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sábado, 26 de maio de 2012

O pesar de ser cangaceiro

Aline Karla

A partir de Maria Bonita, há registros de quase duzentas mulheres que passaram pelo cangaço. Mesmo vivendo um cotidiano fora dos padrões da época, uma vez que as mulheres do cangaço não eram responsáveis pelas atividades domésticas, por exemplo, elas ainda estavam presas a uma dinâmica centrada num universo preconceituoso e dominado pelo homem. A própria justificativa da presença feminina no movimento era um exemplo disso: ela eram as companheiras dos cangaceiros.

Para poder ingressar no bando, as mulheres tinham que ser casadas (ou roubadas) com algum cangaceiro. Não houve registro histórico de nenhuma que tivesse entrado no movimento por simpatia à causa, desejo de vingança ou qualquer outro motivo que não um casamento. Todas foram levadas por um companheiro fixo - cada um era responsável por sua esposa.

Para o pesquisador João de Souza Lima, a principal função das mulheres no cangaço era a de cuidar dos companheiros. No entanto elas também podem ser interpretadas como um  ornamento deles – afinal, andavam com roupas enfeitadas, cobertas com perfumes e jóias em ouro: “A mulher era um enfeite, um símbolo sexual. E cada cangaceiro queria ter a mulher mais bonita, mais enfeitada”, explica o estudioso.

Uma vez enxergadas como pertences de seus companheiros, a vida e a morte destas mulheres também ficava sob o domínio dos maridos. A infidelidade delas, por exemplo, era punida com a morte.

Caso da cangaceira Lídia, considerada uma das mulheres mais belas do cangaço. Ela ingressou no bando aos 18 anos, casada com o cangaceiro Zé Baiano. Ao ser descoberta que traía o marido com  o companheiro de bando Bem Te Vi, Lídia foi torturada e morta a pauladas. Outra vítima da violência foi a cangaceira Lili, casada com o cangaceiro Moita Brava. Ele não perdoou o flerte entre a esposa e o colega de bando Pó Corante, e assassinou Lili com seis tiros à queima roupa, no meio do acampamento.

Nos casos acima, apenas as mulheres foram julgadas e punidas com a morte. Porém a postura era bem diferente quando a traição acontecia de maneira inversa. Como ocorreu com a cangaceira Antônia, que abandonou o grupo após descobrir que o marido, o cangaceiro Gato, havia trocado-a por outra. Antônia ainda reclamou e reivindicou, mas o que prevaleceu foi a vontade do cangaceiro.

A ex-cangaceira Aristéia Soares, (já falecida) também foi devolvida para a família a pedido do companheiro. Ela passou oito meses casada com o cangaceiro Catingueira, morto num confronto entre o bando e as volantes do governo. Gravemente ferido, Catingueira orientou os companheiros que encaminhassem Aristéia, que estava com a gravidez avançada, de volta à casa dos pais. E assim foi feito. Mais uma vez, a vontade do companheiro determinou o destino da mulher.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

PASSARINHO: UM EX-CANGACEIRO DE LAMPIÃO


"Atentos a importância de se recuperar informações que enriqueçam a história de nosso município ou de santa-cruzenses que se destacaram no cenário histórico de tempos de outrora, estamos postando esse artigo redigido pelo pesquisador Eudes Donato. Agradecemos ao querido amigo triunfense André Vasconcelos, que vez ou outra nos envia achados como este".

Marcos de Lima (Passarinho) nasceu em Santa Cruz, antes distrito de Triunfo-PE, em 22 de setembro de 1903. Começou cedo no cangaço com idade de 16 anos em 1919, ainda no comando do cangaceiro Sinhô Pereira (Lampião ainda não havia formado o seu bando).

Posteriormente, Sinhô Pereira confia entregar o comando a Lampião e vai embora para Goiás onde seus familiares tinham propriedades, isso mais ou menos por volta de 1921. Logo em seguida, são formados novos grupos de cangaceiros para dar sustentação ao grupo de Lampião.

Passarinho entra num desses grupos comandado por Cícero Costa, ou Ciço Costa (um Paraibano) que agia na região de Conceição de Piancó PB. Eles e Ciço Costa participaram do bando de Lampião em várias ocasiões. Esse seu chefe imediato era um grande conhecedor de farmácia natural, o médico do bando.

Muitas pessoas acham que Passarinho conviveu diretamente com Lampião. Não, ele teve vários encontros com o rei do cangaço, inclusive participando de alguns ataques como na propriedade de José Trajano, localizada no município de Conceição PB, com o seu chefe tomando-lhe rifle e 
dinheiro em 06 de Julho de 1921.

Existiram dois Passarinhos no cangaço, por isso que algumas publicações citam: Passarinho l e Passarinho 2, (era costume quando algum morria ou era preso, se colocar o nome de outro que estava chegando e com semelhança ao mesmo, batizar de fulano l e fulano 2, e este Passarinho é claro e evidente foi o nº l.

Nessa vida tirana, Passarinho viveu 3 anos e 7 meses no cangaço, até quando foi preso em 24 de dezembro de 1923. Foi recolhido a cadeia de *Princesa e sendo condenado pelo júri local a 29 anos e 9 meses de prisão.

Fora preso e condenado por haver assassinado naquele ano, mais precisamente no dia 17 de dezembro do corrente ano, num local chamado Caracol do município de Conceição do Piancó PB, Raimundo Nogueira a quem roubara-lhe sua roupa e algum dinheiro. Seis dias após o acontecido, o irmão de Raimundo surpreende Passarinho nas adjacências da povoação de Patos, município de Princesa.

