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quarta-feira, 1 de julho de 2020

LAMPIÃO A RESSURREIÇÃO DE EZEQUIEL A SUPOSTA MORTE DE EZEQUIEL FERREIRA, O PONTO FINO


Por Raul Meneleu

Essa entrevista foi feita por mim no dia 14 de outubro de 2017, na cidade de Nazaré do Pico em Pernambuco, por ocasião das comemorações de 100 anos da cidade. O Senhor Pedro Ferreira, fala-me da visita que o irmão de Lampião Ezequiel Ferreira, na cidade de Serra Talhada, para tirar documentos.

O escritor do livro LAMPIÃO A RAPOSA DAS CAATINGAS, José Bezerra Lima Irmão, nos faz um relato detalhado desse episódio. Ele nos diz:

Para os leitores do Diário de Notícias, A Tarde, A Noite e Diário de Pernambuco, que não perdiam os relatos dos feitos de Lampião, 1931 estava sendo um ano "morno". A impressão que se tinha era de que não acontecia quase nada. Nas feiras, os cantadores e violeiros só falavam em Maria Bonita. Mas, na verdade, muita coisa estava acontecendo. A polícia é que tinha perdido o entusiasmo, alegando falta de verbas para continuar a campanha. Limitava-se a traçar planos para extinguir o cangaço. Em virtude disso, os informes passados à imprensa rareavam. Porém, nas caatingas, Lampião continuava em plena atividade. Três fatos marcaram aquele ano na história do cangaço: a admissão de mulheres no bando de Lampião, a morte de Ezequiel Ferreira e o esquartejamento de Herculano Borges. Dos homens, Ezequiel Ferreira da Silva era o irmão mais novo de Virgulino. Era um rapaz moreno-claro, simpático e brincalhão. Quando os manos mais velhos — Antônio, Livino e Virgulino — viraram cangaceiros, nos episódios que culminaram com a morte do pai, Ezequiel era um menino de apenas 9 anos. À. época, ficou com as irmãs solteiras, sob os cuidados de João Ferreira, o único dos adultos que não entrou no cangaço, se bem que pretendesse, pois Lampião decidiu que alguém tinha que se manter na legalidade para cuidar da família. Depois, em 1927, em face das perseguições sofridas pelos Ferreira, Ezequiel resolveu ser também cangaceiro. Tinha então 15 anos de idade. Lampião relutou, mas acabou cedendo. Quando Ezequiel entrou no bando, havia morrido um cangaceiro apelidado de Ponto Fino e, como de costume, o novato ficou com o apelido do finado. Os autores se repetem dizendo que esse apelido era devido à precisão da pontaria de Ezequiel, considerada infalível. Muito pelo contrário, Ezequiel nunca se distinguiu como atirador. Não se sabe de nenhuma morte atribuída a ele. Era um cangaceiro discreto, comedido. Atuava mais como guarda-costas de Lampião, quando este precisava fazer alguma coisa fora do olhar dos outros ou resolvia tirar um cochilo, deixando Ezequiel de prontidão. Não se prevalecia do fato de ser irmão do chefe para obter vantagem de qualquer espécie. Ocupava um lugar indeterminado na hierarquia do bando, já que o homem forte, depois de Lampião, era o cunhado, Virgínio, conhecido como Moderno, e as grandes atribuições eram confiadas a Luís Pedro e Mariano. Essa postura de Virgulino talvez fosse uma forma de preservar o caçula. 

A "morte" de Ezequiel e a sua aparição em Serra Talhada Como tempo, a versão da fuga passou a ser ridicularizada porque tudo ficava por conta de boatos e conjeturas. Mas foi então que se verificou um fato que reacendeu a hipótese da fuga: em novembro de 1984, um homem já idoso, de 70 para 80 anos de idade, residente no Piauí, chegou a Serra Talhada para tirar os documentos a fim de se aposentar. Ele procurou a casa de Genésio Ferreira, primo de Lampião, e apresentou-se: — Geneso, eu sou seu primo Ezequié. Genésio Ferreira assustou-se: — Ezequiel? O irmão caçula de Lampião? — É, sou eu — confirmou o homem. — Eu fui dado cumo morto, mais aquilo foi um jeito qui meu irmão deu pra me tirá daquela vida. E se aperpare pra iscutá mais: Lampião tamém tava vivo até treis ano atrais. Depois eu lhe conto tudo direitim. Vim aqui purgue tou quereno me apusentá e nun tenho documento nlhum. Nun sou nem registrado. Vim aqui pra me registra. Genésio Ferreira tinha visto Ezequiel quando garoto. Não havia como saber se aquele era de fato seu primo, dado como morto fazia mais de cinquenta anos. Genésio começou a fazer perguntas sobre coisas do passado, envolvendo a família, os lugares. O homem lembrava-se de episódios familiares, citava nomes, descrevia a forma das casas, as estradas... 

Genésio foi com o sujeito ao cartório de registro civil e expôs o fato. O tabelião recusou-se a fazer o registro. Disse que só podia registrá-lo se o juiz autorizasse. Foram ao juiz. O Dr. Clodoaldo Bezerra de Souza e Silva, juiz de direito da comarca de Serra Talhada, impressionado com a história, mandou chamar antigos moradores da cidade, dos tempos da gloriosa Vila Bela. Conversou com pessoas da família Godoy, pois o estranho personagem dizia que seu padrinho era Quinca Godói (Joaquim Godoy).  Ao final, convencido de que aquele senhor falava a verdade, o juiz autorizou o registro.2118 Ezequiel passou cerca de vinte dias na casa de Genésio Ferreira, na Rua Agostinho Nunes Magalhães. Várias personalidades importantes da cidade estiveram com ele: o monsenhor Jesus Garcia Riallo (que foi vigário de Serra Talhada por mais de meio século), o padre Afonso de Carvalho (da paróquia de Nossa Senhora do Rosário), o médico Dr. Elias Nunes, o tabelião e vereador Luiz Andrelino Nogueira, o ex-prefeito Luiz Conrado de Lorena e Sá (Luiz Lorena), o agricultor Luiz Alves de Barros (sobrinho de Zé Saturnino) e o tenente João Gomes de Lira, de Nazaré, ex-soldado de volante. De todas as pessoas com quem ele conversou, três merecem destaque neste caso. Uma é Luiz Alves de Barros, o famoso Luiz de Cazuza, companheiro de infância de Ezequiel na Serra Vermelha. Antes das desavenças dos Ferreira com os Saturnino, as duas famílias eram amigas, moravam vizinhas. Luiz de Cazuza e Ezequiel eram quase da mesma idade. 

