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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

CLEMENTINO QUELÉ: O CANGAÇO MARCOU SEUS PASSOS

Por: João de Sousa Lima

CLEMENTINO QUELÉ: O CANGAÇO MARCOU SEUS PASSOS

Clementino Francisco da Silva, “Quelé”, nascido em  Canindé do São Francisco, Sergipe, em  08 de novembro de 1914, filho de José Francisco e Júlia Alves, teve várias facetas de sua vida ligadas com o cangaço. Primeiro foi criado na fazenda Jerimum, sendo amigo de infância da cangaceira Dulce Menezes, a Dulce companheira do cangaceiro Criança.

A cangaceira Dulce ao centro - Criança à direita

Quelé estava em Canindé do São Francisco quando a cidade foi invadida pelos cangaceiros comandados por Lampião  tendo por companhia o perverso

O cangaceiro Zé Baiano

Zé Baiano que ferrou as irmãs Marques. Quelé viu os cangaceiros entrando na cidade e depois ouviu o clamor das mulheres que tiveram suas faces ferradas com as iniciais JB.


As irmãs ferradas por Zé Baiano

Quelé hoje reside no povoado Nambebé, em Paulo Afonso, Bahia. Mora justamente na casa de Pimba que era tio dos cangaceiros bananeira e Artur, era irmão de “Lixandrão”, grande coiteiro de Lampião.

Em uma das entradas de Lampião no Nambebé Pimba denunciou a passagem à polícia e Lampião ficou sabendo da entrega, voltando ao povoado com o intuito de matar o delator e só por pedido de Lixandrão que era um coiteiro respeitado e pai do cangaceiro Bananeira foi que Lampião não concluiu sua intenção.  Por castigo Pimba teve tatuado em sua testa uma cruz feita por Lampião, ferida aberta pela afiada lâmina de um canivete.

Quelé é casado com Maria Teixeira, filha do coiteiro Antonio Curvina. Antonio Curvina foi um ótimo artesão em couro e era quem fazia chapéus, cartucheiras, alpercatas, cintos e bandoleiras para Lampião e seus seguidores. Quando do combate da Lagoa do Mel onde morreram dezenove soldados e o Ezequiel (irmão de Lampião), um dos soldados que fugiu ao cerco, se perdeu dentro da mataria fechada e saiu justamente no povoado Nambebé. Com o alerta que ali era reduto de Lampião o soldado pegou Antonio Curvina e o menino Epiphânio de Félix como reféns e ordenou que eles o levassem até Santo Antonio da Glória. No trajeto, o soldado bastante cansado, entregou seus pertences ao Antonio Curvina para que ele o ajudasse a levar o material. Assim que eles saíram do Nambebé alguns cangaceiros que vinham no encalço do soldado chegaram ao povoado. Maria, esposa de Antonio, contou a história acontecida com seu marido e a falou da preocupação que estava passando por ver seu companheiro nas mãos do militar. Os cangaceiros seguiram por outro caminho que levava em um tempo mais curto até o povoado Salgadinho. Ganhando tempo os cangaceiros chegaram a um ponto e armaram emboscadas para pegar o soldado. Ao longe avistaram as três pessoas que seguiam uma vereda, Antonio Curvina vinha com os bornais e o chapéu do soldado. Os cangaceiros confundiram o coiteiro com o soldado e atiraram, o soldado correu, o garoto Epiphânio de Félix se emparelhou em uma árvore e nada sofreu, Antonio Curvina caiu morto. O soldado chegou ao povoado Salgadinho e justamente na casa da irmã da cangaceira Lídia que avisou a ele que ali era coito de cangaceiros. O soldado se negou a sair da residência. No encalço dos cangaceiros e do soldado, montado em um burro,  vinha o primo de Antonio Curvina, o jovem Lindo de Zezé. Lino encontrou o primo morto e saiu em perseguição ao soldado indo encontrá-lo no povoado Salgadinho. Lino pegou o soldado, amarrou-o, montou no burro e saiu arrastando o soldado, na subida da Serra do Padre Lino matou o soldado, pegou seu armamento e foi se apresentar ao cangaceiro Lampião que ouviu sua história e de imediato o aceitou em seu bando, passando Lino a ser chamado de Pancada, o famoso cangaceiro Pancada.

Quelé chegou a Paulo Afonso ainda na década de 1940. Com o começo das obras da CHESF Quelé derrubava a golpes de machado, frondosas árvores que eram utilizadas pela companhia para fazer as pontes para os caminhões passarem transportando material para a construção das usinas. Hoje, aos 99 anos de vida, Quelé ainda é lúcido e bom de conversa residindo no povoado Nambebé onde todos os dias uma numerosa família senta-se ao seu redor para ouvir suas histórias de vida e seus ensinamentos de homem justo, correto e trabalhador. Lutando contra um problema de próstata, sempre de olho na sonda que lhe acompanha, o velho senhor enumera seus passos que coincidiram com as passagens do cangaço e entre um misto de orgulho e de dono do seu tempo, ele conta histórias, encanta, recita versos, declama histórias completas aprendidas nos cordéis, relata fatos, emociona e emociona-se, considera suas andanças nas ásperas veredas que o sertão lhe impôs. Sábio cavalheiro de um tempo que tem perdido a oralidade dos fatos pela idade dos períodos corridos.

João de Sousa Lima
Historiador e escritor


João e Seu Quelé no terreiro de sua casa, no povoado Nambebé, reduto de Cangaceiros.


Sebastião Carvalho, Quelé e João de Sousa Lima. As histórias de Quelé são ricas em detalhes. A casa era onde morava Pimba.


Escombros da casa do coiteiro Lixandrão, pai dos cangaceiros Bananeira e Artur, povoado Nambebé, Paulo Afonso, Bahia.


Escombros da casa do coiteiro Lixandrão, pai dos cangaceiros Bananeira e Artur, povoado Nambebé, Paulo Afonso, Bahia.


Escombros da primeira casa de Pimba


Maria, filha de Antonio Curvina e esposa de Quelé


Quelé e sua identificação


Enviado pelo escritor e pesquisador do cangaço João de Sousa Lima

www.joaodesousalima.com

BONITA MARIA DO CAPITÃO


BONITA MARIA DO CAPITÃO

O livro editado por Vera Ferreira, com a história dos avós, Maria Bonita e Lampião, ganhou o premio de melhor projeto gráfico da Biblioteca Nacional. Autora: Germana Alves de Araújo (Sergipe)

Fonte: ALMANAKITO (Maria Rosário Caetano) - SEXTA-FEIRA - 28-12-12

Enviado pelo poeta, escritor e pesquisador do cangaço:

Kydelmir Dantas
MOSSORÓ - RN
Fone: (0xx - 84) - 3323 2307 

JERÔNIMO ROSADO – O PARAIBANO QUE MUDOU MOSSORÓ

Por: Rostand Medeiros

Jerônimo Ribeiro Rosado, o dono da farmácia que levava seu nome, nasceu em Pombal-PB, aos 8 de dezembro de 1861, era filho de Jerônimo Ribeiro Rosado e Vicência Maria da Conceição Rosado. 

