Em 1999 estivemos na cidade
piauiense de Valença do Piauí, onde iríamos colher subsídios para nosso livro
“Antiguidades Valencianas”, sobre vestígios pré-históricos, arte rupestres,
lendas, folclore, causos, ufologia, belezas rurais, etc. Ali nos chamou atenção
uma curiosa notícia, de que um dos irmãos do famigerado Lampião teria vivido
naquela Cidade em tempos idos. O texto abaixo é uma condensação do que
escrevemos naquele livro, publicado em 2000, atualizado com notícias de outras
fontes.
No Piauí mesmo o temível
cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), vulgo Lampião, nunca pisou.
Isso em que pese uma falsa notícia de que travara um combate em forças
policiais no sul do Estado.
As sangrentas e polêmicas
passagens do cangaceiro pelos sertões nordestinos nunca o trouxeram ao nosso
Piauí.
Mas, curiosamente, há um
interessante, mas não provado relato de que um dos seus irmãos, o caçula, teria
vivido algum tempo em Picos e depois em Valença do Piauí, centro do Estado
Para nos inteirar desta veracidade
ou não desta história, nos dirigimos a uma modesta casa no Bairro valenciano de
Cacimbas, onde fomos encontrar Dona Luzia Alves Ferreira, nascida em 22 de maio
de 1914 (hoje provavelmente falecida).
Ali fomos recebidos pela
alquebrada, mas lúcida anciã, sempre muito desconfiada e relutante, nos
liberando aos poucos a história do irmão do Rei do cangaço em Valença do Piauí.
Porém, vaidosa, não nos permitiu por nada que fosse fotografada, alegando não
estar adequadamente trajada para a ocasião. Assim sua imagem conseguimos
através de uma fotógrafa da cidade, que nos cedeu gentilmente a preciosa foto
que apresentamos neste artigo.
Segundo Dona Luzia, Ezequiel
Ferreira, também conhecido como José Gomes (?), seria o irmão caçula de
Lampião, muito novo na época do cangaço para empunhar armas.
Este pernambucano, da atual
cidade de Serra Talhada, não teria dívida alguma com a justiça e vivia com
outro irmão de Virgulino Ferreira, João Ferreira, onde tinham um pequeno
comércio. Ezequiel, por sua vez, teria vindo de Picos (Piauí) para Valença por
volta de 1980, vendendo, como ambulante, chapéu, fumo e alho.
Sem filhos, o irmão do cangaceiro
passou a viver maritalmente com Dona Luzia até sua morte, no início dos anos
1990, sendo enterrado ali mesmo, em Valença do Piauí. Antes teria sido casado
mas sobre sua primeira mulher, não sabemos nada. Em Valença teria vivido num
sítio de propriedade de Dona Luzia.
“Como a senhora conheceu o irmão
de Lampião?” – Indaguei.
“Conheci ele na feira de Valença”
– respondeu ponderadamente a Sra.
“Ele não era valente como o
famoso irmão? – Perguntamos
“Não senhor. Ele não gostava de
armas de fogo. Ele só acompanhou o bando carregando armas e ajudando noutras
coisas, pois era muito pequeno. Era um homem de faca...”
“E como a senhora soube que ele
era mesmo irmão de Lampião? – Quisemos saber.
“Ele mesmo contou pra todo mundo
ouvir.”
“E as pessoas acreditavam nele?”
– Interrogamos.
“E ele era muito respeitado pelos
vizinhos, pois era um homem calmo, e se dava bem com todo mundo. Mas as pessoas
diziam pra mim tomar cuidado com ele. As pessoas não acreditavam que ele era
irmão de Lampião porque ele era moreno e não tinha olhos azuis como o
cangaceiro.”
Obs: Lampião não possuía olhos
azuis mas um deles (o direito) apresentava leucoma, com a característica cor
clara.
“Durante todo tempo em que ele
viveu em Valença do Piauí ele foi visitado por algum parente?” – Quisemos
saber.
“Um tempo veio um casal de filhos
de João Peitudo, filho de Lampião que mora em Juazeiro do Norte (Ceará). Nessa
época o Ezequiel estava muito doente. Depois, ele foi com João Peitudo conhecer
a família em Serra Talhada. Lá inclusive conheceu antigos inimigos da família.
Um deles o convidou para uma visita uma sua casa. Desconfiado, o Ezequiel não
aceitou o convite.”
“E o que ele dizia sobre o famoso
irmão?” – Perguntamos.
“Dizia que Lampião não fazia mal
a qualquer um. Só perseguia os inimigos. Também não perdoava os “macacos” da
volante (polícia) e os entregadores (dedos duros).”
“Mas o Ezequiel confirmou a morte
do irmão em Angico (Sergipe) em 1938?
“Não! Lampião nunca morreu
naquela emboscada. Nem ele nem Maria Bonita. Lampião mesmo morreu foi no Rio do
Sonho (Sono?), em Goiás, há uns 20 anos. “Nessa época o Ezequiel já estava em
Valença.”
Obs: Quem fugiu e morou em Goiás foi
Sinhô Pereira (1896-1972), antigo chefe do bando que tinha como membro Lampião.
Pereira chegou a convidar Virgulino para se acoitar com ele em Goiás, coisa
recusada pelo cangaceiro.
“E os dois mantinham algum tipo
de correspondência? – Indagamos.
“Não se comunicavam, não. Mas um
dia o Lampião mandou uma carta perguntando se Ezequiel queria ir morar com ele
lá em Goiás. Ezequiel respondeu que não, pois gostava da vida tranquila aqui em
Valença.”
Esta é uma história que se
mistura folclore, com tradições e elementos intrusos suspeitos e incoerentes,
senão vejamos.