Acompanhado de Genésio Ferreira, no dia 26 de dezembro de 1984 Luiz de Cazuza conversou durante mais de quatro horas com o estranho personagem. José Alves Sobrinho, filho de Luiz de Cazuza, escreveu um livro em que aborda a questão havida entre Lampião e Zé Saturnino, no qual há um capítulo com a descrição do encontro de seu pai com o tal indivíduo. Luiz de Cazuza conversou com o forasteiro sobre vários fatos da infância: quem estava presente em determinados eventos, quem morreu, como foi programado o cerco da fazenda Pedreira, como foi que Lampião atacou e queimou a casa-grande da fazenda Serra Vermelha. O homem se recordava de muitos detalhes, e em relação a outros alegou que não se lembrava mais. José Alves considera razoável o esquecimento, haja vista tratar-se de um homem com idade bastante avançada." Luiz de Cazuza deu um depoimento, gravado em videocassete, aos pesquisadores Paulo Medeiros Gastão, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), e Aderbal Nogueira. Alcino Costa assinala que naquele depoimento existem "pelo menos dois preciosos detalhes que comprovaram ser aquele senhor do Piauí, sem sombra de dúvidas, o próprio Ezequiel, em carne e osso. [...] Em dado momento o forasteiro perguntou a Cazuza se ele tem lembrança do encontro que o mesmo tivera com Lampião na Cacimba do Gado, no ano de 1927, e, como querendo refrescar a memória do velho caboclo, diz que naquele dia estavam presentes dezessete cangaceiros, dentre os quais Mourão, Sabino, além dele e Antônio, o outro irmão. Perguntou a Luiz Cazuza se ele tem lembrança do episódio dos dois pares de alpercatas encomendadas por Lampião e Sabino e que ficaram guardados por mais de cinco meses na casa de uma senhora dali do São Domingos e que naquele dia as mesmas foram entregues aos bandoleiros". Alcino Costa conclui: "Estas minuciosas particularidades desvaneceram as dúvidas de seu Luiz que ficou convicto de que aquele homem era realmente o mano mais novo de Lampião".

A segunda pessoa cujo testemunho merece destaque é Luiz Lorena, que foi quatro vezes prefeito de Serra Talhada, considerado a "história viva" da cidade. Conhecedor da história do cangaço, Luiz Lorena fez várias perguntas ao referido senhor sobre combates travados por Lampião nos quais Ezequiel, o Ponto Fino, estava presente. O sujeito narrava os fatos, dando detalhes: a hora do combate, quem morreu, para onde o bando foi depois... Ele conhecia todos os caminhos que ligavam as fazendas da beira do Riacho São Domingos. Falava de antigos moradores. Perguntava: "Sabe de fulano de tal? Ele ainda mora em tal lugar?". Luiz Lorena dizia: "Não posso afirmar que aquele sujeito era Ezequiel, mas, se era um impostor, tinha decorado tudo e sabia representar bem o seu papel terceira é o tenente João Gomes de Lira, um dos famosos "Cabras de Nazaré", que pelejou nas volantes de Manoel Neto e de Davi Jurubeba. João Gomes é autor de um livro que constitui referência indispensável para todos os pesquisadores do cangaço. Quando a obra estava pronta para publicação, ocorreu o encontro do autor com o homem que se dizia irmão de Virgulino. João Gomes acrescentou então um capítulo final, relatando a história contada pelo suposto Ezequiel. João Gomes expõe a celeuma que houve em Serra Talhada quando o povo soube da presença de Ezequiel na cidade, todo mundo querendo ver o ex-cangaceiro. Uns afirmavam que aquele era mesmo Ezequiel, outros ponderavam não ser possível, pois Ezequiel morrera na Bahia, outros diziam que o homem não parecia com os membros da família Ferreira. Os parentes ficaram em dúvida, pois as informações que tinham era de que Ezequiel havia morrido na Bahia em 1931. João Gomes conclui que, embora muita gente ficasse em dúvida, "Chegaram à conclusão de que, na realidade, era mesmo Ezequiel, quando aos poucos foi ele se identificando, como seja procurando por pessoas da região se ainda eram vivas ou mortas. Como também procurava saber se em determinados lugares ainda existiam velhas árvores, como procurou saber se, no terreiro da casa em que residiu seu velho José Ferreira, no lugar Poço do Negro, ainda existia um pé de umbuzeiro-cajá; na realidade lá está o frondoso pé de umbuzeiro. Foi assim chegando na mente daquela gente que na realidade era mesmo o Ponto-Fino". 

Segundo João Lira, desapareceram todas as dúvidas quando o homem passou a relatar os fatos e a expor o motivo de ter abandonado o cangaço. Aquele era Ezequiel. Não fosse ele, como seria possível uma pessoa residente no Piauí saber daquelas coisas?  

Esse indivíduo foi entrevistado por Hilário Lucetti e Magérbio de Lucena, autores de Lampião e o Estado-Maior do Cangaço. Ele assegurou ser o irmão mais novo de Lampião. Os autores perguntaram por que era que todo mundo dizia que ele tinha morrido na Bahia em 1931, e "Ele respondeu que tudo era mentira, que o irmão tinha inventado a estória prá ele poder sair do cangaço". Porém os citados pesquisadores se desinteressaram pelo caso porque o velho, ao ser "Inquirido sobre o nomes dos seus pais, respondeu errado", e "Disse ainda ter tido 3 irmãos e 3 irmãs, o que não é verdade". Além disso, ele errava os nomes dos irmãos, fantasiava a descrição dos combates e citava cangaceiros que não foram seus contemporâneos. Hilário e Magérbio, apesar de admitirem que o homem "tinha mais ou menos a mesma idade e aparência fisica" que teria Ezequiel se fosse vivo, consideram que "na verdade era uma farsa, não se sabe com que finalidade, pois não havia dinheiro na estória, nem estava muito interessado em promover-se". Os citados pesquisadores consideram que os familiares de Lampião "acreditaram realmente tratar-se do primo" por nada saberem sobre a vida do parente depois que ele foi embora, ainda menino. Hilário e Magérbio concluem dizendo que aquele homem "Morreu certo que era Ezequiel Ferreira, o irmão mais novo de Lampião". 