Passarinho estava justamente com as roupas do seu irmão Raimundo, este saca de uma arma e atinge Passarinho. O seu companheiro Juriti, num vacilo de Raimundo, por trás dá-lhe uma pancada na cabeça e termina o ato dando-lhe várias facadas. Passarinho, ferido, entra na povoação gritando: - Acabam de matar um homem e me feriram também, (pra ver se enganava os soldados). Banhado de sangue dos ferimentos, recebe voz de prisão, não por obediência a lei, pois era valente, mas pelos disparos recebido.

Recebendo ameaças de morte é transferido para João Pessoa onde cumpriu 7 anos e 9 meses de prisão. Vem pra Campina Grande, depois Pocinhos (é quando conhece sua futura esposa dona Petronilha, mais conhecida por dona Pitu.

Casa-se em Campina Grande e vem morar em Areial, pois dona Pitu tinha familiares residindo aqui. Não teve filhos, mas criou um filho adotivo (Arinaldo) do qual ganhou três netos (uma mulher e dois homens).


Em Areial, viveu por mais de sessenta anos. Faleceu no dia 15 de agosto de l998, aos 95 anos, e seus restos mortais estão no cemitério local. Sua esposa dona Petronilha Maria de Araújo, nasceu no dia 23 de setembro de 1917 e faleceu em 19 de Agosto de 2004 em Areial, aos 86 anos e onze meses, e seu sepultamento também foi no cemitério local.

São vários livros e jornais que citam o nome ou fizeram manchete com o nome de Passarinho.

Trecho extraído do livro: “Passarinho: um ex-cangaceiro de Lampião em Areial” (ainda em acabamento de autoria do pesquisador, Eudes Donato)

FONTE: 

“ICONOGRAFIA DO CANGAÇO” TRAZ REVELAÇÕES SOBRE LAMPIÃO

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São 180 fotos e mais um DVD que ajudam a entender como Lampião se tornou um mito popular nacional

A saga de Virgolino Ferreira da Silva, o conhecido Lampião (1898-1938), é talvez uma das mais importantes e conhecidas da história brasileira. Envolto em lendas e verdades, o Rei do Cangaço povoa até hoje o imaginário nacional. Mas a trajetória desse fenômeno social remonta ao século 18, quando bandos de cangaceiros passaram a se formar no Nordeste.

Segundo o escritor e jornalista Moacir Assunção, “o fato de nos lembrarmos mais de Lampião quando falamos em cangaço é porque ele e homens como Corisco, Zé Baiano, Zé Sereno e Luiz Pedro, viveram em uma época na qual já existiam veículos de comunicação de massa, como as revistas, o cinema em sua plenitude e os jornais, além de livros, já distribuídos no interior nordestino, e da rica gesta da literatura de cordel”, escreve no livro.

Além disso, podemos dizer que Lampião se beneficiou da invenção que se tornou a expressão da modernidade no começo do século 20: a fotografia. Parte desse acervo iconográfico foi organizada por Ricardo Albuquerque e está no livro Iconografia do Cangaço, que será lançado nesta terça-feira, 08, em São Paulo.

A relação de Ricardo com essas imagens não se deu por acaso. Foi seu avô, Adhemar Albuquerque, que ensinou o libanês Benjamin Abrahão (1890-1938) a fotografar e filmar na década de 1930: “Meu avô nunca foi profissional, mas gostava de fazer cinema e documentários. Gostaria ele mesmo de ter filmado e fotografado Lampião, mas trabalhava como caixa num banco e seu chefe não o liberou”, conta em entrevista por telefone. “O jeito então foi munir Benjamin Abrahão de equipamentos e encomendar o material.”

O encontro dos dois se deu em 1934, por conta da morte do Padre Cícero, de quem Abrahão tinha se tornado secretário. Adhemar Albuquerque viajou até Juazeiro para filmar o funeral e foi ali que se conheceram. A primeira tentativa foi um fracasso: “Os filmes ficaram todos velados e Abrahão os colocou na sua mochila junto com a comida. Até formiga tinha”, conta Ricardo. O jeito foi convencer Adhemar que valia a pena mais uma tentativa. E assim foi feito. Desta vez, o precursor do cinema se certificou de que não haveria erros.

O mascate libanês, cuja trajetória foi documentada no filme Baile Perfumado, se torna então quase por acaso e por interesse financeiro, o documentarista do bando do Lampião. Antes disso, porém, foi necessária uma carta do próprio Lampião autorizando a empreitada.

Quem foi Lampião

Por: Alfredo Bonessi

Quem foi Lampião

Alto, magro, moreno escuro, quase pardo, esguio, meio corcunda, ágil, saudável, resistente a fadigas, manco do pé direito por causa de bala - segundo quem lhe conheceu - por causa de calos no pé segundo declarações dele mesmo, em estado espiritual, a um programa de televisão, com belida no olho direito, um leucoma, assim era o corpo de Virgulino Ferreira, vulgo Lampião.
                

De personalidade alegre, disposto, temperamento inconstante, sujeito a crises de fúria e descontrole, místico, religioso, rezador, intuição apurada, perspicaz, agudeza de raciocínio, inteligente, líder nato, exímio atirador de armas curtas e longas, fazendeiro, domador de animais de montaria, vaqueiro campeão, amante de bebidas finas, cigarros, charutos e mulheres, excelente trabalhador em couro e tecidos, narcisista, jogador de baralho sem sorte, impiedoso, cruel, vingativo, justiceiro - falso moralista, abusou sexualmente de algumas mulheres, embora, hoje, não sabemos se eram esposas ou filhas de inimigos. – mesmo assim são fatos lamentáveis e inaceitáveis para qualquer época de uma geração.
               
