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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O CORONEL DELMIRO GOUVEIA

O casarão onde morava Delmiro no bairro de Apipucos passou a ser o salão das grandes festas da sociedade de Pernambuco.
Chamava atenção o carinho que tinha em público com a mulher Anunciada, com quem se casara em 1883, aos 20 anos. Isso não o impedia, no entanto, de ser um boêmio e ilustre frequentador dos melhores bordéis da cidade.
O capricho nas vestes e a sintonia com os costumes europeus – viajava sempre aos Estados Unidos e à Europa – fez com que ditasse moda no Nordeste. Ficaram famosos, como lembra José Airton na sua biografia, os “colarinhos Delmiro Gouveia”, mais altos do que os usados comumente à época, muito engomados e brancos. “O indiscreto charme da burguesia”, comenta o autor do livro.
Fonte:

Hoje na História - 29 de Dezembro de 2011

Por: Geraldo Maia do Nascimento
 
Em 29 de dezembro de 1954 D. Jaime de Barros Câmara, Arcebispo do Rio de Janeiro, empreende visita a Mossoró, onde recebeu magnífica
manifestação de apreço dos mossoroense à sua chegada e durante a permanência de cinco dias em nossa cidade.
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Autor:
Jornalista Geraldo Maia do Nascimento


Postado por: "Blog do Mendes e Mendes"

Nossa eterna gratidão...

Por:Manoel Severo
Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço

Construir um evento como o Cariri Cangaço; sob todos os aspectos,  exige, além de muita determinação, esforço e responsabilidade; o comprometimento de uma espetacular equipe de trabalho e o decisivo apoio de parceiros vitais.

Novamente, neste 2011 que finda, reeditamos essa grande festa. 
Foram seis dias de intensas atividades, mais de 60 horas de "agenda cheia"; manhã, tarde, noite e às vezes...madrugada à dentro; hospedagem para 125 convidados, almoço festivo e jantar temático, invariavelmente para cerca de 150 pessoas; vários teatros, ginásios, auditórios, logística de som, projetor, telão, recepção, limpeza dos locais, montagem, latada do livro, produção e
ajustes de kits promocionais, assessoria aos meios de comunicação, cerimoniais, música, imagens, traslados, transportes internos nos mais de 1.000 km rodados dentro do evento... e o cuidado para possibilitar aos mais de 2.000 participantes nas sete cidades anfitriãs, o melhor que podíamos.

A todos os colaboaradores: da SBEC, do GECC, das prefeituras do Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Barro, Aurora, Porteiras, aos queridos amigos da imprensa, companheiros do ICC, do ICVC do Pró Memória, dos SESCs Crato e Juazeiro, da Expresso Guanabara, do Hotel Pasargada, da Laser Vídeo, enfim.. a cada um de vocês e a todos vocês; que estiveram, estão e estarão ao nosso lado na construção desse sonho; nesta época maravilhosa de festas natalinas; o nosso mais sincero e verdadeiro sentimento de gratidão. Muito obrigado; muito, muito, muito obrigado e até 2012, com mais um Cariri Cangaço.
Então que venha o fantástico ano de  2012 !!!

Manoel Severo
Cariri Cangaço
 
 

Que venha o fantástico ano de 2012



Uma pequena homenagem a alguns dos muitos que acreditara ao nosso lado, que era possível.
Muito obrigado, muito obrigado mesmo.

http://cariricangaco.blogspot.com/

http://blogdomendesemendes.blogspot.com/

O LENDÁRIO DELMIRO GOUVEIA

O legendário Delmiro Gouveia, aliás, Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, nasceu em 5 de junho de 1863 na Fazenda Boa Vista de proprieade do seu avô, o coronel Félix José de Souza. Ficou para a História como o “Rei do Sertão” por sua riqueza, filantropia e coragem no desafiar o poderio econômico dos ingleses no Nordeste do Brasil.

