Do acervo do José João Souza
O ano de 1926
foi assinalado por intenso movimento de tropas e cangaceiros. Houve também,
nessa época, a invasão de nosso Estado pela Coluna Prestes, que era seguida de
perto e de longe por forças do Exercito, Polícia e os patriótas do padre
Cícero, Horácio de Matos, coronel Franco e muitos outros. Confundiam-se, pelas
estradas, numa verdadeira "salada" militar.
Lampeão foi
nomeado capitão patriota, em Juazeiro do Norte, e todos do seu grupo saíram
armados com mosquetão, mauser e municiados com trezentas balas, cada um. Assim,
transformado em oficial, ostentava três galões nos ombros, Antônio Ferreira
dois, e Sabino Gomes um. Todos os cangaceiros, receberam fardamentos; o que deu
ao grupo uma vistosa aparência de legalidade e confiança.
O maior
problema de Lampião a seguir, era o de saber se os seus colegas de Pernambuco,
estariam dispostos a recebe-lo, com as devidas honras.
Lampeão, além dos predicados que o celebrizaram como um perfeito guerrilheiro, era de fato, muito inteligente. E cautelosamente, enviou emissários para este Estado, afim de sondar o ambiente e saber ao certo, como estava sendo recebida, entre a oficialidade de Pernambuco, a nova de sua investidura no cargo, que fora tão bondosamente conferido.
De Juazeiro para atingir o município de Belém de São Francisco, Lampeão passou uns oito dias, a espera pelos emissários em pontos determinados.
Vamos apreciar
a entrevista de Andrelino Pereira, da Baixa do Icó, um dos que seguiram a
Pernambuco para sondar o ânimo das tropas:
Depois da subida da ladeira do Araripe, uma légua, mais ou menos, para a banda do Ceará, deparou-se Andrelino com o sinal, previamente combinado - Um galho de Piqui, posto à margem da estrada, assinalava a presença do grupo, ao lado direito. Com uns duzentos metros, mato a dentro, estava Lampeão, num verdadeiro banquete.
Começou
Andrelino a dar contas de sua missão:
- As coisas lá pelo Salgueiro, assim como as notícias que tive de Vila Bela, não são boas. Todo mundo já sabe que vosmecê é capitão, mas os oficiá, "por uma boca", dizem que se o senhor chegar por lá, a coisa, vai se cumpricá.
- É... Desta viagem, eu ia ver, de perto, esse tal de Preste, para ver se ele prestava mesmo, mas diante disto, a espingarda vai cantar na cantiga velha.
Estás vendo o meu armamento? Agora, o besta que se fiar em tronco de imbuzeiro, está desgraçado.
Recomendou - lhe então Virgulino:
- Olha, vai - te embora. Faz de conta que nunca me viste. " Boca fechada não entra mosca". E abrindo a carteira, recheada de notas, tirou cincoenta mil réis, e disse:
- Está aqui, pra beberes de cachaça.
Dias depois estávamos com o nosso novel capitão, na zona do Pajeú, em pleno exercício de suas funções...
Do livro:
Lampeão - Memórias de um oficial ex-comandante de forças volantes.
De: Optato Gueiros
http://blogdomendesemendes.blogspot.com
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