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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Laser Vídeo - Entrevista com Dona Francisca Silva Tavares

Aderbal Nogueira

No dia 10 de julho deste, em companhia do poeta, escritor e pesquisador do cangaço, Kydelmir Dantas, e José Mendes Pereira, o cineasta e pesquisador do cangaço, Aderbal Nogueira, cearense, fez um documentário em Mossoró, com Dona Francisca Silva Tavares, viúva do ex-cangaceiro Antonio Luiz Tavares - o Asa Branca. 

As fotos abaixo foram feitas pelo próprio cineasta, na residência da entrevistada. O documentário (vídeo) está guardado em seu acervo, que servirá para seus futuros trabalhos. 

Francisca Silva Tavares
Foto de Francisco Tavares da Silva, assassinado aos 24 anos, e seu pai Asa Branca.
Kydelmir Dantas, Dona Francisca Silva Tavares e José Mendes Pereira
Kydelmir Dantas, Dona Francisca Silva Tavares e José Mendes Pereira
O cineasta Aderbal Nogueira, Dona Francisca Silva Tavares e José Mendes Pereira
Aderbal Nogueira, Dona Francisca  Silva Tavares e Kydelmir Dantas
Viviane, neta de Dona Francisca Silva Tavares e do ex-cangaceiro Asa Branca
Antonio Esmeraldo Tavares - Cride, filho de Dona Francisca Silva Tavares e do ex-cangaceiro Asa Branca
Dona Francisca Silva Tavares e a filha Maria Gorete Tavares Barbosa
Dona Francisca e Gorete
Dona Francisca Silva Tavares
Dona Francisca Silva Tavares
Dona Francisca Silva Tavares


Nota bastante importante:


Por que Dona Francisca Silva Tavares, com 75 anos de idade, foi esposa do cangaceiro Asa Branca, que se hoje ele estivesse vivo, estaria com 111 anos?
Resposta: Dona Francisca era a segunda esposa do cangaceiro Asa Branca. Quando ela foi viver com o cangaceiro, estava com 17 anos, e o Asa Branca já passava dos cinquenta anos.


Uma produção da Laser Vídeo -  do cineasta e pesquisador do cangaço: Aderbal Nogueira

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PENHA

Por: Clerisvaldo B. Chagas -  Crônica Nº 823
Clerisvaldo B. Dantas

Já sim. Já escrevi uma vez sobre a Igreja de Nossa Senhora da Penha, do Rio de Janeiro. Mas agora me bateu uma coisa, um negócio, uma vontade enorme de me referir a Igreja da Penha. Uma defesa de Nossa Senhora levou-me de imediato o pensamento às escadarias daquele penhasco fabuloso. Um dos escolhidos lugares do mundo que desejaria conhecer, estive perto e não pude. Gostaria muito, muito de imitar Gonzaga quando bate a tristeza:

Fonte: Blog da Igreja de Nossa Senhora da Penha.

Demonstrando a minha fé
Vou subir a Penha a pé
Pra fazer minha oração” (...)

“Penha, Penha...
Eu vim aqui me ajoelhar
Venha, venha
Trazer paz para o meu lar”

Localizada na Vila Cruzeiro, no Bairro da Penha no Rio de Janeiro o  santuário católico Igreja de Nossa Senhora de França é popularmente conhecido como Igreja da Penha. Um dos cenários mais bonitos do mundo está ali naquele penhasco com seus 382 degraus, onde muitos fiéis fazem e pagam promessas subindo os batentes a pé ou de joelhos.

“Nossa senhora da Penha 
Minha voz talvez não tenha 
O poder de te exaltar 
Mas dê benção padroeira 
Pra essa gente brasileira 
Que quer paz pra trabalhar”

Na época em que eu quis fazer essa visita, ninguém de fora podia chegar à entrada dos morros. O santuário estava à mercê dos bandidos e os turistas mantinham distância das zonas perigosas. Vou ficando, então, com essa página musical de Luiz Gonzaga, tão bonita quanto “Asa Branca”, o “Baião da Penha”.

“Penha, Penha...
Eu vim aqui me ajoelhar
Venha, venha
Trazer paz para o meu lar...”

Extraído do blog do romancista e cronista:
Clerisvaldo B. Chagas

OS SENHORES DO AÇOITE (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

OS SENHORES DO AÇOITE (Crônica)

A palavra açoite talvez tivesse surgido para agradar o poeta, para animar o vento, para ser exatamente o contrário daquilo que se transformou por muito tempo. Ora, seria muito melhor que servisse apenas para rimar com noite ou para mostrar como a ventania chega voraz.

Na outra vertente que deram a palavra, o açoite tomou medonho sentido. E tão medonho que logo faz lembrar os negros escravos sendo açoitados, daquelas tristes figuras humanas amarradas ao tronco levando chibatada, sendo lanhadas pelos couros cortantes dos seus algozes.

Longe do sentido humano da palavra, logo faz lembrar seus usos e suas nefastas consequências. O arreio num canto, a corda na cintura, a corrente ao alcance, a tira desumana e cortante na proximidade, uma sombra ainda suja de sangue de outras costas pendurada na parede.

Açoite. A noite da face, do corpo, da boca aberta, do gemido do grito. Açoite. A noite na claridade, no meio do tempo, dentro da senzala, no festim dos insanos, nas mãos dos covardes, no curral dos desvalidos, em qualquer lugar. Açoite, rimando com noite, mas somente na cor da dor.


O que é o açoite? Homem branco não conhecia resposta, apenas sabia usar. O negro nem imaginava responder sem sentir passo fúnebre em sua direção. O capataz, o algoz, o senhor-do-mato, o rastreador, o que vai no encalço fugitivo, todo ele sabia muito bem do que se tratava. E tanto era amigo que fazia valer a plenitude mais desumana do seu significado.

