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quarta-feira, 23 de março de 2011

A Saga de Benjamim Abrahão - Parte I

Por: Rostand Medeiros 

Benjamin Abrahão em fotografia realizada em um estúdio fotográfico pernambucano. A partir do livro “Lampião o mito”, autoria de Roberto Tapioca, 9ª edição, página 50.

             No início da vida bandida de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso cangaceiro Lampião, as suas ações, os seus feitos de armas, eram basicamente conhecidos pelos sertanejos através dos cantadores, dos emboladores, das conversas dos mascates nos dias de feira. Estes meios de divulgação tradicionais, mesmo de forma lenta, ajudaram cada vez mais a criar na população do sertão o temor e, igualmente, contribuíram na propagação do mito ao redor da figura verdadeira.

           Durante certo tempo muitos sertanejos não tiveram ideia da aparência e de outros aspectos ligados à figura de Lampião. Logo surgiu na imprensa uma boa quantidade de fotografias do chefe cangaceiro e este fazia questão de se deixar reproduzir diante das câmeras. Ele não tinha a aversão que o grande cangaceiro Antônio Silvino, preso em 1914, nutria pelas lentes fotográficas. Pelo contrário, gostava tanto que até cartões com a sua foto estampada foram um dia produzidos.
 
http://www.enciclopedianordeste.com.br/imagens/biografias/931.jpg 
O cangaceiro Antonio Silvino
 
               Na proporção em que cresciam as suas ações e a fama do seu bando nos sertões nordestinos, a sua figura ultrapassava limites regionais e as pessoas de todas as partes passaram a ouvir falar no conhecido “Rei do Cangaço”. Mas para o público dos grandes centros terem a oportunidade de visualizarem a figura de Lampião e seu bando, em uma película cinematográfica, no interior de uma confortável sala de projeção, era algo mais complicado.
 
Benjamim ao lado do Rei e Rainha do Cangaço

              Desde que o cinema chegou ao Brasil, em 8 de julho de 1896, com a inauguração de um “omniographo” na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, o seu desenvolvimento era cada vez mais intenso. Novas salas de exibição eram inauguradas pelo país afora, onde o público consumidor desejava através das imagens, tanto o entretenimento, quanto o conhecimento dos aspectos do imenso país.

              Para uma pessoa de iniciativa e coragem, a ideia de filmar Lampião e seu bando poderia gerar muita fama e dinheiro. Somente através da iniciativa de um emigrante libanês, foi possível imagens do famoso cangaceiro e do seu bando, sendo este o único registro cinematográfico desta controversa figura.
 
http://www.pinzon.com.br/adm/externos/noticia/28082010161100.jpg
Frederico Pernambucano de Melo

           Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 313 a 317), seu nome completo era Benjamin Abrahão Calil Botto, sendo originário do Líbano. Sua terra natal era Zahle, uma cidade situada na parte central deste país, no chamado Vale do Bekaa, próxima a cadeia de montanhas do Monte Líbano, em uma área extremamente fértil para agricultura e onde até hoje predomina uma população cristã.

             Para alguns estudiosos ele teria vindo para o Brasil em 1910 e para outros ele aqui chegou em 1915. A razão de sua saída seria a ideia de buscar novas paragens para progredir na vida e deixar uma região então dominada pelo Império Turco Otomano desde 1517. Outra teoria aponta que a vinda de Abrahão seria uma fuga da convocação do exército que ocupava sua terra, para combater na Primeira Guerra Mundial.

           Nesta época a nação libanesa ainda não havia sido oficialmente criada e os imigrantes que deixavam esta região e se dirigiam para o Brasil, eram normalmente conhecidos como “Turcos” ou “Sírios”. Apenas em 1926 foi oficialmente criada à República do Líbano, por interesses dos franceses.

           Quis o destino que Benjamin Abrahão viesse para Recife, onde conseguiu um emprego de vendedor. Depois, impulsionado pelo espirito aventureiro e senso de oportunidade, foi até a cidade de Juazeiro, no interior do Ceará, onde conheceu o mítico e venerado líder religioso Padre Cícero Romão Batista. Após os primeiros contatos com o homem considerado santo pelos romeiros que afluíam de todos os lugares do Nordeste, o libanês passou a ser conhecido na cidade como jornalista, secretário particular, fotógrafo e acompanhante do “Padim Ciço”. Existe a versão que o libanês de fala enrolada conquistou o coração do severo clérigo quando mentiu descaradamente ao afirmar ter nascido em Belém, a cidade natal de Jesus Cristo. 
 
Padre Cícero

           Para estas duas interessantes figuras este encontro foi extremamente positivo. Para o eterno cura dos desvalidos do Cariri, a figura de um secretário estrangeiro, nascido na terra de Jesus, certamente trazia respeitabilidade junto a elite local e chamava a atenção dos milhares de romeiros que vinham atrás de suas bênçãos. Já Benjamim sabia que o Padre Cícero era um líder prestigiado, sendo um porto seguro em um país desconhecido, em meio a uma Juazeiro em franco crescimento. Era bem melhor o calor de Juazeiro, do que vestir um uniforme turco e levar um tiro dos ingleses na península de Gallipoli.

            Tudo indica que o imigrante se deu muito bem nas terras do “Padim Ciço” e se entrosou perfeitamente com a sociedade local. Segundo o jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 27 de dezembro de 1936, ao apresentar o “Sírio” Abrahão, o periódico informava que o imigrante teria fundado um jornal chamado “O Cariri”.
 
             Continua...

Rostand Medeiros
Pesquisador e Escritor
 
 
Este texto foi extraído do blog: "Cariri Cangaço", 
do amigo Manoel Severo
 
 
 
          Amigo leitor:
 
          Neste mesmo blog tem:
 
         1 - A Saga de Benjamim Abrahão - Parte II - Por: Rostand Medeiros
         2 - A Saga de Benjamim Abrahão - Parte III - Por: Rostand Medeiros
         3 -A Saga de Benjamim Abrahão - Parte Final - Por: Rostand Medeiros

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A Saga de Benjamim Abrahão - Parte II

Por: Rostand medeiros
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjZK6c7QIRRMiP5dzCzgllJ4lvGVG-1h_KEDDfLHrRACfe4sKn0IZ1IkWHKKUHaNb3QM9IgRhOxuvak11J-ht4dlPlVZcafvaBb04EK7WWL7gDgRWhREHrswb56YEbEplN5bqiPSg8QpRw/s400/OLHO+ROSTAND.JPG
 
            O libanês esperto se encontrava em Juazeiro, quando no dia 4 de março de 1926 chega à urbe sagrada o famoso cangaceiro Lampião e todo o seu séquito. O bandoleiro das caatingas vem a “cidade santa” para se juntar aos membros de uma força militar denominada “Batalhão Patriótico”, com a intenção de combater uma coluna de revoltosos comandados por Luís Carlos Prestes, Isidoro Dias Lopes, Siqueira Campos e outros oficiais rebelados do Exército Brasileiro contra o governo de Arthur Bernardes, então Presidente da República.
 
http://www.interjornal.com.br/fotos/10683594m.jpg
Benjamim Abrahão - Da esquerda para à direita 
o primeiro da fila da frente

           Lampião recebe uniformes, armas novas, se encontra com Padre Cícero, concede entrevistas e se deixa fotografar. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), a figura que coordena o assédio ao “Rei do Cangaço” não é outro se não o próprio Benjamim Abrahão. Afirma o pesquisador que a partir deste encontro surgiu uma amizade entre o libanês e o cangaceiro, bem como o germe da ideia de ser realizada uma película mostrando a vida de Lampião.
 
http://www.alepe.pe.gov.br/sistemas/perfil/links/fotos/FredericoPernambucano.jpg
Escritor Frederico Pernambucano de Melo

            Apesar do autor de “Guerreiros do sol” haver entrevistado Lauro Cabral de Oliveira, uma das pessoas que esteve com Lampião naquela ocasião para realizar entrevistas e fotografá-lo, que teve seu acesso ao cangaceiro garantido por Abrahão, acreditamos que a ideia surgiu na cabeça do libanês algum tempo antes.
 
http://www.algosobre.com.br/images/stories/assuntos/biografias/Padre%20Cicero.jpg
Padre Cícero Romão Batista
            
            Em 1925 foi produzido “Joaseiro do Padre Cícero”, um filme que buscava contar a vida e o trabalho do Padre Cícero Romão Batista. Rodado em película de 35 milímetros, a um custo de 40 contos de réis, esta obra tinha o objetivo de criar uma propaganda positiva em relação à ação política e social do padre, além de mostrar o desenvolvimento da cidade de Juazeiro. Nesta época o Padre Cícero sofria na imprensa dos grandes centros do Brasil uma feroz enxurrada de críticas e comentários negativos sobre a sua figura, a sua trajetória política e a mistificação que se criava em torno de sua pessoa.

 Fachada do Cine Moderno em Fortaleza

           A direção do filme coube ao cearense Adhemar Bezerra de Albuquerque e sua primeira exibição ocorreu no mesmo ano de sua produção. O local escolhido foi o Cinema Moderno, em Fortaleza, um empreendimento que foi inaugurado em 1921 e ficava na Praça do Ferreira. Depois de seu lançamento, a película foi apresentada em várias capitais brasileiras, chamando a atenção da crítica e do público. Certamente um dos que se impressionou com o sucesso da obra foi Benjamim Abrahão.  Provavelmente o diretor Adhemar Bezerra de Albuquerque, seguramente um dos principais pioneiros e expoentes do cinema cearense, que produziu muitos documentários em 35 milímetros, deve ter criado laços de amizade com o libanês durante a produção deste filme e certamente o imigrante participou de alguma maneira da concretização desta produção.
 
             Ao longo dos anos o libanês continuou com o seu trabalho ao lado do Padre Cícero, mas em julho de 1934, aos 90 anos o seu patrão e protetor faleceu. É provável que sem maiores perspectivas ressurja na cabeça do libanês a ideia de mostrar ao mundo o cangaceiro Lampião, entrevistá-lo e conseguir assim se tornar o primeiro homem a filmar o “Grande Rei do Sertão”.
 
Ademar Albuquerque
 
          No ano seguinte Abrahão busca na capital cearense um empreendedor que o ajude nesta empreitada. Este apoio surge na pessoa do velho conhecido Ademar Albuquerque, agora proprietário da empresa Aba-Film, que tinha apenas um ano de funcionamento. Ademar percebe que o libanês é suficientemente arrojado (ou maluco) para procurar Lampião no “Oco do Mundo” e se ele não morresse tentando, a distribuição deste documentário poderia render um bom dinheiro.

             Percebemos que não é de hoje que a figura de Lampião alavanca negócios. O proprietário da Aba-Film lhe cedeu uma câmera, que segundo Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), seria de 35 milímetros, da marca Ica. Rolos de filmagem da empresa Gevaert-Belgium, um tripé e uma câmera fotográfica desenvolvida pela empresa alemã de produtos óticos Carl Zeiss, até hoje uma conceituada marca no meio fotográfico.

            Benjamim estava munido com máquinas de conhecida qualidade e portabilidade, que certamente lhe trariam um ótimo resultado visual. Evidentemente que o imigrante libanês não seria tão louco a ponto de comentar quem o ajudou nesta empreitada. Mas seria praticamente impossível ele chegar próximo a Lampião sem a ajuda dos grandes coronéis do interior de Pernambuco. Ele teria buscado o apoio de Audálio Tenório de Albuquerque, então o todo poderoso comandante da cidade de Águas Belas e de outros coronéis da região próxima ao rio São Francisco. Esta hipótese se baseia na informação transmitida por Frederico Pernambucano de Mello, que nos seus últimos anos da vida de Lampião, teria sido o coronel Audálio Tenório uma pessoa com forte aproximação com este chefe cangaceiro. (Mello, op. cit., pág. 325).

            De toda maneira Benjamim Abrahão conseguiu seu intento. No jornal Diário de Pernambuco, nas edições de 27 de dezembro de 1936 e 12 de janeiro de 1937, Abrahão relatou detalhes dos seus encontros com Lampião e seu bando.

