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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

ANTONIO POMPÊO ATOR


Antonio Pompêo morreu. Um dos mais brilhantes e fundamentais atores brasileiros na árdua batalha pela consolidação e valorização da arte negra no país sai de cena para também virar constelação lá no infinito. Para a nossa tristeza (e não surpresa), a perda é noticiada de forma tímida e pouco relevante. Nos principais telejornais nem uma única menção sequer. Nos sites e portais de notícias, registros protocolares. Antonio Pompêo, para que não nos esqueçamos, foi um dos que alicerçaram o caminho para que nomes como Thaís Araújo e Lázaro Ramos pudessem brilhar hoje como protagonistas de novelas e séries de TV. Ao lado de um grupo de espetaculares atores e diretores, composto por Ruth de Souza, Grande Otelo, Léa Garcia, Antônio Pitanga, Zózimo Bulbul, Abdias Nascimento, Tony Tornado, Samuel dos Santos, Canarinho, Jacira Sampaio, Romeu Evaristo, Cosme dos Santos, Milton Gonçalves, Luiz Antonio Pilar, Xica Xavier, Jorge CoutinhoZezé Motta, entre outros que não assinalo por desinformação ou ignorância, foi responsável pela ressignificação do negro nas artes no Brasil, corriqueiramente subjugado a papéis secundários e sem importância ou quase sempre caricaturais: o escravo, o preto velho, o malandro, o favelado, o crioulo doido, a mulata gostosa. Protagonizou "Quilombo", uma criação extraordinária de Cacá Diegues, verdadeira obra-prima do cinema nacional, a qual assisti na minha pré-adolescência no Cine Theatro Realengo, um lindíssimo prédio, de estilo arquitetônico art-déco, construído em 1938 naquele bairro, onde meu avô até hoje reside. A brilhante atuação do ator ao encarnar Zumbi dos Palmares apresentou-se como um marco na minha vida estudantil, já na segunda fase que se iniciava. Foi decisiva para a minha compreensão sobre a importância desse personagem icônico da história do Brasil e todos os seus desdobramentos sobre os quais, ainda hoje, debatemos. Lançou-me às pesquisas acerca da construção de nossa identidade; despertou-me o senso crítico para reavaliar o conteúdo de livros acadêmicos, que narram a nossa história sempre sob a perspectiva do colonizador, jamais a do colonizado; apontou-me novos horizontes no cinema para a descoberta de produções que versavam sobre temas pautados na ancestralidade africana. O Zumbi de Antonio Pompêo fez isso na minha vida, tal qual, em meados da década de 1980, o seu Budião, personagem a que deu vida na adaptação televisiva de "Tenda dos Milagres", me sensibilizaria a descortinar os mistérios da fé candomblecista. Li e reli várias vezes o romance de Jorge Amado, descobri Pierre Verger aos 13 anos, fiz primeira comunhão pensando em Magé Bassã, a mãe-de-santo de Xica Xavier na mesma série de TV. Antonio Pompêo tem uma importância ímpar para mim e, tenho certeza, para muitas outras pessoas que sempre lutaram por um país etnicamente respeitoso e tolerante. Antonio Pompêo, minha gente, foi presidente do Centro de Documentação e Informação do Artista Negro (Cidan) e diretor de Promoção, Estudos, Pesquisas e Divulgação da Cultura Afro-Brasileira, da Fundação Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura. Não era qualquer um.

Fonte: facebook

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

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