Açoite.  Azorrague, chicote, látego, vergasta, chibata, couro, cordame, calabrote, chiqueirá, junco, vara afiada, canaflecha, tudo a mesma coisa: a arma ou instrumento utilizado para açoitar, reprimir e castigar não só os negros rebeldes, fugitivos, indisciplinados, mas também todo trabalhador submetido às ordens de um sanguinário e desumano senhor.

Açoite. Pancada com a chibata, golpe com o chicote, investida na pele desnuda com o azorrague. Instrumento utilizado para diminuir a capacidade do ser humano, para denegrir sua imagem, para submetê-lo, para fazê-lo sentir na pele e no espírito a dor de ser rebelde e desobediente. O açoite como limite da ação humana e como fronteira de sua liberdade.

Tempos tristes aqueles, e tristes tempos também estes ainda sombreados pelo açoite. Na época da escravidão oficial não havia remédio melhor para combater negro safado, astuto, fugitivo, como diziam dentro e ao redor do engenho. Açoitava o rebelde onde fosse encontrado e mais ainda quando já estivesse amarrado ao tronco, no cenário ideal para o festim da desonra humana.

O negro já chegava todo alquebrado dos castigos impingidos desde o instante da captura. Depois de amarrado recebia os primeiros açoites, as primeiras feridas para não esquecer os motivos de estar sendo castigado. Em seguida era levado em cortejo, puxado feito animal bravio e jogado no terreiro das aflições.


Ali no pelourinho do engenho, local ideal para fincar o imenso tronco da correção, o coronel de terno de linho branco era chamado para ordenar os limites do castigo. Para não sujar sua roupa de respingos de sangue, logo apontava o dedo em direção ao carrasco, que geralmente era o feitor, e segredava-lhe ao ouvido.

De repente e os escravos eram trazidos da senzala para rodear o impiedoso tronco da tortura e ali assistir seu irmão de sangue e de sofrimento ser castigado. Aquele que baixasse a cabeça ou fechasse os olhos também era açoitado. Não era difícil que algum negro forte fosse chamado para levantar a chibata e descer no lombo do seu irmão.

A chibata abria ferida no lombo, nas costas e por todo lugar, o sangue espanava em todas as direções e o negro sob ameaça de outro açoite para continuar mortificando aquele que sofria calado, que não gemia, não chorava, não gritava, recolhendo-se apenas no seu silêncio de quase morte.

Depois jogavam por cima água com sal grosso e deixava o negro ali mesmo no meio do tempo. Talvez salgando a carne humana para os urubus. E desse açoite ainda sentimos na pele vestígios e sombras de sua dor.

(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com



1ª Chamada - Fazenda Angico - Poço Redondo - SE - Brasil


Intimou-lhes: Vera Ferreira

lampiaoaceso.blogspot.com

DE ONDE VEM O MITO DE LAMPIÃO

Por: Manoel Severo

Não obstante o fenômeno do cangaço tenha abrangido sete dos nove estados do nordeste, foi o interior pernambucano que deu origem aos mais destacados personagens desta epopéia brasileira; Sebastião Pereira e Virgulino Ferreira. Na verdade ambos nasceram na chamada microrregião do Vale do Pajeú, mas precisamente na cidade de Vila Bela, que a partir de 1942, passou a se chamar Serra Talhada por proposta do interventor de Pernambuco na época, Agamenon Magalhães, filho ilustre do lugar. O Vale do Pajeú é composto por dezessete municípios, tem clima semi-árido na grande maioria de seu território, com exceção da região do chamado “brejo de altitute” onde se localiza a bela Triunfo. Seria ali no Vale do Pajeú, com seus municípios e vilarejos, entre os quais: Afogados da Ingazeiras, São José do Egito, Solidão, Santa Cruz da Baixa Verde, Flores, onde se desenrolariam os primeiros atos da sinfonia cangaceira de Lampião.

Lampião por telaetinta.com. br

Não obstante o fenômeno do cangaço tenha abrangido sete dos nove estados do nordeste, foi o interior pernambucano que deu origem aos mais destacados personagens desta epopéia brasileira; Sebastião Pereira e Virgulino Ferreira. Na verdade ambos nasceram na chamada microrregião do Vale do Pajeú, mas precisamente na cidade de Vila Bela, que a partir de 1942, passou a se chamar Serra Talhada por proposta do interventor de Pernambuco na época, Agamenon Magalhães, filho ilustre do lugar. O Vale do Pajeú é composto por dezessete municípios, tem clima semi-árido na grande maioria de seu território, com exceção da região do chamado “brejo de altitute” onde se localiza a bela Triunfo. Seria ali no Vale do Pajeú, com seus municípios e vilarejos, entre os quais: Afogados da Ingazeiras, São José do Egito, Solidão, Santa Cruz da Baixa Verde, Flores, onde se desenrolariam os primeiros atos da sinfonia cangaceira de Lampião.

Os maiores destaques do Vale do Pajeú, sem dúvidas eram os municípios de Triunfo e Vila Bela. Triunfo, uma bela cidade serrana onde se localiza o ponto mais alto do estado de Pernambuco (1.004 metros), região brejeira, possuia uma economia baseada na agromanufatura de rapadura e no minifúndio, dessa forma possuia uma vida um tanto mais urbanizada e de comércio mais organizado e desenvolvido que Vila Bela, sua elite política e intelectual composta de comerciantes, médicos e juristas se distinguiam da de Vila Bela formada basicamente pelos coronéis do gado; a aristocracia rural; que com o desenvolvimento da pecuária bovina e caprina juntamente com a agricultura eram a base da economia vilabelense. Ali estariam o berço dos irmãos Ferreira, Antônio, Livino e Virgulino, ligados ao clã dos Pereira, que ao lado dos Carvalho, disputavam o poder político local.