Juriti, à esquerda, e Mergulhão à direita

            Em narrativa franca e aberta, o libanês demonstra ao seu entrevistador, com certo orgulho, que a sua empreitada havia durado mais de um ano, precisamente 18 meses. Informava que havia passado pelos estados da Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia. Ele entrou no sertão com uma roupa de “brim azulão” e suas máquinas a tiracolo. Afirmou que passou “fome e sede”, mas trouxe “um punhado de notas suficiente para seu livro de impressões”. Aparentemente estas impressões estariam contidas em seus diários.

             O contato inicial de Abrahão com o bando de Lampião, segundo suas afirmações para o Diário de Pernambuco, foi num dia bastante quente e os primeiros com quem ele esteve foram os cangaceiros Mergulhão e Juriti.

             Continua...

Rostand Medeiros
Pesquisador e Escritor

Este texto foi extraído do blog: "Cariri Cangaço",
do amigo Manoel Severo

A Saga de Benjamim Abrahão Parte III

Por: Rostand Medeiros .
Benjamim Abrahão
 
            Quanto ao primeiro encontro de Abrahão com os cabras de Lampião, tendo sido com Juriti e Mergulhão, teve certa tensão, pois os dois guerreiros das caatingas chegaram totalmente equipados. Ao visualizarem o estranho apontaram seus fuzis e gritaram “-Não se mexa cabra. Vai morrer” e colocaram balas nas agulhas de suas armas. Foi um momento “angustioso” para o documentarista, mas logo o ambiente serenou. Abrahão afirmou ao jornalista que lhe entrevistava que “se impressionou”, pois os dois cangaceiros já sabiam quem ele era e qual era seu objetivo.
 
O cangaceiro Juriti
 
               É provável que nada disso tenha ocorrido. O Mais lógico foi que Abrahão deve ter sido guiado por uma pessoa de confiança dos coronéis da região, onde os cangaceiros já tinham conhecimento de sua chegada e que tudo estava previamente acertado.Tanto é que sobre estes primeiros momentos junto a estes cangaceiros, Abrahão chega ao ponto de transmitir uma opinião jocosa sobre um dos seus acompanhantes armados. Este era Juriti, que ele considerou “-Um sujeito de boa aparência, tem os cabelos bons, é metido à almofadinha e gosta de luxar”.

              Afirmou que teve de caminhar três quilômetros com os dois homens armados. Eles primeiramente entraram em entendimento com uma sentinela posicionado em local estratégico. Daí Mergulhão se embrenhou nos matos e desapareceu. Voltou algum tempo depois afirmando que Lampião queria vê-lo. Quando chegou ao local onde estava o bando, após passarem por uma área de caatinga bastante fechada, todos os cangaceiros estavam de pé, menos Lampião que se encontrava encostado em um tronco, lhe observando com olhos que o libanês classificou como “indagadores”. Era hora do almoço e todos comiam carne de bode com farofa.
 
 O capitão Virgulino veio até ele, lhe ofereceu comida e um copo com conhaque, demonstrando boas maneiras no tratamento ao estranho de fala enrolada.
 

             Lampião afirmou “-Não sei como você veio bater aqui com vida, bicho véio. Só mesmo obra de Mergulhão que é muito camarada”. Abrahão não informou ao jornalista o que achou da tirada do chefe cangaceiro. Logo se dispôs a montar o tripé com uma das suas máquinas para dar início à seção de captação de imagens. Nisto Lampião gritou “-Para, para”. Ele queria ver de perto o maquinário. Queria se certificar que daquele mecanismo estranho não poderia sair uma bala. Satisfeito nas suas dúvidas, o chefe liberou o libanês para trabalhar tranquilamente. Ele continuou captando imagens, mas em pouco tempo Lampião mandou parar a seção afirmando “-Basta. O resto fica para outra vez”. Abrahão retrucou com Lampião, afirmando que tinha lutado muito por este momento e que queria continuar. Ao que o chefe responde taxativamente

“-Quem anda comigo tem de ter paciência”.

             Insatisfeito com a resposta, o imigrante voltou à carga “-E onde poderia (Lampião) ser encontrado na próxima vez?”. “-Sou homem que não tem pouso certo. Hoje estou aqui, amanhã posso estar na Bahia, em Sergipe ou Pernambuco.” Seja pelo fato de Abrahão ter se sentido a vontade com o “Rei do Cangaço”, ou porque era uma figura completamente maluca, mais uma vez ele continuou retrucando com Lampião. Para sua sorte este nada falou. Depois, segundo sua narrativa, levaria quatro meses para ocorrer um segundo encontro com o bando. Por sorte este momento foi muito mais duradouro, calmo e positivo. Segundo Abrahão o local do esconderijo ficava “do outro lado do São Francisco”, a “36 léguas”. Ele só não disse de onde. Afirmou que era um domingo, sendo este “um grande dia, pois ninguém trabalhava e se reza de manhã e no começo da noite”.
 
             Para o imigrante os cangaceiros são muito religiosos e sobre o momento da oração ele fez interessantes observações. Um dos membros do grupo colocou um quadro do Sagrado Coração de Jesus em um tronco de árvore e Lampião, com um livro de orações, comanda a ladainha. Todos estão ajoelhados, contritos, alguns com rosários, ouvindo atentamente o chefe declamar em voz alta a prédica de um velho “adoremos”, que todos repetiam em coro.

             Para o observador Abrahão “as mulheres, neste dia, vestem-se melhor, enfeitam-se mesmo”. Para ele é como se elas fossem a uma missa em alguma paróquia. O imigrante apontava que aquelas mulheres, mesmo vivendo escondidas no meio do mato, em meio às correrias e violências, pareciam querer manter de alguma maneira os mesmos hábitos da vida “civil”. Durante o almoço todos os cangaceiros comem em grupos, uns em pé e outros sentados. Lampião, talvez por precaução, degusta a alimentação no meio de todos. Abrahão repetiu várias vezes ao repórter o quanto Lampião era desconfiado, sempre planejando mudanças de seus esconderijos.

