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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Perguntaram-me. Respondo-lhes.

Por: José Mendes Pereira
José Mendes Pereira
             
Como  eu não estou conseguindo fazer postagens na janela de comentários deste blog, por não estar sendo reconhecida a minha senha, respondo nesta página ao amigo Antonio dos Santos de Oliveira Lima, residente em Cruz, no Estado do Ceará, que me pediu o  seguinte; "-Gostaria de saber o nome verdadeiro de Colchete. Também se há alguma informação sobre o seu sepultamento e local.

Amigo Antonio, eu não tenho nenhuma informação sobre nome, pais, irmãos... Estado em que nasceu deste cangaceiro, mas acredito que alguns estudiosos do cangaço devem ter em seus acervos  fichas deste assecla.

Lampião

O  cangaceiro Colchete foi morto aqui em Mossoró, na tarde do dia 13 de Junho de 1927, quando o famoso Lampião e seus cabras invadiram a cidade. Ele foi sepultado no Cemitério São Sebastião. mas infelizmente ninguém sabe onde está a sua cova.

Eu fazendo um trabalho sobre o cangaceiro Asa Branca, cujo faleceu em Mossoró (morte natural), fui informado que a cova do cangaceiro em estudo ninguém sabe onde é o seu local, pois noutros tempos, a desorganização sobre documentos de cemitérios e locais de covas, eram total.

O cangaceiro Asa Branca

Ainda não satisfeito, procurei o diretor do mesmo em sua residência, mas ele me falou que o cemitério só tem documentos a partir do ano de 1982, isto é, os que foram sepultados em anos anteriores, todos os documentos foram destruídos pelos insetos. 

Como o cangaceiro Asa Branca faleceu no ano de 1981, um ano antes, não encontrei nenhum dado no Cemitério, somente consegui fotografar o seu túmulo.  Os dados que eu tenho em minhas mãos, foram cedidos pela sua segunda esposa, Francisca   da Silva Tavares, que posteriormente publicarei a sua foto e todos os filhos do cangaceiro Asa Branca.

O Narciso, não sei se é o sargento Narciso Dias.  Perguntou o seguinte: "-Caro amigo desculpe-me a intromissão, mas o personagem abaixo refere-se a Luiz Lorena, não seria Sebastião Pereira, Sinhô Pereira?!


Luiz Conrado Lorena de Sá
Eu  não acho que você é intrometido, e sim, um homem que não quer ver a literatura lampiônica sendo informada com fatos contrários, cuja, merece ser estudada e respeitada.

Kiko Monteiro

Eu  informei que é Luiz Conrado, baseado na publicação do blog: "Lampião Aceso", do amigo Kiko Monteiro, datado de 26 de fevereiro de 2009, com o título "Entrevista com o Ex Cangaceiro "Sinhô Pereira", cujo blog é de grande credibilidade no que diz respeito ao tema cangaço.

Se não for Luiz Conrado Lorena de Sá, o amigo Narciso me perdoe.

AGRADECIMENTOS:

Agradeço aos escritores: Aderbal Nogueira,


Paulo Medeiros Gastão


e Rostand Medeiros


pelos elogios dirigidos a este blog.

 José Mendes Pereira

Uma foto, uma legenda, um mistério.

Por: Kiko Monteiro

Gostaria que os amigos reparassem a fotografia abaixo.


            Esta imagem foi publicada originalmente no jornal baiano "Diário de Notícias" em 07 de Março de 1929 e reproduzida no livro "Lampião e os interventores, pág 175 do confrade Luiz Rubens, como sendo Antonio Ferreira irmão de Lampião.

Luis Rubens

             A única informação que dispomos é esta, não se sabe do que a manchete trata, se identifica Antonio como um dos cangaceiros atuantes em recente episódio ou se é uma retrospectiva da vida de Lampião até aquela data.

Lampião

            A segunda opção seria mais adequada pois Antonio morreu por "acidente" com arma de fogo em 1927.

             A questão vem a tona pois esta é um das imagens resgatadas pelo pesquisador Rubens Antonio em sua garimpagem pelos jornais da Bahia. Foi postada na comunidade do Orkut Lampião Grande Rei do Cangaço e dividiu opiniões de vários pesquisadores e colecionadores.

              Eu particularmente acredito que o único imbróglio seja na matéria do jornal, um total desencontro de informação. Prática nociva e muito comum da imprensa desde os tempos remotos quando se trata de cangaço.


