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segunda-feira, 21 de março de 2016

DE CABEÇA PRA BAIXO

Por Rangel Alves da Costa*

Gabriel Garcia Márquez, Julio Cortázar, Juan Rulfo, Murilo Rubião e José Cândido de Carvalho, dentre outros mestres do realismo fantástico, uma espécie de narrativa literária onde as realidades são verdadeiramente absurdas, ficariam estupefatos diante do mundo revirado em que se transformou uma cidadezinha chamada Berço Esplêndido. Assim denominada depois que alguém por lá cantarolou: deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo...

O primeiro susto seria com o nome da cidade, não daquele conhecido, mas no outro que de repente se alastrou como mais verdadeiro e coerente com a realidade local: Berço Revirado. Mas muitos já a chamavam de qualquer coisa, assim como Berço Esculhambado, Berço Esbagaçado, Berço Aviltado. Se alguém perguntasse o porquê da mudança do nome de Berço Esplêndido para Berço Revirado, certamente encontraria uma resposta simples: É que desandaram tudo. Ou ainda: É que tudo está de cabeça pra baixo, revirado mesmo.

E tudo estava desandado mesmo. O vento norte chegava do sul, a porta da frente da casa era na parte de trás, indo para o quintal. As casas eram praticamente vazias, pois as pessoas comiam e dormiam do lado de fora. Os bichos de criação viviam com roupas e chinelos e as pessoas completamente nuas. Os inimigos viviam se abraçando cordialmente enquanto os amigos de vez em quando se apunhalavam. Ao invés do beijo, o que o outro apaixonado recebia era um tapa na cara. Chovia lágrimas e de vez em quando pessoas eram avistadas estendidas pelos varais.

Mas muito mais: O vigário vivia choroso aos pés do confessionário porque não havia ninguém a quem relatar seus pecados. Pedras eram cumprimentadas e respeitadas, lama era tida como algo devocional. Toda vez que um lamaçal surgia, logo flores, velas e perfumes eram colocados ao redor. O louco que noutros tempos era evitado a todo custo, agora era conselheiro, verdadeiro sábio da comunidade. Pelos jardins, que ficavam no telhado das casas, no lugar das flores nasciam espinhos e ao invés de perfume exalavam odores putrefatos pelo ar. E flores eram avistadas nas lonjuras do espaço e voando com asas de gavião.


Mas até então as pessoas comiam e bebiam com fartura, se divertiam com coisas as mais impensadas e parecia tudo dentro da normalidade do absurdo, do anormal. Mas tudo piorou quando os alimentos começaram a faltar, as cobranças se tornaram cada vez mais abusivas e um quilo de folha seca passou a valer dois dinossauros. Como os dinossauros não existiam mais, então o medo, a tristeza e o sofrimento se abateu de vez entre todos. Quem vivia chorando passou a sorrir sem parar, quem vivia gargalhando começou a continuamente gemer. Além do estado estarrecedor de antes, daí em diante se viu um quadro verdadeiramente dantesco.

O doido de pedra já transformado em sábio, então resolveu que o melhor a fazer seria ir reclamar com o governante local, que era uma estátua de língua pra fora e com o dedo maior da mão direita levantado em direção a quem se aproximasse. A população nua - e então muito mais magra e entristecida - chegou perante a estátua e, sem força na voz, apenas apontou para a barriga vazia, para a boca sedenta e para os braços feridos, como a dizer que faltava comida, bebida e remédio. A estátua então gargalhou, aumentou o tamanho da língua e levantou o dedo ainda mais. E soprou ventania tão forte que quase leva todo mundo.

Quando o doido, agora se mostrando sorridente (que era o seu jeito de mostrar fúria), acenou para a população chamando para avançar sobre a estátua e derrubá-la, então repentinamente surgiu um bicho medonho de duas caras e foi logo dizendo que o povo podia morrer, mas a estátua ficava. Em seguida abraçou a tirana escultura, escondendo-se atrás dela em seguida. Mas o povo já estava afastado, dançando (que era sua forma de mostrar desilusão), cantando (que era sua demonstração de tristeza) e fazendo gestos desconexos (que era como dizia que o fim havia chegado). E depois todos seguiram pelas ruas como almas penadas em busca de suas covas. Uma cena tão estarrecedora que parecia coisa do outro mundo. Mas ali era o outro mundo.

Mas como aconteceu tal mudança, alguém poderia indagar. Contudo, para conhecer como tudo aconteceu será preciso voltar no tempo e procurar compreender o que poderia ter acontecido para o lugar revirado assim de cabeça pra baixo. E coisa simples demais de relatar. O povo dali era bondoso, humilde, trabalhador, sempre acreditando naqueles que chegavam com promessas de melhorias. Mas confiou demais nas promessas e foi enganado. E enganado, desenganou-se. Daí em diante, não acreditou mais em nada, nem que o dia era dia nem que a noite era noite.

A descrença do povo era tamanha que tudo passou a ser visto ao contrário, revirado, de cabeça pra baixo. Mas estava mesmo. Nada mais se mantinha em pé, nem a crença no governante nem a esperança de dias melhores. Enquanto isso a estátua continuava apontando o dedo para o povo penando nas ruas, sempre gargalhando quando na presença do bicho de duas caras. Assim a vida em Berço Esplêndido. Até tudo revirar de vez.

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

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