Jerônimo Rosado
Jerônimo Rosado

Formou-se em Farmácia no Rio de Janeiro, onde atuava como fiscal da iluminação pública. Voltou ao seu Estado natal em 1889, quando abriu a primeira botica em Catolé do Rocha e desposou Maria Rosado Maia, a Sinhazinha.

Na página de anúncios do periódico natalense A Republica, de, 21 de março de 1901, vemos uma propaganda da farmácia que Jerônimo Rosado possuía em Mossoró
Na página de anúncios do periódico natalense A Republica, de, 21 de março de 1901, vemos uma propaganda da farmácia que Jerônimo Rosado possuía em Mossoró

O casal teve três filhos: Jerônimo Rosado Filho, médico, farmacêutico e poeta, morto aos 30 anos; Laurentino Rosado Maia, que morreu 15 dias depois do nascimento, e Tércio Rosado Maia, farmacêutico, odontólogo, advogado, poeta, pioneiro do cooperativismo brasileiro, comerciante de livros usados, professor universitário.

Sinhazinha partiu em 1892, pouco depois do último parto, vítima de tuberculose. No leito de morte, conforme relata mestre Luís da Câmara Cascudo, pediu “que o marido a fizesse sepultar no Catolé do Rocha, na terra onde nascera”. E casasse com sua irmã Isaura, para que seus filhos não tivessem madrasta.

Nesta mota do jornal carioca Gazeta de Notícias, de 19 de janeiro de 1887, vemos o jovem Jerônimo como estudante no Rio de Janeiro
Nesta mota do jornal carioca Gazeta de Notícias, de 19 de janeiro de 1887, vemos o jovem Jerônimo como estudante no Rio de Janeiro

Reivindicações atendidas: o corpo de Maria Amélia foi sepultado o viúvo, de 32, casou-se com a cunhada, de 17 anos, em 1893. A noiva se mudou para Mossoró, onde o marido residia e para onde transferiu os negócios em 1890, a convite do médico e líder político Francisco Pinheiro de Almeida Castro, patrocinador da drogaria.

Em Mossoró, a principal cidade do interior potiguar, Jerônimo abriu sua farmácia e, em 40 anos, gerou 21 filhos. Foi uma figura central na construção histórica e política do chamado eufemisticamente como “País de Mossoró”.

Do segundo enlace advieram 18 rebentos, nem todos chamados “Jerônimo” e nem todos numerados. Diferentemente do que reza a lenda, nem todos receberam nomes franceses. Do terceiro até o décimo, a inspiração para os nomes era o latim. A partir do 11º, e só com a exceção do 12º filho, todos levaram nomes inspirados nos numerais franceses. 

Foram ao todo 12 homens e nove mulheres. A maioria recebendo Jerônimo ou Isaura como primeiro nome.

Izaura Rosado (com z)
Laurentino Rosado Maia (homônimo do segundo)
Isaura Sexta Rosado de Sá
Jerônima Rosado, que tem como apelido o nome de “Sétima”
Maria Rosado Maia, que tem como apelido “Oitava”
Isauro Rosado Maia, que tem por apelido “Nono”
Vicência Rosado Maia, que como apelido o nome de “Décima”
Laurentina Rosado, que tem como apelido o nome de “Onzième”
Laurentino Rosado Maia, que tem como apelido “Duodécimo”
Isaura Rosado, que tem como apelido o nome de “Trezième”
Isaura Rosado, que tem como apelido o nome de “Quatorzième”
Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido o nome de “Quinzième”
Isaura Rosado Maia, que tem como apelido o nome de “Seize”
Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido “Dix-sept”
Jerônimo Dix-huit Rosado Maia
Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido o nome “Dix-neuf”
Jerônimo Vingt Rosado Maia
Jerônimo Vingt-un Rosado Maia.

Entre outras notícias publicadas pelo jornal carioca Gazeta de Notícias, de 3 de novembro de 1925, vemos o relato da morte de um dos filhos de Jerônimo Rosado
Entre outras notícias publicadas pelo jornal carioca Gazeta de Notícias, de 3 de novembro de 1925, vemos o relato da morte de um dos filhos de Jerônimo Rosado

Numeração

Ninguém sabe ao certo o que levou o patriarca a numerar os filhos. Talvez influência dos tratados farmacêuticos da época, todos escritos nas duas línguas, ou algum tipo extremo de obsessão pela ordem. O que se sabe é que o velho Jerônimo Rosado era fanático pela educação dos filhos e dos netos. Tão fanático que, certa vez, quando um de seus netos decidiu que não iria mais estudar, ele não pensou duas vezes. Mandou fazer uma engraxateira para o menino, deu-lhe um macacão de engraxate e ordenou que começasse a trabalhar. Sugeriu, até, que ele nem precisava sair de casa, já que a família era grande e ali mesmo ele teria uma boa clientela. Logo, logo o menino voltou para a escola.

O velho Rosado ensinou os filhos, ainda, a serem solidários. Se houvesse apenas uma fruta para comer, ela era dividida igualmente entre todos. Estimulava as crianças a conversar com estranhos, levando-as consigo, sempre, a encontros ou jantares. Não fazia distinção de sexo: meninos e meninas deviam acompanhar o pai. Tratava todos da mesma maneira. Queria vê-los trabalhando e estudando. Em razão disso, fundou a primeira escola exclusivamente feminina de Mossoró: o Externato Mossoroense.

Tese

Em sua tese de doutorado sobre a família Rosado, o professor José Lacerda Alves Felipe defende a ideia de que essa forma de educar adotada por Jerônimo Rosado tinha como objetivo formar o núcleo de uma oligarquia. Nela, cada filho teria uma função econômica. Felipe trata Jerônimo Rosado como o “herói civilizador” de Mossoró. Uma espécie de grande criador, de instituições sociais, elementos culturais, mitos. O objetivo não declarado era sempre, ele diz, conquistar o poder político.

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Cada vez que um filho se aproximava da maturidade, o velho Rosado o chamava para uma conversa em particular, em que tentava convencê-lo a entrar para a política. Os Rosado desmentem isso. Alguns mossoroenses afirmam, contudo, que essa foi uma das revelações feitas por Dix-Huit em seu leito de morte. Verdade ou mito? O que se sabe é que, apenas 18 anos depois da morte do patriarca, um Rosado abraçou, de fato, a carreira política. Em 1948, Dix-Sept Rosado Maia, em uma campanha na qual pela primeira vez se usaram trios elétricos, foi eleito prefeito de Mossoró.

O Mito Rosado

Dix-Sept governou a cidade durante quatro anos. Tornou-se, depois, governador do estado, mas morreu, em um acidente aéreo, seis meses depois da posse. Virou um mito. No País de Mossoró, há uma estátua de Dix-Sept, em bronze e tamanho real, na principal praça da cidade. Sob ela, podemos ler: “Nele se conjugaram idealismo e ação, espírito público e solidariedade humana, capacidade de resistência e destino de comando [...]”. Logo abaixo, em letras enormes, a assinatura: “Homenagem do povo”. A estátua foi construída pelo irmão Vingt, que, em 1954, o sucedeu na prefeitura de Mossoró.

O 17º filho foi, de fato, a raiz política dos Rosado. Irmãos, sobrinhos e netos o sucederam como prefeitos da cidade, vereadores, deputados e até senadores. Entre eles, destacam-se Dix-Huit e Vingt Rosado. Depois de algum tempo, os dois irmãos romperam. Diz-se em Mossoró que a briga entre eles não passou de uma jogada política para conservar, em definitivo, os Rosado no poder. Desde então, Rosado é oposição de Rosado. Não importa o vencedor: a família sempre leva. O sobrenome Rosado batiza, hoje, muitas ruas, praças e até estabelecimentos comerciais de Mossoró.

Nota do jornal carioca Gazeta de Notícias, 1 de julho de 1922, mostrando a atuação política de Jerônimo Rosado
Nota do jornal carioca Gazeta de Notícias, 1 de julho de 1922, mostrando a atuação política de Jerônimo Rosado

A cultura, porém, ficou nas mãos do 21º, Vingt-un, a quem coube realizar os sonhos educacionais do pai. Desde cedo, ele se empenhou para contar a história de Mossoró, registrar tudo que levasse o nome de sua terra natal e gerar e publicar a produção intelectual dos mossoroenses. Foi por isso que nos anos 1960 ele idealizou e fundou a Escola Superior de Agronomia de Mossoró (ESAM), onde organizou encontros e seminários e fez amizade com grandes intelectuais. Vingt-un Rosado foi uma espécie benigna de fanático.

A biografia completa do pombalense Jeronimo Rosado foi escrita pelo historiador Luiz da Câmara Cascudo, no livro “Jerônimo Rosado: uma ação brasileira na província de Mossoró(1861-1930)”.

Fonte de fotos – Autor do Blog Tok de História

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Extraído do blog do historiógrafo e pesquisador do cangaço:
Rostand Medeiros

http://tokdehistoria.wordpress.com

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A cangaceira Sila



Ilda Ribeiro de Souza, a ex-cangaceira "Sila", ex-esposa do cangaceiro Zé Sereno na sua obra "Angicos, Eu Sobrevivi", quando se propõe a relatar a sua história e a das mulheres do cangaço, nos transmite através de um relato franco e forte fatos provados e interessantes, repletos, acima de tudo, de drama humano na vivência de sua cultura singular. As breves transcrições estão marcadas de sangue e suor daquela que viveu na própria pele a realidade de uma época.

