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sábado, 24 de fevereiro de 2018

“O GLOBO” – 03/11/1965 MORREU TRANQUILO NO RIO O HOMEM QUE LIQUIDOU O BANDO DE LAMPIÃO


Material do acervo do pesquisador do cangaço Antonio Corrêa Sobrinho
O então coronel Teodureto Camargo abraçando o aspirante Ferreira de Melo (foto extraída do livro "Lampião Entre a Espada e a Lei", de Sérgio Augusto de Souza Dantas").

Aos 63 anos de idade, morreu tranquilo num apartamento da Tijuca e foi sepultado no cemitério de São João Batista o general Teodureto Camargo do Nascimento, o homem que comandou a luta contra o cangaço no Nordeste e perseguiu até o fim o bando de Lampião. Em seu arquivo particular, que a reportagem de O GLOBO folheou em Teresópolis, onde ele residiu desde que passou à reserva, existem documentos inéditos sobre Lampião, inclusive o seu lenço de seda azul com rosas vermelhas e um vestido lilás de Maria Bonita.

O general Teodureto, antigo chefe de polícia de Alagoas, foi quem mandou comprar metralhadoras para combater os cangaceiros e equipou os seus homens para a guerrilha no sertão, transformando-os de “macacos”, que o povo desprezava, em homens eficientes na luta contra o crime. No entanto, era inimigo da violência, e nunca se conformou com a atitude dos homens que cortaram a cabeça de Lampião, Maria Bonita e outros companheiros, para exibir como troféu.

UMA VIDA INTENSA

A luta do então coronel Teodureto contra o bando de Lampião durou quase 10 anos, e não acabou no dia 28 de julho de 1938. A morte do “rei do cangaço” não significou o fim do império de violências que se espalhava por todo o Nordeste, porque vários bandidos conseguiram fugir e outros surgiram no sertão, implantando o terror.

Do arquivo particular do general Teodureto, armas e objetos de Lampião, como o seu lenço de seda com rosas brancas. 

O general Teodureto possuía em sua casa uma coleção de punhais. A maioria foi recolhida no leito seco do rio Angicos, onde se travou a última batalha contra Lampião. Por uma estranha coincidência, eram 48 soldados contra igual número de cangaceiros. Onze bandidos foram mortos, inclusive o capitão Virgulino Ferreira e sua mulher, Maria Bonita. Um punhal, sujo de sangue, jazia por terra. Tem quase meio metro e lembra uma espada. O cabo está incrustado das alianças de suas vítimas. Mais de 30 pessoas tombaram sob o punhal do lugar-tenente de Lampião.

- O facínora Luiz Pedro – conta Germano Nascimento, filho do coronel Teodureto – tinha o seu método de matar. Amarrava a vítima num poste e enterrava o punhal na fossa clavicular.

LEMBRA TUDO

Germano e sua mãe, dona Alfierina, viveram horas difíceis quando o general Teodureto comandava a polícia de Alagoas. O menino viu o pai ser aclamado como herói pela população e lembra-se também de alguns cangaceiros que foram procurá-lo para se entregar.

- Meu pai era acima de tudo um homem bom, não nutria ódios nem mesmo contra os cangaceiros. Em sua opinião, a violência que se cometer a era inevitável, mas nunca admitiu a ideia de que fossem decapitados. Esse fato o deixou amargurado por muito tempo. Às vezes, em nossa casa, aqui em Teresópolis, recordava com tristeza aquela fase difícil de sua vida. Abria o álbum, e começava a desfilar as lembranças de sua mocidade.

OUTRAS RECORDAÇÕES

O capitão João Bezerra, que chefiou a luta em Angicos, ofereceu sua Winchester ao general Teodureto. A arma, guardada com carinho, era um reconhecimento ao antigo comandante da PM, que soube dignificar os seus soldados. Antes eram conhecidos apenas por “macacos”, não possuíam fardamento regular e muitas vezes apresentavam-se descalços.

- Meu pai – continua Germano – adquiriu 50 metralhadoras alemãs, Bergman, e seis caminhões Ford e quatro estações de rádio, reequipando assim a polícia de Alagoas para a luta contra os cangaceiros. A maior novidade que introduziu, foi o destacamento móvel da PM. Era de opinião que um quartel apenas, na capital, não bastava para exterminar o cangaço. Surgiram as volantes, que se deslocavam pelo sertão a fim de lutar contra os bandoleiros.