Uma das suas maiores marcas foi a de  ser pioneiro da industrialização e da produção de energia hidroelétrica no Brasil. Na cidade de Água Branca, sertão de Alagoas, Delmiro instalou o seu parque industrial.
Mandou buscar técnicos nos Estados Unidos da América do Norte, de onde importou equipamentos e, já no inicio da primeira década do Sec. XX, quando grandes centros regionais como o Recife e Salvador eram ainda iluminados a gás, as suas indústrias eram movidas por energia elétrica.
Foi mãe de Delmiro Gouveia a pernambucana Leonila Flora da Cruz Gouveia. A qual ficara viúva do Major Delmiro morto na Guerra do Paraguai na campanha de Caimbocá. Havendo, o major Delmiro, sido companeiro de fileiras do, então, tenente Lourenço Alves Feitosa e Castro com quem firmou fraterno relacionamento e de quem o seu irmão, coronel José Porfírio Farias de Souza, viria a ser o mais aguerrido correligionário na oligarquia aciolista.
 No Recife do começo do Séc. XX, Delmiro Gouveia construiu uma rede de mercados já na concepção de “shoppings malls”. O mais importante, incendiado a mando de Sigismundo Gonçalves, em concílio com o Cons. Rosa e Silva, em 2 de Janeiro de 1900, hoje abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco. Mais conhecido por Quartel do Derby.
No comércio Delmiro passou a exportar 1,5 milhão de toneladas de pele por ano. Ressalta Caesar Sobreira registrar Gilberto Freyre ter sido o comércio de peles de monopólio israelita.  Restando evidente haver-se Delmiro Gouveia servido da sua identidade ancestral.
Já na iniciativa industrial, em mais um arroubo de ousadia, Delmiro fundou a Companhia Agro Fabril Mercantil; a qual, logo nos primeiros  meses, passou a produzir 216 mil carretéis de linha de algodão. A morte de Delmiro Gouveia fez-se mistério; se não sabe ao certo se foi mandado assassinar por seus concorrentes ingleses ou por seu ferrenho inimigo Sigismundo Gonçalves: governador de Pernamuco.
Quem jamais perduou Delmiro da sova que lhe aplicou na, então, movimentada e chique Rua do Ouvidor na cidade do Rio de Janeiro. Bem como haver Delmiro feito sua amante, com quem fugiu para Alagoas, Carmela Eulina do Amaral Gusmão: filha natural de Sigismundo. Delmiro teve ainda, como acérrimo inimigo  ao conselheiro Rosa e Silva de quem Sigismundo era correlginário.
O coronel José Porfírio Farias de Souza, tio de Delmiro Gouveia, dono dos Sítos São Paulo, Mato Grosso e São Félix na Serra da Ibiapaba e Boa Vista, na cidade, casou-se com Maria Elvira de Andrade de  Paula Pesoa.
Sobrinha do senador Francisco de Andrade de Paula Pessoa. Filha de Leocádio de Andrade Pessoa e Hermelinda Pereira Jacinto da Motta Pessoa; sendo ele desembargador do Tribunal de Relação da Província do Maranhão.
Francisco de Andade de Paula pessoa nasceu em 24 de Março de 1795, vindo a morrer, aos 84 anos, em 16 de Julho de 1879. Era filho do capitão-mor Thomaz Antônio Pessoa de Andrade e de Francisca de Brito Pessoa de Andrade; prima, em primeiro grau, do legendário José Agostinho de Macedo: polítco, escritor, poeta e clérigo português. Ver “link” à margem direita desta página.
Francisco era irmão de João de Andrade Pessoa, o célebre Dr. Anta, junto a quem tomou parte na Confedrção do Equador. Ao contrário do irmão, teve comutada a pena de morte por enforcamento. Mas, confiscados todos os seus bens. Já pai de quatro de sies filhos, Francisco passou-se ao Rio de Janeiro. Onde, as quarenta anos, iniciou os estudos de Direito aos auspícios de correligionários.
De volta a Sobral, foi eleito presidente da Câmara. Membro do Conselho Geral. Coronel Comandante da Guarda Nacional. Para, mais uma vez, ser eleito vice presidente da província do Ceará e, depois, senador confirmado pela Carta Imperial de 23 de Dezembro de 1848.
O senador Paula Pessoa foi membro honorário do Instituto de Advogados da Corte. Vindo, em 1850, a ser elevado a Fidalgo Cavalheiro da Casa Imperial. Um seu neto, Francisco de Paula Rodrigues, filho de Maria Luiza de Paula Rodrigues e do conselheiro Antônio Joaquim Rodrigues Júnior. Viria  ser doutor em medicina pela faculdade do Rio de Janeiro. Deixou váras dissertações cietíficas. Vindo a ser sócio do célebre Dr. Wecker de Paris e do renomado Dr. Moura Brasil.
O coronel José Porfírio Farias de Souza teve por preceptor ao seu tio avô Joaquim Ignácio Loyola de Albuquerque Melo, de codinome revolucionário Padre Mororó; mártir da Conederação do Equador. Executado por fuzilamento, em 30 de Abril de 1825, no ângulo norte do Paseio Público da cidade de Fortaleza.
O seu pai coronel Félix José de Souza, era filho de Fancisco de Souza Oliveira, aliás, Francisco Loyola de Albuqerque Melo. Se não sabe ao certo, se originário da Paraíba ou de Pernambuco. Irmão de Gonçalo Ignácio Loyola de Albuquerque Melo, o Padre Mororó, secreário do presidente da Província do Ceará, Tristão Gonçalves de Alencar Araraipe quando da Confederação do quando da Conferação do Equador.
É cercada de mistérios a vida de Franscisco de Souza Oliveira, na verdade Francsico Loyola de Albuquerque Melo, pai do coronel Félix José de Souza. Avô do coronel José Porfírio Farias de Souza. Bisavô de Luís Porfírio Farias de Souza.
Refugiado do terror de Estado que fez  o inferno das famílias marranas da Paraíba e de Pernambuco. Francisco casou-se, no Ceará, com Agueda Xavier de Mattos Madeira: filha do não menos misterioroso Manuel de Mattos Madeira. Legendário português que se passou à povoação do Riacho dos Guimarães, próximo a Sobral, então Caiçaras.
Diz-nos o Barão de Studart, no seu “Dicionário Bio-Blibliographico Cearense” Vol -I-, pag. 259/260, ao testemunho de Manuel Ximenes de Aragão que, ao morrer Mattos Madeira, verificou-se dos seus papéis tratar-se de um ” alto titular da nobreza de Portugal. Porém, de nome diverso.” Em fuga da ortal preguição que lhe movia o Conde de Oeiras: minstro do Rei Dom José I.
Infelizmente, o linhagista deixou-nos de registrar  o seu verdadeiro nome. Quiçá, propositadamente! Hoje eu ando à caça dessas anotações, jamais publicadas, de Manuel Ximenes de Aragão falecido por volta de 1870; para resgate da sua ascendência.
São, ainda, primos em primeiro grau do coronel José Porfírio Farias de Souza: Thomaz Pompeu de Souza, o Senador Pompeu; Milton de Souza Carvalho, presidente do inaugural do conselho de administração da Usina Siderúrgica Nacional;  Félix Cândido de Souza Carvalho, desembargador presidente do Trbunal de Justiça do Estado do Ceará, este, por seu turno,  cunhado de Maria Elvira de Andrade de Paula Pessoa. Ela, por sua vez, prima do legendário chefe de polícia Vicente de Paula Pessoa: o Vêpêpeia.
São estas as raízes do parentesco dos Ximenes de Aragão com os decendentes do coronel José Porfírio Farias de Souza, tio de Delmiro Gouveia, cujo filho Luís Porfírio Farias de Souza viria casar com Maria das Mercês Alves Feitosa e Castro: filha do coronel Lourenço Alves Feitosa e Castro; patrono do 23.° Batalhão de Caçadores sediado na cidade de Fortaleza.
Lourenço Alves Feitosa e Castro era filho de Luzia Alves Feitosa e Vale e do capitão-mor Lourenço Alves de Castro. Sendo este filho de Leandro Cstódio de Olivira e Castro e neto de Bernardo de Freire e Castro do Engenho Tamatanduba, limítrofe do Engenho Cunhaú de Jerônimo de Albuquerque Maranhão no Rio Grande do Norte. Sendo neto  da única filha de Manbuel Martins Chaves, aliás, Manuel Gonçalves Vieira.
Manuel Martins Chaves deixou a cidade de Penedo, Alagoas, por ocasião da morte do seu pai Antônio Gonçalves Vieira: acusado de crime de usura  e de ser judaizante. Manuel Martins viria fazer-se o terrível chefe dos Feitosa, no dizer de Henry Koster, em seu “Viagens ao Nordeste do Brasil”.
A região em que se situa a cidade de Ipueiras, Ceará, fez parte da imensa sesmaria que pertenceu a Manuel Martins Chaves, coronel do 5.° Regimento de Cavalria de Vila Nova d’El Rey e presidente do senado da Vila de São João d’El Rey; uma das mais curiosas figuras da história colonial.
Certo dia do ano de 1806, o governador da capitania, João Carlos Augusto d’Oeynhausen Gravemburg, resolveu por fim ao poderio de Manuel Martins Chaves acusado de vários crimes, dentre muitos, o de matar o juiz ordinário Antônio Barbosa Ribeiro.
O certo é que Manuel Martins, querendo ser gentil ao governador, o acompanhou na sua revista por várias pousadas até que, na Serra da Ibiapaba o revés o alcançou.  Em uma latada, armada para o refrigério dos oficiais,  estava uma coroa depositada sobre uma mesa. João Carlos indagou de Manuel Martins se este sabia a quem pertencia.
Ao que ele respondeu afirmativamente que à sua majestade a Rainha Dona Maria. O governador retrucou para dar-lhe voz de prisão. Manuel Martins foi remetido para Lisboa. Para o terrível encarceramento do Limoeiro: Palácio da Inquisição. Onde morreu dois anos depois; em conseqüência das torturas sofridas.


