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sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

A VERSÃO DO EX CANGACEIRO VOLTA SECA SOBRE A MORTE DO CANGACEIRO SABIÁ.

Por Jornal “O GLOBO” em 08 de novembro de 1958.


O depoimento (abaixo) foi prestado ao Jornal “O GLOBO” em 08 de novembro de 1958.

CAÇA AO SABIÁ

Além de religioso, Lampião tinha-se na conta de homem decente. Gostava de mostrar isso quando se tratava de mulheres violentadas. Ele podia admitir as crueldades de José Baiano, mas nunca admitiu que um “cabra” violasse uma mulher e continuasse vivo. O amor era livre, mas o amor correspondido, nunca o amor forçado, amor de violência...

Vou, aliás, encerrar este capítulo contando um fato desses, que se deu com o bando em Lagoa do Rancho, no interior da Bahia. O bando estava acampado nesse local, quando, após alguns dias, estourou um escândalo: o dono da fazenda onde estávamos queixou-se a Lampião de que um de seus “cabras” havia estuprado sua filha. Lampião, seguido pelo bando, foi ver a filha do fazendeiro, e o quadro a que assistimos era triste: a mocinha (pouco mais de treze anos), horrorizada, chorava e estava num estado lamentável. O autor do ato bárbaro fora Sabiá, um rapaz forte, com seus dezoito anos, mais ou menos, e novo no bando.

Praticado o atentado, Sabiá, provavelmente caindo em si, fugira para o mato a uns quinhentos metros da fazenda, quando muito. Lampião, depois de ver o estado em que ficou a filha do fazendeiro, falou secamente: 

- Volta-Seca e Gavião... Vão buscar Sabiá!.

- Eu e Gavião saímos à procura de Sabiá, e fomos encontrá-lo entrincheirado atrás de uma pedra grande. Não quis fugir para longe, e estava apavorado. Quando nos aproximamos, ele gritou:

- Não avancem mais um passo que abro a cabeça dos dois a bala!

Olhei para Gavião e certifiquei-me de que faria mesmo o que prometera, mas felei-lhe: 

- Sabiá... O capitão quer lhe falar, e nos mandou buscar você. 

A resposta não tardou:

- Pois eu não vou e vocês não se aproximem. Se o capitão quer falar comigo, que venha ele mesmo me buscar.

- Achei muita ousadia, mas não tentei capturá-lo. Seria loucura, pois estando num ponto ideal para defender-se, matar-nos-ia facilmente. Olhei para Gavião e retornamos à fazenda. Lampião, quando nos viu sozinhos, perguntou intrigado: 

- Cadê ele? Fugiu?

– Não, senhor, respondi. Sabiá está entrincheirado ali embaixo, atrás de uma pedra. 

– Por que não trouxeram ele? Retornou Lampião. 

– Porque ele nos mata. Nós dissemos pra ele se entregar porque o capitão queria falar com ele. Mas ele disse que o senhor vá buscar ele, se quiser.

Foi a conta! A testa de Lampião franziu-se, os lábios se comprimiram e, trilhando os dentes, falou: 

- Cachorro, pois vou buscar esse cão... 

E mandou que eu e Gavião o guiássemos até o local onde Sabiá se encontrava.

Sabiá estava ainda no mesmo lugar, como se nos esperasse. Quando já estávamos a uma boa distância, distância esta aconselhada pela prudência, eu e Gavião paramos, mas Lampião continuou andando no mesmo passo, sem se abalar e sem dar a menor importância a nós dois. 

Sabiá, ao vê-lo cada vez mais próximo, berrou: 

- Pare, capitão, que eu atiro... Pare! Pare! 

Lampião só parou a uns cinco metros da pedra. Segurava o fuzil com as duas mãos, na posição de soldado que se prepara para uma carga de baioneta. 

Eu e Gavião, à distância, estávamos admirados com o que víamos e, por mim, digo que julguei ter chegado o fim de Lampião, pois Sabiá era um rapaz valente.

VOCÊ NÃO ATIRA EM NINGUÉM

- Não avance nem mais um passo, capitão, que eu atiro! Ninguém vai me pegar!, dizia Sabiá.

Lampião olhou-o por um momento e, de repente, falou: 

- Você não atira em ninguém, menino. 

E avançou. Avançou resoluto, com Sabiá fazendo pontaria para ele. A todo instante eu esperava o estampido assassino do fuzil de Sabiá, mas o tiro não saiu. Frente a frente com Sabiá, Lampião gritou: 

- Atira, cachorro! Atira! 

