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terça-feira, 3 de julho de 2018

ERROS (IM)PERDOÁVEIS

*Rangel Alves da Costa

Outro dia, aqui mesmo nesta página, sempre levado pela convicção do que escrevo ou pela falsa memória que de repente surge, eis que acabei cometendo um deslize imperdoável. Ou perdoável, considerando-se as circunstâncias de quem tanto escreve. Fato é que citando o autor do romance regionalista A Bagaceira, acabei trocando os nomes e tornando o texto numa verdadeira bagaceira, ou bagaçada, melhor dizendo. Ao invés de citar José Américo de Almeida, o que fiz foi nomear e repetir José Lins do Rego. O contexto da trama, junto à moldura da paisagem do desenrolar dos fatos, certamente me fez trocar de engenho.
Somente depois de uma ligeira olhada no texto é que percebi a confusão. Então fiquei me perguntando como eu poderia ter cometido tal deslize se desde os tempos de ginásio eu já havia enveredado nas lições de literatura brasileira e muito aprendido sobre o romance regionalista. E depois me tornei assíduo leitor de todos eles. Na minha estante tenho não só José Américo de Almeida como José Lins do Rego, mas também Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo e tantos outros. Então, com a recordação do enredo, envolvendo engenho e aquela labuta servil e desumana, logo me veio à mente Lins do Rego e o seu Menino do Engenho. E levei o mundo da cana e do bagaço deste para A Bagaceira de José Américo.
Um erro, pois, lamentável verdadeiramente imperdoável, porém sempre comum acontecer no mundo da escrita. Não há escritor que não cometa deslize, não há autor que não erre na pressa de produzir o seu texto. Nem sempre com tempo de reler, checar, de pesquisar para averiguar datas, nomes e situações, eis que acaba trocando tudo. O pior é que parece uma cegueira total do escritor ante o seu escrito. Outra pessoa logo encontra o erro, logo aponta as falhas, mas não o próprio autor. Pode ler e reler, soletrar, mas não tem jeito. O olhar de quem escreve parece enxergar somente aquela primeira escrita, e esta sempre correta, ainda que toda desvirtuada. Comigo é assim e creio que com muita gente também.


Certa feita, numa gráfica, ouvi que o escritor, pesquisador e folclorista sergipano Luiz Antônio Barreto sempre dizia que evitava o máximo corrigir sua própria escrita, vez que não adiantava. Passava os olhos pelos erros da escrita sem a menor percepção de qualquer deslize. Ou pedia para alguém corrigir ou publicava sua obra do mesmo jeito que havia nascido. Talvez seja por isso que atualmente poucos são os escritores que escrevem sozinhos. Sempre há algum auxiliar até mesmo para reescrever. O grande Jorge Amado, temendo ser traído pela memória, ia pregando pedacinhos de papéis por toda a sala onde costumava escrever. Ali nomes, características, datas, situações, de modo que não fosse preciso perder tanto tempo em buscar os nascedouros de suas personagens e tramas.
Tudo talvez seja causado pela síndrome da suposição do pleno conhecimento dos fatos. Ou ainda pela traição da própria escrita. Ora, toda vida eu soube que o cangaceiro Canário era companheiro da cangaceira Adília. Do mesmo modo, sempre tive conhecimento que o cangaceiro Zé Sereno era companheiro de Sila, também cangaceira. E conheci tanto Adília como Sila, pois minhas conterrâneas de Poço Redondo. Contudo, em mais de um escrito eu troquei tudo, dizendo que Canário era companheiro de uma e que Zé Sereno convivia com outra. O erro só é revelado depois, quando algum leitor mais arguto logo desmente o fato. E aos outros, quase sempre, a sensação de falta de conhecimento de quem escreveu. Uma incompreensão sempre havida.
Será que quem comete tais equívocos pode ser chamado de desconhecedor da história, da literatura ou dos fatos? Aos olhos dos outros sim, principalmente por que todo leitor sempre espera que a informação repassada seja correta. Não sabe, contudo, os labirintos mentais que acabaram invertendo os fatos e repassando o que está incorreto. As armadilhas são tantas que até o computador acaba atrapalhando ao invés de ajudar. As correções ortográficas podem provocar danos irreparáveis, pois vai criando palavras por conta própria e modificando todo o sentido do texto. João Guimarães Rosa certamente sofreria perante o computador. Praticamente todo o seu texto seria tido como incorreto senão todo transformado ao bel-prazer da máquina.
Em recente livro em coautoria, ao invés de escrever “deste o século XVIII”, acabei cunhando “deste o século VIII”. Um erro imperdoável e repassado à minha frente por um leitor. Então me pergunto, por que, sobre o mesmo fato eu sempre escrevi corretamente, afirmando ter sido a partir do século XVIII e daquela vez rescrevi de acrescentar algo essencial? Com o livro publicado, a impressão que fica é de apenas ter errado. Como de fato, mesmo sem querer, aconteceu. Dizem, então, que a revisão se faz necessária. Sim, mas nem mesmo os jornais com revisores deixam de trazer notícias atravessadas e até ilegíveis. São as tramas da escrita, apenas.

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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