              Continua...

Rostand Medeiros
Pesquisador e Escritor
 
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Lampião – Sua Morte Passada a Limpo

Por: Manoel Severo
 
 
            Angico. A famosa grota do Angico; esse foi o cenário trágico dos últimos dias do Rei do Cangaço, Virgolino Ferreira da Silva. A presente obra “Lampião – Sua Morte Passada a Limpo” nos traz exatamente os momentos finais da vida desse que foi sem dúvidas o maior cangaceiro que já pisou o solo sertanejo de nosso abençoado nordeste.
 
Lampião e Maria Bonita

             Sabino Bassetti e Carlos Megale, com uma lucidez própria dos magníficos rastejadores do torrão bravo de nossas caatingas, dedicaram intermináveis meses, dias e horas de suas vidas debruçados sobre os momentos finais dessa sinfonia que o tempo teima em tentar harmonizar . Entre os acordes surdos dos acauãs , coaxar finos e grossos dos batráquios entre as rochas e o sussurrar manso do vento batendo nas folhas da vegetação daquela madrugadinha fria de inverno de julho de 1938; tendo como testemunhas mudas do grande desfecho; os arbustos com galhos retorcidos e com raízes profundas, bromélias e os mandacarus, angico e juazeiros; daquele que seria até os dias de hoje o mais polêmico e comentado episódio do ciclo cangaceiro de Lampião: o cerco e o ataque das forças volantes comandadas pelo tenente João Bezerra, quando tombariam mortos, um soldado e onze cangaceiros, entre eles , Maria Bonita e Lampião...


              Através do livro de Bassetti e Megale nos é permitido aproximar ao máximo dos acontecimentos referentes aos dias finais daquele longínquo julho de 1938 e todas as suas repercussões; Lampião havia marcado encontro com os outros chefes do cangaço, Labareda, Corisco e Zé Sereno, estariam se dirigindo para o Angico para deliberar sobre o que fazer com Zé Rufino que estava “querendo passar de pato a ganso...”? Ou estaria tramando o abandono total ao cangaço? Ou o que mais estaria por traz do referido encontro? O fato é que o esperado encontro dos maiores do cangaço do final daqueles difíceis tempos não aconteceu. Labareda não conseguiu chegar, Corisco não teve tempo de atravessar o caudaloso Velho Chico. Ao lado do bando do “Cégo” apenas Zé Sereno e seus homens.
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             O que poderia ter acontecido naqueles últimos momentos? Que diálogos teriam sido travados, o que acontecia na vizinha Piranhas da vizinha Alagoas? E o que se passava nos salões atapetados dos gabinetes dos chefes da polícia e da política daqueles atribulados anos do Estado Novo Getulista? Angico é um tema inesgotável. Nos acostumamos a nos perder em debates intermináveis sobre as circunstâncias e natureza do que cercava aquele tão comentado episódio e hoje temos o privilégio de receber esse grande presente dos escritores Sabino Bassetti e Carlos Megale.

Lampião
 
              Toda a rede de interesse entre os muitos personagens principais e coadjuvantes, mas nem tão coadjuvantes assim; o que disseram, o que deixaram de dizer, o que mostraram, o que omitiram, esconderam; o que morreu com cada um deles. O vasto e enigmático “espólio de guerra” tão buscado pelos perseguidores e causa e razão de outro cem número de contradições. As perigosas ligações entre o Rei Cego e os poderosos de então...

              A você leitor, que é mais um aficionado pela temática do cangaço, que se delicia com uma boa leitura, fique a vontade com “Lampião – Sua Morte Passada a Limpo”, certamente terá uma rara oportunidade de compartilhar o que temos de melhor sobre o grande desfecho de Angico; solo sagrado onde tombaram Lampião, Maria Bonita e mais dez personagens dessa saga, que tanto flagelo e tanto sofrimento trouxe ao bom e humilde povo sertanejo e que acabou consolidando o mito de Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião.

              O Lançamento do livro se dará no Seminário de Maria Bonita em Paulo Afonso, Bahia, no próximo mês de março de 2011. Fiquem atentos. 
 

              Manoel Severo; pesquisador, membro do Conselho Consultivo da SBEC – Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, Idealizador, Produtor e Curador do Cariri Cangaço, administrador do site cariricangaco.com
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terça-feira, 22 de março de 2011

Eu "mais" Adília... mais uma paixão dividida com vocês!




Por: Aderbal Nogueira


              Há pouco Rangel Alves da Costa, filho do querido amigo Alcino postou uma matéria sobre Adília.

Rangel Alves da Costa

             Eu também tive o prazer de estar com Adília várias vezes, entre elas estive ciceroneado pelo nosso grande Alcino, uma visita cheia de emoção. Rangel prova que, filho de peixe, peixinho é. Adília realmente era uma pessoa cativante.

Confiram um destes momentos.

            Lampião Aceso comenta, Mestre Alcino sua disposição ainda é a mesma, mas os cabelos... quanta diferença? Maldita evasão capilar! 
            Quando estive lá, em outra ocasião, ela nos falou dos açoites de bala que recebeu, inclusive um na testa. Mais uma vez, parabéns à família de Alcino que, pelo andar da carruagem, a tradição vai continuar. Já que falei de Alcino queria fazer aqui uma homenagem a quatro pessoas que formam os pilares de sustentação dessas histórias cangaceiras, que sustentam essa grande mesa, que são:

Antônio Amaury,
Alcino Costa,
Paulo Gastão
e Frederico Pernambucano;

cada qual dentro da sua alçada, um pelo tempo, outro pela proximidade, outro pela luta e pela garra e o outro pela extrema destreza em nos mostrar a saga do Cangaço.



Parabéns aos mestres. 
Sem vocês a história não seria a mesma.
Aderbal Nogueira é pesquisador, documentarista.
Fortaleza-CE.

A terrível morte do cangaceiro "Mariano - Por: Ivanildo Alves Silveira


O cangaceiro Mariano (vide foto abaixo) nasceu no município de Afogados da Ingazeira, PE, no ano de 1898. Seu nome completo era Mariano Laurindo Granja, sendo filho de fazendeiro, de algum conceito.