O PRIMEIRO ENCONTRO COM CANGACEIROS

(SILA): Algum tempo depois eu estava no mato com meu irmão João, quando de repente vimo-nos em meio a quatro ou cinco homens vestidos com roupas estranhas e armados com fuzis: era o grupo do cangaceiro Zé Baiano. Levamos um susto tremendo. Zé Baiano fez algumas ligeiras perguntas e, logo em seguida, seguiram viagem deixando-nos em paz.
Fiquei na Casa dos Sete Umbuzeiros em companhia dos meus irmãos. João não queria que eu ficasse lá, pois havia um boato que os cangaceiros levavam moças para o cangaço. João tinha receio de que eles aparecessem e me carregassem. Algum tempo depois ele me disse:
- Sila, você não vai ficar aqui; vou levá-la para casa de Tia Marieta. É mais seguro.
Eu respondi:
- Os cangaceiros não vão me carregar, porque ninguém fala mais neles. Eles devem ter ido longe – respondi-lhe. – Será que eu não posso mais morar com vocês?
No outro dia, cedinho, passaram em nossa casa sete cangaceiros: Zé Baiano (primo de Zé Sereno), Zé Sereno, Manoel Moreno e outros. Tive oportunidade de vê-los. Meu irmão tremia de medo. Então um deles, Zé Baiano, aproximou-se de João e disse-lhe:
Faça comida e vá levar para trás da casa, perto do riacho, onde estão os outros cangaceiros. Leve a moça para lá.
Eu disse a João que não iria. João insistiu:
- Você vai, porque se não for será pior; bem que eu lhe disse para que não ficasse aqui.
Resolvi então acompanhá-lo.
Amedrontados, com as pernas tremendo, seguimos até o local indicado pelo cangaceiro. Eu, bastante assustada, perguntava a mim mesma o que poderia nos acontecer, pois o medo era tanto que não podíamos nos controlar.
Chegamos e nos deparamos com aqueles homens de aspecto selvagem, sujos e maltratados. Foi quando Zé Baiano me disse:
- Não tenha medo, menina; não vamos fazer nada com você.
Não esperava por uma coisa dessas. As pernas tremiam-me e eu mal me mantive de pé. Eles ficaram me observando. Por fim, retomei o fôlego e perguntei ao meu irmão:
- Viche Maria, Mãe de Deus, o que esse homem quer comigo?
- Sei não – tornou a falar João -, mas voismicê já adivinha. Tá lhe querendo na certa!
Sai correndo sem parar e entrei em casa desesperada, como uma louca. Madrinha Marieta foi atrás de mim e segurou-me pelo braço, querendo saber o que se passava. Aos soluços, cortada pela dor, contei-lhe tudo o que meu irmão me transmitira. Madrinha fechou a cara e afastou-se para o fundo do quintal. Ia pensar, naturalmente, refletir sobre a nova situação. Aquilo de forma alguma poderia agradá-la. Entrei no quarto, passei a tranca na porta e joguei-me na cama, profundamente aborrecida. Não houve pensamento ruim que não me passasse pela cabeça naquele momento. Nesse dia, um dos que acompanharam Zé Baiano era seu primo – Zé Sereno -, que ficou de olho em mim, embora não tenha manifestado o menor interesse aparente. O tempo passou, e após alguns meses desse encontro ocasional Zé Baiano foi morto por um pequeno grupo de caatingueiros, residentes próximo ao lugar conhecido como Alagadiço. Zé Sereno já tinha seu grupo e resolveu arranjar uma companheira. Mandou avisar-me que dentro de quinze dias haveria um baile em determinado lugar, e que eu deveria estar presente, porque dali sairia para viver em sua companhia.
Entregue ao meu desespero, vi as horas passarem em branco. Por fim fui colocando os pensamentos em ordem, e já podia refletir. Mas, à medida que o tempo escoava, eu não via como mostrar ao cangaceiro que não pretendia ser um deles. E dizia a mim mesma que melhor seria morrer que viver no cangaço.
Uma vez em casa eu disse a João que queria passar uns dias em casa de Maria, nossa irmã, em Serra Negra. Chegando lá, soube que havia uma festa em casa de família, nossos antigos amigos.
Pedi então a Maria que me deixasse ir àquela festa, mas ela não me permitiu. Eu então lhe disse:
Maria, essa é a última festa que eu vou.
Por quê? – ela estranhou.
Nada respondi. Ela ficou preocupada, e eu não quis mais falar sobre a festa. Meu pai me dizia para obedecê-la, que era minha irmã mais velha.
Passei três dias com Maria, muito triste e calada; parecia mesmo uma despedida. Aproximava-se o dia em que eu me separaria de todos, e isto não saia de minha cabeça. Era horrível viver esta grande incerteza. Eu não podia nem pensar em me separar da minha família, ainda mais na situação de sair sem rumo, sem saber o que me ocorreria. E mais: sem poder dizer nada a ninguém. E os dias se passavam.
Resolvi ir à igreja e pedir a São João Batista proteção e orientação diante da situação que se apresentava em minha vida. Depois disto notei que fiquei mais destemida, mais forte para enfrentar tudo. Em silêncio, entreguei tudo a Deus.
À tardinha, embora mais calma, eu continuava pensando em tudo que estava por vir, em companhia de meus irmãos, que já haviam chegado do trabalho. De repente ouvimos pisadas fortes.
Eram os cangaceiros, meu Deus! O que fazer?
Então Zé Sereno chamou João, dizendo-lhe que o acompanhasse até uma quixabeira, perto da casa, numa fazenda que pertencera a meu avô; eles estavam lá arranchados.
No caminho Zé Sereno pediu-lhe também que arranjasse um concertista, com pandeiro e viola, e juntasse as moças para a festa que ele pretendia dar.
João seguiu para a cidade e providenciou tudo.
À noitinha, eu, meus irmãos e minhas primas dirigimo-nos à festa, e lá conhecemos os cangaceiros Balão, Manuel Moreno, Ponto Fino, Criança, Sabonete, Luís Pedro e sua esposa Neném. Eles levavam sempre para as festas uma cangaceira, para dar mais força a moçada. Todos estavam muito alegres; bebiam e dançavam.
Enquanto isso, eu e minhas primas estávamos sobressaltadas, e nem sequer conversávamos uma com as outras.
Durante o baile dancei bastante com Luís Pedro, mas pouco com Zé Sereno, evitando assim aproximar-se muito dele, na inútil tentativa de tirar da sua cabeça a idéia de levar-me consigo.
Os cangaceiros beberam a noite toda; Balão sempre presente tocando sua gaita de boca, muito alegre e sorridente.
Já às seis horas da manhã, Neném aproximou-me de mim e disse-me:
- Agora você vai embora, Sila. Zé Sereno mandou lhe dizer que é para você ir agora, assim, do jeito que você está.
Saí com todos, só com a roupa que vestia. Sentia-me como que suspensa no ar, numa horrível sensação de medo, pavor, incerteza e ainda a saudade imensa da minha casa, dos meus irmãos, enfim, de todos. Imaginava o que devia acontecer, se me deixassem no mato, ou em algum lugar que eu não conhecia. Caminhávamos pelo mato afora, todos calados.
Em verdade, há quinze dias Zé Sereno já estava decidido a levar-me. Do jeito que estava decidi arrumar uma oportunidade para dirigir-me a ele e falar-lhe. Fiz questão de não me arrumar. Entendia que, quanto pior me apresentasse, melhor seria. Nenhum cuidado especial. Mal passei o pente no cabelo; nos pés um par de alpercatas velhas e um vestido surrado no corpo. E lá fomos nós.
No caminho atravessamos um riacho que, devido às fortes chuvas da época, estava muito cheio. No meu nervosismo, caí na corrente pelo menos duas vezes. Caía e levantava-me cada vez mais desconsolada. Mas, ao mesmo tempo, satisfeita por achar que agora sim iria causar má impressão ao cangaceiro. Parecia até um pinto molhado ao final da caminhada.
- Ó xente muié, voismicê tá toda ensopada! Num tá chovendo! Tu caiu no ribeirão?
O medo me fez perder a voz; não conseguia pronunciar uma só palavra. O coração parecia querer saltar do meu peito.
Alguns dos homens fizeram cara de riso. Zé Sereno olhava-me hipnotizado. O vestido molhado colara-se ao meu corpo e desenhava minha silhueta. Eu não sabia onde ocultar minha face, tal a vergonha que sentia.
