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segunda-feira, 25 de junho de 2012

A CASA DO GONZAGÃO NO SÃO JOÃO DE CAMPINA GRANDE

Por: Kydelmir Dantas (*)




Visitamos ontem (23/6) a CASA DO GONZAGÃO, no Parque do Povo, em pleno centro de Campina Grande – a Rainha da Borborema. Uma coisa ‘mais maior’ de grande! Uma belíssima homenagem neste Centenário do Rei do Baião.

A equipe multidisciplinar, formada pelo jornalista cultural Xico Nóbrega, o ensaísta e pesquisador da história de Campina Grande José Edmilson Rodrigues, o historiador e pesquisador Thomas Bruno Oliveira, o designer Marco Túlio e Arthur Nunes, profissional de marketing, com o apoio e patrocínio da  empresa Estrutural Eventos (do empresário Jomário Souto), foi de uma imensa sensibilidade e competência, para o sucesso do projeto.


Abrindo a partir das 14:00h e fechando às 23:00 h, todos os dias neste período junino, tem uma afluência de visitantes impressionante, numa média de 1300 a 1500 pessoas/dia.

 
Maior que a afluência é a emoção das pessoas que visitam a casa e seus três ambientes diversificados e devidamente caracterizados.

EU VOU CONTAR PRA VOCÊS:

A entrada com a representação da casa onde Luiz Gonzaga morou, no povoado Araripe, em Exú-PE, até o ano de 1930, d’onde ele saiu para cumprir sua sina de músico, compositor e cantor, transformando-se num d’OS TRÊS PILARES DA MÚSICA POPULAR NORDESTINA – os outros são Jackson do Pandeiro e João do Vale – e um dos maiores ídolos da MPB;

A segunda parte com os aspectos da casa onde viveu durante a infância. Ao lado direito de quem entra a típica casa sertaneja, com seus utensílios domésticos – a cozinha de SANTANA - e rurais; à esquerda, uma réplica da ‘oficina de consertador de foles de 8 baixos, JANUÁRIO... Onde o menino Luiz tocou seus primeiros acordes até se transformar no grande ‘SANFONEIRO DO RIACHO DA BRÍGIDA’.

Oficina de foles de 8 baixos

Já no terceiro ambiente está o Museu de Luiz Gonzaga, com imagens do Rei e sua biografia, devidamente apresentada em livros, discos, objetos e fotos, além d’uma imagem representando o LUIZ GONZAGA SUA SANFONA E SUA SIMPATIA, onde os visitantes se demoram em fazer fotos, registrando sua passagem pela Casa do Rei do Baião... Sua entrada no Museu Fonográfico e Biográfico do Luiz Gonzaga.
 
Cecília Monte – Gonzagão – Kydelmir Dantas

A gente sente a emoção fluindo... Nos comentários dos visitantes, nos olhos marejados ao escutarem o maior entusiasta da Casa, XICO NÓBREGA, que ganha tempo e atenção de velhos, jovens e crianças, contando causos e fatos da vida de LUIZ GONZAGA E OUTRAS POESIAS.

Xico Nóbrega - jornalista

E tome XOTE, XAXADO E BAIÃO... E viva o homem que continua vivo na memória coletiva de uma Nação chamada NORDESTE... De um Povo chamado BRASILEIRO.

E VIVA O REI DO BAIÃO NO SEU CENTENÁRIO...
... E PARA SÉCULOS E SÉCULOS, AMÉM!

  
(*) Pesquisador da obra Gonzagueana; de Nova Floresta-PB radicado em Mossoró-RN.
http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Imprensa e Cangaço - Lauro da Escóssia foi responsável pelo maior furo de reportagem da história do Rio Grande do Norte

Jornalista e escritor Lauro da Escóssia
[1905 - 1988]

O dia 19 de junho de 1927 foi importantíssimo na história do Jornal O Mossoroense e de toda a imprensa potiguar, pois foi neste dia que foi publicado o maior furo de reportagem do Estado. Tratava-se da entrevista que o cangaceiro Jararaca concedeu a Lauro da Escóssia na prisão, antes mesmo de depor em inquérito policial.

Com a reportagem, de repercussão nacional, transformada em matéria do jornal O Estado de São Paulo, o jornal chegou a uma vendagem recorde de 5.400 exemplares, patamar nunca mais alcançado.

