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quarta-feira, 4 de julho de 2018

SOBRE AQUELE VELHO CASARÃO

*Rangel Alves da Costa

Minha linda Bonsucesso, minha tão bela Bonsucesso. Digo e repito: não há nas terras de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo povoação mais rica em cultura, que mais preserva suas raízes, que mais procura mostrar sua força tão nova e tão antiga.
E em Bonsucesso há, talvez, o maior enigma de todo o Poço Redondo. Ora, aquele Casarão defronte ao rio, levantado todo fortificado e imponente no umbro do Velho Chico, como se dali estivesse mostrando toda a pujança em meio a um sertão nem sempre na valia da vida, outra obra não é senão o maior mistério, o maior enigma, o maior desafio não só ao vizinho de rio como a todo o sertão e além.
E por que tanto mistério nesta construção datada dos idos de 1887? Simplesmente pelas interrogações que carregam dentro de suas paredes e arredores. E assim por que não foi apenas uma obra erguida pela mão escrava, não foi apenas uma construção erigida segundo uma expressão de poder e de mando, não foi apenas uma forma de dignificar e mostrar a força de um senhor perante seus vassalos e escravizados.
Foi - e acima de tudo - a mais perfeita moldura de um período histórico onde o poder era o poder e o homem abaixo do seu mundo era simplesmente seu serviçal. E um mando convivendo bem ao lado do ferrado, do aferroado, do lanhado, do ensanguentado, do subserviente a tudo.
Bem ao lado do Casarão (como ainda mostram as velhas fotografias) a senzala, a moradia indigna e cruel, ainda que levantada em pedra e massa. O escravo avistava bem ao lado o senhor, fazia vizinhança com o poder e o mando, mas fazer o que? Fazer apenas o que já havia feito antes. E que foi deixar pedaços de seus corpos entre as paredes grossas, cimentar com seu sangue as pedras que serviam de verdadeira muralha por detrás e arredores.


Ali, entre as paredes do Casarão, certamente o grito negro ainda preso, o sangue negro petrificado, a dor negra mais desumana e lancinante. Um Casarão construído como espelho de uma vaidade em meio aos sertões, e por isso mesmo portando uma coroa de mandacarus. E de espinhos tão pontudos e afiados que ainda hoje perfuram e lanham a pele do tempo.
Construção tão bela, tão grandiosa, tão majestosa, mas que nascida daqueles tidos como vermes e imprestáveis. Certamente dizia o feitor: “Ao negro nada, nenhuma pá, nenhuma colher, nenhum andaime, tudo ele faz como deve fazer. Ou apanha, ou é açoitado, ou morre!”
E assim, sem gemido que pudesse ser ouvido ou sangue escorrendo sem ser avistado, aquele Casarão foi erguido. E lá ainda está. Imenso, porém oculto. Grande, porém sem a real medida na história. Impenetrável ao visitante, apenas uma imensidão avistada ao longe.
Contudo, nada consegue esconder o que o livro do tempo escreveu: Ali um rei negro foi transformado em pedra de muro para proteção do branco! Ou, como me lanço em poema, o sangue como cal e pedra:

Sobre as costas o sangue e o suor
e na pele toda o jorrar do sacrifício
nada de viver para dizer que vive
nada de sonhar o sonhar humano
nada de ser além de uma caldeira
onde borbulham as vísceras nuas
e os gritos roucos e moribundos
em seres humanos açoitados na raça
e cativados nos troncos brilhosos
refletindo as chibatas esbranquiçadas.

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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