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domingo, 25 de dezembro de 2011

O FAMOSO NAZARENO "Cel. MANOEL NETO"

Por: Ivanildo Alves Silveira

O combate de Maranduba - Parte XXII
A perseguição continuou, enfrentando a força de Manuel Neto as mais difíceis privações, passando muita fome e sede. Ao final do ano, na segunda quinzena de dezembro de 1931, a volante voltou a Jatobá (Petrolândia) para ali passar as festas de final de ano. “Para entrar na localidade, foi preciso” esperar o “anoitecer, isto porque a força vinha quase despida.”
 
 
Passadas as festas e refeitos, logo no início de janeiro Manuel Neto partiu à procura dos cangaceiros. Tomara conhecimento de que o grupo se encontrava na vila de Canindé (SE), “ferrando moças”. Requisitou o trem e seguiu para Piranhas. Atravessou o rio e entrou no território de Sergipe, indo dormir na sexta-feira, dia 8 de janeiro (1932), já perto dos cangaceiros.
No dia seguinte continuaram rastejando, aproximando-se cada vez mais dos bandidos. Na vanguarda, o destacamento de Manuel Neto e, mais atrás, os homens sob o comando do tenente do Exército Liberato de Carvalho, na ocasião com o comando geral das forças.
Seguiam na frente os sargentos João Cavalcanti e Hercílio de Souza Nogueira. O primeiro, por volta das 16 horas, avistou os cangaceiros. Pediu a Hercílio que não atirasse; esperasse a força encostar. Assim o ataque surtiria maior efeito. O bando estava bem posicionado, num local estratégico, nas proximidades da fazenda Maranduba.
Impetuoso, Hercílio respondeu que não esperaria por ninguém. Cada qual fizesse o que pudesse. Convidou o companheiro a ver quem avançava mais. Abriu fogo e partiu para cima dos bandidos que, de imediato, reagiram, disparando e avançando contra os dois sargentos e os companheiros que os seguiam.
Já próximo do acampamento dos bandidos, Hercílio foi atingido e caiu.
- “Vala-me, Nossa Senhora. Logo na cabeça...” -, teriam sido suas últimas palavras.
Ao seu lado tombou João Cavalcanti, ou João de Anísia (v. JSF, Tn 8), como era conhecido (Cavalcanti era, por sinal, primo do célebre Horácio Cavalcanti de Albuquerque).
Parte XXIII
 