- Óia mocinha – disse ele -, eu num sou onda pra mode tá cumendo gente! Voismicê pode ficar a vontade. Ninguém vai lhe fazer mal argum. Nóis só tamo cunversando. No meio da gente só tem muié decente. Tudo pessoa de valor: Dona Maria Bonita, Dona Dadá de Curisco, Neném de Luís Pedro, Enedina e outras.
Via-se claramente que ele procurava manter a calma. Mas estava aborrecido. Levantou-se e foi até a sua barraca. De alguns bornais retirou alguns anéis de ouro e dois vidros de água de cheiro.
Ali, deu início a uma cerimônia que, sem dúvida alguma, era uma simpatia. Mandinga, feitiço, quem sabe? Passando-me uma sandália sua, deu-me ordem para que a calçasse no meu pé esquerdo. Atendi-o em silêncio, e, mesmo não entendendo a razão daquilo, fiquei desconfiada. Em seguida, obedecendo sua determinação, acompanhei-o até uns umbuzeiros que ficam a meia distância da casa. Ali Zé pronunciou algumas palavras ininteligíveis, enquanto aplicava passes em minha cabeça e ao longo do meu corpo.
O que significava toda aquela cerimônia? Jamais o soube, pois nunca falamos sobre isso.
* * *
Luís Pedro levantou-se meio escabreado, sacudiu Neném e mandou-a levantar-se. Neném acenou-me em cumprimento e, percebendo o meu vestido, perguntou-me se eu pensava em viajar daquele jeito. Respondi-lhe que só possuía vestidos na bagagem. Ela foi até as suas coisas, tirou de lá um culote e entregou-o a mim, dizendo:
- Voismicê é do meu tamanho. Um pouco mais magra, é verdade, mas do mesmo tamanho. Tome aqui. Vista até que seu homem lhe compre um pano bonito, pra mode voismicê costurar o seu.
Saímos todos pelas veredas quase fechadas da caatinga, aparentemente sem destino. Todos caminhavam calados.
Sentia-me como em outro mundo – triste, isolada de minha família, desiludida e amedrontada. Por não conhecer toda aquela gente estranha, sentia vontade de chorar. Apenas prestava atenção a tudo que se passava ao meu redor.
Dessa forma andamos o dia todo a pé. Ao meio dia eles assaram carne e a comeram com farinha de mandioca. Eu não me alimentei; não tinha fome, estava desolada.
À tardinha Neném aproximou-se de mim para conversar. Diante da situação tive uma súbita reação: uma crise de choro tomou conta de mim. Ela então me disse:
- Não chore que é pior.
Procurei inibir meu choro, esperando que Zé sereno dissesse algo – mas ele não se manifestou.
Com a chegada da noite, Zé tratou então de arranjar uma coberta; estendeu-a no chão e deitamos sobre ela. Tive de obedecê-lo e dormir com ele. Assim foi a primeira noite.
Este lugar onde dormimos ficava perto de Pinhão, no Estado de Sergipe.
De manhã caminhamos mais um pouco, até chegarmos a uma fazenda, da qual nunca soube quem era o proprietário. Lá os cangaceiros prepararam a comida. Neném chamou-me e disse:
- Menina venha comer, que assim, andando, sem se alimentar, ficará fraca e vai adoecer...coma alguma coisa.
Novamente começamos caminhar mato adentro. À medida em que andávamos, alguém ficava para trás e ia desmanchando os rastros, recolocando no seu lugar, inclusive, cada pedra que porventura fosse deslocada. Admirada perguntei:
Por que estão fazendo isso?
Para não deixar pistas pros macacos – Neném respondeu-me.
Que macacos? – perguntei.
Os macacos são os soldados, que perseguem os cangaceiros para porem fim ao cangaço. Nós os chamamos de macacos.
Esta foi minha primeira lição.
* * *
O café ficou pronto. Arroz tropeiro, rapadura, farinha e um pedaço de bode constituíam a refeição matinal. Preparavam-se para longa caminhada a pé e só esperavam comer na segunda metade do dia.
No cangaço havia o costume de os homens cozinharem, e às mulheres cabia a costura de roupas, de bornais e outras peças. No mais, davam a impressão de estarem ali como adorno.
"Eu confeccionava bornais e camisas; costurava bem e com bom gosto. Da primeira vez que vi Lampião, ele gostou tanto de um bornal que eu havia feito para Zé Sereno, que logo me encomendou um. Cumpri o seu desejo e, daquele dia em diante, passei a costurar todas as suas capangas." (Sila)
Marchávamos pela caatinga há horas. No céu, o sol quente de verão parecia querer torrar-nos. De vez em quando, porém, uma leve brisa vinha acariciar-nos o rosto, suavizando o ardor que nos queimava a pele.
Passos apressados, éramos doze seres de Deus. Mulheres, apenas duas: Neném e eu. Novo Tempo, Mergulhão e Marinheiro eram os três novos cangaceiros que integravam o grupo sob comando de Zé Sereno, todos eles meus irmãos consaguíneos . Acredito mesmo que entraram no cangaço para não me deixarem sozinha. Assemelhava-se a guarda-costas meus.
Os apelidos era uma das marcas registradas do cangaço. Sila conta que o seu apelido vem desde a sua infância em Poço Redondo, dado por seu pai. Já seus irmãos Manoel (chamado "Du"), Gumercindo e Antônio Paulo receberam, respectivamente, os apelidos de Novo Tempo, Mergulhão e Marinheiro de Zé Sereno, na ocasião que ingressaram no seu bando e consequentemente no cangaço.
Vestindo culote verde, bornal da mesma cor, chapéu de aba virada e cravejado de medalhas – presente de Zé -, sendo a do centro de ouro maciço, eu já tomava ares de cangaceira. Além do chapéu, tinham-me entregue um Mouser e um punhal de tamanho médio, bordado a ouro e prata. Trajada daquele jeito, fazia figura bonita e agradava ao grupo. Era evidente a alegria que sentiam em contar comigo no bando. Eu, porém, não estava bem. Volta e meia, atrasava o passo e punha-me a chorar baixinho. Zé Sereno, numa dessas vezes, aproximou-se e disse-me, como consolo;
Óia, menina, o que tá feito num se pode desfazer. Ninguém vorta mais atrás. Seca os óio e guarda sua dor pra mais tarde.
Enchi-me de coragem e retruquei raivosa:
- Os óio são meus e choro o quanto quiser.
Zé deu de ombros e continuou a caminhada. Por largo tempo manteve-se calado. "Que ficasse com as suas birras", deve ter pensado.
Em coluna dupla o bando atravessava a caatinga. À frente viajava Luís Pedro, por ser o mais experiente dos homens. No fundo, as mulheres e, cerrando fila, Zé Sereno. Cabia a ambos evitar surpresas tanto à frente quanto na retaguarda.
Meus irmãos pareciam nervosos. Cada um deles levava um fuzil, mas nem sabiam como manejá-los. Eu, de minha parte, nem mesmo tinha idéia de como segurar a Mouser. Zé garantiu que, tão logo chegássemos ao coito, nos daria a primeira instrução de manejo de arma.
Volta e meia Zé Sereno aproximava-se de mim, mas, em princípio, não dizia nada. Ora trazia-me um cantil com água, ora um pedaço de rapadura ou um punhado de farinha. Calado sempre. Parecia estar efetuando reconhecimento de terreno – sondando-me.
A viagem prosseguia e o sol já ia alto no céu.
Já perto do fim da tarde chegamos a uns juazeiros; deu-se ordem de parada, indicando que passaríamos a noite ali. As tralhas de cozinha foram retiradas do lombo do burro e logo o fogão fumegava.
Enquanto isso Neném chamou-me para um banho na fonte. Estranhei a existência de uma fonte por ali, pois não vira sequer um fio de água no decorrer do dia. Distava uns trezentos metros de nosso acampamento. Luís Pedro mandou que um de seus homens mais experientes nos acompanhasse para proteger-nos.
Ao final sentia-me mais leve; havia tirado a poeira e o cansaço do corpo.
De volta perguntei a Neném:
- Vosmicê num tem medo de ser espiada no banho por um desses home, não?
Ó xente, e eles são doidos? – retrucou Neném – Só se quiserem perder a cabeça. Luís atira no meio dos óio do cabra da peste pra gastá uma bala só. Adispois, no cangaço, temos muito respeito pelos companheiros. Home ou muié.
Comemos à vontade, pois a comida era farta e a pinga saborosa. Naquela noite conheci o sexo. Experiência ruim. Lua de mel tão amarga quanto as amarguras sofridas por mim nos dois anos seguintes vividos no cangaço.