Desconfiado, prudente, calculista, infiel mas respeitador das opiniões da companheira, maleável até certo ponto, principalmente em algumas decisões a ponto de alterar as ordens dadas por interferências dela, respeitado, temido, considerado, perigoso, astuto, inquisidor, julgador, musico, dançarino, corajoso, amigo, leal, acreditava nas pessoas, perfeccionista , gostava de tudo o que era bom, rico, comerciante, artífice, laborioso, habilidoso e estrategista.
               
Lampião foi um homem notável para o seu século. Não existiu até o presente momento ninguém mais do que ele, igual a ele, em mesmas circunstâncias, fazer o que ele fez em um ambiente hostil, carente de meios e desprovido de tudo, por tanto tempo assim – mais de vinte anos - acossado por centenas de volantes policiais.


A impressão que se tem pela fotografia acima, é que em 1928 – na visita a Pombal, possuía um relógio de pulso no braço esquerdo.

Não sabemos até hoje como conseguiu gravar o seu nome e o de sua mulher no interior das alianças que ambos portavam e que simbolizavam a paixão que um nutria pelo outro. Gostava de tudo que brilhava, que reluzia. Quem o avistasse pela primeira vez ficava impressionado com aquele homem impecavelmente trajado de azul, ou brim caqui, apetrechos ricamente ornamentados de variadas cores e matizes, armas luzidias nas mãos prontas para o uso, tez da cor de cuia, olhar firme, voz rouca, sons profundos que calavam fundo na mente de quem o ouvia – de repente a pessoa, em seu intimo, sentia um arrepio, um frio, um medo, um temor – sentia a impressão que estava correndo um grande perigo, e aguardava, apavorada, a qualquer momento o bote daquela fera perigosa, de punhal em riste, e com a ponta do aço duro cutucar a veia jugular na tabua do pescoço, sangrando a vítima em questão de segundos.


O pavor que os nordestinos sentiram quando estiveram frente a frente com Lampião, sentiram também os homens que outrora conviveram com pessoas diferentes e superdotadas, como por exemplo, quem esteve nas presenças de Alexandre, O Grande, Julio César, Nero e Napoleão Bonaparte. – personagens da História, grandes personalidades em suas diferentes épocas, alguns líderes excepcionais, guerreiros, vencedores, que sucumbiram pela vontade do destino, dono absoluto da vida das pessoas importantes. Quem os visse, a princípio, sentiam-se admiradas diante de tanta beleza, depois de contemplá-los por alguns instantes sentiam um respeito profundo pelo que viram, depois eram possuídas por um temor inexplicável que lhe arrebatavam a alma e que lhes causavam calafrios, palidez nas face, suor frio e tremores nas pernas.
                
Não se pode desejar que lampião nasça em outro lugar, em outro país, em classes mais abastadas. Lampião nasceu e se criou no lugar exato em que todo o homem valente deseja nascer e ser criado - uma terra de homens corajosos, valorosos, que não tem medo de nada e de ninguém. Homens acostumados a vida dura, difícil, onde só o destemido, o persistente, o audacioso, os corajosos sobrevivem, tiram raças e prosperam em cima do solo duro, pedregoso, domando o gado hostil - animais bravios - em meios a serpentes venenosas, como a cascavel e rodeado de mata espinhenta por todos os lados.
                
Quem visita o lugar onde Lampião nasceu sente a alma envolta por um romantismo inexplicável, o ar circundante é adocicado pelo aroma das flores silvestres. Ainda pode se escutar o gorgeio livre da passarada ao amanhecer e ao entardecer; pode-se sentir o cheiro natural que brota da terra estrumada; pode-se ouvir o guizo da cobra oculta; pode-se escutar ao longe o mugido do gado na invernada; pode-se imaginar o fogo aceso, panelas ferventes, chiando nas trempes, o prato de bolinhos feitos pela Dona Jacosa, sua avó, o café fumegando na caneca, e as suas mãos ágeis enfeitando o couro dos arreios, o seu semblante concentrado mas feliz pela alegria que sentia de viver e de trabalhar, o prazer de tudo e por tudo, o gosto pelo que é bom.
               
Toda essa vida boa, doce, tranqüila, prazeirosa, o destino ingrato retirou dos caminhos de Lampião, menos a fé em Deus e o amor puro que nutria pelos seus familiares. Mesmo nas horas mais difíceis de sua vida atribulada a paixão pela Virgem Santíssima nunca se arrefeceu de seus pensamentos ardorosos, forjados por uma fé inquebrantável – sentia um amor infinito e incompreensível pela Santa, a ponto de sempre rezar em sua homenagem, ao deitar, ao levantar, ao meio dia e as seis horas da tarde.


Lampião queria viver bem e feliz. Queria ser o melhor em tudo e por tudo, de acordo com o que Deus lhe dera. Por ser portador de qualidades inerentes a poucos seres humanos, foi invejado, odiado, perseguido, traído e levado a morte, embora tenha feito de tudo para que isso não acontecesse, pois era um amigo leal e de confiança, era muito bom para quem fosse bom para com ele – Lampião era um homem de palavra e não se apossava das coisas alheias por ser ladrão vulgar, salteador de beira de estrada, fazia o saque por necessidade de manter o bando de cangaceiros e por esse fato pedia sempre dinheiro as pessoas mais abastadas, por carta, bilhetes ou mensageiros, ou simplesmente tomava delas.
                