Não obstante seus inegáveis conhecimentos sobre o cangaço, Hilário e Magérbio interpretaram mal as respostas daquele cidadão. Eles fizeram perguntas a um velho sobre coisas de sua infância e juventude. Após a morte de seus pais, a família andara de déu em déu. Ele não tinha nada anotado, pois era analfabeto. A rigor, suas respostas eram mais que razoáveis, pelo seguinte: Hilário e Magérbio consideraram que ele "respondeu errado" os nomes dos pais. Ora, como é que ele respondeu errado, se ninguém, nem mesmo o mais perspicaz estudioso do cangaço, sabe ao certo como eram os nomes dos pais de Lampião? Basta notar a divergência entre os dados da certidão de casamento em cotejo com as certidões de nascimento dos filhos. José Ferreira ora aparece como "dos Santos", ora como "da Silva", ora como "de Barros", e sua esposa, que devia chamar-se Maria Vieira Lopes, ora aparece corno Maria Sulena da Purificação (registro civil de nascimento de Virgulino), ora como Maria Vieira da Solidade (batistério de Virgulino), ora como Maria Santina da Purificação (batistério de Livino), ora como Maria Vieira do Nascimento (certidão de casamento religioso). Quanto aos nomes dos irmãos, é provável que em casa todos fossem tratados apenas pelos prenomes e apelidos. Ezequiel não tinha como saber ao certo os nomes completos dos irmãos, pois nem mesmo estes sabiam. Virgulino, por exemplo, que foi registrado simplesmente como "Virgolino" (sem sobrenome), tirou o título de eleitor com o nome de Virgulino Lopes de Oliveira. Durante algum tempo, se assinou Virgulino Ferreira dos Santos, até se decidir por Virgulino Ferreira da Silva. Ezequiel certamente não sabia o nome verdadeiro de Mocinha. 

Como Ezequiel não sabia assinar o nome, quem assinou por ele foi João Soares de Souza, tendo como testemunhas Genésio Ferreira Lima e Luiz Andrelino Nogueira (que era o tabelião público). 

Fonte da matéria: LAMPIÃO a raposa das caatingas de José Bezerra Lima Irmão.


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O BANDO DE LAMPIÃO PERDE SUA FORÇA MAIOR


Por Sálvio Siqueira

Quando Lampião retorna de Mossoró, RN, para a região do Pajeú das Flores, com pouca gente, em pouco tempo tem que tocar a mula para terras baianas. As baixas sofridas em território potiguar, mais propriamente no ataca a cidade, não foram tantas, porém foram significativas por ter sido dois dos melhores homens que combatiam ao seu lado.

Lampião sozinho não era nada em relação ao assombro que seu bando causou nas pradarias sertanejas. Sempre tendo ao seu lado homens de têmpera forjada a coisa ficou da maneira que vemos. Em sua saga vemos que, antes de 1928, os cangaceiros Esperança, Vassoura, Jararaca, Meia Noite e Sabino das Abóboras fizeram parte do sustentáculo do bando em anos e épocas distintas. Perdendo-os a coisa fica sem a fortaleza natural que eles faziam em seu derredor. Fragilizada sua força maior, parte para terras distantes de seu torrão natal com apenas cinco homens, Luiz Pedro, Mariano, Moderno, Ponto Fino e Mergulhão. Desses, apenas quatro sabemos serem arrochados e que participaram de inúmeros combates dando sustentáculo e proteção ao “Rei”.

Por Traz: Antônio do Gelo e Livino Ferreira. Na frente, Virgolino e Antônio Ferreira.

O tempo passa, a Revolução de 1930 estoura e Lampião, aproveitando o ensejo, dá um pulinho em Pernambuco, mais precisamente no município de Floresta, a fim de acabar com a vida de alguns inimigos. Não tendo o êxito esperado retorna à Bahia.

Nos anos vindouros, sequência da década de 1930, Virgolino consegue a adesão de alguns ‘cabras’ de têmpera forte como Gato, Mané Moreno, Zé Baiano, Quinta Feira e Juriti. Fora esses, também fizeram parte do bando Corisco, Labareda, Português e Zé Sereno dentre outros. Cada um desses tinham lá suas linhas a seguirem sem serem totalmente adeptos ao “Rei”.

Corisco tinha sua maneira e forma de agir dentro de um território quase que exclusivamente seu e na maioria do tempo estava longe do ‘cumpadre’ só vindo de vez em guando quando convocado era.

Labareda, apesar de ter entrado no cangaço exclusivamente pela fuga, para proteger-se sob os braços de Lampião, não conviveu diretamente, por muito tempo, e lascou-se de mata adentro com seus homens, isolando-se.

Português não tinha coragem para nada, era um covarde nato, vivia a sombra da coragem e valentia dos seus ‘cabras’ vivendo de migalhas.

Por fim, Zé Sereno que não vemos tanta têmpera nem destaque em sua jornada como chefe de subgrupo, pelo contrário, também mostrou covardia e sua força resumia-se apenas em sobreviver seja lá do jeito que fosse.

Pois bem, de 1933 a princípios de 1938 o “Rei do Cangaço” perdeu, novamente, seu Estado Maior. Homens fortes, valentes e que sempre seguraram as pilastras de seu ‘reinado’ sucumbiram na senda da guerra como fora o caso de Gato, Mariano, Mergulhão, Mané Moreno, Zé Baiano juntamente com os homens que os mesmo comandavam. Não houve mais tempo para que recoloca-se, ou repusesse, ‘peças’ equivalentes em seu contingente particular, pois a morte vagava a galope em seu encalço.

No fim do primeiro meado de 1938, fora poucos homens de sangue no olho, por volta de três ‘cabras’, como Luiz Pedro, Juriti e Quinta Feira, não havia outros para darem a devida proteção ao cangaceiro mor.

Há muito que as arestas do cangaço vinham sendo ‘aparadas’ pelas Forças Públicas de vários Estados da Região Nordeste. Essas ações ficaram mais acirradas e constantes após a implantação do Estado Novo pelo então Presidente da República Getúlio Vargas. Com a ordem vinda de cima, Palácio do Catete, a coisa ficou sem condições para aqueles colaboradores de classes econômicas e sociais mais elevadas darem seu apoio e retirarem seu ‘quinhão’.

No decorrer do temo o arrocho foi apenas aumentando e eles debandaram. O fornecimento e informações para Lampião quase que pararam. Aos poucos, Lampião foi ficando encurralado, tanto que nos últimos meses de seu cangaço restringira-se as divisas dos Estado da Bahia, Alagoas e Sergipe, as quais são próximas e até conjuntas em determinados locais.

O que aconteceu no amanhecer do dia 28 de julho de 1938, uma quinta-feira, foi apenas o desfecho de uma consequência iniciada há vários anos antes.


