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terça-feira, 27 de novembro de 2018

OS ESTADOS DE PERNAMBUCO E PARAÍBA CHEGARAM A OFERECER UM PRÊMIO DE 40 CONTOS DE RÉIS A QUEM CAPTURASSE O JÁ CÉLEBRE CANGACEIRO ANTÔNIO SILVINO.

Material do acervo do pesquisador Antônio Corrêa Sobrinho

INFORMAÇÃO QUE REPRODUZO DO “DIÁRIO DO MARANHÃO”, DE 01.06.1908

OPINIÕES MINHAS

“Os governadores de Pernambuco e Paraíba prometeram quarenta contos de réis a quem capturar o bandido Antônio Silvino”.

Há nesta resumida notícia telegráfica um pouco de tudo.

Por qualquer face que seja encarada oferece base segura a vários comentários!

Assim sendo não é possível, nem tão pouco tolerável que passe despercebida aos olhos de quem quer e pode ver.

Parece incrível que dos altos poderes administrativos, dos chefes de Estados parta uma proposta tão ridícula, triste e desoladora.

Um prometimento dessa laia dá perfeitamente um lastimável pano d’amostra das condições precárias em que se encontram os seus autores. 

É a falta de patriotismo, de atenção, resolução e competência!

Devemos chorar copiosamente ante um quadro tristonho desses, que bem nos indica o nosso deplorável retrogradar, e apresenta-nos um espelho fiel onde se reflete a imagem negra do atraso.

Com penosos exemplos assim nos civilizamos!!

Dois governadores oferecem “quarenta contos de réis” a quem capturar o bandido Antônio Silvino, o cangaceiro que constitui atualmente o terror dos sertões de Pernambuco e Paraíba.

Que horror!

Donde se esperava o socorro é, exatamente, de lá que surge o gemido tímido da miséria.

São ‘dois governadores’ que se declaram fracos, insuficientes para combater o pavoroso cafre pernambucano.

Tentar enumerar, concluir a enorme série de desmandos praticados por Silvino, seria uma tarefa enfadonha e difícil de ser cumprida à risca. Os fatos provam, basta isso.

Não é de hoje, sim, de há longo tempo que esse sicário perigoso preocupa as atenções do país todo.

Onde haja o alvissareiro telegrama não é ignorada a existência perniciosa desse rei das florestas de Pernambuco e Paraíba!

As suas cruéis façanhas são relembradas em toda a parte, e contra elas só se ouve o brado de revolta e indignação.

Silvino é já célebre!

Senhor de baixos instintos, de índole sanguinária ele, esse salteador terrível, não se importa de levar ao último ponto os efeitos de suas ideias loucas.

Vive do assassinato bárbaro, do ataque às escondidas, enfim, mantem-se cometendo crimes!

Afrontando, de uma maneira por demais absurda e intolerável, a sociedade, Antônio Silvino campeia impunemente nas plagas pernambucanas, alheio por completo às forças do governo!

Por várias vezes já planejaram segurá-lo.

Pelotões de soldados têm ido ao seu encalço, porém a todos Silvino serenamente repeliu, obrigando-os humildemente ao toque (...) de retirada.

E desta forma continha, constituindo-se ‘dono’ das terras onde demora.
Em plena efervescência da nossa civilização esse gozo demasiado de garantias é simplesmente vergonhoso.

Há 100 anos atrás admitia-se um desses fatos, tendo-se em mente o progredir dos tempos. 

Mas, hoje, não!

Não é na época presente que se serve deixar nos arrabaldes da capital adiantada o viver a vontade, de certo grupo de indivíduos que são a escória e o rebojo de todas as partes do mundo.

Silvino chefia numeroso bando de biltres, assassinos não menos temerosos.

Esses homens vis têm estado em atenção, isto é, tem merecido cuidado dos dois governadores, acima citados, mas, o que é triste confessar, nenhum deles se atreveu a dar fim às selvagerias, feitas pelos habitantes das matas que jazem assombrados com tais hóspedes.

Agora, como lembrança pândega, os governadores de Pernambuco e Paraíba prometeram ‘quarenta contos de réis’ a quem capturar o bandido Antônio Silvino.

O que lhe afigura isso, caro leitor?

Brincadeira, não é?

Só sendo!

Pensaram os dois nobres meus patrícios, que o cangaceiro pernambucano vale alguma coisa, que tem validade, para compensar quem o prender?!

Poder-se-ia dizer: merece porque desaparecendo, a calma, a paz, voltariam aos lugares ora em sobressaltos.

Semelhantemente poder-se-ia interrogar: e os governos que fazem?

O que representam em presença desse espetáculo escandaloso?

Tenho pendente do bico da pena o qualificativo que bem aí cabe, mas guardo-o para outra vez.

Quem pode fazer esse serviço meritório, capturar Silvino, senão os governos?

Quem mais possui meios, forças para tal fim?

Respondam os capazes.

Será Antônio Silvino um objeto raríssimo e de elevado preço?

Não! Absolutamente não.

Conseguintemente urge-o sem mais delonga, saber-se qual o motivo que forçou os dois governadores a darem tão feio passo.

Somente os poderes competentes, portanto os governadores, é que podem movimentar um contingente de praças a fim de dar caça a qualquer criminoso.

Quererão, por acaso, os ‘dois governadores’ que o prêmio os vicie?

Serão os recebedores dos ‘quarentões’?

Ora bolotas! 

Há, na verdade, muita graça, muita pilhéria nisso.

Não fariam melhor obra ‘os dois governadores’ se preparassem uma escolta em ordem, e mandassem ao encontro de Silvino?

Seria! Ninguém, repito, pode obter o que eles querem!

Se assim permanecerem, qualquer dia Silvino, atrevido como só ele, é capaz de tentar apossar-se de uma das duas capitais.

Cada qual que se previna.

Os governos estão atemorizados. Apelaram a estranhos. Caso singular!

Se há muito dinheiro, distribuam-no à pobreza, ou embelezem suas cidades. Nestas regiões também paira o esqueleto sinistro da fome.

Deixem-se de invenções carnavalescas.

Deem fim a Antônio Silvino.

Belém, 22-5-908
O. S. Mello.

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http://blogdomendesemendes.blogspot.com

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