Seguidores

sexta-feira, 24 de abril de 2020

ANTÔNIO SILVINO E A FÁBRICA DE BATERIAS MOURA

Por Júnior Almeida
Manoel Severo e Júnior Almeida

A Indústria de Acumuladores Moura iniciou suas atividades no município de Belo Jardim, interior de Pernambuco em 1957 e é hoje uma gigante mundial no ramo de baterias automotores, náutica, logística e de telecomunicações, tendo suas unidades fabris no Agreste pernambucano, São Paulo e Argentina, estando as baterias de marca “Moura” nos veículos das principais montadoras do Brasil e até no exterior, liderando o mercado em toda América Latina.

Hoje a Moura é uma marca consolidada e a família dona da indústria, evidentemente, são notáveis e potentados não só em Pernambuco, mas em todo Brasil, como por exemplo, basta apenas citar um: o ex-governador do Estado Mendonça Filho, cria do casal José Mendonça e Estefânia e, neto do velho Pedro Moura Júnior, esse pioneiro da industrialização de Belo Jardim.

“Seu” Moura, como muitos o chamavam, nasceu em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, em agosto de 1901, mas dois anos depois passou a residir, junto com toda família, em Gravatá, no mesmo Estado. Aos cinco anos perdeu sua mãe e aos treze já trabalhava numa padaria da cidade onde morava. Com dezesseis foi tentar uma vida melhor em Recife e com apenas vinte e um anos de idade já era representante de vendas das Máquinas Singer, o que fez com que em 1922 desembarcasse do trem da Great West em Belo Jardim, para não mais sair, mudando a sua história de vida e a história do lugar.

O sociólogo Gilberto Freyre disse em seu clássico “Casa Grande & Senzala” que “todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não no corpo (...) a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro”, então, partindo desse entendimento, creio que “todo nordestino tem algum tipo de ligação com o cangaço, através de parentesco com cangaceiros, coiteiros, volantes, ou mesmo por serem vítimas desses citados”. Como exemplo, narro aqui uma passagem envolvendo uma das famílias mais importantes (economicamente falando) de Pernambuco com o cangaço.

Edson Mororó de Moura foi quem fundou a primeira fábrica de acumuladores de energia do interior de Pernambuco há mais de seis décadas. Ele é filho de Pedro Moura Júnior e Josefa Augusta de Moura, a Dona Mocinha, nascida em 1904, essa da família Mororó, da região do distrito de Xucurús, município de Belo Jardim, mas na época de sua infância, pertencente a Brejo da Madre de Deus, local em a família Mororó teve contato com cangaceiros, mais especificamente com Antônio Silvino, o chamado “Rifle de Ouro”.

Cangaceiro Antônio Silvino

Em 12 de fevereiro de 2001, o jornalista Carlos Eduardo Carvalho dos Santos esteve na residência da matriarca da família Moura, Dona Mocinha, então com 94 anos, em Recife, para entrevista-la, para seu livro, a biografia de Pedro Moura Júnior, seu falecido marido, e dentre várias passagens de sua vida em comum com o industrial, falou a respeito de como o cangaceiro Antônio Silvino involuntariamente uniu o casal. No capítulo intitulado “O Cangaço na História (da família)”, Dona Mocinha relatou o episódio, que segundo ela “alterou profundamente as ligações da família Mororó com o progresso de todos, alterando a qualidade de vida, quando passaram a ter mais segurança e perspectiva de melhores dias futuros.”

Dona Mocinha era filha de Balbino Batista de Lima (dos Mororó) e Florentina Augusta de Lima, conhecida como “Florzinha”. A matriarca contou que corria 1911 e, ela com toda família morava na Fazenda Santa Rosa, zona rural daquele município, quando receberam certo dia a visita nada agradável de Antônio Silvino e seu bando. A velha senhora disse que:

O chefe não chegou a entrar na casa, permanecendo em pé na porta, em atitude arrogante, pediu para Balbino trocar uma cédula de cem mil réis, já recolhida pelas autoridades monetárias e que o bandido sabia não ter o menor valor. Os demais ficaram no pátio.

De imediato, o dono da casa não vacilou, e como não sabia ler, trocou o dinheiro, sendo assim, enganado. Ainda hoje esta cédula está no acervo da família, como marco documental.

Dona Mocinha relatou que semanas depois desse episódio, outros cangaceiros do bando de Silvino apareceram em outra propriedade dos Mororó, onde praticaram violências contra alguns moradores, que eram, segundo os bandidos, “cabras fuxiqueiros”. Quitéria, Antônia, Maria e Francisca, irmãs de Mocinha, eram adolescentes na época e, segundo ela, ficaram apavoradas com os “gracejos” dos cangaceiros e, mais ainda quando um sicário de alcunha Borboleta disse que ficara sabendo que Antônio Silvino iria incendiar a casa de Balbino e seu irmão Zé Mororó, o que iria servir de lição.

Mocinha relatou ainda que os cangaceiros mandaram chamar as pessoas da vizinhança, dentre elas, o perneta e ruim da cabeça Manuel Bibiu, que ao ser inquirido não soube responder nada, sendo apenas ameaçado de que “com uma pisa boa sua cabeça voltaria a funcionar de novo”. Após o leso ser “interrogado”, sobrou para dois rapazes de nome Geraldo e Xavier, que foram arrastados para o terreiro da casa e onde foram espancados de todo jeito, inclusive com um chicote de couro de três pernas com bolas de chumbo em suas extremidades. A surra foi tão grande que os cangaceiros chegaram a quebrar a folha de um punhal, de tanto bater no espinhaço dos jovens. Os rapazes ficaram encharcados de sangue, inclusive, expelindo o sangue pela boca, em várias golfadas enquanto desciam um barranco embolando, na base do coice de rifle.

Segundo Dona Mocinha, Borboleta, o mais cruel do grupo, pegou no punhal para sangrar os rapazes, mas sua mãe Florzinha pediu “pela criança que segurava nos braços, que ele não os matassem em seu terreiro”, no que foi atendida. Para humilhar mais ainda as vítimas, o cangaceiro mandou que Geraldo e Xavier tomassem benção à Florzinha.
Depois desses dois episódios, a família Mororó ficou com medo de permanecer na área rural e migrou, em 1912, para Belo Jardim. Dona Mocinha creditou a essa mudança à guinada na vida de sua família, inclusive, o seu casamento com Pedro Moura, pois segundo ela, sua prima Nega, filha de João Lau, não quis sair do sítio e ficou vivendo por lá em extrema pobreza. A matriarca dos Mororó Moura chegou a dizer que:

Há que se suspirar de alívio. Afinal, Antônio Silvino foi, como se poderia dizer, nesse caso, uma benção para a família de Balbino [Mororó], que assim teve seu destino melhor motivado pela “visita” do Cavaleiro das Caatingas.


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário