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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

A VELHA SENHORA, A COCADA BRANCA E A MORINGA NA JANELA

*Rangel Alves da Costa

Delurdes já estava pra mais de setenta anos. Contudo, pela vida de luta, sacrifícios e sofrimentos, parecia já ter descambado acima dos oitenta.
Viúva desde muito, com filhos morando distantes e esquecidos da existência da própria mãe, outra coisa a velha senhora não fazia senão viver na ilusão da felicidade.
E que dolorosa ilusão! A fuga da nostalgia, da solidão e das cruéis recordações, exigia-lhe reinventar a existência.
Conversava sozinha, inventava um mundo que só existia no seu pensamento, procurava povoar aquele vazio lar numa normalidade inexistente.
Daí que se danou a fazer cocada branca para vender numa mesinha colocada rente a parede de barro da frente, bem pertinho da janela.
E pertinho por que logo ali, no umbral, uma velha moringa dormia e amanhecia para que a fresca na água fosse garantida.
Só existia um problema: como vender a cocada e oferecer caneca d’água se por ali dificilmente passava gente? Mas parecia que ela não se importava muito com isso.
Começava a ralar coco assim que levantava. Aprontava o fogão de lenha, juntava garrancho por baixo, colocava o tacho por riba com as chamas já levantadas.


Com a água na moringa não havia preocupação, vez que dia e noite a jarreta de barro em cima do umbral na janela sempre aberta.
Depois de mexer e remexer e de a cocada ficar no ponto, ela cuidadosamente despejava numa forma de madeira. Estava pronta a cocada branca.
Depois de esfriar um pouco, logo ela seguia para colocar o seu doce na mesinha no lado de fora. Depois sentava numa cadeira de balanço debaixo dum pé de pau logo adiante.
A cocada ali, mas ninguém passava para experimentar. A água de moringa ali, mas ninguém passava para matar a sede.
Enquanto isso, conversando sozinha, Delurdes parecia noutro mundo. Noutro mundo distante, como se encontrando ou reencontrando pessoas do seu passado.
De vez em quando, quando a palavra lhe faltava ou silenciava por algum motivo, as lágrimas desciam e encharcavam sua face enrugada de tempo. O lenço molhado testemunhava a angústia da solidão.
A noite chegava e ela ia recolher o que havia restado da cocada. Restado, mas como se nenhum caminhante por ali havia passado? Sim, não havia passado, mas havia chegado. Seu falecido esposo tanto gostava de cocada como a levava para agradar os amigos do além.

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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