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quarta-feira, 20 de março de 2024

𝑭𝑨𝒁𝑬𝑵𝑫𝑨 𝑿𝑰𝑸𝑼𝑬 𝑿𝑰𝑸𝑼𝑬

Jaozin Jaaozinn

Fotografia de uma pequena força volante pernambucana na fazenda Saco da Roça, de Serra Talhada/PE, década de 1920. Dentre os volantes, se encontra o rastejador Antônio Joaquim dos Santos, o afamado Batoque (último da primeira fileira à direita).

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No dia 14 de novembro de 1925, na região de Pernambuco, Lampião e mais 15 bandoleiros de seu grupo se encontravam na Fazenda Xique Xique (pertencente ao pai de Isaías Vieira dos Santos, o cangaceiro Zabelê). Por se acharem seguros e confiantes que nenhuma força estivesse em seu encalço, acabaram por descansar, despreocupadamente, pelo local.

Tinham acabado de comer o que fora entregue pelo coiteiro Isaías Vieira, e se instalaram no curral (O curral respeitava a originalidade do tempo, aproveitando a Serra de Xique Xique e o paredão que proporcionava, onde apenas os outros três lados eram feitos com estacas de madeira com uma colada na outra).

Porém, no início das 15h, uma força nazarena composta por vinte homens – dentre eles os irmãos João Flor, Manoel Flor, Euclides Flor, Idelfonso Flor, João Gomes Jurubeba, David Gomes Jurubeba, o rastejador Batoque, e outros –, acabaram por chegar na casa onde os bandoleiros estavam, através dos rastros deixados pelo grupo. Vieram pela frente, o curral ficava por trás da mesma, interrogando os moradores para saberem de alguma informação de cangaceiro, não sabendo eles que estes se encontravam do outro lado da moradia.

Os moradores respondiam todas as perguntas que os nazarenos faziam, entretanto, em voz alta, quase "berrando"; e isso chamou a atenção do afamado rastejador.

Com isso, Batoque decidiu averiguar ao redor da casa, chegando até o curral e foi por lá que viu os cangaceiros darem fuga. Nesse exato momento, o afamado pernambucano dá a notícia, aos gritos, para os seus companheiros.

E avançaram dando tiros e tomando tiros. Foram divididos em três comandos: um grupo seguia com Euclides pelo lado esquerdo; outro com Manoel pelo lado direito; e curral adentro foi David Jurubeba junto com seis homens.

A maior aflição dos cangaceiros foi a hora que se amontoaram entre a cerca de varas e o paredão da serra (isso já com inúmeros feridos). Totalmente desesperados, começaram a cavar um buraco para fugir dali, onde conseguiram depois de muito tempo.

Por estarem juntos em um canto e atirando sem parar, o local se cobriu de fumaça, não tendo uma visão muito clara de seus combatentes. Nesse momento, o jovem volante Idelfonso de Souza Ferraz, o Idelfonso Flor, de 16/17 anos, acaba penetrando aquela "nuvem" cinzenta para confrontar os bandoleiros de surpresa. Por ser inexperiente no combate e sendo o seu primeiro tiroteio, é pego pela bala de Virgulino, sendo mortalmente atingido na testa.

Com o grupo já ganhando mata adentro, tendo possivelmente os cangaceiros Jurity I, Jurema (Inácio de Loiola de Medeiros Nóbrega) e Morcego como mortos e outros feridos, como Cancão, o combate já estava por fim encerrado.

Terminada a refrega, os nazarenos vêem o corpo do valente Flor, ainda segurando firmemente a sua arma e as balas que seriam destinadas para os bandidos. Esse foi o querosene que alimentou mais ainda o fogo que os Ferraz já tinham contra Lampião, até porque Idelfonso foi o primeiro da família Flor a ser morto por cangaceiros.

𝑭𝑶𝑵𝑻𝑬𝑺: 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒐 𝑫𝒆 𝑽𝒊𝒓𝒈𝒖𝒍𝒊𝒏𝒐 𝒂 𝑳𝒂𝒎𝒑𝒊𝒂̃𝒐 - 𝑨𝒏𝒕𝒐𝒏𝒊𝒐 𝑨𝒎𝒂𝒖𝒓𝒚 𝒆 𝑽𝒆𝒓𝒂 𝑭𝒆𝒓𝒓𝒆𝒊𝒓𝒂; 𝑪𝒂𝒏𝒈𝒂𝒄̧𝒐𝒍𝒐𝒈𝒊𝒂; 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒐 𝑶 𝑪𝒂𝒏𝒕𝒐 𝒅𝒐 𝑨𝒄𝒂𝒖𝒂̃ - 𝑴𝒂𝒓𝒊𝒍𝒐𝒖𝒓𝒅𝒆𝒔 𝑭𝒆𝒓𝒓𝒂𝒛.