Bando de Lampião no Juazeiro

            Resta saber em que ocasião esta foto foi tirada. Rubens sugere com muita pertinência que tenha sido na mesma oportunidade da visita de Lampião a Juazeiro do Norte em 1926. Virgulino e seu braço direito posaram para fotos individuais.

Eis a reunião da família Ferreira.


Antonio está sentado sendo o 1º. da esquerda
Não queremos induzi-los, mas reparem atentamente nas fotos abaixo.


            Cliquem para ampliar e percebam as semelhanças anatômicas e estéticas.
            Apesar da primeira está ligeiramente de perfil e mais aproximada dando uma impressão de um homem mais gordo enquanto que a segunda é de pose frontal notem o músculo orbicular da boca (abaixo do lábio inferior).

1º. -  Os ilhoses da testeira e do barbicacho.
2º. - Uma única correia cruzando o tórax.
3º. -  Esta é pra fechar a nossa conta de evidencias
"uma mesma marca de ombro do uniforme do cangaceiro".


Indicados pelas setas

Tirem suas conclusões.

Abraçando


Kiko Monteiro

Extraído do blog: "Lampião Aceso" 
 

domingo, 12 de junho de 2011

Lampião, um rastro de ousadia e ódio pela caatinga

Por Joan Edessom de Oliveira

          Embora tenha sido morto aos quarenta e um anos, a figura do “rei do cangaço”, Virgulino Ferreira da Silva, se fixou no imaginário popular. Até hoje a memória de Lampião, de seus “cabras” e de sua companheira, Maria Bonita, corre o sertão, nos romances de cordéis, na boca dos cantadores e nas investigações sobre a história do Brasil

Lampião e Maria Bonita

            Amanhecia o dia 28 de julho de 1938. No acampamento – uma grota perdida nos sertões – os homens e mulheres despertavam. O fogo da metralha rasgou os ares, quebrando o silêncio da caatinga, apenas pontuado pelas aves que despertavam. Nas mãos de João Bezerra e sua tropa alagoana, arautos da morte, a “bordadeira” costurava o estreito espaço onde os cangaceiros buscavam fugir e se defender, tudo a um só tempo.

João Bezerra - o matador de Lampião

            O capitão Virgulino Ferreira da Silva foi dos primeiros a tombar, se não o primeiro dentre eles. Em seguida foram caindo, de peito aberto, à traição, de qualquer jeito abatidos, enquanto um punhado buscava escapar à morte certa.

O cangaceiro Luiz Pedro

            Luís Pedro, o valente cabo de guerra do bando, já havia furado o cerco quando a voz de dona Maria ressoou, cobrando a promessa antiga de ficar ao lado do capitão até a morte. Voltou olhando para os soldados, mirando a morte.
             Foram quinze minutos apenas, ao amanhecer de 28 de julho. Foi o mais curto dos combates travados pelo capitão ao longo de duas décadas. Ao término, Lampião e Maria Bonita, os reis do cangaço, jaziam ao lado de outros nove integrantes do grupo.
            Os “macacos” da volante de João Bezerra se esbaldaram em selvageria. Um cortou a mão de Luís Pedro para poder arrancar-lhe os anéis com calma quando saíssem dali; outro seviciou Maria com o tronco de um mandacaru; por fim, cortaram as cabeças para expor nas escadarias das igrejas, das prefeituras, num cortejo cruel e macabro. A prática do Estado brasileiro, de degolar os seus adversários, inaugurada muito antes, se estenderia ainda por longo tempo. Em Angicos começara a agonia do cangaço, o princípio do fim.

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As cabeças do 11 cangaceiros mortos na grota de Angico

Origens do cangaço

            O termo cangaço começou a ser utilizado ainda na primeira metade do século dezenove e se relacionava à canga, ao jugo dos bois. A maioria dos estudiosos sobre o cangaço se inclina a acreditar que deriva de uma associação entre a canga dos bois e a forma como os cangaceiros carregavam o rifle, atravessado nas costas. Ainda no final do século dezenove, tanto os grupos de homens a serviço de um fazendeiro quanto os primeiros grupos independentes já eram chamados de cangaceiros.
           Por vingança, como meio de vida, como refúgio, homens como Cabeleira, Jesuíno Brilhante, Antonio Silvino, Sinhô Pereira, Luís Padre e muitos outros, entraram para sempre na crônica dos sertões, imortalizados pelos cantadores e cordelistas, gravados na memória do povo geração após geração.
             Fenômeno exclusivo dos sertões, os autores dividem-se quanto às causas do cangaço. O que levou homens e mulheres à vida de banditismo num período de quase dois séculos, desde que Cabeleira passou a agir até a morte de Corisco?

