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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O reino de Lampião

Segundo o escritor João de Sousa Lima, Lampião, o Rei do Cangaço, atravessou o Rio São Francisco, pras terras baianas, oriundo de Pernambuco, em 1928. No Raso da Catarina, imensa e quase ...
Site da foto: - www.joaodesousalima.com

Em anos de 1929, numa das andanças pastorais, o vigário de Glória, padre Emílio Ferreira, encontrou-se num arraial com o legendário Rei do Cangaço, que fora assistir à missa.

Por notável coincidência, o padre, momentos antes de celebrar o ofício, havia recebido de presente, das mãos de um caixeiro viajante amigo, um grande mapa-plano do Brasil que media aproximadamente 1m2, forrado de algodãozinho e pregado em dois cilindros finos de madeira para enrolar, uma edição do Ministério da Viação do Rio.

Após a missa, vai Lampião cumprimentar o sacerdote. Durante animada palestra desenvolvida entre goles de café, teve uma ideia o padre. Estendeu o mapa aberto sobre a mesa e, entregando a Lampião um grosso lápis encarnado, pediu-lhe: - "De vez que o senhor é Rei, marque e risque sobre esse mapa o tamanho de seu grande Reino".

Lampião, devagar, observando as localidades, rios e montanhas, perguntando muito e auxiliado pelo padre, foi traçando. Tomando por ponto de partida, ao norte, Mossoró, no Rio Grande do Norte, desceu, em zigue-zague, até Porto da Folha, em Sergipe. Desceu mais até Capela e daí tangenciou numa linha até a fronteira da Bahia, onde penetrou por Itapicuru, talando o Estado por Riachão do Jacuípe até Morro do Chapéu. Desceu profundamente, em ponta de lança, até Barra do Estiva e Rio de Contas, donde iniciou a subida para Remanso. Continuando para cima, atingiu Juazeiro do Norte e Caririaçu, no Ceará, depois Jaguaretama, Morada Nova e Limoeiro do Norte, donde fechou o circuito para Mossoró. Em síntese, uma imensa área de cerca de 300.000 km2!

Entusiasmado, exclamou o padre dirigindo-se ao Rei do Cangaço:

- "Territorialmente falando, seu REINO faria inveja a muita cabeça coroada da Europa!..."

Uma das grandes táticas de Lampião era a sua incrível e assombrosa mobilidade que o tornava extremamente periculoso. Chegam às raias do fabulesco as longas tiradas a pé realizadas por ele e seu grupo. Como aquela, a mais famosa, de vinte léguas numa noite, das 18 às 6 horas do dia seguinte, dos fundos do Raso da Catarina (Bahia) à cidade de Capela, em Sergipe!

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Mossoró e a resistência ao cangaço - Parte I


Em 1927 a cidade de Mossoró vivia um período de expansionismo comercial e industrial. Possuía o maior parque salineiro do país, três firmas comprando, descaroçando e prensando algodão, casas compradoras de peles e cera de carnaúba, contando com um porto por onde exportava seus produtos e sendo, por assim dizer, um verdadeiro empório comercial, que atendia não só a região oeste do Estado, como também algumas cidades da Paraíba e até mesmo do Ceará. A população da cidade andava na casa dos 20.000 habitantes, era ligada ao litoral por estrada de ferro que se estendia ao povoado de São Sebastião, atual Dix-Sept Rosado, na direção oeste, seguindo por quarenta e dois quilômetros. Contava ainda com estradas de rodagem, energia elétrica alimentando várias indústrias, dois colégios religiosos, agências bancárias e repartições públicas. Era essa a Mossoró da época. A riqueza que circulava na cidade despertou a cobiça do mais famoso cangaceiro da época, que era Virgulino Ferreira, o Lampião. Para concretizar o audacioso plano de atacar uma cidade do nível de Mossoró, Lampião contava em seu bando com a ajuda de alguns bandidos que conheciam muito bem a região oeste do Estado, como era o caso de Cecílio Batista, mais conhecido como "Trovão", que havia morado em Assu onde já havia sido preso por malandragem e desordem e de José Cesário, o "Coqueiro", que havia trabalhado em Mossoró. Contava ainda com Júlio Porto, que havia trabalhado em Mossoró como motorista de Alfredo Fernandes, conhecido no bando pela alcunha de "Zé Pretinho" e de Massilon que era tropeiro e conhecedor de todos os caminhos que levavam a Mossoró. No dia 2 de maio de 1927 Lampião e seu bando partiram de Pernambuco, em direção ao Rio Grande do Norte. Atravessaram a Paraíba próximo à fronteira com o Ceará, com destino a cidade potiguar de Luiz Gomes. Antes, porém, atacaram a cidade paraibana de Belém do Rio do Peixe. Lampião não estava com o bando completo. O cangaceiro Massilon, que era um de seus chefes, estava com uma parte dos bandidos no Ceará e pretendia atacar a cidade de Apodi, já no Rio Grande do Norte, no dia 11 de junho daquele ano. Depois do assalto, deveria se juntar a Lampião em lugar pré-determinado, onde deveriam terminar os preparativos para o grande assalto. Essa reunião se deu na fazenda Ipueira, na cidade de Aurora, no Ceará, de onde partiram com destino a Mossoró. E ai começou a devastação por onde o bando passava. Assaltaram sítios, fazenda, lugarejos e cidades, roubando tudo o que encontravam inclusive joias e animais, queimando o que encontravam pela frente e fazendo refém de todos os que podiam pagar um resgate. Entre os sequestrados estavam