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ENTREVISTA COM ADERBAL NOGUEIRA, CANGAÇO EM PAUTA POR PEDRO POPOFF

https://www.youtube.com/watch?v=EpxVKaRqav0&feature=share&fbclid=IwAR3ANvSf4kDAz-f5E_o_IQcoMbPWZsXYHiCFFKLiwoZtrv8ZntyaoziE_TY


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A MORTE DO CANGACEIRO CHICO PEREIRA

Por Volney Liberato (*)

Graças à mediocridade-plural.blogspot.com.br (Laélio Ferreira). Currais Novos na vida de Chico Pereira

“Desde o dia em que um desconhecido foi morto pela polícia na estrada de Currais Novos, espalhou-se pelo sertão, vaga mas persistente, a suspeita de que ali morrera outro que não Chico Pereira”.
(Padre Pereira – Vingança, não!).

Derna do tempo d'eu menino”, quando a escritora pernambucana Aglae Lima de Oliveira respondia sobre “Lampião” no Programa J. Silvestre, na extinta TV Tupi, que eu comecei a me interessar, a ler e a pesquisar sobre o cangaço – e isso já vão mais de 30 anos.

Tempos depois, ao passar pela BR 226, quase a entrada da cidade, deparei-me com um cruzeiro erguido para sinalizar o local onde morreu o cangaceiro paraibano Chico Pereira. Depois disso, ao visitar o Museu do Acari (onde funcionou a antiga Cadeia Pública), vi a foto do citado cruzeiro, com uma outra foto de Chico Pereira, aí comecei a nutrir a curiosidade de ler o livro “Vingança, não! - Depoimento sobre Chico Pereira e Cangaceiros do Nordeste”, 5ª ed. Rep's Gráfica e Editora – João Pessoa / PB – 2004, de F. Pereira Nóbrega (Padre Pereira), filho do cangaceiro Chico Pereira, que naquele quase amanhecer do dia 28 de outubro de 1928, pereceu macabramente, exatamente no KM 177 da hoje rodovia BR 226, próximo a cidade de Currais Novos, pelas mãos de uma escolta policial, que tinha no comando nada menos do que o famigerado então Tenente Joaquim de Moura.

A escolta era ainda composta pelo sargentos Luís Auspício e Feliciano Tertulino, sendo o “chofer” o sargento Genésio Cabral de Lima. O livro citado, na época, era difícil, pois até hoje só foram feitas cinco edições do mesmo, e é esta última que encontra-se em minhas mãos hoje, que me foi entregue pelas mãos de um companheiro também pesquisador, a quem agradeço que, dia 08 de Janeiro, colocou-lhe sobre a minha mesa, no Detran. Ali estava mais de 20 anos de espera, por aquele que, um dia, seria o delator da verdadeira história da morte do cangaceiro Chico Pereira, nos “aceros” de Currais Novos.

A história se inicia quando Chico Pereira, paraibano de Sousa, já envolvido numa questão de vingança familiar e já andando debaixo da “canga”, é acusado – injustamente, segundo relatos da época – de ter, junto com um pequeno bando, assaltado uma propriedade, na Rajada, de Joaquim Paulino de Medeiros, o legendário coronel Quincó da Ramada. Chico foi preso na Paraíba e recambiado para a detenção de Natal, onde responderia juri no Acari.

No dia 28 de Outubro de 1928, a escolta que o recambiava algemado para o Acari, comandada pelo Tenente Joaquim de Moura, estanca a poucos quilómetros da entrada de Currais Novos, numa parte da estrada de terreno elevado, tirando-o da carroceria e o golpeando a coices de fuzil. Já no chão, ferido de morte, o Tenente Moura ordena ao sargento Genésio para precipitar o carro sobre o corpo de Chico Pereira, numa altura de alguns metros, o que fez com que o corpo fosse esmagado em algumas partes (cabeça e abdómen).

Os participantes da escolta passaram então a ferirem-se mutuamente, para fazerem crer que realmente tinham sido vítimas do desastre que vitimou fatalmente somente o preso. Enquanto eram “atendidos” em Currais Novos, o corpo de Chico Pereira era levado para a Cadeia, na então Rua do Rosário (hoje Vivaldo Pereira), onde permaneceu exposto á visitação pública até a hora do seu sepultamento, que ocorreu lá pelas 21 horas, no Cemitério Público de Santana, em cova hoje não mais identificada.

A verdade é que Chico Pereira jamais havia posto os pés em Currais Novos, e quando o fez foi tão somente por alguns minutos, que separaram a sua vida da sua morte. Pisou no solo curraisnovense o tempo necessário para permanecer de pé e receber as coronhadas de fuzil que o vitimou e ser também vítima de um plano macabro, e por que não dizer “político”.

O advogado de Chico Pereira, em Natal, era ninguém menos do que João Café Filho, o criador de dezenas de sindicatos na capital, e que por isso ganhou a pecha de “comunista”. Era plano de Café Filho acompanhar a escolta, de seu carro, de Natal ao Acari, para assim ter certeza da integridade física do seu constituído. Mas, uma pessoa do seu relacionamento, alertou-o: “Se a polícia vai mesmo matar Chico Pereira, pelo caminho, não vai deixar testemunhas sem farda. Na certa você morrerá também”. Café então retornou para Natal.

No dia seguinte, lá pelas 10 horas da manhã, recebe telegrama narrando-lhe o “desastre” e a morte “acidental” do seu constituído. O Tenente Moura era “pau-mandado”, como se dizia, do governo do estado, que tinha Juvanal Lamartine no poder. O coronel Quincó era gente grande no dinheiro e na política regional, influente nas eleições de voto de cabresto e possuidor de curral eleitoral nutrido. Por isso, gente grada aos interesses da burguesia instalada no comando do poder estadual.

Mas, se a morte de Chico Pereira se deu, involuntariamente, em Currais Novos, a do Tenente Joaquim de Moura, por ironia do destino, também. Anos mais tarde, já nos anos 40, o já então Coronel Joaquim de Moura vem a Currais Novos, sob pretexto de participar de uma festa numa fazenda avizinhada á cidade. Mas o verdadeiro motivo da estada do coronel Moura em Currais Novos, segundo me relatou o saudoso Euzébio Hipólito de Azevedo, carnaubense, octogenário, que conheceu o Coronel Joaquim de Moura de perto e privou de sua amizade, que o motivo da sua vinda a Currais Novos era para se “acertar” com uma certa mulher – casada – oriunda de uma família “importante” do município, que havia tido um caso com ele na capital.