O cangaceiro Corisco 
          
           Uma primeira explicação para o fenômeno, de forma mais generalizada, deve ser buscada no entendimento dos sertões. Os sertões constituíam, dentro do Brasil, uma sociedade à parte, com seus códigos e leis próprias, onde o Estado era uma figura distante, abstrata, presente apenas na legitimidade do autoritarismo e na repressão
            Na ocupação do espaço sertanejo pelo branco europeu a marca maior foi a violência. Era um território sem lei nem rei, e o império do mais forte foi a característica predominante.
             Os criadores de gado, acostumados a sangrar o boi para o abate e a castrar porcos e bodes para a engorda, não tardaram a achar que entre o sangue dos bichos e o sangue da indiada que lhe opôs resistência não havia muita diferença.
Índios

            Nos sertões, o massacre dos índios limpava as margens dos rios para o estabelecimento das fazendas de criar. O Regimento de Cavalaria do Çertam, corpo de vaqueiros encourados e armados, “limpou”, por exemplo, as margens do rio Jaguaribe, no Ceará, para que os fazendeiros pudessem nelas instalar seu criatório, dizimando para isso tribos inteiras de icós, icozinhos, jucás, quixelôs.


Foto do Rio Jaguaribe
         
           Instalados nos sertões, potentados donos de léguas sem fim de terra e de cabeças sem conta de gado, faziam da sua vontade a lei com base na violência. E essa violência findava por se transformar em marca do tempo e do lugar.
           Quanto mais duradoura tenha sido a fase cruenta de um processo de colonização, tanto mais duradoura se mostrará, via de regra, a permanência dos hábitos violentos, numa fase em que racionalmente já não mais se justificam (MELLO: 2005, p. 64). 
           Os mais sérios pesquisadores sobre o tema buscam explicações sociais para o cangaço, mesmo quando divergem entre si. Segundo Chandler (2003: p. 28), as secas mais intensas contribuíam para o surgimento do banditismo e a frequência com que ocorreram no final do século dezenove e início do século vinte fez aumentar o nível de violência do cangaço. Facó (1976: p. 38), por sua vez, considerava o cangaço como uma réplica ao latifúndio.

Bando de cangaceiros de Lampião

            Certo é que, mesmo quando se buscam as explicações nas histórias individuais dos cangaceiros, elas não teriam ocorrido sem que determinadas condições históricas tivessem preparado o fértil terreno para o seu surgimento. A brutalidade e a violência daquela sociedade, a miséria e a exploração, a ausência do Estado e a presença da lei do mais forte, são fatores que propiciaram o surgimento de homens e bandos com uma lei própria, a desafiar a ordem estabelecida mesmo quando, aparentemente, eram elementos dessa própria ordem.
             Lampião foi o mais bem acabado exemplo do cangaço, fruto de um tempo e de um lugar, e deve ser estudado à luz desse tempo e desse lugar: a caatinga sertaneja da primeira metade do século vinte.

Virgulino Ferreira

          
           Terceiro filho de José Ferreira, Virgulino era hábil artesão e vaqueiro exímio. Bom dançarino, tocador de sanfona, na adolescência alcançava o seu sonho de criança. Quando perguntado pelo tio Manuel Lopes se desejava estudar para ser doutor, o menino Virgulino respondeu com convicção: 
           - Quero. Mas não para ser doutor. Quero ser é vaqueiro (MELLO: 2005, P. 165). Vaqueiro, pequeno criador, tangedor de burros pelos sertões, desde o Pernambuco até a Pedra de Delmiro Gouveia, nas Alagoas, Virgulino e seus irmãos criaram-se como tantos no sertão, até que a violência, filha legítima dessas paragens, cruzou o seu caminho, fazendo-se dele irmã inseparável, sua contra os outros, dos outros contra ele. Uma rixa entre famílias lançou-o nos braços do cangaço.