Coronel Antonio Gurgel do Amaral  

O coronel Antônio Gurgel do Amaral, este irmão de Tilon Gurgel e filho do CAPITÃO VALERIANO VALERIANO GURGEL DO AMARAL e DONA CAETANA LESUMIRA GURGEL DO AMARAL Joaquim Moreira, proprietário da Fazenda "Nova", no sopé da serra de Luis Gomes, dona Maria José, proprietária da Fazenda "Arueira" e outros. Coube ao coronel Antônio Gurgel, um dos sequestrados, escrever uma carta ao prefeito de Mossoró, Rodolfo Fernandes, fazendo algumas exigências para que a cidade não fosse invadida. Era a técnica usada pelos cangaceiros ao atacar qualquer cidade. Antes, porém, cortavam os serviços telegráficos da cidade, para evitar qualquer tipo de comunicação. Quando a cidade atendia ao pedido, exigiam além de dinheiro e joias, boa estadia durante o tempo que quisessem, incluindo músicos para as festas e bebidas para as farras. Quando o pedido não era aceito, a cidade era impiedosamente invadida. 


CONTINUA...

Fonte: Site da Prefeitura de Mossoró

http://oestenews-heroismo.blogspot.com.br/2009/07/mossoro-e-resistencia-ao-cangaco.html

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Augusto Santa Cruz, o "Cangaceiro Doutor"

Dr. Augusto Santa Cruz, o "cangaceiro doutor"

No final do século XIX o país passava por muitas mudanças com a Abolição, em 1888, a República, em 1889, e as diversas facções políticas se realinhavam, se reestruturavam e lutavam pelo poder. Havia grandes desavenças políticas, e os Partidos Liberal e Conservador se readaptavam à nova ordem.

Em 5 de agosto de 1891 foi promulgada a primeira Constituição Republicana da Paraíba, trazendo modificações nas instituições, pois as províncias haviam sido transformadas em estados, cada um com constituição própria. A reorganização política dos municípios abalou estruturas de poder consolidadas, com ameaças à oligarquia dominante. Foi nesse contexto de profundas transformações políticas que cresceu Augusto de Santa Cruz Oliveira, nascido em 1875, filho de João de Santa Cruz Oliveira e de Ornicinda Bezerra, sendo esta filha do Tenente Manoel dos Santos Bezerra, de tradicional família da vila de Alagoa do Monteiro, na região do Cariri Paraibano.

João de Santa Cruz Oliveira havia chegado àquela localidade na segunda metade do século XIX proveniente da vila de Correntes, no Agreste de Pernambuco. Logo se tornou figura destacada na região, dono de várias fazendas, coronel da Guarda Nacional, político influente e deputado provincial pelo Partido Liberal na 25ª. Legislatura (1884/1885). O casal João/Ornicinda teve cinco filhos: Miguel, Arthur, Augusto, Theotonio e Francisca. Os três primeiros se formaram na instituição de ensino mais prestigiada do país àquela época: a Faculdade de Direito do Recife, onde Miguel formou-se em 1891 e Artur e Augusto em 1895.

Alagoa do Monteiro

Durante alguns anos, em Monteiro, o comando político havia sido da família Santa Cruz. Além do Cel. João de Santa Cruz Oliveira, Miguel de Santa Cruz Oliveira, seu filho mais velho, também se destacou na vida pública, tendo sido deputado provincial em 1892 e 1894. O Dr. Augusto de Santa Cruz Oliveira, era mais afeito à política do que os irmãos Arthur e Miguel, que preferiram dedicar-se à magistratura, tendo ocupado ambos e por várias vezes cargos de juiz e promotor em diferentes comarcas da Paraíba, Pernambuco e Alagoas. O irmão Theotonio de Santa Cruz Oliveira, conhecido por “Seu Santos”, mais novo, apaixonado pelas lides rurais, vivia nas fazendas da família. Pelo temperamento, pelo gosto da luta e pela vocação, Augusto foi o herdeiro político natural do pai, que havia falecido antes de 1895. Aos 23 anos, em 1898, já era promotor público em Monteiro.