Tomando conhecimento da morte de Hercílio, Adalgiso, de apenas 15 anos de idade, abandonou o comando do tenente Liberato e correu ao encontro do irmão. Foi atingido, tombando morto sobre o corpo de Hercílio.
Seguiu-se o mais terrível combate travado no eixo Bahia-Sergipe, envolvendo as forças conjuntas e o bando de Lampião. Esclarece Billy Chandler (obra citada, p. 183) que, “embora o número de soldados ultrapassasse o dos cangaceiros na proporção de três para um (aproximadamente 100 soldados para 32 cangaceiros), foram eles quem mais sofreram”. O bando tinha bastante munição e a polícia não conseguiu boa posição para o ataque. “Liberato, em vez de flanquear os cangaceiros, imprudentemente tentou atirar por cima das cabeças de seus colegas pernambucanos.
Em duas horas de combate, as perdas da polícia, tanto infligidas pelos cangaceiros como por seus próprios colegas, foram inúmeras. Pelo menos cinco soldados morreram na cena do combate; entre os doze ou mais feridos, diversos morreram mais tarde, a maior parte por falta de cuidados médicos.”
De Nazaré, caiu morto também Antônio Benedito da Silva. E os cangaceiros, aparentemente, perderam quatro homens, dois dos quais no local da luta. “Contam que havia um outro tão ferido que Lampião, diante do seu sofrimento, matou-o a tiros.”
João Lira (obra citada, p. 512) diz que Manuel Neto, mais tarde, lhe confidenciaria que “nunca tinha visto tanta bala como viu ali”, num “fogo cerrado de ambas as partes, misturados, sem haver recuo”, lutando-se por duas ou três horas com bandidos alcoolizados.
Comandante e delegado
A perseguição a Lampião não cessou. Manuel Neto continuou enfrentando os cangaceiros, destacando-se nos tiroteios da Baixa da Moça, Serra da Canabrava, Serra do Bobodó e do Ninho, e em Caldeirão (22.04.1932), aqui ao lado do tenente Abdon Menezes. Isso no eixo Bahia-Sergipe.
Parte XXIV
Chandler (obra citada, p. 191) diz que, em 1932, os sertanejos baianos viviam aflitos com a presença dos bandidos e, muito mais, com a da polícia. E, de todas as volantes, os nazarenos, “sob o comando de Manuel Neto, eram os mais temidos. Perseguindo Lampião com um zelo fanático, empregavam qualquer método para obter informações”. E, à página 57: “Durante toda a sua carreira, Lampião encontrou poucas pessoas que se empenharam tanto a persegui-lo como esse grupo. Muitas vezes, outros o perseguiram de longe, temendo por suas vidas, enquanto outros podiam ser subornados. Mas os nazarenos, não. Caçaram-no em Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Ceará, e quando, anos mais tarde, ele mudou seu centro de operações para Bahia e Sergipe, foram atrás dele lá”.
Em 1933, Manuel Neto distribuiu armas e munições com alguns fazendeiros e colocou pequenos destacamentos nos locais mais sujeitos aos ataques dos cangaceiros que, vindos da Bahia, “realizavam sanguinárias incursões em Pernambuco”.
Ainda como tenente, foi Comandante das Forças em Operação no Interior do Estado (PE), sendo então obrigado, devido à alta posição de comandante, a afastar-se do confronto direto com os bandidos. Entretanto, ainda haveria de enfrentá-los, como o fez em Porteiras, no município de Floresta, em 1935.
Com o levante comunista daquele ano, o tenente instruiu seus comandados, fazendo-os voltar à sede das volantes para dali, sob seu comando, seguirem para o Recife a fim de dar combate aos comunistas e sufocar o movimento armado que eclodira.
A sua ação, sempre incisiva, ensejara-lhe a promoção a capitão, o que se verificou aos 3 de janeiro de 1936. E, aos 27 de fevereiro, recolheu-se das Forças em Operação no Interior do Estado, passando a prestar serviços na capital. Virgulino e seu bando fixara-se no eixo Bahia-Sergipe e diminuíra suas incursões em Pernambuco. Mesmo assim, Manuel Neto ainda continuou a realizar missões no interior, trabalhando de uma forma intensa e desgastante.
Parte XXV
Enfim, em dezembro de 1936, entrou em gozo de férias, benefício que não obtivera nos anos de 1929, 1930, 1932, 1934 e 1935, o que, por si só, demonstra o empenho do nazareno no combate ao banditismo.
Na capital pernambucana, comandou a 3ª, 2ª e 1ª Companhia do 1º Batalhão, assumindo interinamente por diversas vezes as funções de subcomandante daquele Batalhão. Ficou à frente do Esquadrão de Cavalaria de dezembro de 1938 a junho de 1940. Nesse período, foi louvado “pelo esforço e dedicação demonstrados durante a extinção do grande incêndio verificado num dos tanques da Standard Oil Company of Brazil”, ocasião em que se postou sempre ao lado do comandante Geral, “auxiliando em tudo que era possível, transmitindo ordens e colaborando para a manutenção da ordem pública”.
Mais tarde, ao deixar o Comando da Força, o C.el Rogaciano agradeceu ao capitão Manuel Neto, louvando-lhe o “contingente de esforço dado a sua interinidade no Comando da Força.”
O último grupo de cangaceiros, o de Corisco, foi desbaratado naquele ano de 1940. Chegava ao fim uma luta em que os nazarenos se engajaram desde o princípio, e que levara à morte mais de quinze filhos do povoado e daquela região. Olhando para o primo Manuel Neto, Manoel Flor “achava espantoso que esse homem, ainda com balas no corpo e com tantas cicatrizes, tivesse sobrevivido”.
Manuel Neto, “espigado, de falar macio e andar cauteloso de gato do mato, cujo nome varava o Sertão como uma legenda de bravura” (Luís Cristóvão dos Santos, J. do Commércio - 02.12.82), participara de 35 combates e foi, sem dúvida, o maior perseguidor de Lampião. A sua atuação contra os bandidos deu-lhe oportunidade de mostrar qualidades nas missões mais difíceis, sempre a ele confiadas. “Sua peregrinação pelos sertões foi longa e vitoriosa”. Lampião temia a sua volante: disciplinada, corajosa e guerreira.
Parte XXVI
E explicava: Euclides, além de valente, era cauteloso e hábil estrategista, procurava sempre deixar a salvo os seus companheiros e comandados. Manuel Neto “era doido”, costumava dizer Lampião. Partia para cima dos cangaceiros “feito cachorro azedo”, o que de certa forma facilitava a reação dos bandidos.
O bravo nazareno parecia desconhecer o significado da palavra medo. Parecia, apenas, pois poucos tinham, como ele, tanto medo... de alma! Tinha verdadeiro pavor pelas coisas do outro mundo.
Deixando, em 1940, o Comando do Esquadrão de Cavalaria, o capitão Manuel Neto voltou a comandar a 1ª Companhia, assumindo depois o cargo de Subcomandante Interino do 2º Batalhão, onde foi elogiado pelo comandante que realçou a “dedicação ao trabalho, o empenho em serviço, o amor à disciplina, traduzidos nas diversas modalidades e ainda mais no acatamento ao chefe; o dom da iniciativa e o espírito de corporação”.
A 19 de fevereiro de 1943, foi nomeado Delegado Regional da 11ª Zona Policial, com sede em Ouricuri. Ali permaneceu até o mês de setembro do mesmo ano. Voltou à capital e assumiu o Comando da 2ª Companhia e, no ano seguinte, novamente o Esquadrão de Cavalaria.
Aos 14 de dezembro de 1944, foi nomeado Delegado Regional da 8ª Região Policial, com sede em Sertânia, onde permaneceria até fevereiro de 1946. Nesse cargo, em março de 1945, recebeu elogio do C.el José Arnaldo: “Oficial de muito boa vontade. Rigoroso no cumprimento do dever”.
Em Sertânia, levaria um grande susto: no dia 5 ou 6 de junho de 1945, ao se dirigir a um preso, foi por ele alvejado no abdômen, tendo sido levado em estado grave para a cidade de Pesqueira, onde foi operado e passou a receber todos os cuidados médicos, restabelecendo-se, finalmente.
Sete meses depois, foi promovido a major, por merecimento. Mas, em ato posterior, o Interventor Federal considerou sua promoção “por antigüidade.”
Parte XXVII
Em agosto de 1946, assumiu a Chefia da Assistência do Material e, mais uma vez, recebeu referências elogiosas: “Também é de justiça elogiar o major Manuel de Souza Neto, que vem de ser designado para a Chefia da Assistência do Material, pela dedicação em que se houve no exercício do comando do 3º B.C.. É o que faço com satisfação.”
E logo em setembro do mesmo ano, foi “louvado pelo esforço, dedicação e amor à Corporação, manifestado por ocasião dos treinamentos para a parada de 7 de setembro, concorrendo para o brilhantismo alcançado pela Força Policial de Pernambuco, pelo garbo, marcialidade e disciplina com que se apresentaram seus elementos em público.”
Ao final de 1947, entrou numa fase difícil de sua vida, afastando-se do trabalho por um ano, para tratamento de saúde. Em novembro de 1948, foi operado e desligado do serviço por mais um ano. Finalmente, aos 27 de outubro de 1949, foi transferido, a pedido, para o Quadro Suplementar.
Prefeito
Na década de 1950, com o apoio de João Inocêncio, o coronel Manuel Neto foi eleito prefeito de Ibimirim, passando a fazer uma boa administração .Deixando a prefeitura, passou a viver exclusivamente de sua aposentadoria. Nasceu pobre e morreu pobre, nada deixando para a família.
Calado, introspectivo, não deixava transparecer o homem valente que era. Dificilmente falava sobre suas lutas contra o banditismo. Achava que isso poderia influenciar ou estimular os jovens.
Aos 78 anos, faleceu às 7 horas e 45 minutos do dia 3 de novembro de 1979, no Hospital da Polícia Militar, no Derby (Recife). Seu corpo foi levado para sua terra natal, sendo sepultado em Nazaré.
Morreu solteiro. “Quando se perguntava por que não casava, respondia que era um homem de intrigas e que vivia sujeito” a ser morto “a qualquer momento”. E assim fugia ao casamento. Mas deixou pelo menos dois filhos com Otacília Gomes de Sá:
Fonte:

Aleluia - Roberto Carlos

Matéria da globo sobre a invasão de Lampião em Mossoró

Clique duas vezes para ver os filmes em imagens maiores


Matéria da globo sobre a invasão de Lampião em Mossoró

 
Lampião em Mossoró


Chuva de balas no país de Mossoró


70 anos da morte de Lampião

Quem matou Delmiro Gouveia?

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Gilmar Teixeira
 
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Manoel Severo, honrosamente o mais novo membro da SABRI

Danielle Esmeraldo, Geraldo Ferraz e Manoel Severo, no momento em que era sagrado o mais novo membro da SABRI.

Um dos momentos mais significativos do Cariri Cangaço 2011, foi sem dúvidas a sagração do curador do evento, Manoel Severo, como o mais novo "Sabriano"; membro da SABRI - Sociedade dos Amigos da Briosa, honraria concedida através de seu representante no Cariri Cangaço; pesquisador e escritor Geraldo Ferraz, na manhã do último dia do seminário, 25 de setembro no Auditório do Hotel Pasargada em Crato.

A SABRI - Sociedade dos Amigos da BRIOSA, foi criada em Abril de 2010, por militares e civis e que vem marcando presença e adquirindo novos adeptos, tanto nos quadros da Polícia Militar de Pernambuco, para quem dirige seus objetivos, como nos vários segmentos da área cívico-cultural do Recife.

A SABRI é composta por quase 30 integrantes onde se destacam oficiais da ativa e reserva, entre eles, vários ex-chefes de Casa Militar e Comandantes Gerais da Policia Militar de Pernambuco; empresários, intelectuais, jornalistas e outros simpatizantes da Briosa Policia Militar de Pernambuco, coorporação com quase dois séculos de serviços prestados à história brasileira e pernambucana em particular.

Sobre o surgimento do termo "Briosa" com relação à Policia Militar de Pernambuco, trazemos o comentário do Coronel Carlos Bezerra Cavalcante: " A então Brigada Militar de Pernambuco, principalmente por suas participações contra o cangaço, na revolução constitucionalista, em São Paulo , em 1932, e na intentona comunista, em 1935, quando agiu com brio (galhardia e heroismo) passou a ser cognominada pela sociedade e pela imprensa, de Briosa".

Informações:http://blogdabriosa.blogspot.com/p/institucional.html


Heldemar Garcia
Assessoria de Imprensa e Marketing

Extraído do Blog: Cariri Cangaço
http://cariricangaço.blogspot.com

Veredas do Brasil, Jalapão

 Por: Laser Video

Já tivemos oportunidades, aqui mesmo neste espaço do cariricanagco.com, de trazer as muitas produções sobre a temática cangaço com a marca da Laser Vídeo de nosso amigo


 Aderbal Nogueira; entretanto Laser Vídeo não é só cangaço; o talento de seus produtores e de sua equipe técnica é inegável e enche de orgulho a todos nós cearenses. hoje trazemos mais um grande empreendimento de Aderbal Nogueira: Veredas do Brasil, vale a pena conferir o Jalapão!

