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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

NA BACIA DAS ALMAS

Por Rangel Alves da Costa*

Há instantes na vida, no vai e vem do destino, que a pessoa passa a estar verdadeiramente dependente da bacia das almas. Em determinadas situações, onde tudo já parece perdido, pois tudo já tendo se mostrado sem nenhum efeito, então a pessoa se prostra para ver se enxerga resposta na bacia dos aflitos. Não que a seus pés esteja um vaso com água e que se ajoelhando veja refletida a resposta ao que deva fazer, mas no que encontra como último refúgio, como última salvação.
Eis, pois, a bacia das almas. Na bacia lava-se, purifica-se, avistam-se na sua água os sinais do destino. Mas nela também se joga o grão que some ao fundo ou mesmo enxerga-se o nada ter no seu raso. Deseja-se uma esmola por não haver nada na bacia ou desespera-se porque a qualquer instante o que nela resta vai desaparecer. Então, fazer o que? Sofrer. O mesmo sofrimento dos aflitos diante da bacia que clama para não sumir no seu próprio raso. O sofrimento percebido em toda bacia das almas.
A expressão é comumente usada como ditado popular, mas contém história de uso. Popularmente se diz que a pessoa está na bacia das almas quando está entregue à última sorte da vida, quando parece que nada mais lhe resta como salvação. Não raro se diz que a situação se mostra tão difícil de ser superada que ao sujeito só resta esperar pela dádiva da bacia das almas. Ou que depois de tudo tentado e nada conseguido, agora desesperadamente se lança à bacia dos suplicantes. Entregues a tal destino, as almas aflitas passam geralmente a depender de outros que lhes estendam à mão.
Historicamente, há relatos que no período medieval irmandades se reuniam para angariar fundos para a celebração de missas em favor das almas do purgatório; ou seja, daquelas pessoas que necessitavam ultrapassar os portais do Paraíso e não tinham mais nada a oferecer para espiar seus pecados. Desvalidas, tais almas necessitavam da intercessão dos vivos por meio de missas, preces e oferendas. E tudo leva a crer que as bacias tanto eram os recipientes para arrecadação de fundos como as denominações das irmandades reunidas para tais fins.

Mas o conceito atual sempre remete a bacia das almas a uma situação dramática, desesperadora. Carrega em si uma noção de tormento e aflição. Na tal bacia está aquele que passa por extrema dificuldade, que não encontra mais possibilidade de resolução de seus problemas, que está entregue a qualquer sorte e nada mais depende somente dele. Soa como o último remédio, o último recurso, àquilo que a pessoa desesperadamente se apega como meio de libertação do perigo e do sofrimento. Ora, depois de tudo tentado e nada conseguido, abraça cegamente qualquer milagre que lhe pareça restar.
Assim, quando tudo já visto como perdido, então o milagre pode emergir da bacia dos aflitos, dos desvalidos. Ou, de modo diferente, somente na bacia das almas a pessoa é capaz de fazer algo jamais imaginado em outra situação, de tomar uma atitude tão extremada que a outra coisa não se afeiçoa senão como gesto desesperador. Neste último aspecto, a aflição e a desesperança fragilizam a tal ponto que torna o ser impotente, inútil para agir de outro modo e até desconhecido de si mesmo. Não há mais razão para sustentar uma negativa ou rejeitar a submissão, vez que sua condição se mostra tão desfavorável que nada pode exigir além do oferecido.
Os que sofrem e os necessitados, os que clamam por uma última ajuda, todos estes vivem à mercê da bacia das almas. Nesta o último rogo, o clamor angustiado, a extrema súplica. Alguém se desfaz de um bem desde muito carinhosamente guardado porque não encontra outra saída para resolver um problema. E outro adquire esse bem a preço vil porque encontrou a fragilidade naquele em lastimosa situação. Quando tudo já não surte mais efeito e a doença parece ter vencido, então se lança a qualquer tentativa de cura e pelos meios mais impensados. Dificilmente alguém penhora uma aliança muito antiga de casamento se não estiver com grande dificuldade financeira, ou com a corda no pescoço, como comumente se diz. Tais situações exemplificam a bacia das almas como último e desesperador recurso.
O sertanejo, por exemplo, que tanto se apega ao seu quase nada ter, só se desfaz de sua última e ossuda vaquinha se já estiver, verdadeiramente, na bacia das almas. Está tão necessitado que não encontra outra saída senão entregar parte de seu próprio ser por verdadeira ninharia. Em épocas de grandes secas, aliás, a vida do pobre sertanejo fica sempre à mercê desse poço raso dos aflitos. Desfaz-se de tudo que ainda lhe resta por qualquer tostão. Torna-se tão fragilizado que é iludido, enganado, subtraído daquilo que ainda lhe dava sustentação. E é assim que abre a cancela para o animal de estimação, para a sela carcomida de sol, e não raro para a própria família, pois até o terreninho entrega por dois vinténs.
A bacia das almas é, assim, o limite entre a força e a fragilidade humana. Diante dessa situação extrema, alguns compreensivos e de bom coração ajudam a transformar a súplica em salvação. Já outros, sempre se aproveitando da ocasião, simplesmente afundam a bacia e quem nela esteja pendente.
Poeta e cronista
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