E Sabiá não atirou... Pelo contrário, arriou o fuzil. Foi seu fim, pois Lampião, rápido, deu a coronha de seu fuzil na cara do rapaz, que rolou pelo chão, ensanguentado.

Eu e Gavião aproximamo-nos depressa do local e Lampião mandou que o levássemos a fazenda. Desarmei Sabiá e, eu de um lado e Gavião do outro, levamo-lo de volta, enquanto Lampião ia à frente, a passos rápidos. Sabiá estava tonto, com a boca arrebentada e todos os dentes da frente quebrados. Sangrava muito e vinha amparado por mim e Gavião.

Na fazenda, todos se acercaram de nós. Eu sabia que a coisa ia ter um trágico, pois Lampião estava furioso. Foi feito um círculo de gente e, no meio dele, Sabiá, ladeado por mim e Gavião, com Lampião na frente, que olhava sem afastar por um segundo sequer os olhos de Sabiá. Olhava-o com ódio, sem dizer nada, e o silêncio era completo, pois ninguém ousava falar. Sabiá mal se aguentava em pé. Estava vencido. Vencido e convencido.

Lampião, então, pôs-se a falar:

- Vais morrer porque não prestas, cão. É por causa dessas coisas que falam mal da gente por aí. Mas eu te dou um exemplo, pra todos saberem que o bando de Lampião tem vergonha.

FUZILADO

E, apontando para dois empregados da fazenda, ordenou: 

- Vocês dois aí, cavem um buraco para enterrar esse Cabra. 

Os homens obedeceram e, de enxada em punho, puseram-se a abrir a cova. Sabiá não falava, e tenho até a impressão de que não compreendia o que se passava.

Depois de alguns minutos, a cova pronta, isto é, dada como pronta por Lampião, apesar de não ter mais de dois palmos de profundidade, mandou ele, que os dois homens parassem e, apanhando uma “Berbere”, apontou para a cara de Sabiá, que nem moveu a cabeça. Quem estava atrás de Sabiá correu para se abrigar. Lampião fez a pontaria e gritou: 

- Vai-te pros infernos, cão! E deu no gatilho! 

Sabiá caiu morto, mas Lampião continuou a atirar. Houve quem contasse quinze tiros... Aquela expressão: 

- Vai-te pros infernos!” 

Era muito comum a Lampião, quando matava alguém naquelas condições. Saciada sua fúria assassina, Lampião ordenou aos dois empregados que abriram a cova:

- Joga este peste aí! Cachorro se enterra de qualquer jeito!

Mas a coisa não acabara ainda. Lampião virou-se para mim e Gavião e disse: 

- Vocês dois são os culpados, pois eu mandei vocês vigiarem Sabiá. Eu sabia que esse rapaz era malucão.

Enquanto falava, segurava ameaçadoramente sua “Berbere”, e eu senti que ele pretendia matar-nos. Mas eu não morreria como Sabiá, pus logo a mão no parabélum e respondi: 

- Nós estávamos tomando conta dele, mas ele fugiu. Que é que podíamos fazer? 

O fazendeiro, pai da moça, talvez horrorizado com o que assistiu, veio em nossa defesa dizendo que, de fato, ninguém deu pela coisa, pois Sabiá agira premeditadamente...

Todo mundo foi enganado, seu capitão... disse o fazendeiro.

Parecia que já tinha passado o ódio de Lampião, pois ele deu as coisas e afastou-se. Eu respirei aliviado. Sabia muito bem o que significava a sua frase: “Tanto faz matar um como mil”. Ele não parece ter ficado zangado comigo, pois no dia seguinte já me dava ordens. Aliás, a morte de Sabiá foi dramática, mas não foi a única motivada por estupro. Outros “cabras” encontraram o mesmo fim, uns nas mãos de Lampião diretamente, e outros nem essa chance tiveram, pois Virgulino mandou que outros os exterminassem.

Fonte: Jornal O GLOBO.

Geraldo Antônio de Souza Júnior (Administrador do Grupo).

 Fonte: facebook

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CANGACEIRO CASSIMIRO HONÓRIO X JOSÉ DE SOUSA - AÇÃO NOBRE DE UM RUDE.

Por Ângelo Osmiro Barreto

Conta o escritor Ângelo Osmiro Barreto que em 1910, durante o período da Semana Santa, o lendário Cassimiro Honório, um velho cangaceiro do alto sertão pernambucano, da afamada região do Navio, promoveu um formidável cerco a um dos seus inimigos José de Sousa.

