Menos mal. O jagunço Bebezão dessa vez acertou. Matou um coronel assassino e mais dois da mesma laia. Mas aquele choro todo era de remorso. Quem é ruim sofre demais quando derrama o próprio veneno. E vai morrer soluçando, tenho certeza”.

Poeta e cronista
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