Delmiro Gouveia
         
           Segundo alguns afirmam, ele fez do cangaço meio de vida, esquecendo a vindita inicial. E isso pode até ser verdadeiro, mas o fato é que a briga entre sua família e os Nogueira e Saturnino, em 1916, constitui o estopim, o fogo inicial transformado em imensa coivara a rasgar como um grande incêndio os sertões de sete estados do nordeste brasileiro.

Primeiro inimigo de Lampião - O Zé Saturnino

            O assassinato do pai, na sequência dos acontecimentos iniciais, selou o seu rumo. Não havia mais volta. Virgulino não seria nem doutor e nem vaqueiro. Seria capitão de homens, comandante dos sertões.

Sinhô Pereira e seu primo Luiz Padre

             Integrado inicialmente ao bando de Sinhô Pereira e Luís Padre, Virgulino não sairia mais do cangaço. A partir de 1922, quando Sinhô Pereira e Luís Padre abandonam o cangaço e refugiam-se em Goiás, ele passa a atuar com seu próprio grupo, do qual faziam parte seus irmãos Antonio e Levino. Mais tarde, um terceiro irmão, Ezequiel, e um cunhado, Virgínio, também foram para o cangaço. Todos morreram antes de Virgulino. O único dos irmãos que sobreviveu a ele foi João, que não entrou no cangaço.

Por traz de Lampião, Ezequiel, e ao lado Virgínio, cunhado
Lampião e Antonio Ferreira - seu irmão

           A área de atuação de Virgulino se espalhou por sete dos nove estados do nordeste, deslocando-se progressivamente para o sul ao longo de duas décadas. A atuação em Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba foi se deslocando para Bahia, Alagoas e Sergipe.

Padre Cícero

             No Ceará e em Sergipe sempre atuou mais livremente, por conta do respeito pelo padre Cícero no primeiro e por conta dos acordos políticos firmados no segundo.

Um capitão de guerrilhas

              Embora tenha atuado com muitos homens em algumas vezes, registrando-se ataques e escaramuças em que o bando tinha cem ou mesmo cento e cinquenta homens, a regra de Lampião sempre foi a de pequenos grupos, agindo com autonomia, juntando-se quando necessário. Cristino da Silva Cleto, o Corisco, apelidado também de Diabo Louro, foi o seu mais famoso cabo de guerra, sobrevivendo ainda por dois anos após o massacre de Angicos, ao qual não estava presente.
              Lampião sempre procurava atacar em condições que lhe fossem favoráveis. Tinha profundo respeito pelos corajosos e sabia bem que sua sobrevivência estaria comprometida caso se desse a arroubos de valentia constantemente. Ousado e cauteloso, fustigava e fugia, atacando quando necessário, procurando render os adversários sem que houvesse combate, combatendo apenas quando não havia outra saída. Naquelas paragens, essa astúcia guerrilheira era antiga, desde a resistência indígena, passando pelos negros quilombolas ou amucambados, até os canudistas de Antônio Conselheiro.

Antonio Conselheiro
           
             Além do conhecimento absoluto do território, Lampião contou sempre com uma extensa rede de apoios, fundamental em sua guerra de guerrilhas sertaneja. Essa rede de apoio ia desde grandes fazendeiros, políticos influentes, governadores de estado, até os mais humildes sertanejos, vaqueiros, pequenos criadores; de armas de propriedade exclusiva do exército brasileiro até mantimentos por vezes indispensáveis e em situações nas quais o bando não podia comprar e nem pilhar.
              O capitão Virgulino sabia ainda recompensar regiamente os seus amigos, garantindo com isso a fidelidade da maioria, embora, por mais de uma vez, inclusive em Angicos, tenha sido surpreendido pela traição.
              Ele era um combatente habilidoso. Para Chandler (2003: p. 170), a capacidade que Lampião tinha de despistar a polícia e escolher a hora propícia para o combate era uma habilidade que muitos achavam extraordinária.
              O que a polícia considerava essencial, para o sucesso dessas táticas, era a fantástica habilidade de Lampião de cobrir seu rastro. O mais comum era viajar nos caminhos de pedregulhos, ou lajeiros, onde quase não deixavam evidência de sua passagem. (...) Sabia-se também que às vezes chegavam num lugar, e, então, caminhavam para trás, na mesma trilha, até que a pudessem deixar, cruzando a superfície dura, ou pulando para o lado.
             Para a polícia, os cangaceiros tinham desaparecido no ar (CHANDLER: 2003, p. 171). Durante as duas décadas em que viveu no cangaço, Virgulino Ferreira sofreu revezes e contabilizou importantes vitórias. A certeira pontaria e uma maneira peculiar de atirar, fazendo o seu primeiro rifle parecer automático, valeram-lhe a alcunha imortalizada, segundo a versão de muitos. O cano da arma, “aceso” na batalha, parecia um lampião a iluminar a caatinga.
                Foi ferido tanto em combate, por diversas vezes, inclusive no pé, causando-lhe um pequeno defeito que o acompanhou para sempre, quanto pela caatinga, no espinho atrevido que lhe custou um olho. Parcialmente cego, ligeiramente manco, a bravura e a sagacidade só aumentaram.