Melânia era filha de Cassimiro Honório, havia sido roubada por José de Sousa. O pai da moça, inconformado com a atitude do jovem sertanejo, arregimentou um grande contingente de cangaceiros e retomou a filha do jovem apaixonado. O episódio criou grande rivalidade entre os dois sertanejos, homens valentes e acostumados às lutas, numa época em que as divergências eram resolvidas à bala. A justiça, pouco ou nada fazia para resolver essas pendengas.

Durante um grande cerco promovido por Cassimiro Honório à fazenda de José de Sousa que durou sete dias, um fato interessante chamou a atenção de todos.

Dentre muitos homens valentes de ambos os lados, um iria se destacar pela sua atitude nobre. José Rajado, sertanejo rude com sangue no olho como se diz até hoje naqueles sertões, brigava entrincheirado ao lado dos comandados de Cassimiro Honório.

Passados três dias de luta renhida, José Rajado escutou um choro de criança vindo de dentro da casa sitiada. O choro persistente chamou a atenção do cangaceiro.

Aquela criança aos prantos só poderia estar com fome, pensou o cangaceiro naquele momento da luta. Em ato repentino José Rajado levantou as mãos, e aos gritos, pediu para que o tiroteio fosse suspenso.

Surpresos com a atitude pouco comum do bravo sertanejo, os contendores pararam os tiros, e o silêncio tomou conta do lugar por alguns momentos. O cangaceiro José Rajado, propôs aos sitiados que se prometessem não o alvejar, iria ao curral, ordenharia umas cabras e levaria o leite para a criança que estava chorando com fome.

José de Sousa prometeu todas as garantias a José Rajado, que confiando na palavra empenhada do inimigo, foi ao curral, encheu um balde de leite e deixou-o em frente à porta da casa sitiada. Retornou ao seu local de combate, e após estar novamente seguro, o tiroteio recomeçou.

O cangaceiro José Rajado, apesar de toda sua rudeza, acabara por praticar um ato da mais alta nobreza.

Esta informação é do escritor e pesquisador do cangaço, Ângelo Osmiro Barreto, com a colaboração do confrade natalense Ivanildo Alves Silveira, colecionador e pesquisador do cangaço.

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A PATENTE DE CAPITÃO - PARTE I

Autor Nertan Macedo

 

“Chegamos ali, fomos recebidos em festas. Deixamos a roupa de cangaço e nos fardamos. Lampião recebeu a patente de capitão, Antonio Ferreira primeiro tenente, Sabino segundo, e Luiz Pedro primeiro-sargento e eu segundo. De volta da excursão contra Prestes, onde foi até a Bahia, Lampião, sentindo-se logrado, avisou: “Quem quiser debandar, pode ir. Eu volto ao cangaço”. Saímos do Juazeiro com vinte e dois homens e ao chegarmos a Pernambuco tínhamos mais de cem”

(DO DEPOIMENTO DO GATO BRAVO)
“Correio do Ceará, 9 de agosto de 1948)

NÃO É VERDADE que os sinos das igrejas do Juazeiro do Padre Cícero hajam repicado saudando a entrada de Virgulino Ferreira.

Na porta da cidade mística o bando estacou, permanecendo numa casinha de beira de estrada, nas imediações da fazenda do doutor Floro.
À noite, por volta das dez horas, Virgulino deslocou-se com sua gente para a entrada da rua, indo alojar-se no sobradinho do poeta João Mendes de Oliveira, rodeado da admiração e do pasmo dos “casacas” e povo.

Foi na casa do poeta que ele deu uma entrevista famosa ao doutor Otacílio Macedo, médico e jornalista de Crato.

Perguntou-lhe o doutor:

“Por que não larga essa vida, Capitão, o senhor que já tem tanto dinheiro? Por que não vai embora para Goiás ou Mato Grosso, deixando de vez essa existência perigosa?”

“Doutor, o senhor estando bem numa vida, o senhor larga ela? Assim sou eu!” – replicou Virgulino, sentado a uma mesinha, bebendo cerveja quente, rodeado pelo jornalista, Antonio e Sabino.

Na rua, populares chamavam por Lampião. O doutor testemunhou as quatro ou cinco vezes em que ele se levantou, no meio da conversa, encheu o chapéu de couro com moedas e, da janela da casa, jogou-as de esmola ao povo aglomerado na frente.

Em sua entrada de Lampião na Cidade do Padre Cícero, João Martins de Athayde conta essa entrevista:

“Num tamborete sentado
Lampião só respondia
As perguntas que o repórter
Com acento lhe fazia
Sempre de arma na mão
Prestando muita atenção
Ao movimento que havia.