Lampião a frente de seus homens mantinha uma rede de informantes pagos a peso de ouro. Aliciava policiais e pessoas influentes, e quando não conseguia demover o perseguidor por bons modos, difamava-os, inventava historias cômicas sobre eles, dava-lhes apelidos depreciativos, contava piadas que fazia brotar risos na turma acampada aos redores das fogueiras, sobre esse e aquele oficial. Era temerário, mas não poderia ter negligenciado a capacidade combativa de Bezerra - o oficial que o matou- segundo Lampião, dito por ele mesmo, não tinha medo de boi brabo, quanto mais de bezerra... o descuido, esse erro de avaliação foi-lhe fatal e custou-lhe a cabeça naquela manhã de 28 de julho de 38.


Criou para si e para seu bando sinais, códigos e gírias que significavam algo entre eles, que conheciam a chave para decodificação, como por exemplo o L formado pelo indicador e o polegar da mão direita que devia ser mostrado quando se aproximavam das sentinelas do grupo. A três pancadas nos troncos das arvores - mas não eram pancadas comuns, elas tinham intensidade, ritmo e freqüência, que só os do bando sabiam executa-las.
                 
A manutenção dos esconderijos, os depósitos escondidos nos interiores dos troncos das arvores, de dinheiro, munição e armamento; a ocultação do cadáver do seus comandados, o sumiço dos rastros, a camuflagem, a dissimulação, a finda, o drible, a manobra audaciosa, o descarte dos dejetos dos acampamentos, a busca pela água e pelos alimentos, - o lampejo na mente iluminada pela escolha da decisão mais acertada, na hora certa e diante de grande perigo - fizeram o bando sobreviver por longos anos, diante de volumoso número de perseguidores, graças ao tirocínio de seu comandante, de sua visão combativa, de seu planejamento bélico, do seu sentido de direção, de seus objetivos previamente ajustados e na maioria das vezes bem sucedidos, e por esse fato granjeava a admiração e o respeito dos seus seguidores, a ponto de sempre confiarem nele e o considerarem invencível. Seu bando nunca andava a ermo, sem um roteiro estabelecido, se um objetivo, sem uma missão a cumprir. Seus deslocamentos sempre tiveram início, meio e fim.
                
Lampião morreu no tempo certo e na hora certa. Morreu no apogeu da vida e da saúde. Morreu em combate. Após o mortífero impacto da bala que lhe pos por terra, enquanto pode, enquanto tinha uma pouco de energia, tentou ficar de pé, não conseguiu, se contorceu até que o tiro final esgotou todas as possibilidades de vida. Um espírito muito forte retornava a sua morada divina.


Lampião pode ter sido o que seja, mas um dia voltará para cumprir a sua missão terrena em uma nova chance dada pelo criador. Esperamos que tenha mais sorte desta vez. Analisando a vida de grandes malfeitores podemos dizer que Lampião não teve as mesmas chances e as oportunidades de fazer o bem que tiveram Reis, Rainhas, Religiosos e Políticos da Nova Era. – pelo contrário – foram até muito pior do que ele. As centenas de pessoas que caíram pelo aço de seu punhal ou pelas balas de suas armas nem de longe se comparam aos milhões de mortes causadas pela inquisição religiosa e nos porões das masmorras ideológicas. Talvez seja por isso que Lampião mereça uma nova chance nesse mundo de pecado.

Alfredo Bonessi. (Foto: Manoel Severo)
                   
Estudante Pesquisador – Membro da GECC - Grupo de estudos do cangaço do Ceará e SBEC - Sociedade Brasileira de estudos do cangaço

http://lampiaoaceso.blogspot.com

CANTO DAS ALMAS (Crônica)

 Por: Rangel Alves da Costa*
Rangel Alves da Costa

CANTO DAS ALMAS 
                                                         
Na noite fechada, no breu da escuridão, ouviu-se um murmúrio, um canto dolente que foi se espalhando pelos quatro lados de chão e pedra, de fogo e capim, que formavam a senzala. Logo a seguir ecoou o coro das vozes negras em cantoria para relembrar os sofrimentos e aflições de um dia.

“Chame o feitor, traga o capataz, onde está o capitão-do-mato? Quero aquele negro fugidio sangrando no mourão, gemendo no tronco; quero ver suas costas na carne viva para servir de exemplo aos que tentarem se misturar à escuridão e fugir pelos canaviais”.

Quando cai a noite de pouca lua ou a se a nuvem reina lá em cima, lá pra baixo do mercado do escravo, no mesmo porão onde os negros, ou bichos-homens, ou animais que falam, ficavam jogados até serem chamados no açoite para ver quem dava mais pela negra peça, hoje se ouve uma cantiga chorosa que dói nos ouvidos e no coração de quem a ouvir.

“Esse bicho aqui é bom, é sudanês, é banto, é da guiné, é da costa africana. Olhe os dentes brancos e sadios que carrega, tem a força de um touro e é de família escrava conhecida pelo sofrimento calado. Está assim meio triste pela viagem, pelo banto, e está assim com o corpo parecendo ferido pelos ferros que o aprisionava ao navio negreiro. Mas é negro retinto, escravo valioso. Vale muito. E se quiser levar uma negrada então o preço fica ainda melhor”.

Por dentro do mato, por entre a fileira das canas, por cima e por baixo das pedras que ainda continuam por lá, nos mourões fronteiriços, por cima da terra ainda manchada de sangue e suor, por toda vereda onde o pé negro marchou na sua lide diária, debaixo do açoite sedento, ainda hoje se ouve a música fúnebre das almas escravas que começavam a morrer ali.

“O negro safado correu no meio da noite e se embrenhou mata adentro, mas não deve ir longe não. Ele já é manco de um pé de uma ferroada recebida porque mereceu. Em nome da honra do engenho quero aquele negro rebelde de volta aqui. Chame mais três, chame quatro, cerquem por todo lugar, procurem por dentro de todas as moitas que encontrar. Assim que botar a mão naquele maldito arranque primeiro os dedos, depois corte um dedo de cada mão e deixe em carne viva por debaixo do pé direito. Depois traga ele descalço e amarrado ao cavalo, e parando de vez em quando pra dar cor no lombo preto”.