.𝑪𝑨𝑵𝑮𝑨𝑪̧𝑶 𝑩𝑹𝑨𝑺𝑰𝑳𝑬𝑰𝑹𝑶.

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PESQUISANDO...

 Por Helton Araújo

Fazendo uma pesquisa em busca de fotos do cangaço, há dias procurava uma foto das entregas onde se fazia presente o cangaceiro Português sentado. Na Internet circula o corte ( print ) de uma foto do mesmo sentado com a mão de uma mulher ( cangaceira Quitéria ) em seu ombro. A busca por essa foto levou muito tempo e até então nunca tinha visito ela completa em uma boa qualidade como a desse print supracitado.

Bem, segui por muito tempo na busca por essa foto sem sucesso, até encontra-la nos arquivos do jornal o Globo, obviamente como era padrão desse jornal na época, a resolução está em péssimas condições, porém é possível identificar todos os presentes na foto. Sendo eles da esquerda para direita em pé: Quitéria, Barra de Aço e Pedra Roxa, sentados da esquerda para direita, Português e Velocidade. 

Outra foto do bando, em pé.

As entregas desses cangaceiros aconteceram no ano de 1938, o cangaceiro Português seria assassinado por um menor de idade, filho de uma de suas vítimas em 12 de fevereiro de 1939, esse fato se deu dentro do 2°batalhão de polícia de Santana do Ipanema em Alagoas. A polícia fez pouco caso do fato, facilitando a entrada do menor armado no local.

Foto: Print editado do jornal "O Globo" / Matéria de 07 de Janeiro de 1943.

Observações: Existe uma foto desses os cangaceiros em outra posição sendo que mesmos estão todos em pé.

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JARDIM DE MINHA RUA

Por Humberto Paz


À sombra delgada do Monge Lendário
Que, imponente, do alto da colina
Sobre o verde vale se espraia,
Qual diáfana manta divina,
O coração vagueia delirante
Na silhueta azul da serrania,
Em vibrações de eterno palpitar,
Seguindo a sinuosa linha que separa
Céu e Terra ... a contemplar
As lindas flores do Jardim de minha rua:
Saletes, Lourdes, Cláudias, Milcas...
Aroma leve de pétalas de rosas,
Aonde minh'alma adolescente flutua.
Quantas delas vi desabrochar,
Exalando alvos perfumes de jasmins?!...
Elpídias, Zélias, Terezinhas,
Cecilias, Helenas, Margaridas,
Márcias, Najlas e Gerúsias,
Izabéis, Vanjas, Marúzias,
Socorros, Marias, Fátimas, Conceições,
Goretes, Neumas, Neides e ... emoções!...
Minha rua - de suave chão batido,
Manto sagrado que meus pés beijou,
Peito nu, liberdade e diversão,
Cheiro de terra molhada às primeiras chuvas
Contendas lúdicas de bola (...) e pião...
O tempo passou apressado
E eis que um belo dia,
Entre ruinas e curvas do passado,
Toscas pedras te roubaram a poesia!
Barulhentas máquinas assassinas,
E o pavor na pressa de quem as guia,
Em vez de dóceis caravanas asininas
Que formavam em harmonia com as pessoas,
Se esvaíram na poeira do tempo
Tanto sentimento e tantas coisas boas!...


(Humberto Paz).

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MOREI...

 Por Chico Canuto

Morei alguns anos, no meu tempo de estudante, no bairro são Vicente em Crateús, bem próximo ao comércio e residência do Gecimar, pessoa de quem me tornei amigo e freguês de sua mercearia. Hoje, ao tomar conhecimento de seu falecimento, senti aquele vazio característico das grandes perdas, como se algo tentasse apagar diversas páginas da história de minha vida. Rebobinei a fita de minha existência e comecei a assistir do dia em que cheguei a Crateús para estudar no Colégio Regina Pacis. Iria morar com meu primo Chiquinho do Valdir e a senhora Ernestina e foi inevitável o contado com o Gecimar; primeiras compras em seu comércio, várias conversas, jogos de sinuca e até uma cervejinha gelada ajudaram a calcificar o caminho de uma amizade fraterna e respeitável, que se estendeu à dona Ivone, sua esposa e a seus filhos.