Dona Maria e as mulheres no cangaço

             Em fins de 1930 ou início de 1931 a primeira mulher entrou no bando. Não poderia ser de outro que não a do seu próprio comandante. Deixando o marido para seguir Virgulino, Maria Déa, Santinha, Maria Bonita ou simplesmente dona Maria, como era tratada pelos cangaceiros, a primeira dama do cangaço reinaria absoluta até morrer com seu amado no coito de Angicos.

Maria Bonita

               Sua data do nascimento é emblemática, 08 de março. Como tantas outras que ingressaram no cangaço depois dela, essas mulheres se agigantavam na valentia e no sofrimento. Quase todas elas engravidaram e tiveram filhos em meio a perseguições, correrias, tiroteios. Nenhuma pôde ficar com os filhos, entregues a padres, promotores, juízes, parentes, ricos fazendeiros. De Lampião e Maria Bonita sobreviveu Expedita, ainda viva.

Dadá de Corisco,
Sila de Zé Sereno (à direita),
Inacinha de Gato,
 
Maria de Pancada,
Neném de Luís Pedro, e tantas outras.
Aristéia e Durvinha, heroínas de uma saga sem rumo.
 

               No meio da caatinga, histórias de amor e desamor se construíram, como o ódio inicial de Dadá por Corisco transformado no amor imenso que a fez defendê-lo até a morte, sacrificando uma perna em combate para tentar salvá-lo.


              A tragédia amorosa de Lampião e Maria Bonita lhes rendeu um lugar de honra na literatura popular. Encarnam o amor em luta e guerra contra tudo e contra todos. É que naqueles ermos, como bem disse o poeta Crispiniano Neto, o papel da ternura era tão duro que o amor precisava andar armado. As mulheres no cangaço, seu papel, sua história, não cabem nos estreitos limites deste artigo.

Crispiniano Neto

Lampião, Padre Cícero e Coluna Prestes

             Um dos mais controvertidos e explorados aspectos da vida de Lampião diz respeito à sua relação com padre Cícero Romão Batista, o patriarca de Juazeiro do Norte, no Ceará. Personagem singular na nossa história, tal qual o famoso bandoleiro, nos anos de 1920, padre Cícero já era um mito em todo o nordeste. Erigira uma cidadela sertaneja, território dos seus romeiros, e era respeitado por todo o sertão nordestino. As imensas romarias que levam mais de dois milhões de romeiros todos os anos à chamada cidade santa nordestina, já ocorriam com padre Cícero em vida.
              Lampião, como a maioria dos sertanejos, tinha o velho padre como um verdadeiro santo, admirando-o e sendo a ele devotado. Para a maioria dos historiadores, esse respeito por padre Cícero, junto aos acordos políticos realizados com grandes fazendeiros do Ceará, explica por que Virgulino nunca tenha praticado ataques mais sérios no Ceará, limitando-se a pequenas e insignificantes escaramuças durante todo o período em que combateu.


            Um episódio, entretanto, entrou na vida de ambos como um dos mais significativos. A chamado de Floro Bartolomeu, médico baiano, deputado federal e considerado uma espécie de alter-ego do padre Cícero, Lampião foi a Juazeiro em 1926. Floro estava no Rio de Janeiro, adoentado, vindo a morrer enquanto Lampião se encontrava com o padrinho Cícero. Em Juazeiro do Norte Lampião conversou com o patriarca, deu entrevistas, fez algumas de suas mais famosas fotografias e recebeu armas, fardamentos e munições para compor os Batalhões Patrióticos, que davam então combate à Coluna Prestes.