Como o coronel apaixonou-se pela tal mulher, veio disposto a tudo, até ameaçando matar o marido dela, caso ela não aceitasse juntar-se a ele. Pela tarde, o coronel Moura sente-se mal e é acometido de um ataque cardíaco, vindo a falecer. Contou-me ainda Euzébio que, seu corpo foi vestido com a farda da Polícia - mandada buscar em Natal ás pressas - numa casa de esquina, que depois pertenceu a Severino Maroca, na atual Rua Dix-Sept Rosado (hoje residência de Maria José Mamede Galvão). O destino fatal uniu as duas personagens: Chico Pereira e Joaquim de Moura. Vítima e algoz, ambos finando-se em Currais Novos, em épocas diferentes, numa cidade em que ambos não tinham a menor relação.

O capítulo que trata da morte de Chico Pereira, em Currais Novos, é intitulado “O Morto que Ninguém Chora”, e é escrito de uma forma, digamos, poética, dada a verve do autor, que não conhecia Currais Novos, mas a descreveu tão bem, como resultante dos depoimentos, que mais parecia um curraisnovense contemporâneo dos fatos, descrevendo a vida e os costumes da nossa comuna, naquele distante e fatídico 1928.

Quem passa diariamente por aquele trecho da Maniçoba, talvez não perceba esta capelinha lá existente, a esquerda da Rodovia BR 226, sentido Currais Novos-Natal. Foi o exato local que o cangaceiro Chico Pereira foi assassinado quando vinha responder júri no Acari. E o pior é que Chico Pereira morreu inocente, pois nenhum crime seu foi constatado pela justiça norte-riograndense.

*Volney Liberato é filho de Currais Novos, Seridó - RN. Bacharel Bacharel em Administração pós-graduado pela UFRN; repórter pela Oficina de Jornalismo "Genival Rabelo"; pesquisador do cangaço, história regional e cultura popular.


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ANTÔNIO AMAURY E ZÉ RUFINO NO CARIRI CANGAÇO 2010

Por Manoel Severo
Fonte: YouTube  Canal:Aderbal Nogueira

Novamente o mestre das imagens, Aderbal Nogueira, nos brinda com mais um momento ímpar de uma de nossas edições do Cariri Cangaço. Desta vez Aderbal nos traz "recortes" da noite de abertura do Cariri Cangaço 2010 em Crato com a Conferência de Antônio Amaury Correa de Araujo contando com uma mesa composta ainda pelos pesquisadores Ivanildo Silveira, o próprio Aderbal, Lemuel Rodrigues e Honório de Medeiros. Logo após a conferência daquela noite houve debate envolvendo vários pesquisadores de todo o Brasil, com destaque para Alcino Alves Costa, Rostand Medeiros e Alfredo Bonessi, essa noite marcou ainda homenagem prestada pelo escritor João de Sousa Lima, ao conferencista da noite, Antonio Amaury Correa de Araujo. Antes de dá inicio a palestra foi apresentado um vídeo mostrando várias imagens da vida do escritor paulista e ao final foi entregue ao mesmo uma Placa Comemorativa por seus mais de 50 anos dedicados ao estudo e pesquisa da temática cangaço.As boas vindas foram do curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo Barbosa.

Para Relembrar
Noite de Abertura do Cariri Cangaço 2010
17 de agosto de 2010, Salão de Atos da URCA, Crato-CE
Imagens: Aderbal Nogueira


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CARIRI CANGAÇO

Por Manoel Severo

O Cariri Cangaço é uma "Marca Registrada" do Instituto Cariri do Brasil; instituição privada sem fins lucrativos, de personalidade jurídica com sede e foro na cidade de Fortaleza no Estado do Ceará.

O Cariri Cangaço é um evento de cunho turístico-cultural e histórico-científico que reúne alguns dos mais destacados pesquisadores e historiadores das temáticas; cangaço, coronelismo, misticismo, messianismo e correlatos ao sertão e ao nordeste do Brasil, configurando-se em seu décimo ano de realização, como o maior e mais respeitado evento do gênero no país. Conheça de perto o Cariri Cangaço !!!


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terça-feira, 30 de junho de 2020

CANGAÇO E EU - CLIDINHO E NETINHO

Por Aderbal Nogueira - Cangaço

Cangaço e eu - Clidinho e Netinho Euclides de Souza Ferraz Neto - "Clidinho" e Hildebrando de Souza Nogueira Neto - "Netinho", descendentes diretos dos nazarenos, vão falar um pouco de suas raízes e de seus antepassados que participaram da campanha contra o cangaço. Link desse vídeo: https://youtu.be/-N3bVTzNfPs

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MINHAS INQUIETAÇÕES ASSIM DIZIA O ESCRITOR ALCINO ALVES COSTA

Por José Mendes Pereira - (Crônica 49)
Manoel Dantas Loyola (cangaceiro), Aderbal Nogueira (pesquisador do cangaço) e José Alves de Matos  ex-cangaceiro Vinte e Cinco.

Em um material que eu li ou em um vídeo não tenho muita lembrança e que no momento não disponho da fonte, que o bom mesmo é apresentar ao leitor a origem do fato registrado, mas que eu não estou criando isto, e não tenho segurança em afirmar que foi em um documento (Vídeo ou escrito) do cineasta e pesquisador do cangaço Aderbal Nogueira, que o Manoel Dantas Loyola o ex-cangaceiro Candeeiro afirma que Maria Bonita chegou a ter ciúmes da amizade dele com Lampião. Mas o facínora Candeeiro não explicou o motivo dos ciúmes.

Aí surgem as perguntas:

1 - Qual teria sido o motivo que despertou ciúmes de Maria Bonita sobre a amizade do cangaceiro Candeeiro com o perverso e sanguinário capitão Lampião?

2 - Será que Candeeiro sabia da vida amorosa do rei do cangaço com alguma mulher por este sertão sofrido e Maria Bonita suponhava isto? 

3 - Ou teria Maria Bonita colocada em sua mente que aquela amizade de Lampião com Candeeiro nada mais era do que trazendo bilhetes de futuras amantes do seu companheiro?

Não tinha nenhum problema que Candeeiro e Lampião mantivessem as suas boas amizades, porque, durante um ano e poucos meses que o cangaceiro fez parte do cangaço do velho guerreiro, era ele quem levava as solicitações de dinheiro às vítimas escolhidas pelo capitão Lampião, e também trazia os recados dos fazendeiros, informando que no momento não tinham condições de servirem ao facínora. 