Caravana Cariri Cangaço em Serra Telhada: 
Severo, Jack de Witt, Anildomá, Bosco André e Zé Cícero

Muito se tem estudado sobre o real caráter do cangaço: suas origens, implicações, correlações, enfim. Historiadores, sociólogos, antropólogos, médicos, acadêmicos como um todo; escritores, curiosos, enfim têm se dedicado ao longo dos últimos anos ao estimulante e desafiador estudo sobre o que realmente representou tão emblemático fenômeno nordestino. É natural que as causas principais de tão comentado fenômeno estejam ligadas às condições sociais a que os sertanejos nordestinos do início de século estavam submetidos. As desigualdades sociais inerentes a uma política desastrosa de ocupação da terra; nascida com certeza, desde a colonização e as famosas sesmarias; que privilegia os grandes latifúndios; as constantes épocas de estiagem e pobreza, a ausência de um poder central forte e atuante diante das mais elementares demandas da pobre gente do sertão, concentrando de forma exacerbada o poder dos famosos coronéis de barranco, sujeitos à expropriação e à exploração, às injustiças, à violência, enfim; entretanto, esse seria apenas o pano de fundo de um fenômeno que não se encerra nos pontos acima citados.
Seriam os cangaceiros vingadores dos oprimidos? Seriam os cangaceiros elementos que estavam a serviço da justiça social e de uma melhor distribuição de terra? Seria o cangaço um movimento armado que nasceu para combater o poder dos coronéis, ou seriam apenas indivíduos de natureza condenável que diante de circunstancias desfavoráveis passaram a fazer parte do mundo do crime?

Bando de Lampião enquanto fotografado pela epopéia de Abrahão Benjamim

Podemos nos deter sobre vários correntes de estudo. Uma delas tem como referência o trabalho do renomado historiador britânico; nascido no Egito; Eric Hobsbawm, em seus livros Primitive Rebels, de 1959, e Bandits de 1969. Principalmente neste último, com a tese do Banditismo Social, que é enfocado como uma forma de resistência camponesa, sendo um fenômeno universal, uma vez que segundoHobsbawm, os camponeses teriam todos eles um modo de vida muito parecido, pela forma como se davam suas relações de trabalho e sociais, deste modo se traçariam as similaridades com os sertanejos do nordeste brasileiro; notamente de formação populacional eminentemente rural. Ainda recorrendo a Hobsbawm definiríamos a delinqüência rural em três tipos de bandidos: o nobre, tipo Robin Hood; os guerrilheiros primitivos; e o vingador. Temos ainda o antropólogo e estudioso holandês Anton Blokque em um artigo de 1972 critica em alguns pontos o modelo do banditismo social deHobsbawm, quando enfatiza que as populações rurais na verdade foram muitas vezes vítimas dos bandidos, que atendiam na verdade aos interesses das elites dominantes, em detrimento dos mais humildes, elites essas sem as quais não se sustentariam.

Em tese o cangaço poderia até ser compreendido como um movimento criado para combater a dominação dos coronéis; o que vamos observar, no entanto, é que acabaria sendo estabelecida uma relação simbiótica entre as partes; teoricamente de interesses contrários; cangaceiros e coronéis tornaram-se parte de um mesmo corpo, corpo doente e nocivo, um dependendo do outro, e que muito mal acabou causando principalmente aos mais humildes deste lado do Brasil. É interessante pontuar que os cangaceiros não defendiam apenas e unicamente os interesses da elite dominadora, eles próprios tinham seus interesses e motivos; nobres ou não; e lutavam por eles. Já os coronéis absortos em sua sede permanente de poder, precisavam estar sempre atentos ás suas próprias disputas contra famílias e clãs concorrentes, aqui abrimos um parêntese para ilustrar o caso mais emblemático que era a disputa dos clãs Pereira e Carvalho, no Vale do Pajeú. Devido à fraqueza do Estado na época e à dificuldade que este tinha em chegar a regiões mais remotas do país, como o sertão nordestino, os conflitos, nessa região, eram resolvidos de acordo com a lei do mais forte, daí a aliança com os grupos cangaceiros ser vital para a manutenção de poder.

Dentro de meu humilde esforço de curioso sobre o tema; para contextualizar social e antropologicamente o fenômeno do cangaço, acho interessante observar algumas considerações desenvolvidas por outros estudiosos e pesquisadores com relação ao fenômeno, mas me permito deter-me para encerrar esse pequeno artigo, a Carlos Alberto Dória, quando provoca: “o cangaço perpetuou-se na cultura nacional como elemento de nossa mitologia heróica. E Lampião, símbolo de primeira grandeza neste quadro, continua a ser uma individualidade polêmica...”

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço

Extraído do blog do professor e pesquisador do cangaço:
Honório de Medeiros





quinta-feira, 19 de julho de 2012

NAS ASAS DA AÉROPOSTALE

Por: Rostand Medeiros
Photo

A empresa de aviação Aéropostale. ou Compagnie Générale Aéropostale foi uma das pioneiras da aviação no mundo e principalmente no Brasil.

Quadro de horários e outras informações da empresa Aéropostale, partindo do Rio de Janeiro. Publicado em um jornal carioca de 1931.