O cangaceiro Mariano

Entrou para o cangaço, no ano de 1924. Era negro, muito forte, andando sempre com uma palmatória de baraúna dependurada na cintura, com a qual surrava suas vítimas. Acompanhou Lampião por muito tempo, sendo uns dos poucos que cruzaram o Rio São Francisco, em agosto de 1928 com destino à Bahia.

 Lampião

Ele esteve com Lampião na visita a Juazeiro do Norte; participou do massacre na cidade de Queimadas, onde foram mortos 07 soldados. Participou do massacre a Mirandela, distrito de Pombal/BA. Participou do ataque a Aquidabã, SE, em outubro de 1930. Depois, passou a chefiar o seu próprio grupo.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjd0ZxpvWCIwUDunXn_KZFxcQ7UOVVYNk83vdJNii6zPORLlLrxPrBEEEuNd544g8_V-j0ryjL8PWKnjlvWOIsc74TdFbZMuEnNMfUmzR5HIcCCoGeOGwO-7qGhKk61PXll5e85QCUzapir/s320/690_9087.JPG
Tenente Zé Rufino

O tenente José Rufino arranca do Raso da Catarina, numa das batidas mais célebres de que se tem lembrança na campanha de repressão ao banditismo, e após cobrir centenas de quilômetros, ao longo do sertão baiano, chega às cidades de Porto da Folha e Gararu, no Estado de Sergipe. 
            
É aí que se encontra com o árabe Abraão Benjamim, cineasta amador, possuído da mania de filmar um combate real e autêntico, entre as volantes e o grupo de Lampião.

http://cultured.com/images/image_files/1031_benjamin_abrahao_botto.jpg
Benjamim Abrahão

Não movia ao árabe o desejo louvável de realizar um documentário histórico, mas a ambição comercial de ganhar dinheiro coma exibição do filme nos cinemas de todas as cidades. 
             
No seu linguajar estropiado e difícil, pede ao tenente José Rufino que lhe facilite a filmagem, admitindo-o, na sua tropa.
            
A resposta do comandante da volante foi ríspida e dura:
              
Dentro de pouco tempo vou brigar com os cangaceiros, mas não sei o lugar e nem a hora e, para ser melhor entendido, nem o senhor e nem ninguém me acompanhará. 
              
Voltou-lhe as costas, bruscamente e, à frente dos seus homens, atirou-se no aberto das caatingas à procura do rastro dos bandidos na terra de ninguém. 
              
Nos meandros da vereda a tropa move-se no passo silencioso dos felinos.
              
A noite aninha-se devagar no seio da caatinga e pousa sobre a areia, ainda quente, dos despovoados.
              
O tenente José Rufino encurva em anel a sua tropa e cerca a casa do afamado coiteiro, Mané Véio. 
              
Aqui abro uns parênteses na narrativa de Joaquim Góis (escritor) para um esclarecimento ao leitor.

Como se vê não eram somente cangaceiros, contratados ou soldados que tinham apelidos ou nomes de guerra. Havia na força de Alagoas, nesse tempo, um soldado natural da região de Santa Brígida, aparentado até com Maria Bonita, o nosso amigo Euclydes Marques da Silva, também chamado por Antônio Jacó, e no seio dos seus camaradas conhecido como "Mané Véio". 
              
Foi esse soldado um dos participantes da tropa que o tenente João Bezerra utilizou no combate em que Lampião morreu e foi minuciosamente descrito no livro "Assim Morreu Lampião". Pois esse Mané Véio de que trata Joaquim Góis nada tem a ver com o outro, a não ser a coincidência do apelido.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgelkLZhaRlyOwDMofScK9ppPFDdG2Mz5TOC3SxZN5ruFP5a5prdLZP9jFgdPgDnBaOpuwYfvV3Ad7eVKHB62NFRZS_V9n8bfLmhQf9KC2w6wudQTGXSdiawoO84cZuF7SRAndIEzFkuQ/s1600/JOAO.jpg
Tenente João Bezerra - o matador de Lampião

Prossigamos com a narrativa:
            
"O oficial sabia de cor e salteado, a história inteira do perigoso delator, a crônica do coiteiro mais astuto e manhoso de Lampião. 
            
Ninguém melhor do que ele possuía a arte da simulação, no modo como guiava os volantes para os lugares e esconderijos de que seu terrível patrão estava sempre ausente. 
            
E o fazia com a simplicidade convincente de quem dizia a verdade, de quem conhecia o roteiro transitado pela horda de malfeitores, cuja pista ele disfarçava na informação errada, na indicação, propositadamente, contrária, rumando para os pontos opostos aqueles em que se ocultavam os bandoleiros.
             
Os homens do tenente José Rufino vigiam, pacientemente, a casa do esperto coiteiro Mané Véio.
             
Ninguém entra e ninguém sai. Gritam pelo coiteiro e os seus gritos envolvem tudo. Mané Véio estava ausente, despistando mais uma vítima da sua manobra traiçoeira. Sargento da polícia sergipana, Odon Matias, para a fazenda Barriguda, local apontado por ele e em que Lampião estaria no descanso das longas jornadas. 
             
José Rufino acampa num velho curral, sem perder dos olhos a casa do coiteiro, já agora, ocupada por dois dos seus soldados. Escuta os rumores que correm dentro da noite escura e misteriosa do sertão. 
             
Escuta e espera. Os galos cantavam quando Mané Véio volta à casa. Preso e apresentado a José Rufino, este o interroga a seu modo. Não ameaça, não amedronta e nem espanca. Conversa, argumenta, convence.
            
Mané Véio já o conhecia pelos pedaços de informações que os outros coiteiros lhe transmitiram. Mentir era inútil e tentar enganá-lo era perder tempo.

Volante de Zé Rufino, sendo ele, na fila da frente, o primeiro da esq. para a direita
Defrontaram-se, dentro daquele velho curral dois sertanejos formados na ciência dos subterfúgios, na arte das vinganças, no jogo psicológico dos truques entre a verdade e a mentira.
          