DA HUMILDADE E DA FÉ (Crônica)

Rangel Alves da Costa

DA HUMILDADE E DA FÉ
Aqueles que conhecem os sertões, já caminharam pelas suas vastidões e conheceram um pouco do jeito de ser do seu povo, principalmente aquele mais carente e que vive nos lugares mais afastados, haverá de saber que em cada olhar se expressa fervorosamente a fé e a religiosidade.
 Cada povoação é igreja e templo, santuário e cruz erguida nas distâncias do horizonte. É, pois, confortante saber que nestes lugarejos empobrecidos e esquecidos pela sorte e principalmente pelas autoridades, vive um povo decidido a enfrentar as durezas da sobrevivência tendo por base apenas a imensa e inabalável confiança no Deus dos humildes.
Logo na porta da casa a plaqueta indica que Deus mora ali. A imagem grande, ladeada por fitas e rosários logo no primeiro vão da morada, realmente não deixa dúvidas, pois o quadro antigo com a representação divina serve para proteger e abençoar. E no entrevão outra plaqueta diz que “Aqui mora uma família feliz”.
Abaixo do ceu de telhado quebrado ou de palha dispersa, pelas paredes de barro os santos e anjos fazem moradia. Deus Pai Eterno, Nosso Senhor Jesus Cristo, Coração Sagrado de Maria, Santo Expedito, São Jorge, A Virgem Imaculada, Nossa Senhora Aparecida e muitos outros emissários da fé dividem espaço no empobrecido ambiente com duas figuras permanentes na devoção sertaneja: Padim Ciço e Frei Damião.
Não existe hora certa para a louvação, para a prece, para a oração. Aliás, o nome de Deus ou de Nosso Senhor são lembrados a cada minuto e diante de cada situação surgida, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Se o tempo está seco demais, a promessa para a chuva cair; se o filho ausente não dá notícia, a prece para o seu retorno; se algum desassossego incomoda, então a velha senhora vai depressa se ajoelhar aos pés do oratório.
Aliás, possuir um oratório num canto de casa é a riqueza maior que uma família sertaneja pode ter. Ajoelhados diante daquele pequeno ceu se torna mais fácil de serem ouvidos e atendidos na busca de proteção, de resolver problemas, de buscar soluções para tudo na vida. Quando sobra dinheiro da feirinha miúda, logo se avistará uma velinha acesa.
Quando não se tem o oratório, os passos cansados todos os dias caminham em direção à capela, à tímida igrejinha, sempre carregando a esperança de que de lá voltará com as bençãos do mundo. E para confirmar tanta fé, mesmo que ninguém saiba ler mesmo juntando letra com letra, uma velha bíblia poderá ser encontrada aberta num sermão, num salmo, numa parábola. E a oração que já se expressa sozinha no coração, desde o primeiro minuto do acordar ao instante de se benzer pra dormir.
E nos terços, ladainhas e procissões, a coisa mais bonita de se ver e sentir são a tanta, a imensa fé e devoção, de um povo crente que Deus é a terra, é o chão, é a natureza, é a casa, é a vida, é tudo. E verdadeiramente é. Como sempre será diante daqueles que fazem da fé a esperança por dias melhores.
E por isso mesmo entoam: “A nós descei, divina luz!/ A nós descei, divina luz!/ Em nossas almas acendei/ O amor, o amor de Jesus!/ Vinde, Santo Espírito/ E do céu mandai luminoso raio!/ Vinde, Pai dos pobres/ Doador dos dons, Luz dos corações!/ Grande defensor/ Em nós habitai e nos confortai!/ Na fadiga pouco, no ardor brandura e na dor ternura!”.
E incansavelmente: “Vitória, tu reinarás, ó cruz tu nos salvarás!/ Vitória, tu reinarás, ó cruz tu nos salvarás!/ Brilhando sobre o mundo/ Que vive sem tua luz/ Tu és um sol fecundo/ De amor e de paz, ó cruz!/ Aumenta a confiança/ Do pobre e do pecador/ Confirma nossa esperança/ Na marcha para o senhor/ À sombra dos teus braços/ A Igreja viverá/ Por ti no eterno abraço/ O Pai nos acolherá”.
Sem estudo algum, pronunciando erroneamente palavras e até criando outras que dão ideia de expressão, mas quando abrem a boca para o canto glorioso, a prece divina, a cantiga louvando o Senhor, então as palavras saem pronunciadas tão corretamente que parecem doutoras de qualquer coisa.
Formadas na fé. Na fé, devoção e religiosidade. Tanta coisa bonita demais num povo que nem sempre sabe se amanhã vai ter o pão pra comer. Mas nada disso importa, pois Deus virá em seu auxílio, estenderá sua mão, estará sempre ao lado. Aliás, sem essa fé não haveria motivos para a vida, pois a vida é Deus.