Em 25 de dezembro de 1918, a empresa começou a servir a sua primeira rota entre Toulouse e Barcelona, na Espanha. Em fevereiro de 1919, a linha foi estendida para Casablanca, no Marrocos. Em 1925 estendeu-se a Dakar, a capital e a maior cidade do Senegal, onde as malas postais eram enviadas por navio para a América do Sul. Em Novembro de 1927 iniciou voos regulares entre o Rio de Janeiro e Natal. Suas rotas foram se expandindo até o Paraguai e depois, em Julho de 1929, foi criada uma uma rota regular, a té Santiago, Chile, passando sobre a Cordilheira dos Andes.

Da esquerda para direita vemos os franceses Gimié, Mermoz e Dabry, no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, seguindo para o sul do continente. Heróis da aviação comercial.

Um dos pontos altos da empresa ocorreu em 1930, com a viagem através do Atlântico Sul do hidroavião Latécoère 28, que sem escalas e pilotado pelo francês Jean Mermoz, voou 3.058 quilômetros de Dakar a Natal, em 19 horas e 35 minutos, com seu avião trazendo mais de 100 quilos de malas postais.

Depois de um escândalo envolvendo pagamentos postais do governo francês para Aéropostale, a empresa foi dissolvida em 1932, e fundiu-se com outras companhias de aviação para criar a Air France.

Cartaz mostrando a travessia de Mermoz e mais dois companheiros, que ficou conhecida como a primeira travessia comercial do Atlântico Sul.

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Extraído do blog: 
"Tok de História", do historiógrafo e pesquisador do cangaço:
 Rostand Medeiros







Enquanto não vem cangaço - Uma tentativa de suicídio engraçada

Por: José Mendes Pereira

A história que segue é uma das muitas que aconteceram em Mossoró, e que esta, jamais foi escrita. Os personagens da história eu não usarei os seus verdadeiros nomes, dando-lhes nomes criados.

Cristino Souto era um homem ainda novo e residiu por muitos anos em frente à linha de trem, no Alto da Conceição. Possuía um barracão, como era chamado nos velhos tempos, sendo este localizado entre a casa de uma irmã, a Cacilda, e do outro lado, morava o viúvo Fragoso, o seu honrado pai.

Cristino só comprava mercadorias com datas marcadas para pagar, mas não vendia fiado nem ao seu próprio pai. Quem compra fiado e vende a dinheiro, com certeza acumulará riquezas. E assim o Cristino tornou-se um dos maiores comerciantes de cereais do bairro.

Mas o Cristino a tempo que vinha notando que alguém estava lhe roubado.  A única pessoa que lhe dava uma mãozinha era o Geraldo, filho da irmã, a Cacilda, um jovem de vinte e poucos anos. Desconfiado, resolveu acusá-lo pelos desaparecimentos de algumas mercadorias, inclusive maços de cigarros: “Eldorado”, “Continental”, etc.

Antes já havia participado ao pai, que o Geraldo estava carregando algumas de suas mercadorias. O pai, honestíssimo, achava que o Cristino não deveria acusar o seu neto para não enodoar a sua generosa família, aconselhando-o que o deixasse lá, e não participasse a ninguém que isto estava se passando em seu barracão, principalmente tendo como acusado, o seu próprio sobrinho. Mas o Cristino não obedeceu ao pai, e dias depois levou o assunto aos fofoqueiros e ao próprio Geraldo sobre a sua desonestidade.

Assim que falou sobre a sua desonestidade o Geraldo caiu em pranto, dizendo-lhe que jamais havia tirado algo do seu comércio. Mas Cristino manteve firme a acusação. Se não entrava outra pessoa em seu barracão, a não serem eles dois, e ele, como dono, não iria roubar a si mesmo, então o Geraldo andava carregando as suas mercadorias. 

Sabendo que toda vizinhança já era conhecedora desta acusação, Geraldo resolveu arquitetar um suicídio, na tentativa de pressionar o seu tio a voltar atrás, e com isso, ele, talvez, iria informar aos seus vizinhos e fregueses que, o que dissera contra ele tinha sido uma simples brincadeira.

Em sua casa Geraldo guardava uma porção de pesos, que antes era usada em uma balança "romana" pelo comerciante. Mas com o lançamento de balanças modernas, Cristino adquiriu uma "filizola" e resolveu aposentar a "romana", guardando-a juntamente com os pesos na casa do Geraldo.

Nesse dia Geraldo esperou que a mãe saísse para o trabalho, e assim que ela se dirigiu à Fitema (fábrica de tecelagem onde a Cacilda trabalhava em Mossoró), ele deu início ao seu plano. Juntou de dez a doze pesos de cinco quilos, inquiriu uns aos outros, com arame, formando um total de cinquenta ou sessenta quilos.

Em sua casa, um brabo, ou um gato, como é conhecido pelos construtores (linha que sustenta a mão a qual recebe a terça de uma casa), Geraldo, com todo esforço, através de um carretel, suspendeu o grupo de pesos, agasalhando-o sobre o gato, sendo que este estava amarrado por uma corda, e a outra ponta seria a que iria laçar o seu pescoço. Empurrado os pesos, claro que eles desceriam, e era nesse momento que Geraldo subiria com a corda laçada ao pescoço, e com cuidado, assim que o grupo de pesos descesse, ele seguraria no brabo, evitando um suicídio de verdade.

E pôs-se a organizar o suicídio. Mas no momento em que o suicida arrumava a corda, ele bateu no grupo de pesos, despencando de uma só vez. O pior foi que o Geraldo estava sobre uma cadeira, sustentando com um dos pés o laço que seria colocado ao pescoço, e no momento da inesperada descida dos pesos, a corda laçou um dos pés, arremessando-o para cima, deixando-o de cabeça para baixo.