Postado por: Blog do Mendes e Mendes

O coronel dos coronéis


Dilton Cândido Santos Maynard

Era um homem temido e extremamente sedutor. Dizem que tinha imã nos olhos e detestava gente preguiçosa. Quando ia à cidade, vestia-se elegantemente, com direito a bengala e cartola.

Estava sempre perfumado. No sertão, manejava com habilidade o chicote e sabia fazer-se respeitar. Em todo o Nordeste, chamavam-no coronel Delmiro Gouveia, ou simplesmente “coronel dos coronéis”.

Coronel Delmiro Gouveia

Em meio à pobreza e ao atraso do sertão, Gouveia criou a usina hidrelétrica Angiquinho, encravada nas paredes de uma cachoeira, para obter eletricidade das águas do Rio São Francisco. Com a energia, impulsionou a Companhia Agro-Fabril Mercantil (CAM), conhecida como Fábrica da Pedra — a primeira a produzir linhas de coser no país.

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em 5 de Junho de 1863 em Ipu, Ceará. Órfão de pai, mudou-se ainda criança para Recife. Depois de perder a mãe, em 1877, caiu no mundo, dedicando-se a vários ofícios: foi tipógrafo, trabalhou na Brazilian Street Railways Company, virou mascate e chegou a despachante de barcaças no Cais de Ramos. Por fim, ingressou no negócio de peles de bode, carneiro e cabra, criando, em 1896, a Delmiro & Cia.

Graciliano Ramos

Segundo o escritor Graciliano Ramos (1892-1953), Gouveia “adquiriu tanta habilidade que poderia, segundo afirmam os tabaréus, esfolar uma cabra viva sem que ela percebesse que estava sendo esfolada”

Atacando ferozmente a concorrência, em pouco tempo o jovem empresário figurava nos jornais como o “Rei das Peles”, tornando-se o único exportador de couros do Nordeste para os Estados Unidos. Os lucros lhe trouxeram uma vida de fausto: sua residência, a Vila Anunciada (assim batizada em homenagem à primeira esposa), foi transformada em um espaço para grandes festas e saraus.

Apesar de não vir de família tradicional e de possuir pouca instrução, Gouveia tornou-se presidente da Associação Comercial de Pernambuco. Seu figurino era elegante: ditou moda com os “colarinhos Delmiro Gouveia”, tinha um apreço todo especial por roupas brancas e perfumes importados. A fama de negociante próspero logo foi acompanhada pela de galanteador que enviava rosas e bilhetinhos apaixonados às amantes.