José Rufino bate em cheio no que quer saber e o que diz ao coiteiro é mais uma afirmativa do que uma pergunta:
               
— Por que você guiou o sargento Odon Matias para a Barriguda, sabendo que os cangaceiros não estavam lá? 
             
— Pra num sê morto pru eles, seu tenente.
             
— E onde estão os bandidos?
             

— Tão no Cangalêcho. O sinhô quê eu vô li bota in riba dêles.
           
Na resposta ao oferecimento do coiteiro é que se reflete e se revela a prudência do tenente Zé Rufino; o cuidado que ele tinha pela vida dos desgraçados, colocados entre as balas dos cangaceiros se os delatassem e o fuzil da polícia se lhe mentissem.
                
— Não, Mané Véio, você não vai. Preciso de você vivo. Se os bandidos souberem que você fez isso, eles o matarão. Basta que você me diga se existe casa aqui por perto.
           
— Inziste inhô sim, a coisa dum quarto de légua, vosmicê vai incontrá uma. E pode preguntá qui o dono sabe adonde é o Cangalêcho.
              
A manhã se retirava das caatingas quando José Rufino encobria-se com a sua tropa, na mataria falha de um chão eriçado de pedras miúdas, contorcido em curvas e aberto em ralos vazios e rentes. Seguir os rastros dos bandidos foi sempre uma tarefa árdua, um quebra-cabeça intrincado, pois, esses filhos do sertão conheciam todos os disfarces do terreno e todos os passes de mágica com que iludiam os menos avisados.
            
Marginavam caminhos andando sobre as pedras, sobre a face dura do chão, arrastando feixes de matos que lhes apagavam as pegadas. Veredas, entradas, saídas, desvios, cruzamentos, rodeios, curvas, atalhos, todo um emaranhado de acidentes que eles gravavam na memória, mapas vivos desenhados pela experiência de todos os dias.
             
O sol estava naquelas alturas quando José Rufino dá entrada na fazenda Cangalêcho. 
             
Em torno de uns dos tanques (buracos nas pedras que acumulam água), para espanto seu, a rastaria dos bandidos bate nos olhos de todos, às claras de mais, como feitas de propósito. Mas só na terra que circundava o tanque, pois além poucos metros, o chão estava limpo, sem o menor vestígio de pés humanos na sua superfície. Era tão absurdo o que os olhos de todos viam que deu lugar a que a ignorância do contratado "Capão", alvitrasse esta explicação ridícula:
            
— Seu tenente! Num será qui os homes tão dentro do tanque!
            
Os rastros existentes ali, ficavam ali mesmo, nem saíam nem entravam. O tenente José Rufino, homem afeito a todas as surpresas nas coisas e nos acontecimentos do sertão, não atinou com uma explicação para aquilo. 
           
Ele mesmo foi rastejar, procurando ler e adivinhar na página naquele pedaço de terra o significado do que via sem poder compreender. Mandou que dois dos seus homens ficassem de sentinela nas duas entradas dos caminhos, que se dirigiam para o tanque. Um sol de asfixia parava no meio do céu, quando o rastejados Gervásio indica à tropa os sinais da pista por ele descoberta. 
      
Ao mesmo tempo, dois contratados trazem para o tenente um menino de doze anos, conduzindo entre as mãos um embrulho enrolado num lenço vermelho, cheirando a perfume de feira. O conteúdo do embrulho: um quilo de café moído. Os bandidos estavam perto e ninguém duvidava mais que em pouco tempo haveria tiroteio. Interrogado o garoto, nada se pode saber diante da barreira do seu silêncio obstinado. 
            
Nem agrados, nem promessas, nem insinuações, nem presentes, nada conseguiu romper a teimosia daquela criança fechada numa resistência de espantar. José Rufino recorre à medida extrema, advertindo ameaçador ao menino: 
           
— Já que você não quer dizer onde estão os bandidos, vai ser sangrado.
            
E voltando-se para o contratado "Capão", ordena seca e fingidamente enfurecido: 
              
— Sangre este corninho na goela.
             
A lâmina do punhal de "Capão" escorrega da bainha, suja de nódoas de ferrugem, mortal como uma serpente, já mordendo a carne tenra da garganta da criança, pára, numa pausa cheia de expectativa."Capão" grita, rouco de raiva:
                  
— Diga aonde tão os bandido seu pestinha ou eu li arranco a muéla pulas costa.              

O garoto parece talhado no miolo da aroeira ou da baraúna, rijo, impenetrável, rebelde.
              
Era bem um símbolo do meio saturado de descrença, indiferente ao medo, fatalista e resignado. 
             
Mudo, inacessível diante das investidas selvagens do contratado "Capão", para tudo e para todos só oferecia uma resposta:
                  
— Num sei de nada, quê matá, mate.
             
Devia existir um motivo poderoso para a atitude corajosa daquela criança. E havia.
            
No coito em que se refugiavam os bandidos estava também o coiteiro João do Pão, pai do garoto. Comove a resistência desse pirralho e a gente sente vontade de tê-lo apertado ao peito para beijá-lo pela coragem do seu gesto. 
              
O tenente José Rufino, sertanejo para quem a alma de sua gente é clara e aberta como o sol que incendeia a terra bravia, sabe que aquele rebento novo de uma raça de mártires, resume no seu comportamento toda a história amarga da região oprimida, da parte agreste do Nordeste, onde a vida é uma adivinhação sem esperança de ser explicada. Desiludido de que do mutismo daquele menino não lograria nenhum indício revelador do coito dos criminosos, José Rufino segue o rastejador que a pouco descobrira a pista dos perseguidos. 
              
De súbito, José Rufino sente nas costas a pancada de uma pequena pedra, certeiramente jogada pelo contratado Genésio. Olha para trás, por sobre o ombro e recebe em gestos o sinal do seu comandado, apontando para o lado esquerdo. À sua vista, surgiam, armadas, grotescamente, as barracas dos bandidos, todos absorvidos no jogo, seu vício e passatempo nas horas de folga, passadas na segurança dos coitos". 
             