Como ele não havia calculado o tamanho da corda que seria necessário para a armadilha, com o impulso dos pesos, levou a sua perna de vez, montando-a sobre o gato, partindo o osso ao meio, deixando-a em forma de cabo de estilingue, repuxada pelo seu próprio peso, e do outro lado do gato, os pesos da balança. Sentindo terríveis dores, o suicida iniciou desesperados gritos, para que a turma dos piedosos fosse salvá-lo. Mas no momento, o único que se encontrava no barracão era o difamador, e ouvindo a gritaria de alguém, que ele não sabia quem lá estava, com muito esforço, quebrou a porta da frente para socorrer o homem que gritava.

Assim que ele entrou e viu o Geraldo dependurado por uma das pernas, em vez de tentar logo resolver aquele problema, ficou zombando do miserável, dizendo-lhe que nunca tinha visto um sujeito que queria suicidar-se, amarrando a corda na perna, em vez de colocá-la no pescoço. Geraldo gritava, pedindo-lhe que cortasse logo a corda, pois havia quebrado a sua perna.

Depois de tanto zombar do sobrinho, Cristino olhou para cima e viu as pontas de ossos da perna do Geraldo, e o sangue banhando todo o seu corpo. Vendo-os, aperreou-se, e  arrastou pela faca que estava na cintura, e com uma mão, segurava a corda do lado do acidentado, e com a outra, cortava a corda. Mas como ele não teve força para segurar o peso do miserável, assim que a corda se rompeu, Geraldo desceu batendo a cabeça ao chão, e o corpo despencou sobre a cabeça, deixando-o desacordado.

Foi Geraldo conduzido ao Hospital de Caridade. Dias depois, Geraldo chegou em casa, faltando lhe uma das penas. O médico que o assistiu, não teve como preservá-la, pois os nervos, carnes e veias, ficaram irreparáveis.

O mais interessante! Para reforçar a suspeita do Cristino, assim que o Geraldo foi demitido, os roubos no seu barracão deixaram de acontecer.

Mas meses depois, sem a presença de Geraldo no barracão, Cristino sentiu que continuava sendo roubado. Sem comentar a ninguém, procurou dois policiais, e os levou para permanecerem algumas noites no barracão, até que prendessem o larápio. Já fazia cinco dias que os policiais dormiam dentro do barracão, mas ninguém sabia que lá dentro, dois policiais se escondiam.

Nessa noite, lá pela madrugada, sentiram que alguém estava destelhando a casa. Silenciosamente, os policiais esperaram pelo suposto larápio. E lentamente, o ladrão foi retirando as telhas, e em seguida veio descendo, começando pelas pernas, depois o corpo, e logo desceu, caindo cuidadosamente. Encheu um saco de mercadorias, amarrou a corda que já estava prontinha no caibro para este fim, pôs-se a subi-lo. Impaciente, os soldados partiram para cima, e logo o algemaram, com as mãos para trás, deitando-o ao chão, com as costas para cima. Confiante que haviam pegado o ladrão, um foi até a casa do Cristino, e comunicou-lhe que o esperto já estava algemado.

Cristino, ansioso para ver a cara do esperto, foi às presas para conduzi-lo até a Delegacia de Furtos e Roubos. Quando o levaram para fora do barracão, diante das luzes das ruas, Cristino ficou passado de vergonha. O ladrão era o seu próprio pai, que morando parede com parede, vez por outra, roubava o filho por cima do teto.

O filho ao ver o pai, exclamou:

- Que vergonha, papai! Que vergonha! Tenho ouvido falar, que geralmente filho rouba pai, chegando até quebrá-lo. Mas pai roubar filho, eu nunca ouvi falar.

Com o passar dos tempos, Geraldo inconformado com a injusta acusação do tio, responsabilizando-o pelos furtos que aconteceram no seu barracão, e também arrependido pelo que havia arquitetado, a tentativa de suicídio, pouco se alimentava, e lentamente foi atrofiando, atrofiando, chegando a falecer em sua própria residência.

O Fragoso, pai do Cristino e avô do Geraldo, desconfiado no meio da vizinhança, resolveu desaparecer do bairro, e não levou muitos meses para ser encontrado morto, já nas terras da cidade de  Areia Branca. Segundo autópsia, a causa da morte, fora suicídio.

O Cristino Souto ficou todo desnorteado com a decepção que passara pelo pai. Envergonhado, dedicou-se ao álcool. Vivia bêbado dentro do seu barracão. Não cumpria mais com os seus compromissos, e o barracão foi fracassando, fracassando, chegando a fechar as portas. 
Cristino Souto morreu de cirrose hepática, de tanto beber, causado pelo desgosto.

José Mendes Pereira

 Minha Simples Histórias
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Hoje na História de Mossoró - 19 de Julho de 2012

Por: Geraldo Maia do Nascimento

Em 19 de julho de 1962 falecia, em São Paulo, a Professora Maria Dolores Couto Freire de Andrade, consorciada com o jornalista Jorge Freire de Andrade, pais do também jornalista Dorian Jorge Freire.
               
Educadora mossoroense, nascida a 24 de maio de 1908, a Professora Maria Dolores era diplomada pela Escola Doméstica de Natal, onde fez curso brilhante.
               
Integrou o corpo docente da Escola Normal de Mossoró, como titular da cadeira de Trabalhos Manuais, além de ministrar conhecimentos de inglês e História Geral.
               
Seus restos mortais foram transladados para esta cidade repousando em túmulo da família. Mãe de Dorian Jorge Freire.