Delmiro visitou a Exposição Universal de Chicago, em 1893, e voltou de lá com a cabeça cheia de ideias. Provavelmente, a experiência inspirou-lhe a criação do Derby, um mercado com 129 metros de comprimento por 28 de largura, 18 portões, 112 janelas e venezianas, e um restaurante. Funcionavam no Derby 264 boxes, todos com balcões de mármore, onde se vendiam hortaliças e verduras.

 Mercado do Derby criação de Delmiro Gouveia

Os visitantes que desembarcavam no porto de Recife eram transportados pelo leito do Rio Capibaribe para um hotel construído próximo ao mercado. Mas a grande atração era mesmo a iluminação elétrica, inédita na cidade. O público lotava o mercado para experimentar os carrocéis e divertir-se com as barracas de prendas, o teatro, as regatas, além do velódromo para ciclismo. Para muitos, o Derby foi a versão pioneira de um shopping center no Brasil.

Do prefeito José Coelho Cintra (1843-1939), Delmiro Gouveia obteve isenção de impostos e outros favores, mas os privilégios não foram suficientes para que mantivesse o empreendimento por muito tempo. No dia 2 de Janeiro de 1900, o Derby ardeu em chamas. O misterioso incêndio teria sido uma resposta à ousadia do empresário, que eliminava intermediários baixando os preços, e certa vez chegou a atacar a bengaladas o senador Francisco Rosa e Silva (1857-1929), poderoso líder político pernambucano e então vice-presidente da República. Delmiro acabou preso, acusado de ter ordenado o fogaréu para receber o seguro.

Inocentado, passou por uma séria crise conjugal. Para fugir do redemoinho, viajou para a Europa, ficando cerca de um ano longe dos negócios, que iam mal, e do casamento, que desmoronara. Quando, enfim, retornou ao Brasil, estava falido.

Em um ato intempestivo, Gouveia resolveu raptar a menor Carmela Eulália do Amaral Gusmão, por quem se apaixonara. A moça era filha do governador de Pernambuco, Segismundo Gonçalves (1845-1915), importante aliado de Rosa e Silva.


 Delmiro e Eulália,
filha do Governador Sigismundo Gonçalves
          
Alguns biógrafos sugerem que Eulina (futura mãe de três filhos seus) foi a “vingança de saias” aplicada por Delmiro em Segismundo, pelos ataques aos seus negócios.

Fugindo para Alagoas, Gouveia estabeleceu-se na cidade de Água Branca, onde recebeu apoio das poderosas famílias Torres e Luna e retomou o negócio de peles e couros. Recuperou-se dos prejuízos, e em Março de 1903 fixou-se na Vila da Pedra. Próxima ao sítio que comprou na região ficava a cachoeira de Paulo Afonso.

O que lhe inspirou um plano ousado: a partir da queda d’água, construir uma hidrelétrica para fornecer energia ao Recife, sua antiga morada, e a outras cidades do Nordeste. Tudo arquitetado, Gouveia associou-se a americanos para viabilizar o projeto. Mas nem tudo saiu como o esperado.

O governador Dantas Barreto (1850-1931) teria dito ao negar a concessão: “O negócio é bom. Tão bom que deve esconder alguma velhacaria!” Os americanos pularam fora, mas Gouveia levou a ideia adiante, limitando-a às suas terras.


Enquanto a hidreletricidade era ainda assunto de revistas, Gouveia, de arma em punho, obrigava seus empregados a descer pelo abismo de Paulo Afonso para instalar a usina. A energia obtida moveu a Fábrica da Pedra, que prosperou alavancada pelos tempos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Os carretéis ingleses passaram a sofrer uma inesperada concorrência no mercado nacional, com o rápido crescimento das linhas marca Estrela. No exterior, Gouveia lançou a linha Barrilejo. Sua clientela estrangeira incluía Chile, Argentina, Peru, Bolívia, Antilhas e Canadá.

Fábrica de Linhas Marca Estrela
O negociante modificou a paisagem do sertão alagoano. A vila pulou de menos de uma dezena para cerca de 250 casas, com uma população de quase cinco mil pessoas.

As bebidas alcoólicas foram proibidas — mas isso, evidentemente, não valia para o rei das peles: instalado em um confortável chalé, abastecido de champanhes caros e vinhos de Bordeaux, tornou-se o “senhor da Pedra”.

Seus cinco automóveis, os primeiros a cruzar aqueles sertões, assustavam os camponeses. Junto com a indústria, levou para a pequena localidade a máquina de gelo, o telégrafo, o cinema (como ingresso das crianças, cobrava o boletim escolar com boas notas), o carrossel, a tipografia, bandas de música e a jornada de trabalho de oito horas, com folgas aos domingos.

A fábrica possuía uma vila operária, onde Delmiro impôs normas rigorosas aos moradores. Havia horário para fechar as portas, vistoria da higiene nas casas e multas para quem cuspisse no chão. Das moças, o cearense exigia vestidos abaixo dos joelhos e cabelos arrumados. Os filhos dos empregados eram obrigados a estudar — se faltassem, os pais recebiam duras advertências. Todos deveriam andar sempre asseados. Arno Pearse, observador estrangeiro, registrou que os operários iam para o trabalho “mais bem vestidos do que o europeu médio no domingo”.