Vamos reviver a luta e seu desideratum, baseados no que nos contaram o soldado "Bem-te-vi" e o cangaceiro "Criança" que estavam presentes, como já dissemos: 
             
— Nóis tava jogando, no coito, que a gente quando tava discansano u que mais fazia era jogá. Era o Vinti-um, Trinta i-um, Suéca i si passava o tempo jogano. Tinha um na imboscada (de sentinela) i de repente foi tiro.  
                 
— Demorou muito o combate? — perguntei a Criança. 
             
— Olha, num sei, mais num passô di meia hora. E, não foi mais di meia hora. A volante chegô di surpresa, atirando i logo acertaro cumpadre Mariano, i Pavão ou Zepelim não sei bem, vi ferido Pae Véio. Nóis ainda tentamo tira eli, qui tava baliado, mais tornaro acerta eli i mataro, i nóis deixamo nu chão prá podê corre.
                 
Perguntei ao cangaceiro "Criança" (baseado no que Joaquim Góis escreveu e nas conversas que mantivemos por várias vezes na sua casa, em Aracaju):  
              
— Mas dizem que Pae Véio estava vivo quando a polícia entrou no coito e Mariano também. 
              
— Não sinhó, nóis num dexava nunca um baliado, prá num dá o gosto da polícia matá. Quando nóis vimo qui tava morto mesmo foi qui nóis deixamo. Agora, di cumpadri Mariano num sei, nóis tava brigando assim um pouco longe. Quando nóis vimo qui num dava mais prá briga, qui nóis só ia até tê prejuizu maiô, aí nóis corremo.
             
Novamente ocorreu-me perguntar a "Criança" sobre os que estavam presentes. Pois o livro "Lampião, o último cangaceiro" afirmava a presença de "Deus-Te-Guie" nesse grupo, e no mês de janeiro de 1970, em Paripe, fomos recebidos em sua casa. Levados pela mão amiga de Dadá, estabelecemos conversa e perguntamos se o mesmo estivera presente no fogo do Cangalêcho.
               
— Não, nunca estive ali. Prá falar a verdade nem mesmo cheguei a conhecer Mariano. Quando entrei pro cangaço foi no grupo de Ângelo Roque, o Labareda, e que já tinha acontecido a morte de Mariano tempos atrás.

 Ângelo Roque, o Labareda
Soldado "Bem-Te-Vi" e  Cel. Zé Rufino
"Criança" respondeu-nos:
             
— Dali nóis saímos, eu, Santa Cruz, num sei se Pavão ou Zepilim, um dos dois morreu i outro saiu com nóis, Rosinha a mulher de Mariano, i parece que tinha mais um, num sei.
             
Baseados nas informações de Joaquim, dissemos: 
             
— Não seria o cangaceiro "Diferente"? 
             
— Num sei. Mais acho qui não, "Diferente" era aparentado cum "Zé Sereno" i costumava a andá mais eli. Não mi lembro.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgCshvmPm-eoHn5IooyoTUDinOtCfm7jejsEOQDGpzln2gKP9_E2qzc1EzMqcrETc7S7Sd_7N2aSWf5iWLGTpRIRBGUKcg2o-JZjnlVqUdGKcONolMGLIurqLT9jvpLeE8b26Z26pwzLQ/s1600/ZE_SER~1.JPG
Zé Sereno à esquerda da foto

Deixemos os cangaceiros e vamos ouvir o policial, "Bem-te-vi":
             
"Quando o tenente tirou a pista dos cabras, eli feiz sinal cum a mão prá gente i avançanu cum cuidado, sem fazê baruio. Mais elis tinha um cangaceiro emboscado, qui deu u alarma. 
            
O tiroteio cerrou-se pur poco tempo, nóis peguemo elis de surpresa i cum coisa di u'a meia hora já tava acabado. Aí fomo terá arguma pista dus qui fugiro, prá vê si tinha argum baliado. Argum sangue qui deixasse, nu chão, nas fofa di mato. Num tinha. Vortemos pru coito onde tava as barraca qui elis; tinha armado. Tinha trêis pessoa caída. U coiteiro qui tava jogano cum elis i foi baliado i tava morto, dois cangacero ferido quase morreno i otro qui elis quizero arrastá cum elis quandu fugiro tinha caído mais longe um poco i nóis cortemo a cabeça i trotemo prá li. O tenente Zé Rufino discubriu qui um dos baliado era o chefe delis, Mariano". 
          
Aqui vamos abrir novamente um parênteses e voltar ao nosso escritor Joaquim Góis, que nos conta a cena do fim de Mariano.
           
"Aproximando-se novamente de Mariano, José Rufino chama 'Bem-Te-Vi' e, mostrando-o ao inferior, explica-lhe:
                
— Este é o assassino do seu pai. Você pode saciar a sua vingança. Ele ainda está vivo.
             
"Bem-Te-Vi", como um louco, saca do punhal escanchase no quase cadáver de Mariano e sua mão sobe e desce em golpes. brutais. Apunhala com tanta fúria o corpo do bandoleiro, que se ouve aquele ranger estridente e áspero da ponta da arma branca atravessando as carnes e os nervos da vítima, furando e mordendo a terra seca ". Jamais um homem matou com tanta alegria, com tanta volúpia, com tanto sadismo.
             
Era a vingança do filho estraçalhando o corpo daquele que abatera, friamente, o autor da sua vida. Era a lei, a terrível e inflexível lei das caatingas." 
             
Voltemos à conversa com o soldado, "Bem-te-vi", cujo nome real é Severiano: 
              
— Nóis peguemos as armas dos cangacero, us anéis, u dinheiro, us borná, punha, cartuchera, u qui tinha ali se pegô. Já tinham cortado a cabeça de Pae Véio i do otro cangacero i nóis vortemos prá dondi tinha ficado Mariano ... 
              
Recorremos novamente à pena vibrante do escritor Joaquim Góis. "O que vê estarrece e assombra".
             
O cangaceiro a quem o punhal vingativo de "Bem-te-vi" e balas de José Rufino haviam prostrado como morto, vivia ainda e num esforço que se poderia chamar de o milagre do desespero, ensaiava levantar-se.
            