Rangel Alves da Costa*
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

Rainha de Castela e Leão

Ficheiro:Isabeldecastilla.jpg

Posteriormente apelidada A Católica. Seus ancestrais na nobreza europeia incluíam Henrique IV da Inglaterra. Pensou a mãe em casá-la com D. Afonso V e com D. Pedro Girón, mestre de Calatrava. Em 1469, celebrou-se o seu matrimónio com Fernando, rei da Sicília e herdeiro de Aragão, primo afastado, filho de Joana Enriquez, senhora de Casarrubios e de João II de Aragão.
Por morte de seu meio-irmão, o rei Henrique IV de Castela, foi proclamada rainha de Castela (1474-1504), depois da derrota de D. Joana, a Beltraneja, filha de D. Joana de Portugal e de Henrique IV de Castela. D. Afonso V, tio e marido de Joana, a Beltaneja, entrou em Castela por Zamora e Toro. O tratado das Alcáçovas pôs fim à luta com Portugal. A morte de D. João II uniu os reinos de Aragão e Castela (1497).
No fim da Reconquista, com a tomada de Granada (1492), a rainha mostrou grande firmeza na governação. Ajudada pelos cardeais Mendoza e Jiménez de Cisneros tentou converter ao catolicismo os muçulmanos e apoiou Cristóvão Colombo na sua expedição ao Novo Mundo (América).
Após a descoberta de Colombo, a rainha se interessou pelo bem estar dos americanos nativos. Ordenou que aqueles que tinham sido levados à Espanha retornassem e por dispositivos em seu testamento determinou que os nativos fossem bem tratados nos territórios controlados pelos espanhóis. Seus desejos no seu testamento não foram sempre honrados.

Monumento a Isabel I de Castela (Madrid, Espanha)
Seu legado também tem um lado mais politicamente incorreto: favoreceu a inquisição espanhola (esta que não era uma intituição da Igreja) e foi responsável pela expulsão dos judeus da Espanha em 1492 (Decreto de Alhambra).
Foi das mulheres mais inteligentes e dinâmicas de então, com papel importantíssimo para manter Castela independente de Portugal.

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sábado, 24 de dezembro de 2011