Assim naquela atitude
Rosto firme, olhar insano
Quem o visse não dizia
Ser um ente desumano
Prestava atenção a tudo
Com um caráter sisudo
Parecia um soberano

O repórter perguntou
A Lampião sua idade
Tenho vinte e sete anos
Com toda serenidade
Sinto-me bastante forte
Não tenho medo da morte
Num fujo da autoridade”

O poeta narra depois, a visita que uma velhinha fez a Lampião, no sobradinho de João Mendes. Foi das mais generosas a recompensa de Virgulino ao gesto da anciã:

Disse a velha aqui eu trago
Remédio pra sua dor
Guarde consigo esta imagem
E tenho fé no criador,
Pelo poder do Messias
Inda brigando dez dias
Bala não fere o senhor.

Recebeu ele a imagem
Da forma que lhe convinha
Acreditando o milagre
Que a velha disse que tinha
Pegou um dos seus anéis
E mais um conto de réis
Botou na mão da velhinha.”

Quem não quis se conformar com a presença de Lampião ao Juazeiro foi o sargento José Antonio do Nascimento, do destacamento local. Primeiro, pretendeu evitar a entrada do grupo na cidade. O padre Cícero opor-se ao policial. Virgulino viera na boa fé dos tratados, atendendo a um chamado do doutor Floro, seu amigo, que retornara doente ao Rio de Janeiro – e qualquer ato contra o cangaceiro seria de traição e deslealdade, ferindo, além do mais, aquilo que o reverendo prezava: a hospitalidade sertaneja.

João Martins de Athayde dá-nos notícia dessa reação do padre:

“Todos olham pra ele
Com muito ódio e rancor
Eu sou o chefe da igreja
Dei prova de bom pastor
Não consinto violência
Tenham santa paciência
Não posso ser traidor”.

Lampião, informado dos planos do sargento, a este escreveu uma carta muito difundida; José Antonio comandava um destacamento reduzido, mas acreditava poder arregimentar uns cem homens no Juazeiro para prender Virgulino. Com esse plano não concordou também o então delegado de polícia da cidade, Manuel Timóteo, cujo suplemente não pôde assumir o lugar por ter “adoecido” subitamente.

Disfarçou-se o sargento José Antonio e foi visitar Lampião, que o reconheceu e até comentou:

- Não é esse o tal sargento que queria me prender?

Mestre Francisco Vicente da Silva Cavalcante, barbeiro no Juazeiro, passou quase todo um dia cortando o cabelo dos homens de Lampião. Este foi o primeiro a depilar-se. Depois, disse a mestre Chico:

- Mestre, não tenho dinheiro no momento. Posso pagar Depois?

Contou, anos mais tarde, a um jornal carioca, o fígaro sertanejo:

“O Capitão Virgulino Ferreira Lampião não penetrou na cidade sem aviso prévio ao meu padrinho. Só depois que meu padrinho providenciou aposentos para todos eles é que Lampião chegou, numa quinta-feira, permanecendo até domingo. Cangaceiros andaram livremente na cidade, fazendo compras, mas desarmados por ordem do chefe. Foram três dias de festa, sem que ocorresse qualquer incidente”.
Dias depois mestre Chico recebia o dinheiro dos cortes, dez mil réis, inclusive gorjeta, que o Capitão Virgulino lhe enviara através do mano João Ferreira.

Pedro Maia e Lauro Cabral, moradores no Crato e na Barbalha, foram especialmente a Juazeiro bater umas fotografias do Capitão.

Certa madrugada o padre Cícero chegou ao sobradinho de João Mendes. Ajoelhadas contritos, Lampião e o bando receberam a bênção e os conselhos do taumaturgo. Este, ao retirar-se, bateu no ombro de Virgulino, dizendo:

“Ô menino! Quando voltar da campanha há de deixar essa vida de desordens!”

O padre aludia à campanha contra a Coluna Prestes. Vigulino não respondeu sim nem não ao patriarca. Depois confidenciou a várias pessoas:

“Só posso largar o cangaço daqui há três anos!”

HAVIA ENTÃO no Juazeiro um funcionário público federal, o agrônomo Pedro de Albuquerque Uchoa, que ali exercia o cargo de Inspetor Agrícola do Ministério da Agricultura. Certa noite foi convocado à presença do Padre Cícero.

Em casa foram busca-lo, a mando do sacerdote, Antonio Ferreira e Sabino Gomes.