Arquivo Tok de História

               Pedro de Albuquerque Uchôa, inspetor agrícola do Ministério da Agricultura, a pedido do padre Cícero, e na presença de Antonio Ferreira e Sabino Gomes – lugares-tenente de Lampião, sendo o primeiro seu irmão – assinou um documento em nome do governo da República dos Estados Unidos do Brasil, dando a Lampião a patente de capitão e a permissão para viajar livremente, de estado a estado, em companhia dos Batalhões Patrióticos, em combate à Coluna.

Sabino Gomes

          Mais tarde, Uchôa declarou que teria assinado até mesmo a exoneração de Artur Bernardes da Presidência da República se Sabino e Ferreira tivessem pedido.

Artur Bernardes
Presidente do Brasil - Artur Bernardes

              A partir de então Virgulino passaria a assinar como capitão Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. O único dentre os cangaceiros a também poder se chamar assim, até o fim do cangaço foi Cristino da Silva Cleto, o capitão Corisco.
              Jogo político de Floro, artimanha do octogenário padre Cícero, ou ingenuidade de Lampião. Fosse o que fosse, o agora capitão pareceu sair de Juazeiro do Norte disposto a cumprir sua palavra e combater os revoltosos de Prestes. Tão logo saiu do Ceará, entretanto, as polícias da Bahia e de Pernambuco lhe deram combate. A promessa feita a padre Cícero de se retirar do cangaço tão logo cumprisse aquela missão se esvaiu na desilusão. A patente de capitão não foi reconhecida pela polícia, nem a permissão de viajar livremente teve qualquer serventia.
              Com as armas e munições do exército recebidas em Juazeiro, Lampião deixou a Coluna de lado e, fortalecido e bem armado, embrenhou-se novamente nos sertões. Sua vida não permitia voltas, e a partir de então seguiu em marcha batida rumo a seu destino final. Virgulino era agora o capitão Lampião, cada vez mais temido e perseguido, cada vez mais uma lenda sendo erguida sob o sol da caatinga.

Angicos, o fim da caminhada

              Lampião viveu quarenta anos, mais da metade no cangaço. Comeu o pó das estradas sertanejas ao longo de mais de vinte anos. Palmilhou, por vezes a cavalo, mas no mais das vezes a pé, com suas sandálias de couro, incontáveis léguas por sete estados brasileiros. Travou centenas de combates e escapou a todos eles. Em Angicos, o cego não disparou um tiro sequer.
             Cometera, em toda a sua trajetória no cangaço, um erro muito sério. O fracasso do ataque a Mossoró, no Rio Grande do Norte, acompanhou-o por toda a vida. Atacara uma cidade grande, próxima ao mar, importante politicamente. Fora derrotado, uma dura derrota, de valor simbólico muito grande. Atraíra sobre si ainda mais a violência repressora do governo. Mossoró virou um símbolo, um ícone. Lampião não cometeu jamais o mesmo erro.
              Em Angicos, ele errou uma segunda vez. Muitas vezes repetira que não se fica em coito com uma única saída, “ratoeira” segundo os cangaceiros. Angicos era exatamente uma delas. Corisco ali estivera e dissera isso. Zé Sereno dissera para Lampião a mesma coisa.

Zé Sereno à esquerda

             O capitão insistira em ficar, confiava em Pedro de Cândido, o coiteiro que o trairia. Angicos é uma sequência de erros que desafia os historiadores do cangaço até hoje. Como o capitão Virgulino cometera um erro tão grosseiro? Como Juriti e Ligeiro, famosos cachorros de Lampião, juntamente com os outros, não latiram dando o alarma? Como, em esconderijo tão desfavorável, não havia sentinelas? A história ainda busca respostas setenta anos depois.
              Na manhãzinha de 28 de julho de 1938 havia em Angicos os bandos de Lampião, Luís Pedro e Zé Sereno. Corisco ainda chegaria com Dadá e seu bando. Conforme dizem os sobreviventes, o combate durou apenas quinze minutos. Foi o mais curto da vida de Lampião, e também o que apresentou o maior número de baixas. Foi o combate fatal. Há setenta anos passados.
              Lampião e Maria correm o sertão até hoje, nos romances de cordéis, na boca dos cantadores, na voz sussurrante das contadoras de história sertanejas, nas inúmeras pesquisas dos historiadores, na boca do povo, de pai para filho, de avô para neto, de bisavô para bisneto.
                Segundo Chandler (2003: p. 218), “Lampião era um bandido social, mesmo não sendo um nobre salteador. (...) a sociedade em que viveu era tal que um jovem corajoso, como ele, poderia cair no banditismo muito facilmente. Ou como disse um cantador:

“Era brabo, era malvado,
Virgulino, o Lampião,
Mas era, pra que negar,
Nas fibras do coração
O mais perfeito retrato
Das caatingas do sertão.”