A manchete dizia "Hunos da nova espécie" e a sub-manchete, "O famigerado Lampião e seu grupo de asseclas atacam Mossoró". As chamadas diziam "A heróica defesa da cidade" e "É morto o bandido Colchete é gravemente ferido o lombrosiano Jararaca".

Em seu livro "Escóssia", Cid Augusto transcreve a reportagem, que é introduzida por comentário discordando do adjetivo atribuído a Jararaca na chamada, e que pode ser conferida abaixo na íntegra:

"- Não, nada. Sujeito simpático. Ele começou me dizendo que se chamava José Leite, tinha 27 anos e nasceu no dia 5 de maio em Buíque, Pernambuco. Sujeito moreno, muito moreno, mas não era negro. Era solteiro e andava com Lampião há um ano e alguns meses. Ele tinha um fuzil mauser e cartucheiras de duas camadas, mais 560 mil réis no bolso e uma caixinha com obras de ouro no valor de 1 conto de réis.

Disse que o ataque a Mossoró foi idealizado por Massilon Leite e que Lampião relutou um pouco, por causa da história das duas Igrejas. Que quando Lampião chegou a Mossoró não gostou nada, nada, daquela 'igreja da bunda redonda' (de onde estavam partindo os tiros contra o bando). De repente, Jararaca começava a rir, diz Lauro da Escóssia, e a gente perguntava por que, espantado como um homem com um buraco de bala no peito ainda conseguia rir. -Mas, enfim, Jararaca, para que Lampião queria tanto dinheiro?
- Era pra comprar os volantes de Pernambuco.'

Voltamos a outros episódios com Jararaca na prisão.

Quelé não entrou na cadeia. Um seu ordenança, negro bem alto chegou perto de Jararaca, tendo-lhe arrancado do pescoço, num gesto brusco, uma volta de ouro que trazia com uma medalha de Santa. Depois cobiçou um anel que o bandido trazia no dedo. Jararaca tentou tirar, não conseguindo, ao que o negro foi logo dizendo: '
- Coloque a mão aqui. Eu vou cortar o dedo para tirar o anel'. 
E puxou um faca (facão) ao que o Dr. Marcelino implorou: '
- Meu senhor, não faça isto. Cortar o dedo na minha frente, não'.
O negro desistiu, por certo atento à sensibilidade do doutor. Jararaca, fez um pedido com certa ironia:  
'- Tragam Quelé que eu quero dizer quem é cangaceiro'.
Disse depois: '- Quelé era do nosso bando e a polícia paraibana fez dele um sargento para nos perseguir'.


Mesmo ferido, Jararaca não escondia seu riso, o desejo de ainda viver e no momento em que uma linda jovem de nossa sociedade penetrava na sala, atenta à sua curiosidade para ver o bandido, este pergunta:
'- Esta moça é daqui?'. Ao que, recebendo a afirmativa, disse: 
'- Se o capitão (Lampião) soubesse que aqui tinha uma moça tão bonita teria entrado na cidade.'

A uma pergunta de D. Marola Silva (esposa do Sr. Veriato Silva), se os vinte e tantos traços que tinham na coronha de sua arma eram anotações de morte feitas pelo mesmo, como dizem, respondeu-lhe:
'- É tudo mentira, minha senhora. Eu nunca matei ninguém'. E deu uma boa gargalhada, saindo o vento pelo furo do peito.

Apenas impaciente ficou seguidas horas naquele sofrimento, pelo que chegou a pedir um canudo de mamão e algumas pimentas malaguetas, dizendo que com isso ficaria bom.

Perguntei-lhe como. Disse:
'- No bando, quando alguém recebe ferimento como este (apontando para o peito), sopra-se malagueta pelo canudo colocado na ferida. Sai toda salmoura do outro lado. Arde muito, mas a gente fica curado'.

Mas, apesar de tudo isto, Jararaca vinha aos poucos melhorando e se tivesse sido medicado convenientemente não morreria pelos ferimentos.

O tenente Laurentino de Morais tinha ido a Natal de onde voltou na quarta-feira seguinte. Esperou pela quinta, quando Jararaca seria transportado para Natal. Alta noite, da quinta para a sexta-feira, levaram Jararaca, não para Natal e sim para o cemitério, onde já estava aberta a sua cova.

Tenente Laurentino de Moraes
Fonte: 
JMaria

Disse o bandido: '
- Vocês não me levam para Natal. Sei que vou morrer. Vão ver como morre um cangaceiro!'