Ao chegar à presença do Padre Cícero, ouviu dele o seguinte:

“Uchoa, você vai preparar três patentes: uma de capitão para Lampião, de primeiro-tenente para Antonio Ferreira e outra de segundo-tenente para Sabino. Você é um funcionário federal e tem credenciais para expedir os documentos...”

Pedro Uchoa ficou perplexo. Anos mais tarde ele confessaria a Leonardo Mota que, em tal emergência, assinaria atém mesmo “a demissão do presidente Bernardes, quanto mais a patente de Lampião”

Quis objetar, todavia, mas Antonio Ferreira interveio, pondo-lhe a mão no ombro:

“Que nada, seu doutor, meu padrinho mandou o senhor escrever o documento e ele sabe muito bem o que ele está dizendo: fala logo as patentes e deixe o resto com a gente e com o meu padrinho...”

Passou então o padre ao funcionário uma folha de papel e ele mesmo ditou a promoção:

Em nome do governo dos Estados Unidos do Brasil, nomeio ao posto de Capitão e cidadão Virgulino Ferreira da Silva, a primeiro-tenente Antonio Ferreira da Silva e, a segundo-tenente, Sabino Gomes de Melo, que deverão entrar no exército de suas funções logo que deste documento se apossarem. Publique-se e cumpra-se. Dado e passado no Quartel-General das Forças Legais de Juazeiro” etc.

Concluído o decreto, o padre disse ao agrônomo:

“Agora ASSINE” O Floro que e deputado federal, não está aqui e eu não exerço nenhum cargo. Você, porém como inspetor agrícola, é uma autoridade federal...”

Uchoa assinou. De volta para casa, ainda em companhia dos tenentes Antonio Ferreira e Sabino, o agrônomo tomou coragem e ponderou:

Eu acho que aquelas patentes não valem, pois eu sou um simples funcionário subalterno...

Antonio Ferreira, ríspido, replicou:

- Não tem mais o que discutir. Meu padrinho mandou fazer e o que ele manda fazer, vale!

FARDADO E MUNICIADO com fuzis do Exército, o bando acrescido de novos soldados, lampião caiu, outra vez, na caatinga.

Informado de que os oficiais pernambucanos não reconheceriam a sua patente, deixou a Coluna Prestes movimentar-se livremente, preferindo os caminhos do Pajeú. De volta do Juazeiro, evitou Macapá, onde já se encontrava um destacamento, pronto para recebe-lo a bala.

Rumou para Jardim, onde chegou à noite. O bando marchara vanguardeado por Antonio Ferreira que, na entrada da cidade, havia estabelecido um complexo serviço de segurança para a mano Capitão.

Em Jardim, Lampião dirigiu-se à casa do prefeito José Caminha de Anchieta Gondim, o coronel Dudé, assegurando-lhe, pessoalmente, que os seus homens estavam sobre controle da mais severa disciplina.

Os patriotas de Virgulino puderam, assim, acantonar no edifício da cadeia pública e no prédio onde funcionava o colégio local, livres e desembaraçados.

Três dias ali ficaram.

O corneteiro do bando, Jurema, entendeu, todavia, de pular por cima das ordens de Lampião. Primeiro deu um “giro” pela ponta de rua, onde se aboletava o meretrício e onde demorou em fornicações e bebedeiras com mulheres-damas do Jardim. De volta ao quartel andou soltando a língua na rua, dirigindo gracejos a uma senhora.

Sabedor das aventuras galantes do corneteiro, o Capitão mandou dar-lhe uma surra de relho de couro cru, no meio da rua, por dois dos seus soldados. Jurema não saiu vivo de tamanho corretivo, morrendo, dias depois, em abandono, numa calçada.

Era a disciplina prometida ao coronel Dudé, na hora da chegada do batalhão.

Virgulino requisitou do comércio local todo o estoque de vinho Constantino para os seus patriotas, retirando-se, em seguida, para Engenho d’Água, a dois quilômetros de Jardim, face a um boato corrente de que a Coluna Prestes andava pelas imediações.

Dias depois, saía do Ceará.

Mestre Zuza, ferreiro de Jardim, a pedido do Capitão, cortara o cano do fuzil que ele trazia do Juazeiro. Da calçada da cadeia pública, Virgulino Ferreira espiou o céu em torno.  Divisou um urubu pousado no cume da torre da matriz, a mais de trezentos metros donde ele se achava, examinando a arma que mestre Zuza degolava.

Aí Lampião mirou a arma e fez fogo. O urubu despencou da torre e estatelou-se morto, no patamar da igreja.