Quando dispunha de tempo, Gouveia fiscalizava pessoalmente o funcionamento de tudo. O perfume forte denunciava sua presença, deixando os empregados em pânico. Deslizes frequentemente levavam os infratores aos troncos das baraúnas próximas à fábrica.

Há relatos de empregados que “fizeram mal” a alguma trabalhadora, e após um dia amarrados na árvore, aceitaram o “conselho” do coronel e se casaram, apadrinhados pelo próprio. Talvez por isso, Mário de Andrade (1893-1945) tenha escrito que “Macunaíma (...) pensou em morar na cidade da Pedra com o enérgico Delmiro Gouveia, porém lhe faltou ânimo. Para viver lá, assim como tinha vivido era impossível”.

Mas se em muitos despertavam temor, as atitudes enérgicas do empresário eram, para outros, simplesmente inaceitáveis. Fosse por desavenças pessoais, fosse por interesses comerciais contrariados, a pele de Delmiro Gouveia estava a prêmio.

A residência do coronel Delmiro Gouveia
            
Aos 54 anos, era um cabra marcado para morrer. E driblar este destino foi um golpe que o magnata não soube dar. “Foi covardemente assassinado a tiros de rifle o grande industrial Delmiro Gouveia, uma das existências mais úteis e laboriosas do Brasil atual”, alardeou a Revista da Semana. Os três tiros foram disparados quando o empresário lia jornal na varanda de seu chalé, no dia 17 de Outubro de 1917. Em sua homenagem, a revista lembrava que ele “foi estabelecer-se próximo à cachoeira de Paulo Afonso, criando a Vila da Pedra, hoje em dia transformada pela sua energia ciclópica num dos mais importantes centros rurais e industriais do país, numa verdadeira civilização encravada dentro da barbárie do sertão nordestino”.

Mário de Andrade

De Mário de Andrade, o acontecimento mereceu o seguinte comentário: “Teve o fim que merecia: assassinaram-no. Nós não podíamos suportar esse farol que feria os nossos olhos gestadores de ilusões, a cidade da Pedra nas Alagoas”.

Em seu testamento, Delmiro deixou uma fortuna calculada em quatro mil contos de réis. E exigiu: “Quero que meu corpo seja inumado em cova rasa, sendo meu enterro feito sem pompa alguma e dispenso também todos os sufrágios e quaisquer outras solenidades”. Assim foi feito. A banda local acompanhou o féretro, mas, além disso, nada mais houve.

Foram presos dois suspeitos, que confessaram um crime que não cometeram após muita tortura. Ao que tudo indica, a ordem partiu de coronéis da região. O processo-crime, revisto anos depois, está repleto de falhas e, para alguns, é um belo exemplar de erro jurídico.

No ar, ficou a suspeita de que o assassinato fora encomendado pela Machine Cottons, grupo inglês que fez uma férrea campanha para adquirir a Fábrica da Pedra e retomar o monopólio no negócio de linhas, perdido durante a Primeira Guerra. Delmiro negou-se a vender a companhia.
Anos após a sua morte, o trust finalmente comprou a fábrica. Os novos donos chocaram a população da Pedra: várias máquinas da CAM foram quebradas e jogadas no leito do Rio São Francisco.

Delmiro Gouveia virou mito. O homem um dia acusado de velhacaria tornou-se um mártir da indústria nacional, vítima do “atraso” sertanejo e da pressão do capital estrangeiro. Embora exista mais de uma dezena de biografias dele, como num romance policial sua vida tem lacunas intrigantes. Ainda assim, exposições, histórias em quadrinhos, filmes, ruas, avenidas e até a Vila da Pedra, hoje uma cidade, levam seu nome. Imponente entre as rochas, Angiquinho lembra as mudanças ocorridas no sertão. Projetada sobre ela, a sombra do coronel dos coronéis ainda passeia impetuosa.

Dilton Cândido Santos Maynard é professor da Universidade Estadual de
Alagoas e autor da tese “O Senhor da Pedra: os usos da memória de
Delmiro Gouveia (1940-1980)”, (UFPE, 2008). Saiba Mais - Livros:
ARARIPE, J.C. Delmiro Gouveia: a glória de um pioneiro. Fortaleza: BNB, 1997.
MARTINS, F. Magalhães. Delmiro Gouveia: pioneiro e nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL,1979.
ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: o pioneiro de Paulo Afonso. Recife:
Universidade Federal de Pernambuco, 1970.
Saiba Mais - Filmes:
“Coronel Delmiro Gouveia”, de Geraldo Sarno,1977.
“Delmiro Gouveia: o homem e a terra”, de Ruy Santos,1971.

Fonte:

Revista de história.com.br

DELMIRO GOUVEIA


No início do século XX este coronel levou a indústria ao Nordeste.

Ninguém se espantaria se visse muita rua no centro da cidade um cidadão levantar voo, graças a um aparelho atado às costas. O mesmo correria se um motorista, impaciente com o congestionamento do trânsito, apertasse um botão do painel de seu carro, fazendo-o flutuar sobre os outros. Na verdade, os habitantes das grandes cidades já estão habituados com o progresso científico e, no máximo, encarariam estes dois inventos com curiosidade.