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SERTÃO DESCOBERTO


Clerisvaldo B. Chagas, 30 de junho de 2020
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.335

     Igualmente à Floresta Equatorial, à mata Atlântica, o cerrado, os pinhais, manguezais e pampa, a caatinga continua perdendo a sua vegetação original.  A consciência de poucos vai perdendo terreno para os desrespeitosos da Natureza. Quando as quatro estações do ano eram regulares em nosso Sertão alagoano, o homem já perdia lavoura durante a primeira quinzena de agosto. Mesmo sendo julho o mês mais frio e chuvoso para nós, os primeiros quinze dias de agosto traziam o frio dobrado e, quando não era o frio que matava os feijoais, eram as pragas de lagartas. Atualmente a mudança do clima é tão sentida que o homem do campo e todos nós ficamos perdidos nas previsões.

Nostalgia da rolinha branca.  (foto: B. Chagas).

     O desmatamento mais acelerado ou mais lento faz com que os animais selvagens que não morrem de fome, morram pelas mãos dos caçadores ou migrem para as cidades em busca de comida e abrigo. Assim é que a capital paulista se encheu de tantos passarinhos em suas avenidas arborizadas com restos de comida por todos os lugares. Em Maceió houve aglomeração para apreciar um casal de tucanos em pleno logradouro público. Sibites, bem-te-vis e até rolinhas saem das matas periféricas e das grotas em busca de comida e abrigo. Fazem ninhos nas plataformas dos altos postes e até nas varandas ajardinadas da capital. A alimentação é farta no lixo dos terrenos baldios e até nas praças e meio de ruas.

     Em nossa cidade, não é diferente. Antes os pardais, viraram pragas. Andam em bando e botam os outros pássaros para correr. Nem cantam que preste, é somente um chilreado nervoso e irritante   de terras portuguesas. Caso invadam seu telhado, os abrigos das biqueiras, você estará sem sossego por uma infinidade de tempo. Mas o desmatamento é tanto que outros pássaros resolveram enfrentar a agressividade dos pardais e também ocupam territórios urbanos em Santana. Beija-flor (bizunga, colibri), bem-te-vi, sanhaçu e até rolinha, vão aparecendo. A rolinha é muito caçada pelo sabor da carne. Acontece mais por aqui, a presença da rolinha branca (branca e cinza); mas tem a rolinha azul, a fogo-pagou e a caldo- de-feijão que preferem lugares mais quentes do semiárido. São criaturas dóceis, delicadas, que inspiram tristeza e nostalgia.

     Não resistimos a sua presença solitária na fiação da rua defronte a nossa casa. E lá vai “flash” ao invés de bala. Amar as coisinhas do Criador dos Mundos


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LIVRO



O professor Francelino Soares memorialista Cajazeirense publicou este excelente livro: Portal da Memória: Um passeio pelo passado de Cajazeiras-PB. Passou em revista o cotidiano da cidade entre 1940 e 1960. O livro tem 546 páginas e custa 65,00 com o frete incluso.

Quem desejar adquiri-lo entre em contato com o professor Pereira através destes endereços: 

Whatsapp 83 9 9911 8286. 
E-mail:
franpelima@bol.com.br


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NA LINHA DE FRENTE DURANTE A BATALHA CONTRA LAMPIÃO

Por Tomislav R. Femenick – historiador, membro da diretoria do IHGRN.
(...) 
Consta que o ataque de Lampião a Mossoró teria sido a ele sugerido pelo político cearense Isaias Arruda e pelo cangaceiro potiguar Massilon Leite Benevides. Como teste, o bando desse último invadiu com sucesso a cidade de Apodi. Então, vários grupos de cangaceiros se reuniram para, juntos, atacar Mossoró. O ambiente era confuso e havia mais de um comando, embora que Virgulino tivesse ascendência sobre todos. Pelo caminho, assaltavam vilas, povoados e fazendas, roubando, batendo, torturando e fazendo reféns, ao mesmo tempo em que destruíam, quebravam e incendiavam o patrimônio daqueles que não eram seus apaniguados ou acólitos. Mas todos esses casos eram preliminares da grande luta: Mossoró.

Lampião e seu bando em Limoeiro do Norte 

A cidade se preparou para fazer sua defesa. Foram organizadas trincheiras em diversos pontos da cidade. Segundo o historiador Vingt-un Rosado, no dia 13 de junho de 1927: “Treze horas. O padre Mota […] vai fazer um reconhecimento pela Cidade. Sozinho, de­sarmado, ei-lo percorrendo todas as trincheiras. O padre Mota e o cônego Amâncio seguem até a atual Pra­ça Rodolfo Fernandes. Começara a luta. […] Os dois sacerdotes, com extraordinário sangue frio, es­timulam os combatentes. Eram soldados desarmados, os únicos a percorrerem a Ci­dade, na hora difícil. […] Na Rua Idalino Oliveira, uma bala vinda da Praça da Independência, quase os atingia”.

O Padre Mota em reunião com lideranças política de Mossoró. O religioso foi prefeito da cidade por nove anos e nove meses.

A luta terminou às cinco horas da tarde. Nenhum defensor da cidade estava, pelo menos, ferido. Os cangaceiros se reuniram ao lado de um muro lateral do cemitério. Um dos atacantes fora morto, seis estavam feridos, quatro em estado grave. Derrotado, Lampião fugiu.

(...)

Parte do todo deste trabalho escrito por Tomislav R. Femenick sobrinho/neto do padre Mota. https://www.tomislav.com.br/padre-mota-mestre-de-mossoro/

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PRIMEIRA CASA DE JATI-CEARÁ - ONDE LAMPIÃO FREQUENTOU NO ANO DE 1926.



Nesse documentário vocês conhecerão a primeira casa construída em Jati no estado do Ceará a antiga Macapá. Casa que pertenceu ao senhor Manoel Cunha Moura, onde Lampião e seus comandados estiveram pouco antes da chegada ao Juazeiro, onde recebeu a polêmica patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, formados para combater a Coluna Prestes-Miguel Costa. Na ocasião, Neco Cunha entregou à Lampião uma carta endereçada por Sinhô Pereira, antigo chefe de Lampião, cujo conteúdo acredita-se ter sido um convite para este abandonar o cangaço e o Nordeste, fato não comprovado. 

Vamos conhecer a casa e a história. 

Geraldo Antônio de Souza Júnior.