No início do século XX, o presidente da província da Paraíba Álvaro Machado querendo desmantelar o poder exercido pelos Santa Cruz na região, resolveu investir na liderança do Cel. Pedro Bezerra da Silveira Leal, homem de origem humilde, que havia galgado seu posto às custas de esforço pessoal, sem proceder de família importante. Além disso, era semi-analfabeto. Aos olhos do poder central, sediado na capital, seria uma figura mais fácil de manobrar do que o voluntarioso e ilustrado bacharel Santa Cruz, afeito ao poder, ao mando, carismático, possuidor de vontade própria, com projetos políticos pessoais e liderança consolidada e inconteste.

Homens armados do Dr Augusto Santa Cruz, fonte: Guerreiro Togado 

A indicação pelo governo central do coronel Pedro Bezerra soou para Augusto como um desprestígio, um insulto às suas qualidades. Formado, promotor, ilustrado, rico, filho de família tradicional, não se conformava em ser preterido dessa forma. A mesma coisa havia ocorrido no vizinho município paraibano de Teixeira, onde o comando político havia sido transferido para o Coronel Dario Ramalho de Carvalho Lima, em detrimento do Dr. Franklin Dantas, médico, líder político até então.

Rompido com os chefes locais, o Dr. Augusto Santa Cruz protagonizou uma série de episódios onde imperou a violência, com perseguições, espancamentos, invasões de vilas, tiroteios e mortes. Em 1910, rompeu com Pedro Bezerra, envolveu-se em emboscadas e invadiu a vila de São Tomé (atualmente a cidade de Sumé-PB).

Por esses crimes foi pronunciado pela Justiça. Inconformado, em maio de 1911 cercou a vila de Monteiro com 200 homens armados sob o seu comando, quebrou a cadeia, libertou os presos e fez vista grossa aos desatinos que seus homens cometeram pela cidade, quebrando portas, saqueando lojas e bens dos inimigos. Ao final da escaramuça, tomou como reféns as autoridades locais, conduzindo os prisioneiros para sua fazenda Areal. Augusto Santa Cruz pretendia negociar a liberdade deles em troca de anistia dos crimes pelos quais estava sendo acusado.(1)

Casa sede da Fazenda Areal, fonte: Tokdehistória.wordpress 

O governador ignorou os pedidos de negociação e enviou força policial a Monteiro para prendê-lo e libertar os reféns. A fazenda Areal foi atacada pelas tropas e depois de intenso tiroteio Santa Cruz conseguiu evadir-se com seus homens. Os reféns foram sendo soltos aos poucos, ou foram fugindo, aproveitando as brechas da segurança. A força policial, depois do cerco, queimou completamente a fazenda, destruindo tudo o que encontrou pela frente. Mas Santa Cruz não desistiu. Reorganizou suas forças, aliou-se a Franklin Dantas, líder também desprestigiado no Teixeira, junto com o qual traçou planos de invadir a capital da Paraíba. Para isso, conseguiu reunir um “exército” de mais de 400 homens, entre moradores, empregados, fugitivos da justiça, ex-cangaceiros, amigos e parentes(2).

Em maio de 1912, à frente dessa beligerante coluna, o Dr. Augusto Santa Cruz invadiu Patos, Taperoá, Santa Luzia do Sabugi, Soledade e São João do Cariri. A partir daí, frente à resistência oferecida pelo governo estadual e vendo a impossibilidade de continuar tendo sucesso no tresloucado projeto, fugiu para Pernambuco e em março de 1913 foi submetido a júri popular em Monteiro, com os irmãos Miguel e Arthur atuando na defesa, sendo absolvido por unanimidade.

Depois disso, exerceu o cargo de juiz de Direito em várias localidades de Pernambuco. Aposentou-se em Limoeiro-PE, onde faleceu, em 31 de outubro de 1944, aos 69 anos de idade. 

1. As autoridades seqüestradas foram: Pedro Bezerra, prefeito; José Inojosa, promotor público; Capitão Albino, comerciante e fazendeiro; Major José Basílio, comerciante e fazendeiro; e Victor Antunes, chefe da Agência do Correio da Vila de Alagoa do Monteiro. NUNES FILHO, Pedro. Guerreiro Togado: fatos históricos de Alagoa do Monteiro. Recife, Ed. Universitária, 1997. A fazenda Areal se localiza atualmente no município de Prata-PB

2. Desse exército, fazia parte, como seu lugar-tenente e homem de confiança, Julio Salgado, irmão de Teotônio Salgado de Vasconcelos, meu bisavô. Julio Salgado e sua mulher Quitéria Amélia Borba Salgado (Sinhá), meus tios-avós, foram padrinhos de batismo de minha mãe, Cleuza Santa Cruz Quirino. 

Fonte: 
http://clotildetavares.com.br/genealogia/guerradedoze.htm 

http://cariricangaco.blogspot.com 
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