Visitei o Gecimar há alguns anos, ele já lutava contra essa enfermidade que o venceu. Na época ele sabia da gravidade da doença, mas se mostrava confiante. Prometi visitá-lo outras vezes, coisa que não fiz por descuido mesmo. Recentemente minha irmã Luzanira esteve com ele em sua residência, ele aproveitou para me enviar uma cobrança do prometido. Não foi possível, não deu tempo, Deus o levou antes que pudéssemos encontrar-nos mais uma vez nesta vida, para jogar um pouco de conversa fora. Vá Gecimar, certamente Deus precisou que você fosse laborar em outras dimensões; nós enquanto permanecermos por aqui cultuaremos suas boas lembranças e nos espelharemos nos sadios exemplos que você deixou. Eu, a Vera e toda nossa família, redemos nossas mais sinceras condolências à família enlutada.

https://www.facebook.com/humberto.paz.3939

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É IMORAL...

 Por José G. Diniz



É imoral um menor de 16 anos

Ter pleno direito de votar

E cometer crimes bárbaros

E ter direitos de não pagar

Acho mais escandaloso

Um pobre de um idoso

Vir a sofre graves danos

Porque só aos 100 anos

Uma bengala pode usar


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terça-feira, 19 de março de 2024

SÍLVIO BULHÕES FALECEU...

 Por João de Sousa Lima.

O escritor e pesquisador do cangaço João de Sousa Lima, ladeado pelos filhos de cangaceiros; Sílvio Bulhões, filho dos cangaceiros Corisco e Dadá. Neli Conceição, filha dos cangaceiros Moreno e Durvalina;

Lamentável o falecimento de Sílvio Bulhões, filho dos cangaceiros Corisco e Dadá.

Lamento a morte de Sílvio Bulhões, filho dos cangaceiros Corisco e Dadá...

https://www.facebook.com/groups/508711929732768/?multi_permalinks=1439335443337074&notif_id=1710801053808678&notif_t=group_highlights&ref=notif

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JORNAL DO CANGAÇO.

Por José Mendes Pereira

1 - Segundo o escritor e historiador Raimundo Nonato, em uma tarde, Jesuíno Brilhante hospedou-se em uma casa. O dono da residência não se encontrava no lar. Um bandido, de nome Montezuma, procurou se aproveitar da ausência do homem e começou a perseguir a dona da casa. Jesuíno revoltado com o desrespeito do bandido resolveu matá-lo.

2 - Outra vez assassinou um escravo de nome José, porque ele tentou violentar uma mulher. 

3 - Jesuíno Brilhante foi um cangaceiro que assassinou algumas pessoas, mas seus crimes tinham motivos, porque a sua finalidade era combater a injustiça social, as violências contra as mulheres, a falta de respeito com a população mais humildes. Usou a sua estratégia defendendo os pobres.

4 - Recado de Lampião para Corisco, dirigido ao tenente João Bezerra, o homem que o perseguiu até matá-lo. “-Diga a ele qui eu num tenho medo de boi veaco, quanto mais de bezerra”.     

5 - Frase de Lampião. “Premero de tudo, querendo Deus, Justiça! Juiz e delegado que não fizer justiça, só tem um jeito: passar ele na espingarda!”.

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ENTREVISTA COMPLETA COM SÍLVIO BULHÕES | CNL | 1489

Por O Cangaço Na Literatura 

https://www.youtube.com/watch?v=QJMQv8YvOOc&ab_channel=OCanga%C3%A7onaLiteratura

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ILHA ITALIANA.

 Por Ernali Leal

A região da Costa Amalfitana, na Província de Salerno, Itália, é conhecida por sua beleza natural. O lugar é, inclusive, considerado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco desde 1997.

Por ali, além do mar e de praias estonteantes, uma das ilhas do arquipélago de Sirenusas possui uma outra característica notável: ela tem o formato de um golfinho.

São três ilhas localizadas entre Positano e Capri. A maior delas, conhecida como Il Galli, é a que tem o formato do animal. Em 2012, a ilha apareceu no topo de listas das propriedades mais caras do mundo. Era possível comprá-la por US$ 268 milhões.

