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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Revendo entrevista - Antonio Vilela

JORNAL DE FATO - Mossoró (RN)
Luitgarde Barros e Antonio Vilela (clique na foto para ampliar)
O professor de História e escritor pernambucano Antônio Vilela, há mais de 30 anos, estuda o cangaço e especialmente a trajetória de Lampião. Passando por Mossoró, ele fala sobre o sucesso do seu livro “O Íncrível Mundo do Cangaço” e dos preparativos para o segundo livro em elaboração abordando a mesma temática, mas com as entrevistas a cangaceiros que ainda estão vivos. Confira mais:

REVISTA DOMINGO – Como surgiu o seu interesse pelo Cangaço?
ANTÔNIO VILELA – Quando era menino eu ouvia muito as histórias de cangaço, por uma senhora que me contava muito sobre Lampião. Em 1976, eu fui estudar no ENA, um colégio adventista, e conheci uma garota de Mossoró com a qual me casei e quando pela primeira vez eu vim a Mossoró, em 1974, e visitei a antiga cadeia que já era o Museu Municipal Lauro da Escóssia, fiquei sabendo que foi ali que Jararaca havia sido preso, morrendo aqui em Mossoró. Então, a partir daí, comecei a estudar cangaço e visitar o cemitério São Sebastião. Meus estudos começaram propriamente aqui em Mossoró.

ENTÃO a sua paixão começou por aqui?
SIM. Depois ganhei o mundo estudando o cangaço. Muitas pessoas confundem e pensam que estudar o cangaço é somente Lampião e não é. Hoje estou fazendo um trabalho focalizando o cangaço no agreste pernambucano, tirando um pouco o foco de Lampião e trabalhando com outros cangaceiros que atuaram na região. Sou amigo de seis cangaceiros vivos e de sete policiais que perseguiam os cangaceiros e é muito interessante ouvir os relatos destes dois lados.

O SENHOR já visitou muitos estados e cidades por onde o cangaço passou aqui no Nordeste ouvindo estes depoimentos. O que mais lhe surpreendeu nestas visitas e nestes relatos?
O QUE mais me surpreende ainda hoje ao ouvir os cangaceiros vivos é perceber o amor e a lealdade que eles têm por Lampião. Por exemplo, eu visitei uma senhora chamada Antônia Firmina, atualmente com 106 anos, e há pouco tempo, há três anos, ela revelou o segredo que lavava a roupa de Lampião e ao revelar este segredo, só agora ela achou que havia traído Lampião. Dos cangaceiros vivos, eu tenho um vínculo de amizade com o cangaceiro “Vinte e Cinco”, o José Alves de Matos, que mora em Maceió e ele sempre destaca essa lealdade. Inclusive eu filmei um documentário com o “Vinte e Cinco” e ele me fez prometer que só iria divulgar esse material após a sua morte. Então, o que me surpreende é a lealdade, a amizade que havia entre eles. Peço a Deus muitos anos de vida a ele porque eles são fontes de informações e só vou editar quando eles partirem.

MUITO já se discutiu se Lampião foi herói ou bandido e há uma divisão entre os que estudam a vida dele. Diante dos seus estudos, qual é a sua opinião?
PARA mim, Lampião é um mito e não me interessa se ele era bandido ou herói. Naquela época, o que Lampião fazia, a polícia fazia pior que ele. Então, eu estudo Lampião como um mito, como uma conseqüência do meio, um homem que teve coragem de enfrentar os coronéis e, para se ter uma idéia, colocou governadores na palma da mão. Por exemplo, o então governador de Pernambuco, Sérgio Loreto, fez uma proposta de dividir Pernambuco em que ele governava da quebrada do Recife, Rio Branco, Arco Verde e o Lampião seria o governador do sertão do Rio Branco até o São Francisco. Por aí veja a influência desse homem. Para mim, Lampião é um mito e a história julgue se ele era um mito ou um herói.

ALGUMAS publicações ressaltam o Lampião como um grande estrategista. Você confirmou isso nos depoimentos que colheu?
LAMPIÃO era um grande estrategista! Um dos maiores estrategistas da América. Veja que ele passou aproximadamente vinte anos sendo perseguido pela polícia de sete estados e conseguia sobreviver, é porque ele tinha algo de especial. Segundo o grande perseguidor de Lampião, o Optato Gueiros, que é pernambucano de Garanhuns, “Lampião era um gênio até na arte de torturar”.