ESTRATÉGIA E GUERRILHA

O general Teodureto tinha grande respeito por Lampião. Não o considerava um simples cangaceiro. Achava-o inteligente e, acima de tudo, um grande estrategista, precursor da luta de guerrilhas. A força volante, criada no interior e com capacidade para mobilizar-se em todo o sertão, foi a única fórmula encontrada para dar combate a ele. Seu bando deslocava-se em várias frentes e atingia os estados de Sergipe, Alagoas, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

O Nordeste vivia traumatizado por suas façanhas, que ganhavam as manchetes no Brasil e no mundo.

Para vencer a luta, o general Teodureto foi obrigado a pôr em prática a mesma estratégia de Lampião. Preparou seus soldados com igual espírito de luta, e deu-lhes fardas apropriadas, quase semelhantes às usadas pelos cangaceiros, que serviam também para iludir.

UMA CARREIRA

O general Teodureto, que faleceu aos 63 anos, formou-se na Escola Militar do Realengo, mas antes de preparar a luta contra os cangaceiros já perseguira a Coluna Prestes, no interior da Bahia e Piaui. Aos 24 anos, comandara um batalhão, e alguns anos depois participava da Revolução de 30, na Paraíba, ao lado de Juraci Magalhães e Juarez Távora. Tomou a cidade de Natal, onde foi chefe de polícia durante o governo revolucionário. Ainda em 1930 era nomeado comandante da Policia Militar de Sergipe.

O soldado Honoratinho exibindo ao repórter Mechiades da Rocha a arma com que liquidou Lampião

Mais tarde, esteve ao lado do general Daltro, durante o Movimento Constitucionalista, em São Paulo, assumindo finalmente o comando da Policia Militar de Alagoas. Tinha início a fase mais intensa de sua vida, marcada por constantes viagens pelo sertão. Serviu, anos depois, no Rio Grande do Sul e no 11º RI, de São João Del Rei. Promovido a coronel em 1953, passou para a reserva como general de divisão e foi residir em Teresópolis, onde era visitado por numerosos companheiros de farda, inclusive pelo marechal Lott. Somente aos amigos recordava a luta contra o cangaço e exibia os documentos sobre Lampião. O que mais chamava a atenção era o vestido lilás de Maria Bonita e o lenço de seda do “rei do cangaço”.

ÚLTIMOS DIAS

Há alguns dias, o general Teodureto comprou um Volkswagen, e se lembrou do seu Ford-28, com o qual percorria o sertão. Para chegar a Angicos, onde se travou a derradeira luta contra Lampião , em 1938, fez parte do percurso em seu automóvel, depois numa canoa, e caminhou ainda muitas léguas a pé até o local onde o soldado Honorato abatera Lampião com um tiro. O corpo estava também varado pelas balas de metralhadora, desferidas pelo soldado Bertoldo.

- O horrendo desfile das cabeças cortadas sempre foi um pesadelo para meu pai – conta Germano. Quando chegou ao local, nada mais podia fazer. O gesto extremo já se consumara e o cortejo tinha início. Era, na verdade, o único troféu que os soldados levavam. Muitos tinha sido assassinados, e a cabeça de Lampião era o símbolo de uma vitória e de uma terrível e inominável vingança que o meu pai nunca mais esqueceria.

Lampião e Maria Bonita, em foto de Abraão Boto.

MARIA BONITA

No arquivo do general Teodureto existem fotos inéditas de Lampião. Numa delas, o “rei do cangaço” aparece costurando, e outra ao lado de Abraão, o fotógrafo cuja máquina de magneto documentou momentos felizes de Maria Bonita afagando seus cães, ou sentada. Tranquila no sertão agreste. Abraão morreu assassinado. Sua intimidade com os cangaceiros nunca foi vista com bons olhos pelos policiais. Quando se supunha que Lampião estava morto, os jornais do Rio publicavam uma foto do cangaceiro-chefe lendo a “Noite Ilustrada”.

Existem ainda no arquivo do general Teodureto fotos até agora desconhecidas de membros famosos do bando, entre eles Corisco, Luiz Pedro e Velocidade. Este foi o último a se entregar, e só o fez perante o comandante Teodureto do Nascimento.

PASSAPORTE NO SERTÃO

O documento mais pitoresco é a reprodução de um passaporte visado pelo temível capitão Virgulino Ferreira. É endereçado ao prefeito da cidade de Pão de Açúcar, e nele o bandoleiro escreve com letra firme: “Ao Sr. Antônio Joaquim Rezendis, como prova de amizade e garantia perante os cangaceiros, oferece C. Lampião”.

Com o documento, a população de Pão de Açúcar e o seu prefeito ficaram a salvo dos bandoleiros; bastava exibi-lo nas estradas. Mas só era válido desde que trouxesse como timbre a fotografia do emitente, ou seja, um retrato de três por quatro de Lampião.

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