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Autor: 

Geraldo Maia do Nascimento

Fonte:

24 de dezembro de 1938, no “Estado da Bahia”

Por: Rubens Antonio
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24 de dezembro de 1938, no “Estado da Bahia”:

MAIS DOIS ASSECLAS DO GRUPO DE LAMPEÃO ENTREGAM–SE Á POLICIA



Corisco, só depois de morto
Chegaram hontem, no trem de Sergipe, precisamente ás 17 horas e 50 minutos, mais dois bandidos pertencentes ao grupo de José sereno. escoltados por um cabo e dois soldados, os ex–cangaceiros saltaram na gare da Calçada, onde foram rodeados de curiosos, até que chegou o carro da policia e os conduziu para a Delegacia Auxiliar.

CAJAZEIRA E DIFFERENTE


Os bandidos chemam–se José Francisco dos Santos, mais conhecido pela alcunha de “Cajazeira” e Manoel Nascimento, mais conhecido pela alcunha de “Differente”, tendo se entregado á Policia Bahiana na serra Negra, perto do Estado de Sergipe. O primeiro tem apenas 21 annos de idade, e, segundo suas declarações, entrou para o bando em vista de ter sido perseguido pela policia de Sergipe, por causa da accusação de ser coiteiro.

A ILLUSÃO DO CANGAÇO

“Differente” entrou para o grupo de “Zé Bahiano”, contra 23 primaveras, tendo dois annos de cangaço e lutas. Quando Zé Bahiano foi victimado, elle passou para o bando de “José Sereno”, onde até o momento de se entregar continuou a sua vida de assassinios e assaltos.
Contou–nos tambem que começou a exercer esta vida após “Canario” tê–lo convidado para entrar no bando com promessas cheias de vantagens. Porém, agora – acrescentou – resolveu entregar–se pois o cangaço nada mais é do que uma vida de illusões e perseguições.

“CORISCO” SÓ DEPOIS DE MORTO

“Corisco”, o perigoso “Diabo Louro”, que promettera entregar–se, mudou de intenções. Tambem “Angelo Roque” outro temivel cangaceiro e chefe de 4 homens, pretendeu entregar–se, mas o “Diabo Louro” o convenceu do contrario – declarou “Cajazeira”, que fala como uma victrola no seu falar arrastado de sertanejo.

9 BANDIDOS APENAS

Dois grupos ainda perambulam pelos sertões bahiano e sergipano, um commandado pelo “Diabo Louro”, sendo composto de 4 homens e outro commandado por Angelo Roque, com 3 homens.

MUNIÇÃO DE SERGIPE

Continuando a falar, os bandoleiros declararam que recebiam toda a munição de Sergipe e que lá eram muito pouco perseguidos. Ao contrario se verificava no sertão bahiano, onde nós recebiamos tiros em todos os logares por onde passavamos. Demos poucos combates com a Policia Bahiana, mas foram combates que deixaram recordaçõe, pois nelles vimos abatidos innumeros dos nossos.

NOTAS SOLTAS

Os ex–cangaceiros entregaram–se ao sr. João Maria, irmão do Coronel Liberato de Mattos, o qual não se descuidou e logo ao seu irmão deus sciencia do facto. O coronel enviou uma escolta que os conduziu a esta Capital

Com a prisão destes dois bandidos, o cangaço soffreu mais um golpe que o fez diminuir a intensidade e actividade.

24 de dezembro de 1938, no “A Tarde”:
DESISTIRAM DO CANGAÇO


Pelo trem nocturno de Sergipe, chegaram, hontem, ás 17 horas e 53 minutos, á esta capital, os bandidos “Differente” e “Cajazeiras”, que se apresentaram á policia, em Paripiranga.

Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço:
Rubens Antonio

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 20 (CANGACEIRO E JAGUNÇO – FARINHA DO MESMO SACO?)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 20 (CANGACEIRO E JAGUNÇO – FARINHA DO MESMO SACO?)

Se existiam duas raças sertanejas que não se topavam, que nunca se deram muito bem de jeito nenhum, estas eram a dos cangaceiros e dos jagunços. Cangaceiro tinha raiva de jagunço que se mordia; este se metia a cangaceiro pra ficar mais assombroso. Quando o jagunço falava em comparação, logo dizia que o acerto na mira era o que contava.

Certa feita, ao passar pelo fazendeirão do Coronel Sinésio Baraúna, um afamado senhor de terra e gente que tinha na qualidade de bicho, Virgulino Lampião lhe fez uma observação com palavras que soaram quase como repreensão, ao afirmar que não admitia que ao chegar ali aqueles pistoleiros de uma figa, que o Coronel tinha na qualidade de jagunços, lançassem seus olhares desconfiados para o seu bando. E disse mais:

“O Coronel é homem prudente demais, porém se perde na escolha das companhias. É preciso separar o joio do trigo, Coronel. Digo que é um erro seu acreditar que esses homens de cara de bicho, bigodudos, sujos e fedorentos, e trazendo não sei quantas armas nos escondidos das ancas, tenham alguma serventia para o senhor. São todos uns covardes, bandidos comuns, assassinos sanguinários, uns falsos e frouxos, que não pensarão duas vezes se o coronel da outra cerca pagar um tostão a mais. E para acabar com o ex-patrão. Pois digo que não gosto e não vou mais admitir que esses cabras covardes fiquem ao menos olhando os meus amigos de longe. Qualquer dia desses um cabra como Tiziu não vai gostar de estar sendo observado e então a coisa vai feder”.


O Coronel Baraúna ficou deveras espantado com o que ouviu do Capitão sertanejo. Homem de muito poder e pouca leitura, de muito dinheiro e pouca compreensão sobre a realidade do mundo, muitas vezes até agia como se tudo se resumisse ao que achava que estivesse certo ou errado. Por isso mesmo nunca parou para pensar se existia alguma diferença entre ser cangaceiro e ser jagunço. Para ele, que pagava tanto a um como ao outro por proteção, tudo dava no mesmo: homens armados e perigosos, que não pensariam duas vezes para acabar de vez com o desafeto.