Os dedos enorme e crispados tentavam afastar dos olhos enevoados a pasta dos cabelos empapados de sangue, a cabeleira escorrendo uma espécie de mingau feito de suor e sangue. Ele todo era uma sangria, um corpo todo aberto em talhos profundos de punhal, de pedaços de aço incandescentes que as descargas da polícia despejaram sobre ele.
              
Uma visão para não se esquecer.
              
"Bem-te-vi" ao ver Mariano vivo contra todas as probabilidades do possível, face ao número absurdo de punhaladas que ele sofreu das suas próprias mãos e dos balaços recebidos, desembainha a Colt e encostando-a no peito do assassino de seu pai, prepara-se para o tiro de misericórdia.
            
Corta o ar a advertência de José Rufino:
            
— Tenha cuidado com a cabeça que eu preciso dela.
            
Detonações ensurdecedoras, à queima-roupa, perfuram o corpo já todo esburacado de Mariano e a resistência física do bandido pára na imobilidade da morte". Bem, esse foi o fim desse chefe de grupo, do qual todos os companheiros, com quem tenho conversado, gostavam. Aliás, até mesmo alguns paisanos falam favoravelmente a Mariano.
            
Dizem que era um dos que tinha mais humanidade e benevolência. Afirmam até que era incapaz de uma crueldade. Teria sido mesmo ele o autor da morte do pai de "Bem-te-vi"? Segundo os companheiros, é impossível!


            No último Seminário Cariri Cangaço a maioria dos pesquisadores presentes, analisando fatos posteriores concordaram que esse último seria o cangaceiro PAVÃO e não Zepellim como identificado na legenda. Atualizada em 07 de Outubro de 2010

Bem, esse foi o fim desse chefe de grupo, do qual todos os companheiros, com quem tenho conversado, gostavam. Aliás, até mesmo alguns paisanos falam favoravelmente a Mariano.
             
Dizem que era um dos que tinha mais humanidade e benevolência. Afirmam até que era incapaz de uma crueldade. Teria sido mesmo ele o autor da morte do pai de "Bem-te-vi"?
             
Segundo os companheiros, é impossível!
            
Mas vejamos o fim de sua companheira Rosinha. Ela e sua irmã Adelaide (que também estava em adiantado estado de gravidez, como já o dissemos), escaparam com vida e acompanharam os sobreviventes.
             
Estabeleceram um coito num pé de serra e aguardaram a hora do nascimento das crianças.
            
Chegou por fim o dia e mais uma desgraça abateu-se sobre o grupelho. Adelaide morreu do parto e o bebê também. A criança de Rosinha foi enviada a um padre.
            
Pouco depois encontraram-se com outros grupos. Murmúrios. Confabulam os chefes de grupo, os maiorais do cangaço opinam. Uns acham que a "viúva" pode e deve continuar no grupo de qualquer maneira. Outros são de opinião que deve ser mandada para casa de parentes e calar a boca.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgXYOxRefPNkf0X0KhYI7aU8zlvGcIlis4WGVMtlZ-Pgg7I8BG94K-zIbqCMQcdY4szlxW_TGbjeaGBH_LpOoc5no-_40i6HtIXMiWvOCxEyM7ZrmuqR_yCRwe6wQlHF0Jz_aM_wI2vyQ/s320/10+Luiz+Pedro+-+C%C3%B3pia.jpg
O cangaceiro Luiz Pedro  e sua companheira Neném do Ouro

Luiz Pedro se faz porta-voz de um grupo que conseguira convencer com sua argumentação. Achava, esse grupo, que toda mulher cujo companheiro morresse, e a mesma não achasse um substituto nos bandos, deveria ser eliminada para que o segredo dos "pontos", dos coiteiros não fossem revelados, colocando em perigo a segurança dos fornecedores e protetores.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjUy9b0O97zgm2ngW8d5-lyI6hyphenhyphenH8QX_FiRI7pPCZoODNbVps8eCOBFvRLX9sQ0mUZ174er3Jod0oR0kYV2f1w0AifNg-MOXJWvhDpDnB_RsVZk_zEM3VC2hMq5rQ86EbkwBLiGZBRS1Zg/s1600/coi.jpg
O cangaceiro Corisco

Corisco foi contra essa tese. Dizia que encontraria outros "pontos", outros abastecedores de armas e munição. Foi voto vencido.
             
Rosinha teve o azar de não despertar o desejo do concubinato em nenhum dos companheiros. Luis Pedro fez valer seu parecer, sua sentença. As últimas frágeis resistências foram facilmente vencidas. 
     
Enviaram Santa Cruz, Criança e outros elementos que tinham pertencido ao grupo de Mariano buscar munição em um "ponto" distante Removido esse primeiro obstáculo, disseram à Rosinha que ela seria mandada para a casa dos pais. Apronta-se para viajar.
             
Seu companheiro de jornada seria Pó Corante, o segundo, pois o primeiro com esse apelido foi morto juntamente com Nevoeiro e Jurema lá para os lados de Macururé, já levando ordens precisas dos chefes de como deveria agir.
            
Pó Corante ao retornar prestou contas a quem lhe incumbira de executar tão traiçoeira missão.
            
Rosinha fora morta a punhal e enterrada em cova rasa no meio de uma caatinga brava. Outra versão diz que Pó Corante eliminou-a durante a travessia do Rio São Francisco, quando a canoa em que viajavam estava próxima da margem alagoana, e o cadáver atirado às águas.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS :

1º) Lampião as mulheres e o Cangaço - Antonio Amaury Correia de Araújo;
2º) Lampião - O último Cangaceiro - Autor: Joaquim Góis
3º) Lampião e o Estado Maior do Cangaço - Hilário Lucetti
4º) O cangaceirismo no Nordeste. Bismarck Martins de Oliveira.
5º) Lampião na Bahia - Autor: Oleone Coelho Fontes.

Um abraço a todos.

IVANILDO ALVES SILVEIRA
Colecionador do cangaço.

http://lampiaoaceso.blogspot.com
http://blogdomendesemendes.blogspot.com