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FAMÍLIA FERREIRA



A Família Ferreira através de VERA FERREIRA (Neta de Lampião), a qual, junto com os herdeiros da ABAFILM, osquais detém, os direitos de imagens / autorais ( Lei nº 9610 de 19/02/1998 ), sobre as fotografias/filme dos cangaceiros, Lampião, Maria Bonita e outros, feitas por Benjamin Abrahão, em 1936, vêm a público esclarecer e solicitar, o seguinte.

a) Circula, atualmente, nas Redes Sociais Facebook, Whatsapp e outras, imagens /fotos dos cangaceiros, acima citados, alteradas para a forma colorida, sem respeitar sua cor original P & B ( preto e branco ), bem como, com aplicação de programas de photoshop, que alteram a fisionomia dos aludidos personagens.

b) As fotos que estão circulando, não estão respeitando as cores originais das roupas, apetrechos e armas dos cangaceiros.

c) Para que a estética do cangaço lampiônico, não seja alterada para as novas e futuras gerações, preservando-se, assim, a história e características dos personagens, solicito QUE PAREM, IMEDIATAMENTE COM ESSE desserviço (colorização, modificação de rostos e outros caracteres), alusivos aos entes do cangaço, já citados, acima, sob pena de serem tomadas outrasprovidências relativas ao referido fato. ( vide algumas fotos, abaixo).

Desde já, agradeço a atenção para o atendimento da solicitação em tela.

ARACAJU, 29 DE JUNHO DE 2020.
VERA FERREIRA (Neta de Lampião e Maria Bonita).


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PADRE MOTA MESTRE DE MOSSORÓ

Por Tomislav R. Femenick – historiador, membro da diretoria do IHGRN.

Luiz Ferreira da Cunha Motta nasceu em Mossoró no final da última década do século XIX. Estudou em sua cidade, em Natal, Recife, João Pessoa e Roma, onde se ordenou Padre em 1922, às vésperas de completar 25 anos de idade. Sua tese em teologia, apresentada à Pontifícia Universidade Gregoriana, obteve a classificação de “bone probatus”; aprovada com excelência.

Regressou à sua cidade no dia 21.10.1922. Segundo reportagem do jornal “O Nordeste”, o novo sacerdote foi recebido na Estação da Estrada de Ferro pelo Padre Manuel Gadelha, Vigário da Paróquia de Santa Luzia, seus familiares e pelo povo, que compunha uma enorme multidão. Formou-se, então, um extenso cortejo em direção à Matriz. Soltaram foguetes e a banda do Grêmio Musical tocava músicas sacras e alegres. No altar-mor da igreja de Santa Luzia, o Padre orou demoradamente ao som de “Sacerdos Magnus” e palmas da multidão.

O Padre Mota em reunião com lideranças política de Mossoró. O religioso foi prefeito da cidade por novo anos e nove meses.

Quando do regresso à terra natal, o Padre Mota encontrou quase a mesma Mossoró que deixara. O município tinha pouco mais que dezesseis mil habitantes. A cidade possuía trinta ruas, doze praças, cinco travessas e uma avenida, com 1.872 casas, sendo 840 de tijolos e telha, e 1.032 de taipa. Havia menos de trinta escolas primárias, um Grupo Escolar e uma escola de nível ginasial – o “colégio das irmãs”, pois o Santa Luzia estava fechado. As vias públicas eram cobertas com barro e pedregulhos. Não havia calçamento. Quando chovia, as ruas ficavam lamacentas e escorregadias. Durante o dia, o sol imperava abrasador. A escuridão das noites era cortada apenas por poucas lâmpadas de 32 velas, instaladas pela Intendência Municipal. Para reduzir o breu da noite e afugentar os mosquitos, em frente das residências eram acesas fogueiras, misturando-se estrume de gado às brasas.

O PADRE

O novo sacerdote ocupou vários cargos eclesiásticos: capelão do Colégio Sagrado Coração de Maria, vice-diretor do Colégio Diocesano Santa Luzia (quando este reabriu suas portas), capelania do Sagrado Coração de Jesus, responsável pelo ensino da religião para cerca de 1.200 crianças, vigário da Paróquia de Santa Luzia de Mossoró (quando deu início à construção da Capela de São José) e vigário geral da Diocese, de 1936 até o seu falecimento. Na hierarquia da igreja, o seu posto mais alto foi o de Monsenhor.

Meses após tomar posse como vigário da Paróquia de Santa Luzia, o Padre Mota promoveu uma reunião na sacristia da Capela do Sagrado Coração de Jesus, com um número bem reduzido de pessoas. Além dele, apenas seu pai, Vicente Ferreira da Mota, e o comerciante e industrial Miguel Faustino do Monte. O motivo da reunião: a criação da Diocese de Mossoró. Muitas, muitas outras pessoas se agregaram a esse esforço.

Título Eleitoral expedido em nome do Padre Mota em 1956.

Miguel Faustino ficou encarregado de levar o assunto junto à Diocese de Natal, a qual a Paróquia de Mossoró estava subordinada. O coronel Mota junto às autoridades, comerciantes e industriais da cidade, e o Padre Mota, juntamente com o Cônego Amâncio Ramalho, se encarregariam de arregimentar apoio entre os outros clérigos locais. Entretanto, tudo isso deveria ser tratado com absoluto sigilo, para não melindrar as autoridades eclesiásticas da Diocese da capital do Estado. Se houvesse dúvidas quanto ao segredo, dever-se-ia recorrer ao sigilo confessional. O Padre Mota reconheceu: “Foi um recurso maquiavélico, mas a causa era nobre e divina”.

O passo mais importante foi dado por Miguel Faustino junto ao bispo de Natal, Dom Marcolino Dantas. A ele disse que estaria disposto a fazer uma generosa contribuição em bens e dinheiro, quando fosse oportuno transformar a Paróquia de Mossoró em Diocese. Essa contribuição visaria formar a sua estrutura material, para que ela pudesse funcionar sem percalços.

O trabalho durou mais de seis anos. No dia 14.09.1934, o Padre Mota recebeu um telegrama de Dom Marcolino em que este lhe comunicava a criação da Diocese de Mossoró, através de uma bula papal emitida por Pio XI, assinada em Roma e datada de 28 de julho daquele ano. No dia 18 de novembro de 1934, por deferência especial do Bispo de Natal, e em seu nome, o Padre Luiz Ferreira da Cunha Mota presidiu o ato inaugural da nova diocese, pela qual tanto lutara. A celebração teve lugar na Catedral de Santa Luzia e contou com a presença de autoridades e do povo da cidade.