Lá pela ladeira do riacho, pertinho das pedras molhadas e amoladas que nem navalha, diante da fumaça eterna no fogão de lenha, embaixo das camas de varas, por cima do chão de capim servindo de leito, em frente e ao redor dos cacarecos que eram os pratos e os talheres, ainda se sente a presença da boca se abrindo para entoar a cantiga dos mortos, a toada de despedida, a canção do nunca mais existir.

“Pegue o arreio, pegue o chicote, pegue a ripa de prego, pegue o pau amolado, pegue a laçadeira, pegue a arma, pegue o grilhão, pegue a corrente, pegue o laço de sete nós. Abra o caminho pro tronco, abra a estrada pro mourão, abra a vereda pro cubículo das cinzas. Traga ele aqui, e traga também quem olhar piedoso. Preciso mostrar a esse revoltoso pra que serve o tronco e o açoite, a brasa e a ferroada, o gemido e a dor”.

Nos esconderijos do mundo, nos quilombos nos escondidos das serras, nas moradias debaixo do tempo, na vida ao deus-dará, na sorte quase entregue à morte, em todos os lugares onde os negros rebeldes e fugitivos que buscavam abrigo ainda ecoam o canto sem rima, sem brilho, sem estrofe, sem verso. Apenas um gorjeio misterioso e agonizante igual ao pio lamuriento do urutau ou mãe-da-lua.

“Essa negra não pode perder tempo dando peito a menino. Fure o peito, bote pedra na boca do chorão. Coloque a tampa de ferro na sua cara, bote pimenta no peito, se não der jeito pode arrancar os dois. Jogue o menino no mato, manda a mãe cortar cana, pegue a vara da cana e amole no lombo dela. Essa negra devia ter aprendido que aqui ninguém tem o direito de ser mãe nem pai, apenas de trabalhar, trabalhar, trabalhar...”.

E o som aumenta, o canto ecoa num refrão de gemido. Tocam os atabaques, os zabumbas, as caixas. Não, isso não é toque. É lombo de negro, é lombo de negro apanhando. Mas o som aumenta, ainda ouço esse canto açoite. E é canção de negro sofrendo, é sinfonia de negro morrendo.

Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Beijo (Poesia)

Por: Rangel Alves da Costa* 

Beijo


Porque no teu lábio
beijei o mar
beijei a vida
beijei o amar
içei minha vela
a navegar
ter ainda sede
nesse singrar
beijar de novo
apaixonar
o quanto é longe
onde quero chegar
no cais do corpo
um porto seguro
desembarcar
sedento de amor
querendo beijar
me espere morena
o vento já sopra
não posso ficar
no passo das águas
destino amar.


Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE


Convite

O escritor Archimedes Marques, tem o prazer de convidar Vossa Senhoria e família, para o Coquetel de lançamento de seu livro “Lampião Contra O Mata Sete”.
Local: Sociedade Semear 
Rua Vila Cristina, 148
Aracaju - Se
Horário: 19h
Data: 02 / 06 / 2012
SINOPSE
LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE

A história nua e crua narrada com a veracidade que ela merece.

Archimedes Marque (*)
Participante do maior movimento pertinente que há no Brasil, o CARIRI CANGAÇO, evento que reúne anualmente as maiores autoridades nacionais e internacionais sobre o tema e que é realizado na cidade do Crato e região do Cariri cearense adjacente, o autor Archimedes Marques em nome da VERDADEIRA HISTÓRIA QUE FOI VILIPENDIADA com o livro “Lampião, o Mata Sete” resolveu escrever a sua contestação: LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE.

Trata-se do primeiro livro oposição dentro do assunto cangaço. LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE, procura refutar tudo que está errado no seu livro opositor, pois essa obra é eivada de vícios do início ao fim. Todas as alegações contidas no livro “Lampião, o Mata Sete” referentes às honras sexuais de 



Lampião e Maria Bonita são levianas e sem provas algumas por menor que sejam e até mesmo desprovidas sequer de indícios de veracidades, como se a história fosse feita de insinuações vindas do nada, provindas de uma mente criativa sem apresentar fatos alguns que pelo menos deixem dúvidas quanto ao alegado.

Da citada obra contestada, de todas as aleivosias existentes ainda há muita coisa errada, tais como troca de datas, de nomes de pessoas, de fatos, de passagens, além das constantes tentativas de levar o leitor a erro. Enfim o livro “Lampião, o Mata Sete” é de PÉSSIMO GOSTO EM TODOS OS SENTIDOS, jamais é um livro histórico. Trata-se sim, de um livro FICTÍCIO além de muito mal informativo, muito mal pesquisado.


Até os dizeres do escritor Oleone Coelho Fontes que fez a introdução do livro refutado, e que por sinal escreveu o excelente livro "Lampião na Bahia", em muitas vezes se esbarram em situações totalmente adversas ao pensamento contido no livro “Lampião, o Mata Sete”, em comprovação que de tudo nessa obra há somente aleivosias improváveis.