Mas em 1911, os habitantes de Santana do Ipanema, no Interior de Alagoas, recorriam aos seus santos prediletos para espantar o medo daquela "engenhoca esquisita", sustentada por quatro rodas, que podia correr mais depressa que o melhor cavalo da região, sem que o cavaleiro" precisasse fazer força. A "engenhoca esquisita" era o automóvel do "coronel Delmiro Gouveia", que cortava a 60 km/h as estradas de barro que ele mesmo construíra, para ligar o núcleo industrial de Pedra aos terminais ferroviários de Quebrangulo e Garanhuns. 

Parte com o Diabo  

"Honorato Avelino tinha parte com o Diabo: andava ligeiro como o vento. Mas, uma vez, apostou carreira com o automóvel do coronel Delmiro e perdeu longe. Assim os caboclos viam o milagre da tecnologia, o automóvel: "um demônio danado, uma besta-fera correndo com dois olhos ardentes pela escuridão da caatinga".

Pela primeira vez, o caboclo nordestino conhecia um dos produtos de industrialização e começava a entrar em contato com as novas possibilidades de vida a capacidade do homem criara nos centros econômicos mais adiantados. 

Delmiro Gouveia

E não foi só o automóvel. Ele apenas sintetiza com mais clareza as reações dos vaqueiros. O casamento do sertão com a indústria foi feito pelas mãos de um pioneiro corajoso e poderoso, quase 40 anos antes da criação da Companhia Hidrelética do São Francisco, o nordestino Delmiro Gouveia construiu uma pequena usina numa das quedas da Cachoeira de Paulo Afonso, instalou uma fábrica de coser que chegou a ter mil empregados, concorrendo com as firmas inglesas no mercado brasileiro, e ergueu uma vila operária na cidade de Pedra que tinha, então, a melhor luz elétrica do país, água encanada, esgoto, fábrica de gelo, tipografia, telefone, telégrafo, escola profissional, cinema e rinque de patinação. 

Na verdade, Delmiro queria construir uma usina empregando toda a energia de Paulo Afonso, mas o Governador de Pernambuco negou-lhe apoio financeiro porque achou a ideia "boa demais para não esconder uma velhacaria". 

Empresário

Mesmo antes de se alojar no inteiro do sertão, a inspiração empresarial de Delmiro já lhe rendera alguns frutos: no início do século ele montara em Recife o mais moderno mercado brasileiro da época, o Derby, que à noite, funcionava como grande centro de diversões, com vários jogos de salão, bares e um hotel luxuoso. No seu tempo de fazendeiro, o coronel preocupou-se também em elevar a produtividade do rebanho nordestino,  promovendo inúmeros cruzamentos de raças e introduzindo novos tipos de pastagens. Qunado foi assassinado, em 1917, Delmiro pretendia construir ainda fábrica, de sedas vegetais, de papel e cigarros e, apesar de todas as resistências, não perdera as esperanças de entender as linhas da energia elétrica através do Nordeste.

Carreira Difícil

Delmiro Gouveia nasceu no dia 5 de julho de 1863, em Ipu, Ceará. E era 2 anos mais moço do que  costumava confessar "para despistar os curiosos. Criança ainda, Delmiro perdeu seu pai, e aos 15 anos, a mãe, o que o obrigou a trabalhar para sustentar-se. Seu primeiro emprego foi o de bilheteiro da "maxambomba" (bonde), de Olinda. Nessa época percebeu que o modo mais rápido de juntar fortuna era o comércio: aos 18 anos, em 1881, conseguiu um lugar de caixeiro despachante na Alfândega de Recife e aos 19 anos já era um "ajudante de despachante" com firma reconhecida e endereço próprio. Ainda pobre, casou-se com uma adolescente de 13 anos, Dona Iaiá.

Delmiro Gouveia

Pouco depois, já em Recife, o casal passava da promissora prosperidade ao constrangimento de favores dos amigos para moradia e sustento e Delmiro decide então lançar-se à nova atividade: o comércio de courinhos (pele secas d bodes e carneiros).

Rei das Peles

O início do novo trabalho foi quase um acidente, segundo Tadeu Rocha, um dos biógrafos de Delmiro. Ele estava num armazém de um amigo, já insatisfeito com os encargos de despachante, quando chegaram algumas peles de bode e carneiro, os courinhos. Como o negociante não tinha experiência neste ramo, Delmiro ofereceu-se para vender o material, por pequena comissão, o que conseguiu em tempo recorde.

Como era difícil negociar os courinhos na capital, outros comerciantes do interior, sabeodres da habilidade de venda do jovem Delmiro, começaram a mandar para o armazém do seu amigo uma série de partidas de peles, consignadas em seu nome. A constância destes recebimentos levou-o a instalar-se como "recebedor de courinhos", embora, como ele mesmo confessasse, "não tivesse capital algum, nem dinehrio para comprar uma balança necessária ao armazém.

Depois dos primeiros e rápidos lucros, porém, a pequena firma teve problemas com clientes do interior, com graves prejuízos. Delmiro liquidou algumas das dívidas, adiou o pagamento de outras e desistiu , pelo menos por algum tempo, das empreitadas individuais: foi empregar-se  no comércio exportador dos courinhos, agora com a vantagem de já ser um renomado vendedor, com muita experiência. Em todas as firmas nas quais trabalhou, sua tarefa era uma só: percorrer o interior, os centros comerciais mais ativos, epróximo da capital montado a cavalo, às vezes levando também alguns produtos manufaturadospara trocar por peles.

Nesta época foi convidado para trabalhar na firma Keen Sutterley. Seu comportamento na "Keen", é por outro lado, exemplo bastante expressivo para mostrar que o mito e a lenda dos grandes impérios comerciais e industriais e seus fundadores não se constrói apenas com honestidade, perseverança, espírito de sacrifício. 