É realmente parecido com um golfinho.

Se olharmos no mapa, dá pra notar que a ilha realmente se parece com um golfinho. Claro que o fotógrafo que produziu a imagem acima escolheu um ângulo que acentua a semelhança, mas ele foi ajudado pela própria natureza, como podemos observar nas imagens de satélite abaixo tiradas do Google Maps. 

https://www.facebook.com/photo/?fbid=3651503018511354&set=gm.3565927627051213&idorvanity=2744242829219701

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SEU MANOEL, IRMÃO DA EX-CANGACEIRA DADÁ.

Por Ilana Borboleta

Hoje tio Manoel, irmão da minha vó Dadá, faz 115 anos, ele é o homem de mais idade da nossa família. (Orgulho)

Eu sou grata a Deus pela vida dele, por ser um homem forte, lúcido, um homem que venceu muitas batalhas na vida, e continua firme e forte conosco.

Que Deus na sua bondade e misericórdia, dê muita saúde e vida para tio Manoel.

Parabéns!!

 https://www.facebook.com/photo/?fbid=7326731150739495&set=a.124867287592620

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segunda-feira, 18 de março de 2024

MORRE O FILHO DOS EX-CANGACEIROS CORISCO E DADÁ

Do acervo do Davi Lima 

É com imenso pesar que anuncio a todos o falecimento do senhor Silvio Bulhões, filho do casal cangaceiro Corisco e Dadá, ocorrido no dia de hoje (18/03/2024) no estado de Alagoas, onde residia, aos 89 anos de idade.

Silvio Bulhões que muito contribuiu para o esclarecimentos e conhecimentos a respeito da vida de seus pais e que encabeçou uma campanha nos anos sessenta para conseguir enterrar parte dos restos mortais de seu pai, Corisco, que não ocasião encontravam-se em posse do Instituto Médico legal doutor Nina Rodrigues em Salvador, Bahia.

ADENDO:

SILVIO BULHÕES, O FILHO DE CORISCO E DADÁ

Publicado em 15 de maio de 2023 por Ticianeli em Memória

Corisco e Dadá

"Silvio Bulhões, reconhecido por ser filho de Corisco e Dadá e por ter liderado a campanha para que as cabeças dos cangaceiros fossem enterradas, é pouco lembrado como o respeitado professor de matemática e estatística de várias gerações em Santana do Ipanema, Alagoas.

Também economista, não esconde suas origens. Concedeu várias entrevistas e depoimentos sobre seus pais e chegou mesmo a escrever um livro contando a sua caminhada. “Memórias de um filho de cangaceiros – Corisco e Dadá” foi muito bem recebido pela crítica e é citado sempre pelos que realizam pesquisas sobre o cangaço.

Sua convivência com a história dos pais famosos começou cedo, aos três anos de idade. Silvio recorda que não gostava quando se referiam a ele como Filho de Corisco: “A minha resposta era tudo de baixo calão, que é até de se admirar, como uma criança com aquela idade, sabia tantas palavras feias, para externar seu ódio, por chamá-lo filho de Corisco”, verdade que somente descobriria anos depois.

Economista e professor Silvio Bulhões

Em depoimento para o documentário O mar de Corisco, de Pedro da Rocha, Silvio narrou que certa manhã de 1944, quando tinha nove anos de idade, adormeceu lendo gibi e sonhou ouvindo estampidos e depois viu um homem ensanguentado correndo em sua direção e gritando “meu filho, me socorra”. Acordou e relatou ao Padre Bulhões esse sonho.

Meses depois, dando vazão à curiosidade, decidiu que descobriria o que guardava um velho baú encostado num canto da casa. Imaginava que poderia ter preciosidades, como nas histórias de pirata que tanto ouvia. Resolveu desvendar o mistério quebrando a fechadura com martelo e talhadeira. Ficou decepcionado ao perceber que lá somente existia papéis e revistas.

https://ojornalextra.com.br/noticias/alagoas/2024/03/102600-professor-silvio-bulhoes-filho-de-cangaceiros-morre-aos-88-anos

Uma dessas revistas era A Noite Ilustrada, nº 476, de 9 de agosto de 1938. Ao folheá-la tomou um grande susto: em uma das páginas estava o retrato do homem que vira ensanguentado pedindo socorro a ele no sonho. Correu a avisar ao padre de sua descoberta. O pároco chorou e contou a ele que o homem da foto era o seu pai verdadeiro, mas não disse que fora um temido cangaceiro.