          Joan Edessom de Oliveira é mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará e diretor da Escola de Formação Permanente do Magistério, em Sobral-CE.

Referências Bibliográficas:

           
CHANDLER, Billy Jaynes. Lampião, o rei dos cangaceiros. 4ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
ARAÚJO, Antonio Amaury Correia de. Assim morreu Lampião. 3ª ed. Santos: Traço, 1982.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. 4ª ed. São Paulo: A Girafa, 2005.
FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos. 4ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
DIAS, José Umberto. Dadá. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1988.
SOUZA, Ilda Ribeiro de (Sila). Sila: memórias de guerra e paz.         
Recife, Imprensa Universitária-UFPE, 1995.

EDIÇÃO 96, JUN/JUL, 2008,
PÁGINAS 67, 68, 69, 70, 71

Extraído do blog:  "CDM - Centro de Documentação e Memória"

sábado, 11 de junho de 2011

Scans: Revista Veja, 19 de Novembro de 1975.

Por: Ivanildo Alves da Silveira
Ivanildo Silveira e João de Sousa Lima

Encontraram o ex cangaceiro "Curió"




            Pedimos ao leitor desconsiderar o trecho: "Preso, CURIÓ foi obrigado pelas volantes a cortar as cabeças de seu chefe, de Maria Bonita, Angelo Roque e Vila Nova..." pois, não corresponde a VERDADE HISTÓRICA DOS FATOS.

Um abraço a todos
IVANILDO ALVES SILVEIRA
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC
Natal/RN.

Para saber o destino do
"velho pássaro" não deixe
de ler este adendo de
Messier Rostand.

           Procurei mais detalhes e descobri no "Diário de Pernambuco,, edição de domingo, 19 de Agosto de 1990, um dia antes, as 7:40, havia falecido no Hospital da Restauração, de embolia pulmonar, Marcos Alexandre da Costa. Ele tinha 88 anos, havia sido atropelado por um ônibus no Complexo de Salgadinho, no dia 16 de agosto de 1990.
             Depois que foi solto em 1975, o então governador de Pernambuco, Moura Cavalcante lhe arranjou um emprego de marceneiro no Juizado de menores.

jose-francisco-de-moura-cavalcanti-margarida
Margarida Krause e José Francisco de Moura Cavalcanti.
Ex-governador de Pernambuco
      
            Morava na chamada Vila Popular, no bairro de Peixinhos, em Olinda. Havia residido anteriormente na Estrada da Caixa D'Água.
             Do seu casamento, depois que foi solto, cuidou de três enteados, que lhe deram 26 netos e 22 bisnetos.
             Segundo a reportagem, Curió havia nascido no dia 7 de maio de 1907, na cidade de Bom Conselho, Pernambuco.
            Primeiramente, entre 2006 e 2007, eu estava trabalhando em Caicó-RN, onde conheci uma senhora que nasceu em Olinda e vivia (acho que vive ainda) na cidade potiguar e me falou que quando morava em Olinda conheceu "Seu Marcos". Passou-me algumas informações que foram corroboradas, em parte, pela reportagem. Ela comentou que sobre sua vida cangaceira, ele era extremamente reticente em comentar este assunto. Mas na região onde eles viviam todos sabiam quem foi Curió.