Foi por isso mesmo que disse a Lampião que não entendia bem porque a raça cangaceira não gostava da raça jaguncista, pois os dois agiam no mesmo ramo de negócio. E quase dá um piripaqui, um traculejo no coração, quando viu o Capitão dar um muro na mesa que fez derrubar os copos e a garrafa que estava em cima. Ao ver a asneira dita pelo poderoso, porém ingênuo Coronel, o rei dos cangaceiros esbravejou igual bicho atacado, fera ferida:

“O senhor Coronel pode dizer que acabou de nascer de novo, pois tem muita sorte de não receber agorinha mesmo um balanço varando essa boca de ouro que acabou de dizer a maior besteira do mundo, uma afronta sem igual aos bravos homens das caatingas. Mas quem se viu dizer que cangaceiro e jagunço fazem parte do mesmo ramo de negócio? Quem já se viu dizer uma infâmia dessas homem desnaturado, pecador. Respeito é bom e eu gosto, e por isso mesmo vou dizer uma coisa para que nunca mais esqueça...”.

Coitado do Coronel, com uma mão prudentemente sobre o peito, a outra levada à boca pra segurar os bofes que pareciam querer sair, todo avermelhado de medo, suando mais que pano de cuscuzeiro, apenas ouvia tudo de olhos esbugalhados, olhando sempre para os lados da janela para ver se avistava algum jagunço que não lhe deixasse morrer sem defesa. Calado estava e assim permaneceu enquanto Lampião esbravejava:

“Há uma diferença grande entre cangaceiro e o jagunço. Só vou dizer o que o jagunço é pra que logo possa perceber o que o cangaceiro não é. Todo jagunço é frio, covarde, mata qualquer um a mando e muitas vezes nem sabe quem matou e porque matou. Jagunço porta arma não pra se defender, mas para amedrontar, sacar a qualquer momento e fazer o que não presta diante de inocente. Jagunço tocaia o vizinho, faz emboscada pro amigo, faz rodeios para pegar um compadre, se entrincheira nos tufos de matos para matar covardemente. Jagunço é besta sem princípios, sem temência, sem respeito algum nem a quem lhe paga. Hoje serve a um e amanhã já tocaia o ex-patrão a mando de outro. Pra jagunço tanto faz que o outro seja inocente ou não, vez que a morte de pessoa dá no mesmo que matar peçonhenta. Todo jagunço é uma covarde assassino, um traste de sangue frio, pestilento, imprestável. Todo jagunço é pistoleiro, criminoso, matador de aluguel, um verme assassino de qualquer um. Mas tire a arma do jagunço pra ver o homem que encontra nele. Nada, nadica de nada, pois gente dessa imprestável qualidade só é valente com arma na mão. Sem ela se ajoelha, se mija todo, começa a chorar pedindo clemência. Mas ele faria o mesmo diante de sua futura vítima? Agora responda Coronel, me diga se cangaceiro é desse jeito, age assim, brinca desse modo com a vida do ser humano, principalmente de gente inocente?”.


Logicamente ainda impossibilitado de falar qualquer coisa, nem o Coronel respondeu nem Lampião ficou pra ouvir. Despediu-se com pouco gesto, ainda acabrunhado, e saiu feito um raio da silibrina. Lá fora se ouviu o grito de vamos cambada, rumbora! E pelo entrevão, da janela, todo mijado nas calças de linho puro, de branquidão agora amarelada, enxugando o suor friorento com lenços e mais lenços, o poderoso Baraúna avistava o bando virando a curva da estrada. Estava contente e ao mesmo tempo temeroso.

Até hoje os estudiosos do cangaço - horrível e desastradamente chamados cangaceirólogos - discutem sobre tal episódio. A repercussão foi grande, ora se foi. E ainda continua. Para uns, Lampião agiu com toda razão ao diferenciar cangaceiro de jagunço, pois o modus operandi de um era totalmente diferente do outro, bem como os ideais e objetivos existentes em cada um. Mas outros negam veementemente qualquer validade nas assertivas lançadas pelo rei cangaceiro.

Para estes, tanto cangaceiro como jagunço eram farinha do mesmo saco, agiam impiedosamente e espalhavam o mesmo terror. E afirmam ainda que o medo da população era muito maior com relação aos cangaceiros do que aos ditos jagunços, até mesmo porque estes não eram tão contumazes na ação. A única distinção que viam era no medonho modo de agir pistoleiro de mando.

Este, o jagunço de sangue no olho e fel no coração, agia na emboscada solitária, na tocaia premeditada e tendo qualquer um como alvo potencial. Bastava mandar e ele fazer. E não se esperasse outra coisa senão o requinte na crueldade, a maior perversidade que podia existir. Certamente os cangaceiros não agiam assim. Tal era o entendimento aproximado daqueles que entoavam o coro do Coronel quando este afirmou que todos faziam parte do mesmo ramo de negócio.

Não vou tomar posição nem de um lado nem de outro. Contudo, a análise daquela realidade histórica demonstra haver evidentes diferenças entre cangaceiros e jagunços. E grandes, acentuadamente reconhecíveis por qualquer um mais cuidadoso na análise. E o primeiro aspecto a ser citado dá plena razão a Lampião, ao afirmar que cangaceiro jamais poderia ser comparado a pistoleiro ou assassino de mando ou aluguel.

