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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A primeira mulher a ser cacique no Brasil

Foto: Rui Faquini/Divulgação
A índia Creuza Umutina, mãe aos 12 anos, é a 1ª. mulher a ser cacique no Brasil e mudou a gestão de sua aldeia
A primeira cacique brasileira ganhou prestígio depois de conquistar o mais alto posto no pódio dos Jogos  Indígenas. Categoria: arco e flecha
A mãe ralhava com a menina que gostava de brincar de bola e treinar arco e flecha. Não eram diversões adequadas para indiazinhas que deveriam, desde cedo, aprender a cuidar dos homens da tribo. Creuza Umutina respeitava as broncas. Mas aproveitava o descuido materno para, em meio aos homens, treinar sua pontaria e o seu futebol.
Os disparos escondidos da família acertaram, anos mais tarde, um outro alvo na Aldeia Umutina, instalada no município Barra do Bugre, no Mato Grosso. O prestígio no arco e flecha levou Creuza para o posto mais alto do pódio dos Jogos Indígenas e também para entrar na história das conquistas femininas. Em 2004, graças à fama no esporte, foi eleita - por voto popular - a primeira cacique mulher do Brasil.
Em 2008, aos 42 de idade, repetiu o feito e mudou a gestão de Umutina. Mas até chegar em novembro de 2011 como candidata fortíssima a faturar o terceiro mandato aos 47 anos, Creuza precisou vencer outros desafios e quebrar outros paradigmas. Alcoolismo, educação e divórcio também compõem a biografia desta mulher.
Aos 12 anos, lembra, já estava grávida do marido, escolhido pelos pais. A infância foi curta. Aos 12 anos, lembra, já estava grávida do marido, escolhido pelos pais. “Daí não dava para escapulir e brincar”, diz. A boneca, de carne e osso gerada em seu ventre, exigia dedicação total. “Era uma criança cuidando de outra criança. Mas era a minha obrigação”, conta.
Foram cinco filhos paridos quase que em sequência. E, sem nunca ter provado um só trago de pinga, a índia conheceu, na vivência da maternidade, os males da bebida alcoólica. “Meu companheiro começou a beber demais logo quando meu segundo filho nasceu. Ficava violento, agressivo. Faltava coragem em dizer para ele que eu não estava feliz.” 
Se as meninas não brincavam de arco e flecha, as mais velhas (entenda casadas, já que muitas ainda eram adolescentes) não se divorciavam.
A mistura entre gravidez precoce e alcoolismo do parceiro, assim como fez com boa parte das mulheres de Umutina naquela década de 70, poderia ter definido o destino de Creuza. Mas ela tinha, como uma carta na manga, o talento “proibido” da meninice.
“Consegui o respeito da comunidade - e a reviravolta na minha vida - com o arco e flecha que minha mãe tanto detestava”, diz. Voltou a treinar a pontaria, relembrou o dom “que já nasceu comigo” e no ano 2004 foi campeã dos Jogos Indígenas na modalidade (desbancando inclusive o marido, que já havia sido promovido a “ex”).
Talento para atividade física é admirado pelos índios. O feito, acreditam, indica que a pessoa trilha o caminho do bem. A fama de vencedora e de guerreira se espalhou. “Naquele mesmo ano fui eleita cacique, a primeira mulher no posto”, diz.
Segundo o censo feito pela Funai (Fundação Nacional do Índio) hoje existem 220 povos indígenas diferentes, que somam mais de 800 mil pessoas, falantes de 180 línguas distintas. Mesmo em meio aos idiomas tão diversos, as vozes desta parcela da população brasileira reclamam de problemas semelhantes em todas as etnias do País.
Assim como o homem branco, o negro e o oriental, os índios também padecem do crescimento importante da obesidade, da dificuldade no acesso à educação e da devastação provocada pelo consumo abusivo de álcool.
Todas estas mazelas serviram de diretrizes para a cacique Creuza. Em seu povoado de cerca de 500 pessoas, ela traçou um plano de ação. Abriu a aldeia para escola, centros de saúde, programas para a dependência química, internet e também antenas de televisão.
Professores na aldeia, educação, programa contra o álcool, computadores e internet são as conquistas da cacique
Todos os feitos de Creuza são ligados a sua trajetória pessoal. Quando fala, com orgulho, da escola que conseguiu implantar dentro da Aldeia, ela cita que a sua gestação precoce a afastou dos estudos logo no início do Ensino Fundamental. “Os meninos daqui também quase morriam para chegar ao colégio, longe demais. Tinha de atravessar o rio e passar pela estrada para estudar. Então, trouxemos os professores para perto e ninguém sofre mais para ter educação.”
Ao pontuar o programa contra o álcool – com médicos, palestras e conversas divididas em quatro etapas com o índio que bebe demais (atualmente, segundo levantamento feito pela Secretaria Nacional Antidrogas 38% dos indígenas tentam, mas não conseguem, parar de beber) – Creuza usa o ex-marido como exemplo. “Ele melhorou, casou de novo e eu estou até amiga da nova esposa dele. O álcool é destruidor da família. Prejudica quem bebe e quem está ao lado”, fala.
Para as mulheres, ela fala da importância de cuidar da dieta fazendo mea-culpa, já que também está com quilinhos extras (a Fundação Nacional de Saúde Indígena mostrou que 46,5% delas estão com sobrepeso). Também defende a visita ao médico e passar por exames.
Desde setembro, técnicos têm visitado a Aldeia Umutina para tirar uma gotinha de sangue dos dedos dos índios. Começou nesta tribo a campanha do Ministério da Saúde a campanha de teste rápido da aids, uma novidade benvinda pela cacique.
Sobre a conexão dos 30 computadores à internet e às antenas de TV instaladas nas casas, Creuza fala que podem ajudar a mulher a buscar informação e autonomia, dois critérios fundamentais, avalia ela, para ter dado uma guinada na sua vida.
“E praticar esporte também é bom, né? Veja o meu caso...”, diz respirando fundo e voltando lá para o início da sua jornada. “Minha mãe morreu brava comigo por causa da minha adoração pelo arco e flecha. Mas acho que agora, onde ela estiver, deve estar com orgulho de tudo que eu consegui por causa dele.”

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