Naquele local foi-lhe dada uma coronhada e uma punhalada mortal. O bandido deu um grande urro e caiu na cova, empurrado. Os soldados cobriram-lhe o corpo com essa areia. Essa ocorrência feita às escondidas foi guardada com as devidas reservas por alguns dias. Tempos depois, o capitão Abdon Nunes, naquela época comandante da guarnição policial de Mossoró, revelou em depoimento a morte de Jararaca'.

Açude:
 Valeria Escossia

lampiaoaceso.logspot.com

Graciliano Ramos e o Cangaço

Por: Honório de Medeiros

Ricardo Ramos ao ouvir seu pai contar acerca de quando Palmeira dos Índios se armara para enfrentar Lampião, ficara fascinado:“Passara a meninice acalentado pelas estropolias dos cangaceiros, da polícia volante, duas pestes que nos assolavam.” “E (lhe) contei de uma noite, após a ceia, em que, atraído por foguetes, sai à calçada e vi os caminhões, as cabeças cortadas, espetadas em estacas, de Lampião, Maria Bonita e mais dez outros, os soldados empunhando archotes, gritando vitoriosos, um cortejo macabro pelas ruas de Maceió”.

Graciliano Ramos por william.com.br

Graciliano lhe diz: - Eu escrevi sobre isso”.“Não havia lido, era pequeno e estava fora do Rio. Bem depois, ao se reunirem as crônicas de Viventes das Alagoas (título sugerido por Jorge Amado), afinal encontrei “Cabeças”. Ou reencontrei minha antiga visão, bárbara, mas transporta no sarcástico perfil do

Tenente João Bezerra

tenente Bezerra, que se reformou coronel, o falante matador de Lampião,


versado em frases feitas, sua retórica elementar de glorificado primário.”

“Havia mais, bem mais. O Fator Econômico no cangaço, crônica da propriedade que se mantém e cresce pela força, com pequenos exércitos de senhores rurais, sedentários, enquanto os cangaceiros se distinguem dos outros facínoras apenas por serem nômades, no regime de produção agrícola da caatinga.”

Honório de Medeiros, ao lado de Carlos Santos, Vilela e Lívio Ferraz em noite de Cariri Cangaço

"Corisco, uma crônica do diabo louro, seu conterrâneo de Viçosa, filho de decadente família de donos de engenho, forçado a decair, enlouquecido, o pequeno monstro baleado e decapitado, morto quase inédito porque havia a guerra na Europa, tantos crimes.

Lado esquerdo - Corisco - Direito - Vinte e Cinco

Dois Cangaços, a crônica dos matutos indefesos diante de dois poderes, a volante e o cangaceiro, a primeira muitas vezes obrigando-os à segunda opção, ou o seu reverso, em todo o caso forçando-os a escolher, pela imposição sócia, ou pior ainda, pela econômica.”“E Lampião e Virgulino, que buscam o perfil. Necessariamente fincado no agreste.”

"Graciliano nunca idealizou Lampião. Desde 1926, ao escrever do assédio a Palmeira dos Índios, sem mencionar a sua participação pessoal. Chama-o ‘bicho montado’, ‘horrível’, ‘sanguinário’, diz dele o animal ‘cruel’, que ‘queima fazendas’, capaz ‘de violar mulheres na presença de maridos amarrados’, e ‘se conservara ruim, porque precisa conservar vivo o sentimento de terror que inspira’, enfim ‘vemos perfeitamente que o salteador cafuzo é um herói de arribação bastante chinfrim".

"Por outro lado, não desconhecem a sua projeção lendária. ‘Lampião nasceu há muitos anos, em todos os estados do Nordeste’. E se refere à nossa tradição bandoleira, do remoto Jesuíno Brilhante ao envelhecido Antônio Silvino, para concluir: ‘Resta-nos Lampião, que viverá longos anos e provavelmente vai ficar pior. De quando em quando, noticia-se a morte dele com espalhafato. Como se se noticiasse a morte da seca e da mséria. Ingenuidade." 

Obra citada: “Graciliano RETRATO FRAGMENTADO”; RAMOS, Ricardo; Globo; 2ª edição; 2011; São Paulo.

Honório de Medeiros
Sócio da SBEC - Conselheiro Cariri Cangaço
www.honoriodemedeiros.blogspot.com