Dias depois, estava na sala brincando com o padre quando este recebeu os participantes de uma caravana que ia para a cachoeira de Paulo Afonso. Um deles perguntou: “Padre, esse é o filho de Corisco que o senhor cria? O padre negou e explicou que era filho de sua irmã Angélica “Liquinha” Bulhões.

Silvio e Dona Angélica “Liquinha” Bulhões, sua mãe adotiva

Em seguida, ordenou a Silvio que fosse brincar fora casa. Como o padre nunca agia assim, o menino ficou curioso e saiu pela frente, mas voltou pela janela de um dos quartos. Abriu uma fresta na porta e flagrou o padre dizendo:

— Esse menino foi o maior presente que Deus me deu, o filho que Corisco me mandou pra criar.

Não havia mais dúvidas: ele era o filho de Corisco e Dadá. Havia nascido em 29 de agosto de 1935, na Serra da Beleza, município de Pão de Açúcar, Alagoas.

Foi já sabendo de toda a história que passou a estudar em Maceió como interno do Colégio Guido de Fontgalland, período em prestou o serviço militar na Marinha de Guerra do Brasil.

https://tribunadosertao.com.br/noticias/2024/03/18/535078-silvio-bulhoes-descendente-de-cangaceiros-e-ilustre-santanense-deixa-legado-de-sabedoria-aos-88-anos

Em 1954, aos 19 anos de idade, aproveitou as férias de julho e, acompanhado pelo Padre Bulhões, foi conhecer pessoalmente sua mãe, em Salvador. Ao ver o filho, Dadá o abraçou, puxou sua cabeça até colocá-la sobre a coxa da única perna e passou a acariciá-lo enquanto cantava música de ninar.

Após colocarem a conversa em dia, Silvio quis saber da mãe o destino dado aos restos mortais do pai e perguntou se a cabeça estava exposta no Museu Nina Rodrigues. A mãe negou, escondendo a verdade.

Meses depois, já em Maceió, estava no Cine Plaza, no bairro do Poço, vendo o noticiário que antecedia os filmes, quando, em uma reportagem sobre as cabeças dos cangaceiros, surgiu a de seu pai.

Foi um choque para o jovem Silvio Bulhões. Saiu do cinema e perambulou pela cidade até atingir uma de suas praias. Lá permaneceu até o amanhecer, quando decidiu que não mediria esforços para tirar a cabeça do pai daquele museu.

Silvio Bulhões em 1953 concedendo entrevista à Revista O Cruzeiro no Colégio Guido de Fontgalland em Maceió

Sua reivindicação, e de outros familiares de cangaceiros, encontrou eco na Câmara dos Deputados, em junho de 1965, quando o deputado federal pela Guanabara, Áureo Mello (PTB), apresentou o Projeto de Lei nº 2.867. Mandava sepultar as cabeças expostas no Instituto Nina Rodrigues. O projeto não prosperou e foi arquivado.

Em Salvador, sua mãe, Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, também liderava o movimento pelo sepultamento das cabeças como forma de cumprimento da lei que exige respeito aos mortos.

Em sua peregrinação, Silvio foi personagem de reportagem publicada na revista O Cruzeiro de 9 de setembro de 1967. Na época, com 34 anos de idade, era funcionário do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) e professor do ginásio de Santana do Ipanema.

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/tags/silvio-hermano-bulhoes

Na reportagem de Paulo Dantas sabe-se que, pouco tempo antes dessa publicação, Silvio tinha participado em São Paulo da III Convenção das Câmaras Júnior do país e lá contou sua história e o drama vivido com os restos mortais do pai. Consegui que a convenção inteira aprovasse, de pé, moção especial para que fosse “realizada uma campanha de âmbito nacional, visando ao sepultamento das cabeças de Lampião e dos seus companheiros cangaceiros”.

Ao ser entrevistado, exibiu o livro do professor Nina Rodrigues com a foto de Corisco: “É a isso que a sociedade reduziu meu pai. Que filho gosta de ver uma coisa dessas, por pior que tenha sido seu pai? Outro dia, minha filha de oito anos, em lágrimas, me indagou por que ainda não se enterrou a cabeça do seu avô”.