Em primeiro lugar, cangaceiro nunca agia sozinho, não deixava o seu bando para fazer desafio ou maldade por conta própria. Se o cabra aparecesse num lugar era porque o grupo estava por perto. Daí que ninguém já ouviu falar que gente de bando fizesse serviço avulso, arrumasse empreitada por fora sem o seu comandante saber. Como consequência, não era contratado por ninguém para fazer tocaia ou emboscada. Se algum acerto houvesse com algum poderoso, este era feito através do Capitão, e conjunta a ação.

Do mesmo modo, cangaceiro não vivia nas proximidades do coronel fazendo às vezes de guarda-costas ou esperando que o mandão desse a ordem pra derrubar um ou outro inimigo. Ademais, se um cangaceiro matava algum desafeto, tal crime geralmente era imputado ao bando como um todo, a toda cangaceirada, e não a um exclusivamente. E diferente ocorria com o jagunço, pois este matava e se descoberto se danava estrada afora. Se o coronel mandante não o escondesse na sua fortaleza ou não mandasse dizer à autoridade que o cabra era seu, podia ter certeza que o matador iria se escafeder no oco do mundo.


Poucos foram os pistoleiros, jagunços afamados, que continuaram na região após cometer crime de grande monta. Sem confiar na proteção do coronel, o verdadeiro jagunço acertava logo o alto valor antes de derrubar e depois, já estando com o dinheiro no bolso, sumia que ninguém sabia do paradeiro. Ao menos por uns tempos, quando voltava às escondidas e para matar a qualquer preço. Os que decidiam ficar faziam fama ligeiro, mas também não duravam muito na vida. De repente, um zé-ninguém acertava o valentão.

Mas a verdade que o ódio de Lampião por gente desse tipo era tão grande, tão patente na sua caminhada, que jamais se fez de esquecido daqueles olhares atravessados que os jagunços do Coronel Baraúna deram em direção aos seus comandados. Certa feita apareceu por ali de surpresa e nunca mais os pistoleiros lançaram olhar odiento em direção a ninguém.

Ao menos é o que dizem. Coisa que não acredito muito, pois agindo assim estava se igualando à corja que tanto odiava.     


(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com

O Cangaço - Grande Debate - Parte IV


Ainda no mês de Junho tivemos a grata satisfação de participar do Programa Grande Debate da TV O Povo com o jornalista Ruy Lima. O tema do Programa foi o lançamento do livro Iconografia do Cangaço, organizado por Ricardo Albuquerque. Hoje trazemos na íntegra para os amigos, em 4 postagens.

Final
cariricangaco.blogspot.com

METEMOS

Clerisvaldo B. Chagas - Crônica Nº 823
Clerisvaldo B. Dantas

Soubemos que “Pedro Aleijado”, isto é, “Pedro Mão-de-Aço” ou mesmo, “Pedro Deixe-Que-Eu-Chuto”, recusa-se a morrer. Remanescente dos velhos farristas de Santana, Pedro, o homem coxo, adquiriu fama tocando pandeiro com grande mestria. Sempre convidado para as farras mais simples da boêmia santanense, Pedro estendia suas habilidades em todos os ambientes como bares, cabarés, clubes... Sempre causando admiração às bandas que vinham de fora e necessitavam na hora de um pandeirista. Em todo tempo bem humorado e puxando a perna, Pedro Aleijado viajava constantemente com suas farras eternas pelos festejos mais atraentes de cidades de Alagoas e pernambucanas. Juntando-se a José Francisco, o grande acordeom de Santana, ao José Panta (o violão elétrico) ao Miguel Chagas, Moreninho, Zé Yoyô e vários outros, as farras ganhavam colorido especial com o pandeiro de Pedro Mão-de-Aço. Como as situações vão mudando com o tempo, quase todos os grandes farristas da época foram transferidos para outra dimensão. Pedro resistiu e ainda resiste diante da preferência pelo Rum, bebidinha danada corrosiva.

Abelha.  (Fonte: Wikipédia).

Espiando as nuvens do tempo, Pedro começou a vender mel. Dizia ele que essa substância doce era a melhor do mundo, pois vinha de alvéolos selvagens do alto sertão de Pernambuco. O município de Inajá, nunca deixou de ser e referência do novo vendedor de mel. Saliente, mal-educado e piadista Pedro sempre respondia aos clientes quando perguntado se tinha mel para vender:“Mé? Temos”. E assim, com sua linguagem chula de duplo sentido, ia ganhando o pão com sua esperteza e, talvez, pequena aposentadoria. Certa feita um cliente chegou a sua casa para comprar “mé” da legítima abelha papa-terra de Inajá, à Rua Prof. Enéas. Um menino, seu filho, atendeu.“Cadê Pedro, menino?” E a inocente criaturinha denunciou sem querer a abelha bípede de um pé coxo: “Pai tá lá atrás no quintal fazendo mel”. Descoberta a fraude, a situação foi ficando difícil para Deixe-Que-Eu-Chuto, pois já não conseguia introduzir seu produto no mercado com tanta facilidade. Pedro não contestava o flagra apenas tentava sair resvalando e pedindo trocado para beber uma dose de Rum. Não tendo Rum, vai à Cachaça, afinal uma é amarela e outra é branca, para que preconceito de cor?
Contaram-nos que Pedro Aleijado agora estar morando no Bairro Domingos Acácio, bem perto de uma clínica particular. Não sabemos se ele ainda toca pandeiro e nem se o homem ainda teima em ser concorrente das abelhas. Mas a resposta sexual de péssima qualidade continua no cotidiano do pandeirista, quando provocado:“Pedro, tem mé”? A gravação tantas vezes rodada empulha na hora o perguntador: “MÉ? TEMOS”.