Era assim a pontaria do Capitão.

UM ANO DEPOIS Lampião batia às portas de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Fonte: Capitão Virgulino Ferreira Lampião
Nertan Macêdo

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

A MORTE DO SARGENTO DELUZ - PARTE IV.

 Por José Mendes Pereira


Diz o escritor Alcino Alves Costa que nada desabonava a conduta do militar junto a Lampião, ou qualquer outro cangaceiro, assim como existiam  volantes acusadas de envolvimentos amigáveis com cangaceiros. O que se sabia, era que o sargento Deluz era respeitado no meio militar, e mantinha pequenas amizades com influentes figurões da época. Dizem que ele era protegido de um senhor chamado Ercílio Britto, de outro Antônio Britto e outros e outros com estreitas amizades. Se o Deluz não tivesse criado tamanha desavença com os familiares de Dalva, sua esposa, tudo teria dado certo, mesmo ele sendo um bruto... 

O conflito tinha tomado força e seria muito difíceis os envolvidos, tanto de um lado como do outro, abrir mão dos seus direitos. Todos queriam que a paz voltasse a reinar e estavam preocupados, e sabiam que aquela confusão não iria terminar bem. Os filhos de João Marinho só gostavam mesmo era de trabalhar nos roçados, campeando o gado da fazenda, e vez por outra, correrem atrás de bois brabos naquelas caatingas. Os filhos do fazendeiro eram afamados derrubadores de touros, faziam tremer o chão daquele sertão do cipó-de-leite, do xiquexique...

https://www.trekearth.com/gallery/South_America/Brazil/Northeast/Sergipe/Caninde_do_Sao_Francisco/photo1302039.htm

Toda aquela infelicidade, começou assim que Dalva resolveu casar com o Deluz. Mas não foi só isso. O irmão dos Marinhos que chegara do Rio de Janeiro, havia morrido de repente, num desmaio durante uma carreira que fizera atrás de umas bestas. E depois deste acontecimento, o velho João Marinho estava ficando alquebrado com tantas provações. 

Mas ele e os filhos não iriam baixar a cabeça para o sargento Deluz. O delegado era um todo poderoso, mas João Marinho e os filhos não eram covardes para aceitar tamanha humilhação. O sargento Deluz decidiu, e logo resolveu demarcar as suas terras, porque, era casado com a filha do fazendeiro, por isso, se achava com direito para tal fim. Mas os do Brejo não aceitavam que isso fosse feito.

E com gênio bastante forte, dona Maria Gomes, esposa do João Marinho, e sogra do sargento Deluz ,inconformada com a atitude do genro, disse sem medir o tamanho das palavras, que ele estava querendo roubar-lhes as terras que pertenciam ao João Marinho. Agora o bicho tinha aumentado de tamanho, acusação perigosa.  Essa situação já era de se esperar. Mesmo os Marinhos sendo família calma e tranquila, não iriam deixar que aquela confusão fosse mais adiante, sem uma solução, ou pacífica ou talvez pior, morte no meio daquela gente.

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Ao saber da acusação que fizera dona Maria Gomes, contra si, o sargento Deluz tomou uma decisão: Intimidá-la para repetir o que havia dito contra ele. E sendo ele bruto e o grande poderoso daquela região, por ser delegado do destacamento, ainda afirmou que, assim que ela se apresentasse aos seus pés na delegacia, dar-lhe-ia uma surra. 

Aquelas palavras ditas pelo o sargento Deluz, não iriam ficar só naquilo. Dona Maria Gomes, além de ser a matriarca daquela conceituada família, pertencia aos Gomes de linhagem famosa.

 O delegado podia ficar sabendo que a sua intimação iria ser cumprida e honrada, mas, em vez de dona Maria Gomes ficar em sua frente, lá na delegacia, quem iriam ficar diante dos seus olhos, eram o João Marinho e os seus filhos. E foi assim que aconteceu. João Marinho e dois filhos o Totonho e o Jonas foram atender a injuriosa intimação de um delegado poderoso, desajustado e arrogante.

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Assim que o João Marinho chegou ao quartel, em companhia dos dois filhos, o delegado estava tirando um pouco da sujeira dos seus pés, e ao vê-los, ficou um pouco surpreso, e se perguntando consigo mesmo, que  tinha intimidado a sogra e apareceram o sogro e dois filhos!

- Delegado Deluz, a Maria não pôde vim, assim eu vim com meus filhos para apanharmos da autoridade.