Fábrica de Linhas Estrela

Para desbravar seus caminhos, Delmiro muitas vezes teve que assemelhar-se a um temível "capo"siciliano. Na Keen Stterley ele deu o que seus biógrafos, chamam de "golpe de mestre": "escrevu à matriz em Filadélfia, nos Estados EUA, propondo trabalhar pela metade do salário de seus gerentes no Brasil". Achando que somente a carta não seria suficiente para destronar seus patrões, ele foi aos Estados Unidos, voltando de lá "com plenos poderes para gerir todos os negócios da casa", e com a demissão dos antigos representantes da empresa e de todos os empregados que lhes fossem fiéis.

Tempos depois a Keen fechou sua subsidiária no Brasil e Delmiro, já então um homem rico, passou a novas sociedades, sempre no ramo dos courinhos. 

Por volta de 1894, com pouco mais de 30 anos, o menino bilheteiro de Maxambomba e o jovem e eficiente caixeiro viajante haviam se transformado no "rei das peles", em Recife, um negociante milionário.

Fonte: Panorama Econômico

 Nota: Sobre a fonte deste artigo eu não tenho maiores informações.

Odilon Ribeiro Coutinho


ODILON RIBEIRO Coutinho: Nasceu em 12 de julho de 1923, no Engenho Central, município de Santa Rita, atual Usina São João, de propriedade dos seus pais, Dr. João Úrsulo Ribeiro Coutinho e D. Helena Pessoa Ribeiro Coutinho, tendo sido, esta, a primeira usina de cana-de-açúcar a ser implantada na várzea do Paraíba (1888); mais tarde, ao patrimônio da família Ribeiro Coutinho, juntou-se a Usina Santa Helena, antigo Engenho Pau d'Arco. Nascido e criado nessa região, Dr. Odilon vivenciou o ambiente onde, também nasceu e criou-se o poeta Augusto dos Anjos e, enquanto dono daquelas terras, teve sempre o cuidado de preservar o tamarindo tão decantado pelo poeta.
Odilon Ribeiro estudou no Colégio Diocesano Pio X, de João Pessoa; no Ginásio de São Bento, em São Paulo, bacharelando-se em Direito pela Faculdade do Recife; casou-se com D. Solange Veloso Borges Ribeiro Coutinho com quem teve três filhos: Odilon Filho, Eduardo e Gilberto.
Faleceu em 12 de julho de 2000, no Rio de Janeiro; seu corpo foi sepultado no Cemitério Senhor da Boa Sentença em João Pessoa.
Afastou-se da Paraíba por algum tempo, atuando na política do Rio Grande do Norte, onde foi eleito Deputado Federal; retornou à Paraíba, candidatou-se à Câmara Federal pelo PSDB. Não obteve êxito nas urnas, mas continuou lutando em defesa da dignidade do seu partido, do qual foi presidente, na Paraíba.
Defensor do parlamentarismo, ele acreditava nesse sistema de Governo "a partir do fim do feudalismo moderno imposto pela inércia do presidencialismo semiditatorial". (Revista Em Dia, 17/05/91). Era escritor, crítico literário, empresário político e sociólogo, sobressaindo-se pela eloqüência dos seus pronunciamentos e pela sua afetividade.
Estudioso e pesquisador, escrevendo sem a pretensão de publicar os seus trabalhos, motivo pelo qual se desconhece a sua bibliografia. A professora Ângela Bezerra de Castro, em um minucioso trabalho de pesquisa, conseguiu relacionar os escritos de Odilon Ribeiro, e os divulga na Revista da Academia Paraibana de Letras, nº 16. Odilon Ribeiro assumiu a sua Cadeira na APL, em 22 de julho de 1994, recepcionado pelo acadêmico Edilberto Coutinho.