(*) Archimedes Marques (Delegado de Policia Civil no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe) archimedes-marques@bol.com.br


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Cangaço em Foco na TV Litoral de Macaé

Por João de Sousa Lima

O Escritor João de Sousa Lima e o pesquisador Felipe Marques foram entrevistados pelo apresentador Carlinhos "Star", para o programa "COISA NOSSA" LITORAL, canal 21 TV LITORAL- Via Cabo TV Macaé- RJ.
O programa é sucesso com audiência garantida pelos temas discutidos e pela seriedade dos profissionais envolvidos.
O Cangaço foi o tema principal do programa que será exibido dia 02 de junho.
A entrevista aconteceu na AMAC (Associação Macaense de Apoio aos Cegos), orgão que através do seu presidente Marcos Passos transcreveu dois livros de João de Sousa Lima para o sistema Braille. Os Roteiros do Cangaço, com o Museu Casa de Maria Bonita,  da cidade de Paulo Afonso e as pesquisas e entrevistas de João Lima foram alguns dos temas expostos.
Felipe Marques falou da viagem que ele e  Marcos Passos fizeram a cidade de Paulo Afonso para conhecer os lugares onde os cangaceiros andaram por tanto tempo.


CARLINHOS STAR E JOÃO LIMA: Um bate papo sobre as histórias do cangaço.


O câmera Marquinhos  em operação durante as palavras do pesquisador Felipe Marques.


A AMAC foi o lugar escolhido para a entrevista. A instituição foi responsável pela transcrição de dois livros do cangaço para o sistema Braille.

Enviad pelo escritor e pesquisador do cangaço:
João de Sousa Lima

OS DOZE MAIS DE LAMPIÃO

Por: Clerisvaldo B. Chagas

Corisco, tendo nascido em Alagoas, município serrano e fronteiriço de Água Branca com Pernambuco, gostava de frequentar o Estado, após entrar no bando de Lampião. É certo que os primeiros passos profissionais de Virgolino foram nas Alagoas, também naquela área sertaneja. Mas nos tempos das grandes perseguições a partir de 1934, as andanças do chefão pelo nosso território, parecia ser obra do conhecimento de Corisco.


Vimos com clareza que de 1935 em diante, o subgrupo de Corisco gostava da permanência das serras de Água Branca e Mata Grande, enquanto o subgrupo de Moreno que ascendeu à chefia após a morte de Virgínio (vulgo Moderno), dava preferência ao raso de caatinga que se espraia aos pés das montanhas acima.

A volante do perverso tenente Porfírio, sediada em Santana do Ipanema, foi uma das, senão a principal, que espancou os catingueiros, fazendo com que Alagoas produzisse mais cangaceiros a partir daquelas sevícias. Assim é que entraram no bando de Lampião, principalmente pelo subgrupo de Virgínio e depois pelo de Moreno, pessoas novatas que engrossaram o bando.

Do Alto Sertão de Alagoas saíram para o cangaço os irmãos Cícero Garricha (Catingueira II) e João Garrincha, tios de Caixa de Fósforos. Sebastiana acompanhou o viúvo Moita Braba, Quitéria acompanhou Pedra Roxa. Eleonora acompanhou Serra Branca. Moça acompanhou Cirilo de Ingrácia. Marina acompanhou João Vital e, Zé Veio (Pontaria) também ingressou nas hostes do cangaço. No geral, temos o "concurso" de títulos do cangaço lampionesco, baseado em inúmeras pesquisas:

Cangaceiro mais bonito: Juriti;
Cangaceiro mais másculo: Luiz Pedro;
Cangaceiro mais valente: Meia-noite (alagoano do Olho d"Água do Casado);
Cangaceiro mais medroso: Mané Moreno (não confundir com Moreno);
Cangaceiro mais
rico: Luiz Pedro (novamente);
Cangaceiro mais vaidoso: Canário (tinha I e II);
Cangaceiro cantor voz mais bonita: Gitirana;
Cangaceiro mais estrategista: Lampião;
Cangaceiros mais perversos: Corisco, Gato e Zé Baiano;
Cangaceiro mais mulherengo: Balão;
Cangaceiras mais bonitas: Cila e Durvalina;
Cangaceira mais mal feita: (ficamos devendo).

Quem sabe, poderemos voltar depois com detalhes de OS DEZ MAIS DE LAMPIÃO

*NOTA DO GERENTE DO CANGAÇO EM FOCO:

Discordo com o autor do texto quanto aos nomes das cangaceiras mais bonitas, vez que a voz unânime dos remanescentes do cangaço era que a LÍDIA, assassinada a pauladas por ZÉ BAIANO, era a mais linda das cangaceiras, uma cabocla de deixar todos de queixo caido e babando de desejo que traiu o seu companheiro com o cangaceiro BEM-TE-VI e por isso pagou com a sua própria vida o preço da traição.
*Archimedes Marques

Extraído do blog: O Cangaço em Foco, do delegado de Polícia Civil no Estado de Sergipe, Dr. Archimedes Marquesa.

os+doze+mais+de+lampiao

[MANIFESTAÇÃO PÚBLICA FAMILIARES DE DESAPARECIDOS/FLORIANÓPOLIS SC-25 05 SEXTA-FEIRA]

Lembrando que amanhã, dia 25 de maio, as...

Lembrando que amanhã, dia 25 de maio, as 09:00h, estaremos em frente a Catedral, centro de Florianópolis, em manifesto pelo dia Internacional das Crianças Desaparecidas. Cartazes, manuais, cartilhas e revistas serão distribuídos a sociedade. Ampla cobertura da mídia. Oportunidade para divulgar casos de desaparecimentos e buscar apoio na procura.

Enviado por Lenore Xavier de Sousa

Sinhô Pereira


Bando do Sinhô Pereira.

Em março de 1920, os filhos mais velhos do Ferreira ingressam no Bando de Sebastião Pereira, conhecido por Sinhô Pereira, que vivia em luta contra os Nogueiras e os Carvalhos. Tempos depois, na altura da fronteira de Pernanbuco com a Paraiba, o grupo descia Serra Talhada tangido por tenaz perseguição das volantes.