O delegado não teve tempo de responder nada, porque o João Marinho e os filhos  atracaram o famoso delegado, derrubando-o ao chão e dominando-o por completo. O João Marinho tinha enlouquecido e dominado pelo ódio. E num momento, puxou um canivete e tentou sangrar o genro. Mas os dois filhos Totonho e Jonas não deixaram que o pai assassinasse o seu genro sargento Deluz. Felizmente, os soldados chegaram ao local e apaziguaram aquela terrível situação sem se intrometerem na confusão de parentes. Os policiais retiraram o sargento do local. Os Marinhos montaram em seus cavalos e retornaram para o Brejo.

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Um dos casos que tinha acontecido muito antes deste agarra, agarra do João Marinho  e filhos contra o sargento Deluz, foi com a geniosa Mariinha, irmã da Dalva do Deluz, e esposa do João Maria Valadão. Aproveitando que um soldado de nome Quixabeira, fora à fazenda do marido Valadão no Olho D’água, receber um carneiro (possivelmente doado ao sargento Deluz), Mariinha agrediu com todo tipo de palavras o cunhado Deluz.

Sabedor das ofensas o Delegado Deluz mandou intimar o concunhado, e pede que ele dê uma surra na sua esposa. A proposta do delegado não foi aceita pelo Valadão, e lhe disse que jamais tocou um dedo na esposa. E achava que o delegado estava mesmo era ficando maluco. Dada a resposta, o Valadão saiu da presença do Deluz e foi embora. O militar ficou remoendo o ódio dentro de si, e ainda prometeu que a família de Dalva, sua esposa, iria pagar caro por isso.

Calma! Continuarei amanhã esta historinha...

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A MULHER QUE PASSOU POR 3 SÉCULOS.

Por Rainhas Trágicas - Mulheres, Guerreiras, Soberanas.

Fotografia de Margaret Ann Neve, tirada em 1902, poucos meses antes de sua morte. Nascida em 18 de maio de 1792, em Saint Peter Port (Guernsey, Ilhas Anglo-Normandas), Margaret se tornou a primeira pessoa supercentenária de quem a história dispõe de registros factuais, tendo vivido em três séculos diferentes (XVIII, XIX e XX). Educada em Bruxelas, ela se tornou fluente em francês e italiano, além de entender o alemão e o espanhol. Nas suas histórias, ela dizia ser capaz de se recordar dos tumultos da Revolução Francesa e das guerras napolepônicas. Margaret faleceu em 4 de abril de 1903, um mês antes de seu aniversário de 111 anos, no mesmo lugar onde nasceu.

Texto: @renatotapioca

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A EXTINTA EDITORA COMERCIAL S/A, TALVEZ, AINDA GUARDA ALGUNS ÁLBUNS FOTOGRÁFICOS DO SEU PASSADO, DA RÁDIO DIFUSORA DE MOSSORÓ E DOS CINEMAS CINE CAIÇARA, CINE JANDAIA E CINE MIRAMAR DE AREIA BRANCA.

 Por José Mendes Pereira

Escritor Kydelmir Dantas

Meu amigo professor, poeta, escritor, pesquisador do cangaço, de Luiz Gonzaga e do Trio Mossoró Kydelmir Dantas de Oliveira, há alguns anos você me pedia nomes de cantores que teriam passados pelo cine Caiçara de Mossoró, e eu enviei alguns da minha lembrança, incluindo Renato e seus Blue Caps, Coronel Ludugero, Orquestra Casino de Sevilla e outros. 

Antonio Pereira de Melo - Coronel Pereira era um amigão muito humano.

Eu havia lhe prometido fazer apanhado com o meu amigo radialista coronel Pereira, mas ele me falava que iria fazer um levantamento da sua lembrança. Não o fiz exigência, porque ele vinha com problemas de saúde. e infelizmente, o coronel Pereira faleceu, pois era quem mais sabia sobre cantores que fizeram shows no cine Caiçara de Mossoró. Além de operador de áudio da Rádio Difusora, posteriormente foi locutor, e operador de filme no Cine Caiçara.

José Maria Madrid é o que tem bigode

Este último grupo de cantores, falo sobre o pseudônimo que ganhou o locutor José Maria Neto (Madrid), que apresentou o grupo "Orquestra Casino de Sevilla da Espanha" ao público que lotava o palco do Cine Caiçara, e  no grupo, existe ou existia (não tenho certeza da sua permanência aqui na terra), um jovem com o nome de José Maria Madrid. - Leia um pouco sobre a sua morte clicando no link abaixo. 

http://josemendespereirapotiguar.blogspot.com/2015/11/morte-do-radialista-jose-maria-madrid-e.html

Orquestra Casino de Sevilla.