NA LINHA DE FRENTE DURANTE A BATALHA CONTRA LAMPIÃO

Consta que o ataque de Lampião a Mossoró teria sido a ele sugerido pelo político cearense Isaias Arruda e pelo cangaceiro potiguar Massilon Leite Benevides. Como teste, o bando desse último invadiu com sucesso a cidade de Apodi. Então, vários grupos de cangaceiros se reuniram para, juntos, atacar Mossoró. O ambiente era confuso e havia mais de um comando, embora que Virgulino tivesse ascendência sobre todos. Pelo caminho, assaltavam vilas, povoados e fazendas, roubando, batendo, torturando e fazendo reféns, ao mesmo tempo em que destruíam, quebravam e incendiavam o patrimônio daqueles que não eram seus apaniguados ou acólitos. Mas todos esses casos eram preliminares da grande luta: Mossoró.

Lampião e seu bando em Limoeiro do Norte 

A cidade se preparou para fazer sua defesa. Foram organizadas trincheiras em diversos pontos da cidade. Segundo o historiador Vingt-un Rosado, no dia 13 de junho de 1927: “Treze horas. O padre Mota […] vai fazer um reconhecimento pela Cidade. Sozinho, de­sarmado, ei-lo percorrendo todas as trincheiras. O padre Mota e o cônego Amâncio seguem até a atual Pra­ça Rodolfo Fernandes. Começara a luta. […] Os dois sacerdotes, com extraordinário sangue frio, es­timulam os combatentes. Eram soldados desarmados, os únicos a percorrerem a Ci­dade, na hora difícil. […] Na Rua Idalino Oliveira, uma bala vinda da Praça da Independência, quase os atingia”.

A luta terminou às cinco horas da tarde. Nenhum defensor da cidade estava, pelo menos, ferido. Os cangaceiros se reuniram ao lado de um muro lateral do cemitério. Um dos atacantes fora morto, seis estavam feridos, quatro em estado grave. Derrotado, Lampião fugiu.

LIÇÕES DE DEMOCRACIA NA CALÇADA DO PADRE

Padre Mota e o sobrinho Francisco, também prefeito de Mossoró.

Muito se fala e pouco se sabe o que realmente é democracia. Na verdade, a maioria a entende apenas como repetição do sistema em que vive ou desejam viver. Todavia, o fundamento maior da democracia é o entendimento republicano de que o indivíduo é “æquabilis in paribus”, igual entre os iguais.

A calçada do vigário era o espaço mais democrático da cidade. Era uma assembleia de amigos, à moda da democracia ateniense, onde todos podiam dizer o que quisessem, desde que ouvissem o que os outros falassem. Tudo de maneira pacífica e civilizadamente, sem discussões acaloradas. Nada foi planejado, apenas aconteceu. Na Mossoró de antigamente, cidade ainda pequena, havia o costume das famílias colocarem as cadeiras na calçada para mitigar o calor com o frescor dos ventos do final do dia. O Padre Mota também fazia isso e aproveitava o tempo para fumar seus charutos. Os vizinhos e as pessoas que passavam, sentavam-se para tirar alguns dedos de prosa. Como eram muitos, criou-se o hábito de todos irem buscar suas cadeiras na sala de visitas do reverendo e depois deixa-las no mesmo lugar. As mais ilustres figuras de todas as correntes políticas, inclusive alguns evangélicos, ateus e comunistas, frequentavam essas reuniões.

Antonio Capistrano, comunista desde 1960 e ex-vice-prefeito de Mossoró, diz que a calçada do Padre Mota era “o ponto de encontro de políticos, intelectuais e comerciantes da cidade, local suprapartidário, democrático, de papos sobre os diversos assuntos de interesses da coletividade, como também não deixava de ter as fofocas provincianas. Os que participavam dessas conversas lembram-se com muita saudade dos finais de tarde da calçada do padre; ele era espirituoso, piadista e conversador. Padre Mota parece que inspirou Che na sua famosa frase ‘ser duro sem jamais perder a ternura’. É essa a imagem que tenho do padre Mota. Severo nas suas convicções, mas extremamente humano nos seus atos. Isso é, para mim, a razão do bem-querer do povo mossoroense ao seu vigário geral. Homem pronto a servir, participando ativamente dos problemas da cidade”.

BRINCALHÃO, O PADRE ENSINAVA QUE DEUS NÃO É TRISTE

Uma das características do cidadão Luiz Ferreira da Cunha Mota, inseparável de sua condição de Padre ou Prefeito, era o seu humor ferino, brincalhão, travesso, com um toque de galhofa e de gracejo fino, sem ser grosseiro, nem nunca descambar para o impudor ou para a agressividade. O Padre Mota sabia rir e não gostava de lamúrias, tristezas ou lástimas. Dizia que “Deus não é Triste. Se o fosse, não teria criado o mundo e a vida tão belos. Não teria feito os passarinhos cantar, o amor dos jovens, o sorriso das crianças, o sol, a lua, o mar”. O jornalista Lauro da Escóssia reuniu vários “causos” do padre e publicou um livro com o título de Anedotas do Padre Mota (1986).

Em 1951 aconteceu um caso emblemático do seu humor sagaz. Manuel Leonardo Nogueira levou uma filha para ser batizada na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, cujo vigário era o padre holandês Cornélio Dankers, o qual se recusou a fazer o batizado, alegando que os padrinhos, João Café Filho e sua esposa, eram comunistas. Note-se que Café Filho era o vice-presidente da República. Manuel Leonardo recorreu ao Padre Mota e o batizado foi celebrado na igreja Matriz. Meses depois, o padre Cornélio falando com o Padre Mota trouxe o assunto do batizado à conversa, dizendo que não compreendia a atitude do seu colega. O Padre Mota respondeu: “Cornélio, eu conheço Café. Ele não é comunista coisa nenhuma. No máximo, é um oportunista. Além do mais, ele estava longe. E, mesmo se eles [Café Filho e a esposa] estivessem aqui e fossem comunistas, eu nunca vi comunista comer criancinha”.

PADRE MESTRE

Luis da Câmara Cascudo assim escreveu sobre Padre Mota: “Padre Mestre Luís Mota, Prefeito de Mossoró, gordo, atarracado, baixo, com um passo airoso de moço-fidalgo. Padre que viveu oito anos de Roma e conheceu três Papas, que viu a Itália guerreira, bolchevista e fascista, que aprendeu a olhar o povo como organização e jamais como figura de retórica, aí está tua Mossoró, um orgulho para os olhos e uma saudade para o coração. Ninguém se iluda com tua fisionomia espirituosa e plástica, com o humorismo de tuas graças, com o infalível charuto, com a ponteira incansável de tua bengala negra. Nem pelas anedotas que contas, pelos fatos que evocas deliciosamente. Tua história vibra nesse cenário tu­multuoso e moderno de existência sem desfalecimento”.

Tribuna do Norte. Natal, 18 jan 2015.


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