(Texto Transcrito da Obra: Angicos Eu Sobrevivi – Oficina Cultural Mônica Buonfiglio – 1997 – Pags. 24 a 32)

http://www.luizalberto.com.br/l05.html

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

HOSPITAL SANTA JOANA

foto memorial fachada emerg1 Hospital Santa Joana trabalhe conosco

Dominguinhos tem quadro estável, diz boletim médico

O cantor foi internado no último dia 17 para tratar uma infecção respiratória e após apresentar um quadro de arritmia cardíaca.


O quadro de saúde do cantor e compositor José Domingos de Moraes, o Dominguinhos, é estável, "sem alteração no tratamento antimicrobiano e antiarrítmico", segundo o boletim médico divulgado nesta segunda-feira (31) assinado pelo coordenador do Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital Santa Joana, área central do Recife, Odilon Barbosa da Silva.

Dominguinhos foi internado no último dia 17 para tratar uma infecção respiratória e após apresentar um quadro de arritmia cardíaca. Ele ainda respira com a ajuda de aparelhos, e, segundo o hospital, não há até o momento previsão para a retirada dos equipamentos.

Publicado hoje, dia 31 de Dezembro de 2012

http://www.grzero.com.br/hospital-santa-joana-trabalhe-conosco

Aos leitores(as), amigos(as) Feliz 2013

Recados

São os sinceros votos de José Mendes Pereira


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

domingo, 30 de dezembro de 2012

Primeira execução pública da música "A Feira de Caruaru"

Por: Rogério Mota
Rogério Mota

Primeira execução pública da música "A Feira de Caruaru"


Durante todo este ano de 2012 estamos comemorando o Centenário de nascimento do Luiz Gonzaga que aconteceu no dia 13 de dezembro. Mas a comemoração continua até o fim do ano.

Enviado pelo autor: Rogério Mota

http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

Em um dado momento na história do Brasil


Por: Alfredo Bonessi

Incentivado  por Chico Pereira, o único cangaceiro cowboy do sertão, pois usava botas, chapéu de mocinho de cinema e rifle, Lampião enviou seus irmãos Antonio e Levino, com o bando de cangaceiros, para atacar a cidade de Sousa na Paraíba. Lampião não foi ao ataque – estava ferido no pé por bala da volante de Theofannes Torres.  

Theofannes Torres

Para Chico Pereira o ataque serviria como vingança contra os desafetos que tinham  feito atrocidades contra o seu pai naquela cidade. Nessa ocasião Lampião e o seu bando estavam a serviço do Coronel  José Pereira, de Princesa, na Paraíba.  Esse coronel não gostava de Lampião e nem dos cangaceiros – tinha em seus mandos  centenas de jagunços, pistoleiros e muita gente que não prestava – ele era o manda-chuva na região.

Coronel José Pereira de Lima

Com o ataque dos cangaceiros a cidade de Sousa o Coronel Pereira rompe em definitivo com Lampião e seu bando e os expulsa das suas fazendas, mas um cunhado de Pereira continua amigo de Lampião e  o recebe em sua casa, almoçam juntos e são amigos do peito. Essa amizade é do conhecimento do Coronel Pereira que não podendo fazer nada, apenas tenta aconselhar o cunhado a se desligar desse tipo de má gente. Mas ele continua amigo do Rei do Cangaço e é coiteiro dele.

O cangaceiro Chico Pereira

Essa amizade com Chico Pereira não dura, esse cangaceiro quando ferido, foi traído,  e abandonado pelos irmãos Ferreira em um canavial quando estava cercado pelas volantes, estava sem forças e quase moribundo e ainda, nessa ocasião, estava picado de cobra venenosa.

Surge a questão entre João Pessoa e João Dantas – dizem alguns por ciúmes e interesse na namorada de João Dantas. João Pessoa manda a polícia atacar e prender João Dantas na casa da namorada. Esta estaciona o automóvel nos fundos da casa e João Dantas escapole pela janela dos fundos. Mas a policia invade a casa e vasculha todos os aposentos e se apossa das cartas de namoro entre os dois. Essas cartas vão parar nos jornais e os ataques pela mídia da época fica acalorado entre os dois e como decorrente surgem  as ameaças entre ambos: João Dantas avisa: - Se você vier a Pernambuco, morre!

A política  brasileira na ocasião ferve no Sul do País e João Pessoa é o candidato  para a posse  política  – seu prestigio  e fama  estão em alta – todo o País sabe quem é ele.

João Pessoa decide ir ao Recife, mas é avisado pelas pessoas mais chegadas: - Não vá! Você está ameaçado de morte!

- Que nada! vou ao Recife!  e fez pouco caso dos avisos.

João Dantas vem de bonde – está em pé e uma pessoa está sentada  lê o jornal do dia. João Dantas dá uma brechada  na página principal do jornal e vê a noticia que João Pessoa está na cidade. No mesmo bonde ele volta para casa e apanha o revolver.  Procura por João Pessoa e o encontra na confeitaria – espera por ele. João Pessoa sai da confeitaria e João Dantas se aproxima pelas costas. Grita para ele: eu não te disse que não viesse ao Recife!!!! – João Pessoa se vira e investe contra ele de bengala em punho: - Ora seu! .................e leva três tiros.

A noticia se  espalha que nem fogo Brasil afora – João Dantas é considerado o Judas Nacional.  O  crime imediatamente serve de pretexto político e passa a ser considerado político e vira  motivo  principal para a sublevação nacional. Forças Getulistas  tomam o poder e João Dantas é preso com um parente seu que nada tinha a ver com o caso.

Ao lado da cela de João Dantas está o cangaceiro Antonio Silvino cumprindo pena. Tempos antes ele se oferece para pegar Lampião a unha, vivo ou morto e dá até um prazo para o feito:  20 dias.  Mas ninguém acredita nele e o deixa mofar atrás das grades. Você já pensou se houvesse esse encontro?

- quem mataria quem nesse embate?

Antonio Silvino fora um cangaceiro justiceiro, respeitador de lares e de mulheres, pedia antes de se apossar, se alguma mulher  o repreendesse ele até pedia desculpas e ia se embora. Praticava a justiça por onde andava e casou muita gente nesse sertão na marra, às vezes a coice de rifle, outras vezes a ponta de punhal. Não digo que era um homem corajoso, mas astucioso, esperto, muito precavido – andava sempre com pouca gente e se fazia obedecer pelos seus comandados.

Lampião

Lampião era aguerrido, ágil,  não fazia esse tipo justiça, não respeitava as mulheres, permitia que elas fossem estupradas e marcadas a ferro, ele mesmo forçou algumas delas,  não tinha dó de ninguém,  não ligava para a tortura que sofria as suas vitimas, desprezava a morte e sabia que um dia morreria por uma bala qualquer – sua estratégia maior era  não ser pego pela policia. Diversas vezes quis se entregar e seus irmãos não o deixaram.  Levino Ferreira, seu irmão, dizia para ele: você é um frouxo, um covarde – não serve para ser cangaceiro.  Lampião  sabia quando era a hora de lutar e a hora de escapar. E dizia sempre: - Não enfrente os macacos.  Lampião tinha a sua própria justiça, a justiça lampiônica, pois  a justiça era dele – a justiça era ele – ele fazia as suas  vinganças  a sua moda, muito  cruel. Lampião andava quase sempre com muita gente no bando e permitia que   chefes previamente designados mandassem nos seus grupos e decidisse a sorte daqueles cangaceiros  que por acaso fizesse algo que deveria  ser punido com a expulsão do bando ou até mesmo a morte.

- Ele sempre dizia:

“cangaceiro é para morrer no mato, de bala, feito bicho!”

Cumpriu-se essa profecia.

Antonio Silvino sempre afirmava: Lampião é um príncipe!