Este material do link abaixo, eu o escrevi no dia 2 de novembro de 2015, e com grande credibilidade, porque, José Maria Madrid era meu amigo de cana, e foi adepto nosso na mesma sociedade, além de Antônio Pereira de Melo, coronel Pereira. 

José Maria Madrid - Componente da Orquestra Casino de Sevilla - Google

Quando a orquestra "Casino de Sevilla" foi embora de Mossoró, o locutor José Maria que antes era "Neto", passou a ser chamado artisticamente pelos seus colegas de emissora José Maria Madrid, deixando de lado o Neto. 

José Mendes Pereira e seu primo Júlio Batista Pereira Ponte de Trem em Mossoró-RN.

José Maria faleceu no dia 20 de dezembro de 1994, vítima de uma tragédia que aconteceu nesta cidade, na ferrovia que liga Mossoró/Sousa-PB, no quilômetro 756, próximo ao Sítio Bom Jesus, quando ele foi esmagado por uma locomotiva. Logo após foi sepultado no Cemitério São Sebastião, município de Mossoró-RN. Pouca gente que o conheceu após 1965, não sabia o seu nome verdadeiro. 

Orquestra Casino de Sevilla. Espanhola.

Mas o que me fez recordar o tempo da sociedade de cinemas de Mossoró, rádio, cinemas  e editora, a qual eu fiz parte como gráfico dela, foi para falar sobre alguns registros perdidos de cantores que se apresentaram em épocas distantes no Cine Caiçara de Mossoró. 

Eu acredito que na editora, em um quartinho sob a escada que fazia chegar aos estúdios da rádio Difusora, sala de áudio, escritório, discoteca e sala de operar películas do Cine Caiçara, estão guardados muitos arquivos da Rádio Difusora, pois era lá que eram arquivadas todas as fotografias em álbuns da sociedade.

Falo, porque trabalhei naquela empresa durante 12 anos, e eu conhecia tudo que era recolhido e guardado em baixo da escada. A porta sempre permanecia fechada, e a gente só a abria quando necessitava de algo.

Neste Prédio funcionava a sociedade: Editora Comercial, Rádio Difusora e Cine Caiçara.

Como você sabe, o prédio do Cine Caiçara já não existe mais, porque os herdeiros venderam para uma imobiliária, e foi feito um outro que recebeu o mesmo nome do cinema "CAIÇARA". Mas a parte da extinta Editora e Rádio Difusora continua intacta, por isso, acredito que lá no quartinho estão guardados os registros da sociedade, muito embora, algumas fotografias estejam em péssimos estado de conservação. 

Cine Miramar de Areia Branca. - Da mesma Sociedade de Mossoró.

Quando a rádio foi vendida ao grupo do ex-governador "Aluísio Alves" eu ainda era funcionário de lá, e tudo continuava no quartinho em seu devido lugar, porque, era arquivo dos proprietários da sociedade, e não da Rádio Difusora. Sendo assim, nada foi entregue ao novo grupo.

Cine Jandaia de Mossoró - Da mesma Sociedade de Mossoró.

Mas, quem sabe! Depois que a Editora Comercial S/A. fechou as suas portas, possa ser que alguém fez limpeza nos cômodos, e tudo tenha sido jogado na cesta de lixo. Mas o prédio continua adormecido sem contato com ninguém. 

Certa vez alugaram uma parte do escritório térreo, mas talvez não deu certo, continua fechada.

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LAMPIÃO, SEU BANDO E OS REFÉNS EM LIMOEIRO DO NORTE - CE

Acervo do Kydelmir Dantas 

Francisco Ribeiro de Castro e Silva, CHICO RIBEIRO, foi o fotógrafo de Limoeiro do Norte-CE que fez estas fotos. Reveladas no Laboratório J. Octávio, em Mossoró, erradamente é dada como de autoria do José Octávio. 

Há época, foram impressas muitas cópias, que eram vendidas nas feiras da região como cartão postal. A que aparece com os nomes dos que estão nelas, foi uma ideia do jornalista Octávio que levou uma original à Cadeia Pública e apresentou-a ao JARARACA, que identificou seus companheiros no ataque e na derrota em Mossoró, naquele 13 de junho de 1927. 

Fonte: NAS GARRAS DE LAMPIÃO: DIÁRIO DO CORONEL GURGEL - Raimundo Soares de Brito & Antônio Gurgel (Col. Mossoroense, 2006).

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