Segunda Visita de Lampião à Dores

Por: José Lima Santana
Matriz de Nossa Senhora das Dores - SE

De Capela, o bando de Lampião seguiu para Aquidabã. Em Dores fez uma boa "arrecadação". Fala-se que a extorsão rendera uma considerável quantia, que, segundo os mais diversos depoimentos, varia entre 3:000$000 (três contos de réis) e 25:000$000 (vinte e cinco contos de réis), como já foi dito. São dizeres dos populares, sem comprovação.
José Anderson Nascimento, por exemplo, que muito conversou com um dorense, Rivadávia Brito Bonfim (08.02.1920-18.09.1991), que, à época, era uma criança de 9 anos de idade e, como outras crianças, estivera no cenário da "visita" de Lampião, e, mais ainda, era filho do Intendente Manoel Leônidas, diz que a "coleta" rendera "dois contos, cento e oitenta e hum mil réis" (1996, p. 205). Vera Ferreira, neta legítima de Lampião, e Antônio Amaury afirmam, sem, contudo, citarem fontes, que a extorsão em Dores rendera "quatro contos e quinhentos mil réis, num procedimento que alguém chamou de "saque elegante"" (1999, p. 174). Como visto, há quem fale em dois, três, quatro, cinco, dez contos de réis e por aí à fora. Os valores citados são os mais díspares possíveis. Quem irá saber?
No depoimento anteriormente referido, Afonso Rodrigues Vieira, que fora, durante muitas décadas, um dos mais prósperos e probos comerciantes dorenses, no ramo de tecidos, e, em 1929, contava com 26 anos de idade, prestou, ao autor deste artigo, o seguinte depoimento: "Cada um dos cinco homens chamados por Lampião teve de dar-lhe três contos de réis, enquanto o Padre Marinho e o Intendente, de posse de uma lista, arrecadaram outros dez contos de réis". A coleta foi confirmada por Pedro Vieira Teles, que, contudo, não mencionou quantias. Tomando a versão de Afonso, teriam sido coletados, então, vinte e cinco contos de réis. Parece uma quantia por demais vultuosa para ser extorquida numa cidade como Dores, naquela época, embora fosse uma cidade próspera, com muitas usinas de beneficiar algodão, além de ser um dos municípios que produziam o melhor algodão de Sergipe, como atestam os mais diversos escritos, em livros e jornais, desde o fim do século XIX até a década de 1940, quando o algodão definharia para dar lugar ao gado bovino, que voltaria a ser a base da economia dorense, até os dias de hoje. Acima de tudo, era dia de feira e estava-se no meio da tarde, o que teria facilitado a extorsão.
Entretanto, o que deve ser analisado, de antemão, é o seguinte: considerando que Lampião surrupiou três contos de réis, como disse o Cel. Figueiredo, sendo esta a menor quantia de que ainda hoje se fala em Dores (ressalvada a citada por NASCIMENTO), ele roubou do povo dorense, no mínimo, o equivalente a quase 10% (dez por cento) da receita orçamentária da Intendência Municipal de Nossa Senhora das Dores daquele ano, estimada em pouco mais de 30:000$000 (trinta contos de réis). Era, de qualquer forma, muito dinheiro, até mesmo para uma cidade que possuía uma dezena de usinas de beneficiar algodão. E era famosa pelo algodão de boa qualidade que plantava e colhia.
Em Capela, segundo Ranulfo Prata (Ob. cit. p. 87) Lampião, ao fazer um pagamento, deixara à mostra "várias notas de 500$000 (quinhentos mil réis), gabando-se que com ele levava três coisas: coragem, dinheiro e bala. Mas também na "Princesa dos Tabuleiros" o bandoleiro exigira a sua "bolsa", inicialmente estipulada em 20 contos de réis, mas "contentando-se depois com o que foi conseguido, 5 contos e pouco" (PRATA, Ob. cit., p. 86). Fala-se também em seis contos de réis.
Um dos crimes recorrentes de Lampião era exatamente o saque. Ranulfo Prata afirma que o bandoleiro costumava carregar o produto dos saques numa mochila "papo de ema", onde só guardava "dinheiro em cédulas de números graúdos, bem acamadas, cabedal que atinge, nos tempos de boas colheitas, 70 a 80 contos" (s/d, p. 29). Passada a "visita" de Lampião, a Intendência Municipal de Nossa Senhora das Dores (Prefeitura, de hoje) contratou homens armados para fazerem a defesa da cidade, que se postavam nas principais entradas. Eram as "trincheiras", assim chamadas. Uma delas ficava na esquina da Rua Edézio Vieira de Melo com a Rua Benjamin Constant, comandada por um tal Batista. E o chefe de outra delas era José Raimundo, pai de Elpídio sobre quem se falará adiante.
Há, inclusive, registros de folhas de pagamento de algumas dessas pessoas, embora datadas de 1932, quando já era Intendente Municipal Raul Silveira. Numa dessas folhas (de 8 de agosto daquele ano) constam os nomes de Enock Menezes Campos, Pedro Francisco Dantas, Antônio Pedro Santos, Brasilino Vieira, Ludugero, João Andrade e Arnaldo Gomes, como "pessoal no serviço de defesa da cidade, em repressão ao banditismo nesta semana finda". Cada um ganhava diária de 1$500 (mil e quinhentos réis), exceto Ludugero, que recebia diária de 3$000 (três mil réis), devendo ser, à época, o chefe. Noutra folha, de 14 de novembro de 1932, consta apenas o nome de Zeca de Bem Dona, como "pessoal da patrulha em auxílio à força aqui aquartelada nesta semana finda". Pelo teor do escrito na folha, é de supor que havia outros nomes, pois se faz menção "ao pessoal da patrulha". Claro, não seria apenas uma pessoa a formar a patrulha aludida. Outras folhas de pagamento não foram encontradas, lamentavelmente. Todavia, registra-se, em 10 de agosto de 1932, a autorização de pagamento da quantia de 188$000 (cento e oitenta e oito mil réis), referente a "passagens desta cidade a de Capela para a Força Pública do Estado e para o 28 BC". Estariam essas forças militares dando caça aos cangaceiros? Nessa época, entrementes, não se tem notícia de Lampião por estas bandas.
Voltemos, agora, a 1930, ou seja, à segunda passagem de Lampião por Dores, quando ele matou José Elpídio dos Santos, daí resultando o único processo criminal aberto contra Lampião em Sergipe.