Lampião sempre dizia:

- Antonio Silvino é um covarde, pois se entregou!

A polícia invade a cela de João Dantas e a luta é ferrenha. Antonio Silvino escuta tudo – foi uma longa briga que acabou com a morte de João Dantas e do seu parente. A população fica sabendo do ocorrido e comemora o acontecido – a vingança fora feita.

Novamente  procura-se um responsável  pela ideia e autorização para a chacina de João Dantas: quem mandou?

A culpa cai em cima do Deputado  Suassuna que nada tem a ver com o caso. Ele mesmo decide ir ao Rio de Janeiro se explicar e  provar que não tem nada a ver com o assassinato de João Dantas. Seus familiares  o aconselham que não vá. Ele vai e é assassinado no Rio de Janeiro.  A questão esfria e a política continua – tudo abafado, mas não para os familiares do Deputado Suassuna que até hoje estão indignados por esse crime e procuram pelos mandantes. Na época o criminoso é mandado trabalhar  próximos as fazendas do Deputado assassinado - mas a viúva  não autoriza a vingança. Depois o criminoso vem trabalhar nas fazendas da  família do Deputado Suassuna, mas a viúva não deixa que o matem.

Final

Com a Revolução de 30 o Coronel Pereira  é derrotado e expulso de suas propriedades e vai se esconder no interior do Sertão  - errou de lado no apoio militar. Somente voltou as suas terras  muito  tempo depois do fato, mas nunca mais se recuperou no poder de mando e decisão, pois a revolução de 30 acabou com a poder dos coronéis e criou a classe política.

Chico Pereira, escapou das balas da polícia e do veneno da cobra mas acabou preso  e covardemente assassinado pela polícia.

Lampião reinou  absoluto no sertão durante o período da revolução de 30 – os militares e as volantes que o perseguiam foram brigar em outra praça de guerra. Por estar tudo calmo e bom demais arrastou  mulheres para o seu bando – Sinhô Pereira comentou; acabou-se a invencibilidade dele.

Dois irmãos Ferreira já estão mortos, Antonio e Levino e em breve morrerá o caçula da família, Ezequiel Ferreira e o cunhado Virginio, ferido em combate mas executado com um tiro no peito pelo cangaceiro Moreno que acabou ficando com a mulher  do “Juiz do Cangaço”.

Lampião sempre dizia; o cabra mais safado que eu conheci foi o Coroné Pereira de Princesa – mas Lampião nunca dizia o porque. Essa rusga começou por um erro de estratégia de Lampião em atacar a cidade de Sousa na Paraíba – como vimos – cidade protegida pelo Coronel Pereira que ali tinha vários amigos.

Hoje, se me perguntarem qual foi o principal fator que desencadeou a revolução de 30 – eu digo: foi um crime passional.

Se me perguntarem quem matou João Dantas na prisão ? – eu respondo que foi a policia a mando dos revolucionários de 30 – para  eliminar a dita causa que deflagrou o conflito. Se ouvissem João Dantas sobre os reais motivos do crime, a tese  inicial da morte política iria por águas abaixo e o caso poderia dar uma reviravolta.

Quem matou o Deputado Suassuna ? – também acredito que foi os revolucionários de 30 para eliminar todas as duvidas de quem mandou matar João Dantas na prisão – acredito que ele estava inocente do fato, até mesmo na morte de João Pessoa que como vimos a causa foi passional e não política.

Por fim veio a morte de Lampião e  o Estado Maior do Cangaço em Angicos - Sergipe.


Estava certo Corisco, que na ocasião, com os olhos cheios de lágrimas e riscando o chão com a ponta do punhal profetizou:

-acabou-se a alegria do sertão.

Alfredo Bonessi

sábado, 29 de dezembro de 2012

Batalha da Serra Grande

Lampião

Batalha da Serra Grande completa 86 anos

Em março de 1926, Lampião recebeu do Batalhão Patriótico de Juazeiro do Norte, a patente de capitão. Mesmo considerando que a patente não era legítima, o cangaceiro se tornou mais fortalecido e mais violento, também. Nesse ano, ocorreu uma série de atentados na região do Pajeú, com diversas mortes e sequestros, episódios que culminaram com a famosa Batalha da Serra Grande, ocorrida em 26 de novembro de 1926, a cinco quilômetros do distrito de Varzinha município de Serra Talhada.

Lampião tinha sequestrado Pedro Paulo Magalhães Dias, um inspetor da Standard Oil Company. O fato aconteceu na estrada de Triunfo para Vila Bela (atual Serra Talhada). Pedro Paulo era natural da cidade de Sabará, em Minas Gerais, e, por isso, ficou conhecido como Mineiro. Lampião pedia vinte contos de réis para libertá-lo, o dinheiro deveria ser entregue na Fazenda Varzinha, local indicado por Lampião.

Casa de Silvino Liberalino

Quando o bando chegou a Fazenda Varzinha, foi direto à residência de Silvino Liberalino, o qual tinha sido subdelegado de Vila Bela, no ano de 1911. Logo que viu a tropa, Silvino não percebeu que estava diante dos comandados de Lampião, pois, naquela época, as roupas dos cangaceiros eram iguais às da polícia. Então, saltou na calçada, com um rifle na mão, e fez a seguinte pergunta:

- É Lampião ou é Força?

O bando respondeu:

- É a Força Volante.

Silvino Liberalino se sentiu mais seguro e disse:

- Então podem entrar. Se fosse Lampião, ia comer bala.

Os cangaceiros entraram e pediram água para beber, quando Silvino colocou a mão no pote para retirar água, os cangaceiros o seguraram e se identificaram:

- Você está falando é com Lampião cabra. E o prenderam, e para comemorar, deram alguns tiros em frente da residência, ainda hoje, existem algumas marcas de balas nas portas da casa.

Furo de bala disparada por cangaceiro em 1926

Os bandoleiros, que já vinham com o refém, Pedro Paulo Magalhães Dias (o Mineiro), levaram também, Silvino Liberalino, os dois presenciaram a Batalha na Serra Grande.

A intenção do bando de Lampião na Fazenda Varzinha, além de receber o resgate, era uma vingança por um antigo assassinato, ocorrido na Serra Negra, no município de Floresta, cometido por José de Esperidião, que se mudara para Varzinha.

O resgate foi levado por intermédio de Manuel Macário, homem da confiança de Cornélio Soares, no entanto, já na Fazenda Varzinha, o portador foi flagrado pela força policial do sargento Manuel Neto, que lhe aplicou severas torturas e recolheu o dinheiro.

Policial Manoel Neto

O bando seguiu em direção à casa de José de Esperidião, cuja esposa, Rosa Cariri de Lima, ao ver de longe a multidão, avisou o marido, alertando-o para que se retirasse.

José de Esperidião perguntou:

- Quantas pessoas você acha que vêm?

Ela respondeu:

- Uns vintes homens.

Ele disse:

- Não corro com medo de vinte homens.