No confronto da fazenda de Neco Alves, parente de Pereira, avistaram uns homens, julgaram tratar-se de companheiros. “Lampião ia na frente, despreocupado, com os dois irmãos. Os soldados atiraram e erraram.

Lampião.

Virgulino ao procurar livrar-se dos projéteis, perdeu o chapéu; Voltou para apanha-lo. Nesse instante, recebeu “ dois tiros”, um na virilha e outro acima do peito. Saiu andando e caiu. Senhor Pereira chamou o Dr. Mota, médico da família, que após o exame disse: “Nunca vi tanta sorte”.
Por um triz as balas pegavam a bexiga e espinha. Se fosse carabina teria pegado”. Depois desse batismo, Lampião resguardava-se muito. 

Senhor Pereira adoece. O mal se agrava. O reumatismo tolhia-lhe os movimentos. Sentia-se sem condições de continuar. Em fins de Agosto de 1922, na Fazenda Preá, município cearense de Jardim, despede-se do cangaço. Foge com dois comparsas para Goias. Lampião que o acompanhava, há dois anos, assume a chefia do grupo – quinze homens e os três irmãos. Permaneceu no posto até a morte. Vários anos de banditismo profissional – de terror no sertão.

Antes de deixar Pernambuco, Sebastião - o Senhor Pereira incendiou um comboio de algodão do prefeito Luiz Gonzaga, da Vila de Belmonte. O cidadão Ioio Maroto, acusado de coiteiro, recebia na sua Fazenda são Cristóvão, o primo Sebastião. Luiz vingou-se. Mandou o tenente Montenegro com uns soldados à propriedade. Surraram Ioio e as filhas. Era a suprema desmoralização! Sinhor Pereira tomou-lhe as dores. Não Perdoou.

Ao despedir-se Virgulino relembrou o acerto:

- Adeus compadre. Seja feliz. Espero que não falte ao prometido!
- Não falto não, Sinhô. Pode ir descançado, Luiz Gonzaga é homem morto a estas horas. Palavra dada era fato consumado.

Virgulino entrou em Belmonte com sessenta e cinco homens debaixo de balas. Perdeu dois cabras. Cercou a residência de Gonzaga, que ao tentar esconder-se no sótão, levou uma queda fatal, arrebentando a cabeça no chão. O Vila-belense despojou-o do anel de bacharel. Arrastaram o corpo para frente da casa. Jogaram-lhe roupas em cima. Despejaram querosene e fizeram uma fogueira. A notícia correu o sertão. Ouvia-se nas feiras: Ioiô foi desfeitado Nós prometemos vingar Montenegro deu a surra Gonzaga é quem vai pagar.

Raul Fernandes Fonte:blogdosanharol.blogspot.com
Postado por Sandro Laranjeira

Luís da Câmara Cascudo


Viveu quase toda sua vida no Rio Grande do Norte. Lia muito, recebia visitas, escrevia demais. Em suas viagens fazia amigos e ouvia histórias. Trocava muita correspondência. Por ser um homem muito querido, recebia - por escrito ou ao pé do ouvido - muitas informações sobre "causos" que embalaram o sono e assustaram gerações e gerações.

Professor Cascudo, como historiador que era, também pesquisou os caminhos trilhados pelo homem e seu legado nos deixou as mais preciosas informações sobre a cultura brasileira. Pela Global Editora tem publicado as seguintes obras: Antologia do Folclore Brasileiro I, Antologia do Folclore Brasileiro II, Canto de Muro, Civilização e Cultura, Contos Tradicionais do Brasil, Dicionário do Folclore Brasileiro, Geografia dos Mitos Brasileiros, História da Alimentação no Brasil, História dos Nossos Gestos, Jangada: Uma Pesquisa Etnográfica, Lendas Brasileiras, Literatura Oral no Brasil, Locuções Tradicionais no Brasil, Made in África, Mouros, Franceses e Judeus: Três Presenças no Brasil, Prelúdio da Cachaça, Rede de Dormir, Superstição no Brasil, Vaqueiros e Cantadores. Para crianças e jovens: Couro de Piolho, O Papagaio Real, Maria Gomes, Marido da Mãe d´Água, A Princesa e o Gigante, A Princesa de Bambuluáe Facécias.

* Afinal! Quem foi Jesuíno Brilhante?


Jesuíno Alves de Melo Calado nasceu no sítio Tuiuiú, no município de Patu, Rio Grande do Norte, em 1844. Filho de José Alves de Melo Calado e D. Alexandrina Brilhante de Alencar.

        
Para Câmara Cascudo, ele "foi o cangaceiro gentil-homem, o bandoleiro romântico, espécie matuta de Robin Hood, adorado pela população pobre, defensor dos fracos, dos velhos oprimidos, das moças ultrajadas, das crianças agredidas (...) Baixo, espadaúdo, ruivo, de olhos azuis, meio fanhoso, ficava tartamudo quando zangado. Homem claro, desempenado, cavaleiro maravilhoso, atirador incomparável de pistola e clavinote, jogava bem a faca e sua força física garantia-lhe sucesso na hora do "corpo a corpo". Era ainda bom nadador, vaqueiro afamado, derrubador e laçador de gado.
        
Sua pontaria infalível causava assombro, especialmente porque Jesuíno, ambidestro, atirava com qualquer das mãos. Casou com D. Maria, tendo cinco filhos dessa união.
        
Envolvido com uma questão de família, Jesuíno matou o negro Honorato Limão, no dia 25 de dezembro de 1871. Foi sua primeira vítima.
        
