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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

HÁ RELATOS QUE PADRE CÍCERO DORMIA MUITO POUCO

Por Francisco Airton Castro Rocha2
Figura 2 Padre Cícero e o médico Luis Malzone, fundador dos Hospitais São Lucas; foto da década de 1920-1930, mostra inclinação lateral do pescoço. 

Há vários relatos de que o padre Cícero dormia muito pouco, era surpreendido a cochilar durante o dia, diante dos interlocutores, e até mesmo na sela de sua montaria.25,7,8 Sempre dormiu em rede, a despeito de ter uma cama em seu quarto.3 Tinha alimentação frugal, habitualmente jejuava por longos períodos. 14,6,8,9 Em 1910, ao pensar ser acometido de problemas renais, observou conselhos do Dr. Miguel Couto e acreditou que a situação decorria da água do Juazeiro. A partir de então, passou a beber apenas água de coco ou chá, não voltou a beber água potável. 35,10 Há descrições de hemoptises nas biografias do padre Cícero, embora nos pareça que se tratasse de hemoptoicos, já ele com 76 anos.2,3 Mesmo que não haja relato de sintomas respiratórios outros, considerando que o padre Cícero teria fumado, certamente cigarro não industrializado, por alguns anos, ainda antes de chegar ao Juazeiro,4,10 não se pode deixar de considerar a possibilidade de que ele tenha desenvolvido algum problema respiratório de vias aéreas inferiores que pudesse ter levado a episódios de hemoptoicos.

Aparentemente, é muito claro que o padre Cícero tenha apresentado repetidas infecções nos membros inferiores, descritas como erisipela, nos seus últimos anos de vida.2,3,7 Um antraz, na região cervical posterior, já próximo de sua morte, foi motivo de uma intervenção cirúrgica, bem como uma provável catarata, operada pouco mais de um mês antes de sua morte, sem sucesso.3

Em uma de suas biografias, a descrição de seu último quadro3 sugere o desenvolvimento de obstrução intestinal. Considerando que o padre Cícero já contava 90 anos, que teria apresentado furúnculos e mesmo erisipela de repetição, aliados à inexistência de antibioticoterapia e de cuidados adequados de desinfecção, é bem possível que seu quadro final tenha sido infecção generalizada, a partir de foco cutâneo, que levou a comprometimento intestinal, com abdome agudo clínico, como poderia ocorrer na fase inicial de um choque séptico, agravado por desidratação e consequente déficit de irrigação renal, com anúria, que, aliás, é relatada, e seguiu-se o óbito.2

Integração clínica

Motivado pela leitura de sua biografia, penso ser plausível propor a hipótese que o padre Cícero teria sido portador de uma espondiloartropatia crônica inflamatória, até hoje insuspeitada. A descrição seria de quadro doloroso lombar, que acometeu também a coluna cervical, em indivíduo do sexo masculino, de cor branca, iniciado antes dos 50 anos, com anquilose parcial da coluna, particularmente visível no segmento cervical. Teria havido pelo menos um episódio de artrite documentada e vários episódios de distúrbios intestinais, que poderiam ser associados a um componente inflamatório intestinal e fazer parte da hipótese diagnóstica principal. Na história familiar, há apenas relato de que sua mãe teve “inflamação nas pálpebras” por vários anos e teria ficado “‘paralítica” em 1897, por volta de sua sexta década de vida.

Diagnóstico diferencial

O diagnóstico anatômico predominante seria da coluna (segmentos lombar e cervical), com quadro crônico, de provável natureza inflamatória, uma vez que não há descrição de que seus sintomas fossem agravados por sua atividade física, que foi intensa. O “Padim” era incansável, trabalhava até altas horas. Sempre se deslocou regularmente, mesmo na última década de vida. A sonolência poderia denunciar sono não reparador e a preferência pela rede é comum em doentes com espondilite “aqui por essas bandas do Nordeste brasileiro”, embora não haja fundamentação técnica a apoiar esse hábito. Assim, esses aspectos que sugerem sono não reparador alimentam a hipótese de que suas dores na coluna, relatadas em vários livros a seu respeito, tivessem caráter inflamatório. Não há relato de trauma que pudesse justificar uma fratura cuja consolidação daria causa à deformidade cervical que desenvolveu. Também é improvável ter-se tratado de escoliose, que não é causa habitual de dor na coluna, ao contrário do pensamento comum, e raramente envolve a porção cervical, que é o segmento com deformidade mais perceptível no padre. Uma foto sua (fig. 3) ainda prestes a concluir os estudos no seminário (cerca de 23 anos) não mostra a inclinação do pescoço, que deveria existir já a esse tempo caso a razão fosse escoliose idiopática juvenil estrutural. É improvável tratar-se de osteoartrite primária, face ao sexo masculino e ter iniciado abaixo de 50 anos. A julgar pela foto de 1888 (fig. 1), em que o padre já aparece com o pescoço inclinado para a direita, e pelos relatos de dores e da “escoliose” por volta de seus 50 anos, é absolutamente plausível que ele tenha apresentado dores por algum tempo, que se teriam iniciado antes dos 45 anos, como ocorreria nas espondiloartrites.11 Causas infecciosas piogênicas e artrite reativa são improváveis pela cronologia, bem como artrite microcristalina, mesmo a de causa hiperuricêmica. Padre Cícero era magro, tinha dieta frugal, com pouca ingesta de carnes vermelhas, abstinência alcoólica e havia predominância do envolvimento da coluna. Não seria apelativo, a despeito da especulação inerente ao presente texto, que a artrite relatada aos 60 anos decorreria de envolvimento articular periférico de uma espondiloartrite de predomínio axial. Lues, doença altamente prevalente na época, pode ser excluída pela condição celibatária do patriarca, que assumiu esse compromisso ainda adolescente (aos 12 anos, segundo depoimentos), o que não foi questionado nem por seus mais ácidos críticos.3,4,9 Ademais, sua marcha não tinha aspecto de tabética, como seria passível de existir em uma lues terciária que envolvesse a medula espinhal. Etiologia tuberculosa, hansênica ou fúngica, a despeito dos hemoptoicos, nos parecem causas improváveis para explicar o quadro da coluna, face ao longo tempo (mais de 40 anos de evolução) e ao aspecto anquilosado que sua rigidez ao caminhar sugere. Não temos elementos para explicar os episódios de hemoptoicos, mas poderiam decorrer de sequelas de infecções respiratórias.2,3,9 Osteoporose primária que leva a fraturas pode ser afastada pelo sexo masculino, boa atividade física, ingesta frequente de laticínios, exposição intensa e por muitos anos ao sol, início antes dos 45 anos, além da artrite e quadro intestinal incompatíveis com osteoporose.

https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0482-50042016000500464&script=sci_arttext&tlng=pt

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