A mulher calculou muito mal, o quantitativo do bando era de aproximadamente, 68 cangaceiros.

José de Esperidião pegou seu rifle e dois bornais de balas e ficou entrincheirado no quarto. O tiroteio foi grande, de toda ribeira se ouvia o barulho das balas, após certo tempo de tiroteio, o bando resolveu colocar fogo na casa. Para tanto, retiraram toda madeira do curral, que ficava em frente da residência. Segundo o livro, o Canto do Acauã de Mariloudes Ferraz, na Varzinha o bando encurralou um rapaz que, sozinho, lutou até esgotar a munição.

Tiburtino Estevão ainda tentou socorrer o amigo. Pegou seu rifle e tentou se aproximar, mas foi visto por alguns cangaceiros, que passaram a atirar em sua direção. Uma bala atingiu uma galha de xique-xique, próximo da cabeça de Tiburtino. Vendo que nada podia fazer, o homem retornou à sua residência.

No dia seguinte, foram retirar o corpo de José de Esperidião para fazer o sepultamento, não encontraram marcas de balas no corpo dele, portanto, chegou-se à conclusão de que a morte fora por asfixia provocada pela fumaça.

José Pereira Lima, conhecido por Cazuza, filho da vítima, com apenas sete dias de nascido, encontrava-se deitado em uma rede na sala, no momento do tiroteio. Foi baleado, ficando com uma marca no pé pelo resto de sua vida. Geralmente, quando ia comprar sapatos, adquiria dois pares, um par 41 e outro par 42, pois o pé defeituoso ficara menor.

O bando seguiu viagem rumo às ribeiras do tamboril, chegando até o Sítio dos Nunes no município de Flores, de onde voltaram.

Ao chegar ao Sítio Morada, hoje município de Calumbi, Lampião estava ciente que a polícia estava no seu encalço, portanto, ali mesmo, abasteceu o bando e pegou o rumo da Serra Grande.

O sequestro de Pedro Paulo Magalhães Dias e os fatos acontecidos na Fazenda Varzinha foram interpretados como sendo um desrespeito às autoridades, por terem ocorridos na comarca de Vila Bela, na época, a sede do comando militar de combate ao cangaço no interior de Pernambuco. Portanto, foi preparado um destacamento com mais de 300 soldados, chefiados por seis comandantes de volantes, todos fortemente armados, inclusive com duas metralhadoras Hotkiss, e muita munição, era um verdadeiro exército. Tudo inspirava confiança e dava a certeza da vitória.

Lampião estrategicamente com seus 68 cangaceiros, subiram a serra, e prepararam uma emboscada, em um local onde existem grandes pedras e fendas profundas, que lhe dava uma visão completa sobre o campo da batalha.

 Serra Grande:  local onde ocorreu a maior batalha de Lampião em solo pernambucano

O combate teve início antes das 9 horas da manhã e terminou ao anoitecer, a polícia mesmo com um quantitativo superior, e os soldados atacando corajosamente, não conseguiram vencer a resistência do capitão Virgulino Ferreira e seus comandados.

A localização dos cangaceiros era ótima, conforme disseram os policias. Segundo o cangaceiro Ventania, no local que Lampião estava, nem canhão tirava ele de lá, no entanto, a posição dos soldados era extremamente precária, entrincheiravam-se como podia, sem comando, sem tática, salve-se como puder. Arlindo Rocha recebeu um balaço no rosto que lhe fraturou o maxilar inferior, ainda no início do tiroteio, Manuel Neto foi baleado nas pernas, Luiz Careta de Triunfo faleceu com uma bala na cabeça, Euclides Flor recolocou ainda em combate as vísceras abdominais de Vicente Ferreira (Vicente Grande), atingido na altura do umbigo, o soldado Luiz José sofreu um ferimento na coxa.

Para provocar os policiais, o cangaceiro Genésio deu um aboio triste e sonoro, os soldados se sentiram encurralados como gado, Antônio Ferreira não se conteve e se expôs totalmente, gritando como vaqueiro: Ei, booooi... Nesse momento, o sargento Filadelfo Correia de Lima, deu-lhe uma rajada de metralhadora, a partir de então, a polícia acreditava que Antônio Ferreira tinha morrido no combate.


Com a chuva de balas vindas de cima da serra, os soldados ficaram desesperados, portanto, aproveitavam a cobertura de fogo das metralhadoras para se debandar na caatinga, deixaram grande quantidade de armas, munições, cartucheiras, cantis, bornais, etc. Levavam apenas alguns companheiros feridos, quando podiam. Após a batalha, os cangaceiros recolheram 27 fuzis e mosquetões.

A Batalha da Serra Grande é considerada a mais violenta da história do cangaço, segundo o historiador Frederico Bezerra Maciel, morreram 26 policias e 38 saíram feridos, no bando dos cangaceiros não houve registrado de morte.

Major Teófanes Torres

Foram a Serra Grande verificar os fatos de perto, o Major Teófanes Torres comandante de Vila Bela, o juiz de direito Dr. Augusto de Santa Cruz e o promotor de Salgueiro.

Antes do regresso para Vila Bela, o Tenente Higino ainda providenciou o sepultamento de sete corpos em uma única cova, no rancho de Pedro Rodrigues (proprietário local).

Tomaram parte na batalha os seguintes cangaceiros: Luiz Pedro, Maquinista, Jurema, Bom Devera, Zabelê, Colchete, Vinte e Dois, Lua Branca, Relâmpago, Pinga Fogo, Sabiá, Bentevi, Chumbinho, Ás de Ouro, Candeeiro, e seu irmão Vareda, Barra Nova, Serra do Mar, Rio Preto, Moreno, Euclides, Pai Velho, Mergulhão, Coqueiro, Quixadá, Cajueiro, Cocada, Beija-Flor e seu irmão Cacheado, Jatobá, Pinhão, Mormaço, Ezequiel e seu irmão Sabino, Jararaca, Gato, Ventania, Romeiro, Tenente, Manuel Velho, Serra Nova, Marreca, Pássaro Preto, Cícero Nogueira, Três Coco, Gaza, Emiliano, Acuana, Frutuoso, Felão, Biu, Cordão de Ouro, Genésio, Ferreirinha, Antônio Ferreira, Lampião e outros.

No dia seguinte à Batalha da Serra Grande, Lampião, já na Fazenda Barreiros, entregou uma carta a Pedro Paulo Magalhães Dias, endereçada ao então governador de Pernambuco, Dr. Júlio de Melo, propondo dividir o estado em dois, com os seguintes limites: Governo o sertão até as pontas dos trilhos em Rio Branco (Arcoverde), e vosmecê daí até a pancada do mar no Recife.

O relato sobre a Batalha da Serra Grande encontra-se no processo criminal contra Virgulino Ferreira et al., de 28 de novembro de 1926, 1° Cartório de Serra Talhada PE.

http://www.varzinha.net/p/batalha-da-serra-grande.html