O SENHOR já lançou um livro – O Incrível Mundo do Cangaço – fruto de anos de pesquisa e agora está preparando o segundo livro. Nos fale um pouco sobre este trabalho.
EU escrevi o Incrível Mundo do Cangaço em 2007. Hoje tenho só duas cópias e vendi mais de 4 mil exemplares. É um trabalho que focaliza esse mundo do cangaço, a vida de Lampião e principalmente as incríveis curiosidades do cangaço. Esse novo trabalho que estou preparando pretende focalizar o cangaço no agreste com pessoas diferentes como os cangaceiros “Paizinho Baio”, o “Vicentão” o Vincente Gomes, que foi um dos responsáveis por uma tragédia em 1927 em Garanhuns chamado de “Hecatombe de Garanhuns”. Tem ainda a figura do Capitão Américo, que foi outra personagem, da cidade do Brejão, e que matou centenas de pessoas e sem deixar de falar nos grandes protetores de Lampião. Muitas pessoas não conhecem o trabalho do Coronel Zezé Abílio de Bom Conselho do Papacaça, nem Gerson Maranhão, Audálio Tenório e o próprio José Lucena, que é quem coloca praticamente Lampião no Cangaço, porque ele foi responsável em 1920 pela morte de José Ferreira e na década de trinta Lampião fez amizade com ele para não perseguir o Zezé Abílio, Audálio Tenório e o Gerson Maranhão. Então, esse segundo trabalho, que será intitulado “O Incrível Mundo do Cangaço - volume dois”, é um trabalho com algo especial. Tenho entrevista com vários cangaceiros vivos e com alguns já falecidos – Durvinha, que morreu ano passado, com Moreno, com Dulce, que ainda é viva em São Paulo, com Vinte Cinco, Aristéia, uma cangaceira de Paulo Afonso. Material inédito focalizando estas pessoas, perseguidores de Lampião e desconhecidos do mundo cangaço como o Tenente Caçula e o Tenente Zé Jardim, que dedicaram suas vidas a perseguir Lampião. São homens de uma grande referência para o cangaço, mas que poucos historiadores os conhecem.

ALÉM de pesquisar, como faz para se encontrar com estes personagens e colher estes depoimentos?
GERALMENTE nas férias eu faço isso e sempre aos finais de semana. Isso também porque eu moro próximo ao reduto de Lampião, a uns duzentos e poucos quilômetros. Então eu passo o final de semana à procura de cangaceiros.

QUAL a previsão de lançamento deste livro?
PLANEJO lançar este livro em 2010 por ser um trabalho minucioso, que exige tempo, cuidados. Para esse livro, eu tenho 28 fitas gravadas com esses depoimentos. Tenho que escutar e fechar uma pesquisa interessante com o Benjamim Abraão, que foi a pessoal que fez grande parte das fotos de Lampião.

TEM algum detalhe da morte dos cangaceiros na Grota do Angico que seja novidade?
TEM uma novidade. Outro ineditismo que vou tratar no livro é a história do soldado Adrião. Se você conversar com qualquer pesquisador do cangaço, vão dizer que no dia 28 de julho de 1938 morreram 11 cangaceiros na Grota do Angico. Mas não é só isso. Morreram 11 cangaceiros (Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros) e o soldado Adrião Pedro de Souza, que morreu cumprindo o dever e não é citado por nenhum historiador. O próprio João Bezerra, lá no Angico, mandou erguer onze cruzes e esqueceu o soldado Adrião. Nós estamos trazendo esse fato e estamos fechando a minha pesquisa sobre ele porque o soldado estava cumprindo o seu dever. Fiz uma pergunta ao sargento Antônio Vieira, que estava lá no momento do Angico, e ele fala da suspeita de Adrião ter sido morto por “fogo amigo”. Antes de abordar os cangaceiros, o tenente João Bezerra tinha tido uma discussão com o soldado Adrião. E talvez os próprios amigos mataram o Adrião e poucos têm conhecimento desse fato.

O SENHOR acha que a nova geração tem se preocupado em conhecer essa parte da história do Nordeste?
TEMOS de agradecer ao trabalho muito bem feito da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), pois os estudiosos e pesquisadores do cangaço levantaram a figura de Lampião e hoje existe um interesse muito grande, não só em Lampião, mas pelo cangaço como um todo, bem como a nossa cultura, a cultura nordestina. É preciso agradecer ao pessoal da SBEC, aos escritores brasileiros como o Antônio Amaury, Luitgarde Barros, Frederico Pernambucano, Alcino Costa, Souza Lima, Paulo Gastão, Kydelmir Dantas, Elise Jasmin, Aderbal Nogueira, Ângelo Osmiro, enfim, tantos outros que estão sempre trazendo estudos e nós não vamos de maneira alguma deixar morrer elementos da nossa cultura.

Antônio Vilela de Souza é sócio da SBEC.

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