Em fevereiro de 1969, nova reportagem de O Cruzeiro reproduzia o clamor de Silvio Bulhões: “Sepultem a cabeça do meu pai”. A matéria foi produzida pelo jornalista alagoano Tobias Granja.

O pedido somente foi atendido em 6 de fevereiro de 1969. Por determinação do governador Luís Viana Filho, em cumprimento ao Código Penal brasileiro, que exige o devido respeito aos mortos, foram sepultadas as cabeças de Lampião e Maria Bonita no cemitério da Quinta dos Lázaros, em Salvador.

Dias depois, em 13 de fevereiro, foi autorizado o sepultamento da cabeça e do braço de Corisco, e das cabeças de Canjica, Zabelê, Azulão e Marinheiro.

Silvio foi a Salvador para acompanhar essas ações e lá viu que as cabeças estavam enterradas em gavetas de um “Carneiro”, com as devidas identificações. Avaliou que, de certa forma, a exposição continuava.

Como o corpo de Corisco estava no cemitério da cidade Miguel Calmon, na Bahia, Dadá requereu a exumação e levou os ossos para casa. Lá, em conversa com o escritor Jorge Amado, recebeu a sugestão que retirasse também a cabeça da gaveta na da Quinta dos Lázaros e juntasse tudo em um outro cemitério. Assim foi feito.

Após a morte de Dadá, em fevereiro de 1994, Silvio Bulhões, temendo que a cabeça embalsamada permanecesse intacta por gerações e que um dos seus descendentes ou de suas irmãs resolvesse devolvê-la a um museu, tomou a decisão de cremá-la.

Em 26 de maio de 2013 as cinzas de Corisco foram jogadas ao mar.

Quinto filho do casal de cangaceiros — dos sete, apenas três sobreviveram —, Silvio Hermano de Bulhões casou-se com Maria de Lurdes e tiveram vários filhos.

***

Republicamos a seguir a reportagem de Luciano Carneiro para a revista O Cruzeiro de 10 de outubro de 1953.

O filho de Corisco

Tenho uma história para contar ao Ministro Nero Moura — a história de um rapaz de 18 anos, chamado Silvio, a quem encontrei recentemente num ginásio de Maceió.

Depois de abordar com ele o assunto que me levara a conhecê-lo, indaguei que profissão estava disposto a seguir. Silvio disse numa voz de desalento:

— Medicina, já que não me é possível seguir a minha vocação.

— Qual é a sua vocação?

— Entrar para o Corpo de Cadetes-do-Ar. Pertencer à Força Aérea Brasileira.

— E por que não fazê-lo?

— A Aeronáutica não me aceitaria, quando soubesse que eu sou filho do cangaceiro “Corisco“.

E contou que alimentava desde criança o sonho de se tornar um aviador militar. Mas só há pouco, orientando-se sobre as condições de acesso à Escola Preparatória de Cadetes-do-Ar, soubera que um dos atestados exigidos aos candidatos forçá-lo-ia a desvendar a sua origem.

Não, não negaria jamais a sua paternidade. A ele não importava que “Corisco” tivesse feito os crimes horríveis de que é acusado. Só lhe Importava que “Corisco” era seu pai. E que lhe devia o fato de ter sido educado por uma família honrada e ter vindo a ser, ele próprio, um homem de bem. Não negaria, pois, que era filho de um cangaceiro, ainda que tal atitude lhe cortasse a carreira que desejava abraçar.

Dois dias antes, em Santana do Ipanema, eu apurara que Silvio colecionava recortes de jornais que falavam de seu pai — uma maneira sua de reverenciar-lhe a memória. Não me surpreendeu que em Maceió ele se dissesse grato ao pai.

Em princípios de setembro de 1935, o vaqueiro Pedro Ricardo estava num curral, ordenhando vacas, quando se viu cercado, de súbito, por um grupo de cangaceiros. Sua mulher, que o ajudava na extração do leite, deu um grito e agarrou-se a ele.

Era “Corisco“, o diabo-louro, lugar-tenente de “Lampião“. Adiantando-se, disse-lhes que não se assustassem. Não vinha fazer mal. Queria apenas um favor: que o vaqueiro fosse de cavalo a Santana do Ipanema entregar “um brinde” e uma carta ao vigário de lá.