Como lembra Tarcísio Medeiros, era "irredutível em questão de honra". O autor, em seguida, cita um texto de Raimundo Nonato, que narra um episódio, onde Jesuíno Brilhante se hospedou em uma casa. O marido estava ausente. Um bandido, de nome Montezuma, procurou se aproveitar da situação para perseguir a proprietária da casa. Jesuíno, revoltado, matou o malfeitor. Outro caso: assassinou um escravo, José, porque tentou violentar uma mulher.
       
 Segundo Cascudo, "ficaram famosos os assaltos à cadeia de Pombal(PE) para libertar seu irmão Lucas (1874) e, no ano de 1876, à cidade de Martins (RN). Cercado pela polícia local, Jesuíno e seus dez companheiros abriram passagem através de casas, rompendo as paredes, cantando a antiga "Curujinha".
        
Câmara Cascudo afirma ainda que Jesuíno "nunca exigiu dinheiro ou matou para roubar". A imaginação popular acrescentou à biografia do cangaceiro centenas de batalhas, das quais Jesuíno Brilhante teria participado sem que tivesse levado um só tiro...
        
Em dezembro de 1879, na região das Águas do Riacho de Porcos, Brejos da Cruz, na Paraíba, Jesuíno foi atingido no braço e no peito, sendo levado, agonizante, por seus amigos. Morreu no lugar chamado "Palha", onde foi sepultado.

Bando de Lampião em Limoeiro e em Aurora ...

Por: Jorge Remigio

...qualquer semelhança nas fotos é mera coincidência. Um abração cangaceiro a toda família Cariri Cangaço!

Jorge Remídio

A Influência do Cangaceiro Lampião na Estética e Moda


A simples menção ao nome de Lampião fazia tremer o cabra mais macho do Nordeste. Virgulino Ferreira da Silva, seu nome de batismo, aterrorizou o sertão, entre 1916 e 1938, com seu bando que contava 200 homens.

Nos sete Estados da Federação onde a lei parecia ausente e a polícia, chamada de Volante, cometia excessos, Lampião e sua gangue justificavam seus assassinatos, degolas, estupros e assaltos com supostas bandeiras sociais e, assim, conseguiam angariar alguma simpatia da população pobre. Mas, quando não estava praticando crimes, o cangaceiro se atracava com agulhas e linhas para costurar e bordar, indamente, roupas, revestimentos para cantil, cinturões, bornais (espécie de bolsa) e os lenços que usava ao estilo Jacques Leclair, o protagonista costureiro da novela global “Ti-ti-ti”.

Seu sanguinolento bando exibia uniformes bordados com flores, estrelas e símbolos místicos. Embora cause estranheza, este apuro estético tinha uma finalidade: servia para despertar admiração entre a população e, também, como patente hierárquica do bando. Lampião acreditava ainda que alguns símbolos blindavam seus homens contra maus espíritos.

Lampião em sua máquina de costura

O lado excêntrico e quase marqueteiro do famoso bandoleiro emerge pelas mãos de uma das maiores autoridades brasileiras em cangaceiros, o historiador Frederico Pernambucano de Mello, “o mestre dos mestres quando o assunto é cangaço”, como dizia o antropólogo Gilberto Freyre.
Mello acaba de lançar o livro “Estrelas de Couro – A Estética do Cangaço” (Escrituras, 258 págs.), no qual mostra que, ao impor um estilo próprio de vestuário, Lampião incutia os valores do cangaço aos homens do seu bando e estabelecia a diferença entre a sua tropa e os “outros.”

Lampião, aliás, odiava ser confundido com cangaceiros comuns. A força da roupagem luxuosa que ele criara – e incluía metais e até ouro, além de moedas e espelhinhos –, chegou a influenciar as vestimentas dos policiais. Antes de costurar, ele pegava um papel pardo e desenhava, depois levava o papel para a máquina Singer e cobria o tecido. “Ele não era apenas o executor do bordado. Era também o estilista”, afirma Mello.

“No início, a 
moda era ofício masculino”, garante a professora de história da indumentária e antropologia da moda Silvia Helena Soares, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Ela vê nas criações de Lampião um estilo de moda que remonta à época do Renascimento (século XVI), quando os homens bordavam as joias na própria roupa. “Era tudo grandão, pesado. Não tinha nadade delicadinho”, afirma.

Para o historiador Luiz Bernardo Pericás, autor de “Os Cangaceiros: Ensaio de Interpretação Histórica”, os uniformes dos cangaceiros ficaram tão enfeitados que pareciam fantasias. “Era um dos aspectos da extrema vaidade daqueles bandoleiros”, diz Pericás. Lampião aprendeu a manejar a linha e a agulha muito antes de tomar gosto pelo rifle. 

Quando menino, quase adolescente, Virgulino fazia tecidos de couro muito bem ornamentados, resistentes e esteticamente valiosos para vender nas feiras. “Era famoso como alfaiate de couro”, afirma o historiador Mello. Ele foi parar no crime porque sua família se envolveu numa guerra com fazendeiros vizinhos. Dizem que era tão hábil com a espingarda que conseguia dar tiros consecutivos que clareavam a noite. Daí a alcunha de Lampião.

O Rei do Cangaço morreu aos 40 anos, em 1938, junto com a fiel companheira, Maria Bonita – que, igualmente, andava coberta de roupas, chapéus, cintos e bolsas bordadíssimas. O casal e nove homens do bando foram decapitados e as cabeças expostas como troféus pela polícia nas escadarias da igreja de Piranhas, em Alagoas. Ali, foram fotografadas ao lado de objetos preciosos do grupo, como espingardas e cartucheiras, além de outras armas de Lampião: duas máquinas de costura Singer, o sonho de todas a donas de casa da época. Se tivesse escolhido a profissão de costureiro, Lampião (até hoje cons­tantemente revisitado pela indústria fashion) certamente teria tido uma carreira brilhante.