O irmão de Lampião, Ezequiel
Ferreira da Silva, vulgo “Ponto Fino” era realmente mais novo do que Lampião,
pois nascera em 1908. Porém integrou o bando como membro armado, como pode se
ver numa das imagens desta matéria.
Lampião teve quatro irmãos homens
além de quatro mulheres. Dos quatro irmãos homens, três acompanharam Virgulino
no Cangaço: Antônio Ferreira, o mais velho (1895-1927) que morreu em 1927 num
acidente bobo no qual numa brincadeira com Luiz Pedro seu fuzil caiu no chão e
disparou acidentalmente. Livino Ferreira (1896-1925) que morreu em 1925 num
combate noturno com uma força volante.
O caçula Ezequiel (1908-1931) foi
abatido no dia 23 de abril de 1931 no tiroteio da Fazenda Touro, povoado Baixa
do Boi, no Estado da Bahia, ponto conhecido como Lagoa do Mel. João Ferreira
(1902-?) foi o único que não abraçou o Cangaço.
Assim, Ezequiel não pode ter
vivido com dona Luzia nos anos 1980, já que morrera em 1931.
Também não procede a afirmação de
Dona Luzia de que estando vivo Ezequiel em Valença, moraria com outro irmão de
Lampião, João Ferreira, o único que nunca entrou no Cangaço. João, ao que se
sabe, foi morar em Osasco SP ou em Propriá, Sergipe.
Outro engano de Dona Luzia é que
o tal João Ferreira da Silva, o João Peitudo (1942 - 2000), seria filho de
Lampião, em que pese supostas provas apresentadas de sua filiação a Lampião e
Maria Bonita (inclusive um DNA inconclusivo). Conhecido como João Peitudo por
ter sido lutador de boxe, morreu de ataque cardíaco em Juazeiro do Norte-CE. Se
nasceu em 1942 não poderia ser filho de Lampião e Maria Bonita, chacinados em
1938.
Longe de taxar dona Luzia como
mentirosa, é possível que ela tenha ouvido narrativas de alguém que veio das
bandas do cangaço, e talvez até de um parente de Lampião (mas nunca um irmão)
esta história e nela tenha acreditado piamente, dentro de suas limitações
intelectuais. Assim conviveu maritalmente e acreditou ter como companheiro um
irmão do cangaceiro morto há décadas.
Em nenhum momento a velha senhora
tentou me impressionar ou ser taxativa de maneira irredutível. Somente
discorreu sobre o tema que lhe indaguei.
Quando o suposto Ezequiel esteve
em Serra Talhada em 1984 para rever a família e tirar documentos para
aposentadoria (?) conseguiu convencer alguns parentes e outros moradores de que
era realmente o irmão do Lampião. Mas cometeu alguns escorregões quando, por
exemplo, deixou de visitar sua única irmão viva na época, Dona Mocinha. No
mais, nenhum pesquisador aceita esta versão de sobrevivência de Ezequiel
Ferreira
Em 16 de janeiro de 1985, o
Ezequiel de Valença deu uma entrevista ao jornalista Antônio de Pádua, do
“Jornal da Manhã”, de Teresina, deixando-se fotografar ao lado do vereador
valenciano Luís Rosa. Suponho que o alegado irmão de Lampião temia alguma
repercussão jurídica negativa de sua entrevista, pois estava presente na mesma
o afamado advogado piauiense Dr. Alfredo Cadena Neto, segundo a reportagem.
Garantindo que era o irmão de Virgulino. disse que havia fixado residência em
Valença do Piauí por volta de 1980 e era analfabeto, sendo sua profissão
“banqueiro”, ou seja, possuía uma banca de vender artigos regionais, como fumo
de rolo, rapadura, farinha, calçador, livretos de cordel, remédios caseiros,
etc. Disse ainda que frequentava a Cidade desde 1952 como ambulante.
O Ezequiel valenciano acrescentou
que viajou constantemente como ambulante para as cidades nordestinas de Mossoró
(Rio Grande do Norte), Bom Jardim (Pernambuco) e Catolé do Rocha (Paraíba),
lugares onde era bastante conhecido. Mas não explicou se era conhecido como um
vendedor valenciano comum ou como irmão do célebre cangaceiro Lampião.
Contou ainda sobre incontáveis
anos do bando de lampião em escaramuças contra os “nazarezistas” (ferrenhos
inimigos de lampião, os volantes nazarenos viviam no Povoado de Nazaré, próximo
a Serra talhada). Disse ainda que não sabe quantas pessoas morreram no campo de
luta mas que nunca matou ninguém, sendo apenas um rastejador, destinado a
informar ao bando de Lampião a aproximação dos inimigos.
O que o Ezequiel Valenciano nunca
explicou em suas entrevistas foi como escapou dos tiros que recebeu das
volantes que, historicamente, causaram sua morte nem como escapou para o Piauí.
Outro problema que observamos é
que na entrevista, o repórter se refere a Ezequiel como sendo um senhor de 72
anos em 1985, tendo nascido no dia 6 de janeiro. Ora, tendo nascido em 1908, o
verdadeiro Ezequiel deveria ter 77 e não 72 anos em 1985.
Na entrevista ao repórter Antônio
de Pádua o Ezequiel valenciano fala do assassinato do pai e da mãe quando se
sabe que somente o pai foi assassinado. A mãe morreu de desgosto dias depois.
Mistérios, folclore, fantasia, elucubrações
desenfreadas e afirmações desencontradas. Cada um faça seu julgamento....
Fontes:
Coutinho, Reinaldo. Antiguidades
valencianas. Teresina, 2000.
Irmão de Lampião diz que nunca
Matou Ninguém. Matéria publicada por Antônio de Pádua, no Jornal da Manhã,
Teresina 16 de janeiro de 1985.
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