Rostand, João de Sousa Lima e Juliana Ischiara

          Em 2007 postei sobre este encontro com esta senhora na comunidade do Orkut "Lampião, Grande rei do cangaço". Mas devido ao silêncio gélido "dos gênios" que aqui comentavam sobre cangaço, achei melhor me resguardar para depois não levar o nome de mentiroso.      
           A única pessoa que se interessou e tentou encontrar alguma coisa sobre este cangaceiro em Recife foi nosso amigo Jal Gomes. Mesmo infrutífera na sua busca, valeu pela iniciativa maravilhosa.
             Depois achei este artigo no "Diário de Pernambuco", mas aí assunto já tinha morrido. E agora vejo, de forma muito positiva, o amigo Ivanildo trazer este artigo da Veja. 
             Lembrei-me de outros detalhes: Se não me engano, na época em que Curió foi atropelado, a senhora me comentou que a empresa proprietária do ónibus se chamava “Vera cruz”, mas não tenho certeza. Que a família do ex-cangaceiro ficou revoltada, cogitando até entrar na justiça.
             Outra coisa que ela me falou foi que em Peixinhos ele igualmente havia morado próximo a um antigo local que foi um “matadouro”. Pessoalmente não conheço estes locais. Seria legal nossos amigos de Pernambuco comentarem se estas informações poderiam, ou não, terem sentido. È só o que recordo. 
             Analisando esta questão do ex-cangaceiro Curió, percebemos que num primeiro momento ele teve até sorte e sua saída chamou atenção da sociedade local. O próprio governador pernambucano da época mandou buscá-lo em “carro oficial”, lhe recebeu como “herói” no palácio, lhe deu emprego e o utilizou (mesmo sendo ele analfabeto) como “garoto-propaganda” em uma feira regional de municípios. 
             Interessante como estes acontecimentos apontam a mudança de percepção da sociedade pernambucana, e por tabela a brasileira em geral, em relação ao cangaço. 
             Se em 1975, a saída de um ex-cangaceiro da prisão gerava toda esta notoriedade, se ele tivesse sido solto no final da década de 1950, certamente Curió buscaria inicialmente o anonimato, pois seria muito mais fácil ele ser execrado pela população como “marginal”, “bandido”, ou levar uma bala de algum desafeto.
              Aparentemente, apesar da sorte inicial, sua vida posterior deve ter sido de muitos apertos. 
Comento isso analisando as várias fontes apresentadas neste tópico, pois mesmo com o seu emprego de marceneiro no Juizado de Menores, ele deve ter ralado muito o ex-cangaceiro. Vemos que primeiramente passou a residir na “Favela do Córrego do Euclides”, em Casa Amarela, depois aparentemente na “Estrada da Caixa D'Água”, seguindo para a “Comunidade de Peixinhos”, onde viveu próximo ao antigo “Matadouro”, ou na “Vila Popular”. Além disso, teve de cuidar da mulher, três enteados, vários netos e bisnetos. 
            Detalhe; Não sei se procede (os colegas de Recife podem me corrigir), mas pelo que sei, estes locais que Curió morou na Região Metropolitana de Recife, são (ou eram) locais de alta periculosidade, de ocorrência de tráfico de drogas, etc. Mas, pelo menos até onde se sabe o ex-cangaceiro não se envolveu com nenhum tipo de problema envolvendo a marginalidade.
             Não sei, mas creio que Curió foi o último cangaceiro a deixar vivo (e na época totalmente lúcido) um ambiente prisional no Brasil. Será? 
             Perda de oportunidade
            Fosse por que Curió não gostava de falar, ou talvez por que em 1975 os estudiosos do assunto “cangaço” tinham “material de sobra” para pesquisar (ainda haviam muitos dos velhos coronéis, ex-perseguidores, ex-coiteiros, etc). Fosse por que estes estudiosos entendiam que naquela época não valia à pena perder tempo com um cangaceiro que, talvez, não fosse considerado “importante”, ou no bando era apenas um "lavador de cavalos”. 
             Fossem por estas ou outras razões, sei de uma coisa, para aqueles que gostam do assunto, faltou naquela época alguém ir até este Senhor e “furar” a sua barreira de prevenção em relação a falar sobre o seu passado.

Pesquisador e escritor João de Sousa Lima

               Faltou alguém ter tido a oportunidade de ao menos tentar conseguir dele a sua memória sobre este período. Faltou naquele tempo um “batalhador da história”, como um João de Sousa Lima, que trouxe a bela a rica saga de Moreno e Durvinha.

              Vemos que este ex-presidiário só ganhou notoriedade pelas suas andanças no cangaço. Provavelmente a reportagem da Veja, edição de Novembro de 1975, gentilmente postada por Ivanildo, foi publicada a partir de algum “furo” conseguido por algum correspondente da revista lotado em Recife, ou através de notícias publicadas nos jornais recifenses.        
            Se ele não tivesse sido o cangaceiro "Curió", a morte do aposentado Marcos Alexandre da Costa seria uma simples notinha de rodapé da cronica policial recifense.
           
Um abraço.

Extraído do blog: "Lampião Aceso"

Observação:

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