Era 15 de outubro. Desta feita, Lampião fizera o caminho inverso: Aquidabã, Capela e Dores. A segunda passagem do bando de facínoras não foi mais pacífica. Batido por populares em Capela, após várias atrocidades cometidas em terras de Aquidabã e propriedades encontradas pelo caminho, incluindo-se alguns assassinatos, como relata Ranulfo Prata (Ob. cit., p. 94-95), Lampião tomara o rumo de Dores, onde as trincheiras o aguardavam. Precisa deve ter sido a mensagem do telégrafo enviada por Capela, relatando os sucessos daquele dia. Disso ele sabia muito bem, pois tinha uma eficiente rede de informações. E tanto assim era que, chegando ao subúrbio Cruzeiro das Moças, por volta das oito horas da noite, e temendo reação idêntica à de Capela, dirigiu-se à casa de Elpídio, perguntando-lhe: "Você não é Elpídio, filho de José Raimundo das trincheiras? Vamos já, me mostre onde ele está e quanta gente tem nas trincheiras". É de notar que Lampião fora direto para a casa do filho de um dos chefes dos guardiões da cidade, José Raimundo, também conhecido por "Zé Fateiro", pois vendia fato de boi fresco na feira da cidade, conforme depoimento de Pedro Vieira Teles.
Como Lampião soubera que ali residia quem lhe interessava? Por isso foi dito que a rede de informações de que ele dispunha era eficiente. A conversa de Lampião acima transcrita consta do depoimento prestado pela viúva de Elpídio, Maria da Conceição, também conhecida por Clemência, nos autos do processo mencionado. Pelo que consta do citado processo, o bando de Lampião, desta vez, dobrara, em relação ao que estivera em Dores no ano anterior: eram 18 cangaceiros. A partir daquele momento, os fatos que se seguiriam foram, em resumo, os seguintes:
1. Seqüestrou Elpídio, amarrando-o em um dos cavalos que serviam de montaria ao bando.
2 Adiante, rumando pelas cercanias da cidade, seqüestrou Antônio da Silva Leite, que encontraram no caminho, temendo, claro, que ele delatasse o bando. Antônio escapou das garras dos bandidos na bodega de Santo.
3 Saqueou a bodega de Manoel Martins Xavier (Santo Bodegueiro), que não se encontrava em casa, e seqüestrou sua mulher, Sergina Maria de Jesus, também conhecida por Constância, deixando os seus filhos pequenos sozinhos, sem os cuidados maternos.
4 Seqüestrou Pompílio da Silva, que se dirigia à cidade para comprar querosene, mas que conseguiu fugir, na fazenda Candeal, enquanto o bando ali dormia.
5 Dormiu com a mulher de Santo (o braço dela amarrado na perna dele). Lampião e Sergina dormiram no mandiocal, enquanto os cabras dormiram na beira da estrada, segundo depoimento dela, nos autos do processo.
6 Na madrugada de 16 de outubro, matou Elpídio e mandou Sergina voltar para casa. No laudo de corpo cadavérico, consta que o corpo da vítima estava perfurado a balas, e havia, ainda, um "rendilhado" de punhal. Os dedos das mãos, sob as unhas, estavam perfurados e a barba estava queimada. Ou seja, Lampião e seu bando torturaram Elpídio, antes de matá-lo, com requintes da maior crueldade e covardia. A vítima morreu, mas não delatou seu pai e os que se encontravam com ele, na defesa da cidade. Um homem de coragem.
Coragem que Lampião não demonstrou, pois não teve tutano para entrar na cidade, preferindo, assim, assassinar o pobre Elpídio, num ato típico dos covardes.
Aliás, no depoimento prestado por Pompílio da Silva, nos autos do processo, foi dito que "a vítima deste processo ia na frente do grupo sinistro, sendo que a vítima ia amarrada pelo pescoço do cavalo em que ia montado um dos cabras" e que "ia calado, nu da cintura para cima, com a cabeça descoberta, parecendo com um mártir".
7 Seqüestrou o vaqueiro Jason Teixeira de Vasconcelos, na fazenda Candeal, para mostrar ao bando a casa de um tal Janjão, no caminho para o povoado Taboca. Jason foi solto logo depois, a pedido. E Janjão conduziu o bando ao povoado.
8 Saqueou, na Taboca, as bodegas de José Gomes e da viúva do finado Cezário, espancando-a, pois esta não tinha dinheiro para lhe dar.
9 Matou um pobre rapaz, que era alienado mental, na saída da Taboca. Dito rapaz teria mexido com o cavalo de Lampião, segundo dizem. No processo, há menção a essa morte, mas não se abriu inquérito por conta desse outro bárbaro assassinato. Por que? Por tratar-se de um pobre alienado mental, morador de um pequeno povoado?
10 Castrou Pedro José dos Santos, vulgo Pedro Batatinha, que vinha da Malhada dos Negros, a fim de arrancar um dente, em Dores, que não lhe deixava trabalhar há dias. Chegando no povoado Tabocas, Batatinha ouvira dois disparos. Era o assassinato do alienado mental.
Ranulfo Prata relata o ocorrido, segundo depoimento que lhe prestara o próprio Pedro Batatinha: Prosseguindo, encontrou o bando de Lampião cercando o cadáver de um homem que acabava de ser assassinado naquela horinha. Foi logo cercado e revistado, tomando-lhe a quantia de 20$000, único dinheiro que trazia. Obrigaram-no, em seguida, a voltar com eles, e ao chegarem ao povoado "Cachoeira do Tambory" [na verdade, Lagoa dos Tamboris], apearam-se todos dispersando-se pelas casas da povoação e ficando ele, Batatinha, preso entre dois do bando, no terreiro da casa de Sinhosinho, casado com uma sua prima, onde fora Lampião sentar-se em um tamborete, na saleta da frente, à espera de um café que mandara fazer. Os dois bandidos começaram, então a surrá-lo a chicote de três pernas, ambos ao mesmo tempo, sem motivo, sem quê nem pr"a quê. Empolgou-se de tamanho terror que não sentiu dores.
Após a sova, eis que chega um terceiro, de apelido "Cordão de Ouro". Ordena-lhe que descesse as calças e, segurando-lhe os dois testículos, cortou-os de um só golpe, atirando-os fora, debaixo das gargalhadas e chacotas dos companheiros. Disse-lhe o facínora:
- Quem lhe fez isto foi "Cordão de Ouro", é a lei que manda e tenho feito em muitos.
Lampião, calado, assistiu à cena, perguntando, depois, ao castrador:
- Corto tudo?
- Não, respondeu-lhe este. Deixei o resto porque o rapaz é novo (Ob. cit., p. 97-98). Encurtando a história, que é longa, os bandidos ainda deram pontapés e pranchadas de punhal em Batatinha. Lampião ao montar, aproximou-se dele, sacou do punhal e cortou-lhe um pedaço da orelha esquerda, acrescentando:
- É um garoto que precisa sê marcado, p"ra eu conhecê quando encontrá.
E voltando-se para as pessoas presentes, preveniu-lhes:
- Vocês trate do rapais senão quando eu passá aqui arrazo cum vocêis todo (PRATA, Ob. cit., p. 98). Batatinha, enfim, fora socorrido pelo Dr. Belmiro Leite, em Aracaju. Escapou e, segundo informações colhidas, morreu, na década de 1990, em São Paulo. Além de Ranulfo Prata, alguns autores que escreveram sobre Lampião registraram o fato da capação de Batatinha. O autor fecha o episódio narrado em seu livro da seguinte maneira; Ao lado de todas estas tragédias, a nota burlesca: Depois de ouvirmos o pobre Pedro e fotografá-lo, conversamos também com um dos seus irmãos, que nos informou na sua linguagem pitoresca de tabaréu malicioso:
- Pedro casou, ta gordinho que nem "bicho de dicuri", e sem bigode. Penso que ele não dá conta do matrimonho; regula duas muié numa cama... (Ob. cit., p. 98).
Foi apenas isso que Lampião praticou em Dores, entre 15 e 16 de outubro de 1930. Ou seja, pouquinha coisa... Quase nada... Pensando bem: "nadica de nada!". Sujeito bom, Lampião. De finíssimo trato!
Com relação ao processo, o mesmo foi resultado do inquérito policial instaurado pela Portaria de 16 de outubro de 1930, pelo Delegado Antônio Paes de Araújo Costa. Funcionou como escrivão Petronilho Menezes Cotias (pai de Paulo Bonfim e avô de Jorge Américo); como Promotor Adjunto, atuou Artur Dias de Andrade, genitor de José Barreto de Andrade, antigo e conceituado comerciante em Aracaju, tendo aquele apresentado a respectiva Denúncia em 19 de dezembro de 1931; como Juiz Municipal do Termo de Nossa Senhora das Dores, funcionou Nicanor Oliveira Leal, que seria, tempos depois, Desembargador, e que tinha larga parentela em Dores, sendo primo, por exemplo, de Maria Lídia de Afonso. Mais tarde, funcionaria no processo, como Promotor Público, o Dr. Joel Macieira Aguiar, que também se tornaria Desembargador, e que às fls. 37 dos autos deixou esta mensagem: "Seja-me, pois, permitido, como Promotor Público da 6ª Comarca, com sede em Capela, deixar nestes autos os meus aplausos à justiça do termo de Dores por ter instaurado processo contra o grande bandido Virgulino Ferreira". Não será custoso lembrar que, pela organização judiciária de Sergipe, na década de 1930 Dores estava ligada à Comarca de Capela. Formidável, sem dúvida, é a certidão passada pelo Oficial de Justiça Januário Bispo de Menezes, pai da saudosa funcionária pública municipal, Maria Nicolina de Menezes, a popular Nicola, em 26 de dezembro de 1931, que diz:
Certifico que, em cumprimento do mandado retro, fui ao Sítio Assenço, deste termo e, nesta cidade, intimei todas as testemunhas constantes do mesmo mandado. Ficaram todas bem cientes, deixando de intimar o denunciado de folhas, Virgulino Ferreira, conhecido por Lampião, por não ter, graças a Deus, visitado esta cidade aquela indesejável fera. O referido é verdade, do que dou fé.
Enquanto, em Nossa Senhora das Dores, a população amanhecia estarrecida com a morte brutal de Elpídio, na manhã daquele dia 16 de outubro de 1930, a situação política fervia em Aracaju. Ariosvaldo Figueiredo relata: "Às 6 horas da manhã de 16/10/1930 avião sobrevoa Aracaju, deixa cair Manifesto de Juarez Távora, intitulado "Aos briosos camaradas do 28 BC e ao heróico povo da nobre terra de Tobias Barreto"" (Ob. cit., p. 205).
Ibarê Dantas registra: "Depois que um avião, na manhã do dia 16.10.30, distribuiu em Aracaju manifestos dando conta do avanço das forças revolucionárias, provenientes do Norte, em direção à capital, o Presidente do Estado fugiu e o capitão Aristides Prado, de acordo com Juarez Távora, empossava o tenente-médico Eronides de Carvalho como Governador Provisório do Estado de Sergipe" (1983, p. 46).
Nossa Senhora das Dores perderia a oportunidade de ter um dos seus filhos, Chico Porto, governando os destinos de Sergipe. E ficaria, naquele fatídico 16 de outubro, de enterrar outros dois dos seus filhos, José Elpídio dos Santos e o rapaz da Taboca, cujo nome não se registra, barbaramente assassinados pelo "Capitão" Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, o decantado "Rei do Cangaço", e seu bando sinistro. Mas, capitão ou rei, cangaceiro é cangaceiro, bandido é sempre bandido. É uma pena que não se tenha dado a uma rua do, hoje, bairro Cruzeiro das Moças, o nome de Elpídio, que morreu sem trair a sua cidade. Há pessoa mais digna do que ele para ser lembrado para sempre pelos dorenses? Mas, é bem verdade que Elpídio não era doutor, nem um homem ilustrado ou rico. Não era da Praça da Matriz, nem do Calçadão da Getúlio Vargas, etc. Alguém o conhecia? Era apenas um homem simples do povo.
E um homem simples do povo, na visão caolha das chamadas "elites dominantes" (?), não deve merecer ter o seu nome gravado numa rua. A hipocrisia das pessoas é uma estupidez sem tamanho! Espero que, agora, algum dos nossos vereadores possa lembrar de José Elpídio dos Santos. Ele foi, sem nenhum favor, um ilustre filho de Nossa Senhora das Dores, que, diante do tenebroso Lampião, não se acovardou, não traiu a sua cidade e os seus. Quantos mais fariam isso? Assim, viva Elpídio!
José Lima Santana
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Autor:   José Lima Santana - cariricangaco.blogspot.com
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