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Aluízio Alves, 90

Fonte: coisasdejornal.blogspot.com

Se a História consagrou Alberto Maranhão como o governador que colocou Natal no século XX, abrindo os caminhos do Rio Grande do Norte no rumo da Modernidade, certamente se dirá o mesmo  com relação a Aluízio Alves que anteviu o futuro de sua terra  implantando no seu governo o conceito moderno do planejamento que levaria o Estado ao patamar do verdadeiro desenvolvimento - o que produz riqueza e bem estar. Ele sabia que para desenvolver é preciso  planejar. Cinquenta anos separam os dois governos: Alberto Maranhão, 1908-1912 (segundo mandato); Aluízio Alves, 1961-1965.
Itamar de Souza, no seu livro A República Velha no Rio Grande do Norte (1889-1930) afirma que Alberto Maranhão realizou no setor educacional uma verdadeira revolução. Tinha consciência que  a educação deve ser a primeira preocupação de um governante. Aluízio seguiria o  exemplo. Investiu na Educação e na Cultura, ao mesmo tempo em que cuidou de trazer para o Estado a energia de Paulo Afonso. Sem as três não haveria desenvolvimento. E fez tudo isso com muito arrojo, muita convicção e idealismo. Muita obstinação.
Quando hoje celebramos os 90 anos do nascimento de Aluízio  Alves, recomendo a leitura do livro 40 Horas de Esperança - O método Paulo Freire: política e pedagogia na experiência de Angicos, de Calazans Fernandes e da pedagoga  Antonia Terra, publicado pela Editora Ática, São Paulo, 1994. É um livro fundamental sobre educação e a política no Rio Grande do Norte. Diria mais: sobre o próprio desenvolvimento da educação no país, pois cuida da aplicação do método de  ensino Paulo Freire no Brasil, projeto que começou na cidade de Angicos, durante o governo Aluízio Alves.
O livro é dividido em duas partes: "Revolução no Sertão" e "Angicos hora a hora". A primeira, assinada por Calazans Fernandes;
Fonte: midiacon.com.br
a segunda por Antonia Terra, sua filha, historiadora e pedagoga. Calazans foi um grande jornalista, dos mais notáveis repórteres brasileiros, com textos também publicados em jornais e revistas de outros países. Foi secretário de Educação no governo de Aluízio, personagem e testemunha dessa história.
O texto de Calazans é primoroso. Brinca com as palavras, manejo que aprendeu pelas carteiras duras do seminário e desenvolveu na agitação  das redações dos jornais. Jornalista e escritor. Este seu livro 40 Horas de Esperança, esgotado, deveria ser reeditado e colocado à disposição de todas as escolas e bibliotecas públicas do Rio Grande do Norte. Em suas páginas, cuja leitura que prende o leitor logo na primeira frase, estão retratados alguns dos instantes mais importantes -  diria, dramáticos -  da história brasileira dos anos 60.  Os bastidores da Aliança para o Progresso, a disputa ideológica entre os governadores nordestinos, como Paulo Freire chegou  ao Rio Grande do Norte, o papel decisivo desempenhado por
Fonte: onordeste.com
Odilon Ribeiro Coutinho junto a Paulo Freire, a ação da Igreja, a história da cascavel do marechal Castello Branco,  a quase vinda do presidente Kennedy ao Rio Grande do Norte, são algumas passagens narradas por Calazans, que começa o livro assim:
- Este livro é a história de uma saga que uma realidade de conflagração no Nordeste brasileiro transformou em mito e que a conjuntura histórica, do triênio perdido desde a década de 60, se encarregou de propagar pelo mundo inteiro. Falo do contexto político no qual aconteceu a experiência de Angicos, no Rio Grande do Norte, a alfabetização de adultos em 40 horas, depois denominado método Paulo Freire.

Aluízio  e Kennedy

Calazans, às folhas tantas, conta:

-  Um dos primeiros governadores a obter recursos dos Estados Unidos - Cid Sampaio, Pernambuco, 1961-2 - viu seus acordos para estradas e educação em parte prejudicadas, com  a ascensão de Miguel Arraes, em 1962, por causa da cláusula de co-gestão.

- Aluízio Alves, do Rio Grande do Norte, foi a Washington logo em seguida, no começo de 1962, no segundo ano  do seu governo. No De-partamento de Estado, não encontrou a quem procurava. Teodoro Moscoso, diretor-geral da Usaid para a América Latina, estava de férias. O governador relatou a sua frustrada visita ao embaixador e amigo Roberto Campos. Este indagou: "Tem tempo? Quer falar com o presidente?"

- No dia seguinte, os dois estavam diante de Kennedy. "Como vai a aliança?", perguntou o presidente. "Por enquanto, só no discurso", respondeu Aluízio. As providências foram rápidas. Moscoso regressou das férias em poucas horas. Conversaram sobre projetos. Aluízio voltou ao Rio Grande do Norte carregado de ideias e expectativas.

- Pouco tempo depois, aterrissou em Natal o avião número 2 da Casa Branca, trazendo Teodoro Moscoso. Queria ver os projetos. Reuniram-se por um dia e acordaram num pacote de 25 milhões de dólares a ser detalhado em atividades de saneamento básico, agricultura, habitação, eletrificação e educação.

- O acordo de governo a governo ainda não estava assinado. Sem cobertura hábil, Aluízio procurou, então, o ministro do Exterior, Santiago Dantas. Este  preparou um aviso, de redação inspirada por Afonso Arinos, ex-ministro do Exterior do governo Jânio Quadros, que o primeiro-ministro Tancredo Neves assinou, autorizando o governador a negociar diretamente com a Usaid, que  ainda não chegara a Recife.

O profeta Moisés

Em outro capítulo, Calazans lembra-se do profeta Moisés:

- Nos jornais do sul e do exterior, Aluízio era o governador do desenvolvimento, do discurso estruturado e mordaz. Suas teses, se não eram totalmente acatadas por Celso Furtado, transformado em vilão, encontravam eco na Aliança, naquele momento no mínimo desnorteada, sem saber em que direção primeiro correr para apagar o fogo de governantes contestadores, ávidos de dinheiro. Para não falar no problema criado em Pernambuco, sede da Usaid, por Miguel Arraes, dando uma no cravo e outra na ferradura e que relutou confirmar obras do antecessor Cid Sampaio, com financiamentos americanos.

- Em abril-maio de 1962, o esquelético Aluízio encarnou o profeta Moisés na "diáspora do povo nordestino condenado a sair rumo às periferias inchadas do sul, ou pelas florestas do inferno tropical úmido da Amazônia". A força da sua contestação consistia na pregação pragmática, de aparente independência, não contaminada pelo slogan o que não o livraria do espírito populista. Continuou forte no discurso e recrutou técnicos entre os que haviam participado da equipe de planejamento do governador Carvalho Pinto, para concluir seus projetos, promover a inadiável reforma administrativa do Estado, acelerar seu calendário de ações e derrubar, na Sudene, a incômoda posição de sexta prioridade, entre as dez unidades federativas do Nordeste.


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