Pedro Ricardo só tinha um caminho a seguir, aceitar a incumbência. Disse que ia, pediu a encomenda, escancarou os olhos ao descobrir que o tal brinde era um menino com poucos dias de nascido. “Corisco” deu-lhe também uma bolsa contendo o enxoval que fora feito em plena caatinga, talvez nos intervalos das lutas, por sua companheira Dadá, a mãe do garoto. O enxoval constava de nove camisinhas, duas toucas, alguns cueiros, sapatos de lã — tudo de cor berrante e moldes matutos, mas costurado com um desvelo fácil de descobrir.

      O menino Silvio Bulhões em 22 de junho de 1936

Pedro Ricardo chegou à casa de Padre José Bulhões e não o encontrou. Tinha ido à Igreja. Ricardo deixou o bebê junto à porta da residência do vigário e saiu para o localizar.

— Trouxe um brinde para o senhor, reverendo. Está à porta da sua casa. Aqui tenho só esta carta.

Assim, o Padre Bulhões leu a carta antes de pôr os olhos no brinde. Estava pitoresca, na sua grafia matuta. Não respeito aqui a sua forma, porque ela não figura no arquivo da família Bulhões. Foi-me ditada de memória, por Maria Angélica Bulhões, irmã do Padre Bulhões.

Dizia assim: “Exmo. e Revmo. Snr. Vigário da Freguesia de Santana do Ipanema. Desejo que esta o vá encontrar gozando perfeita saúde e paz de espírito. Senhor Bulhões, segue em companhia desta carta este menino para o senhor criar como seu filho e educar da forma que puder. O pai do menino sou eu, Cristino Gomes da Silva Cleto, vulgo “Corisco“, e a mãe é Sérgia Maria da Conceição, conhecida por Dadá. O padrinho é o senhor mesmo, e a madrinha é Nossa Senhora. Peço ao bom vigário que crie este menino da melhor forma que puder. Olhe! Cuidado com o meu filho! Eu sou “Corisco“, chefe de grupo dos grandes cangaceiros“.

Padre Bulhões correu para casa, tomou o bebê nos braços e anunciou a suas irmãs:

— Neste momento a nossa família fica aumentada.

Releu a carta em voz alta, para todos ouvirem, deu entonação forte aquela frase preciosa: “O padrinho é o senhor mesmo e a madrinha é Nossa Senhora“.

Foi a vez de o vaqueiro Ricardo adiantar que o garoto nascera numa noite de tempestade, a 29 de agosto de 1935, na Serra da Beleza, município de Pão de Açúcar, Alagoas. Consultou-se a folhinha: estava então com oito dias de nascido. Foi batizado com o nome de Silvio e registrado com o nome da família: Silvio Hermano de Bulhões.

Corisco e Dadá fizeram questão de casar-se, depois que Padre Bulhões adotou Silvio. Mandaram buscar o vigário de Porto da Folha, Padre Bruno, e intimaram-no a casá-los imediatamente. O que foi feito. Não viram mais o filho, porém obtinham constantes notícias dele. Para os viajantes tornou-se até uma espécie de couraça saber novas sobre o filho de “Corisco“. Toda a pessoa que tinha de andar pelos vários territórios do cangaço, passava pela casa de Padre Bulhões antes de deixar Santana do Ipanema. E se no melo do caminho surgia algum assalto, era salvo-conduto infalível dizer que se levava notícias de Silvio para dar a “Corisco“.

Padre Bulhões e o menino Silvio em foto do acervo de Vera Ferreira

A ideia inicial consistia em que Silvio não soubesse de quem era filho. Tanto assim que foi registrado como filho de Sebastião Bulhões, irmão do pároco. Não era decente que o próprio padre figurasse como pai: podia originar confusões no futuro.

Maria Angélica, irmã do Padre, caiu de amores pelo guri e se encarregou do papel de mãe. E Silvio cresceu chamando-lhe mamãe, chamando a Sebastião papai e ao Padre Bulhões padrinho.

No começo a coisa funcionou bem. Mas um belo dia a criança fez cara de gente grande e perguntou a Maria Angélica:

— O que é que a senhora me é?

— Tua mãezinha.

Virou-se para Sebastião Bulhões e perguntou:

— E o senhor?

— Teu pai.

Silvio botou as mãos à cabeça e quis saber:

— Como é que os senhores, sendo irmãos, podem ser meus pais? Só se….

Antes que ele aventasse uma explicação decerto incômoda, os Bulhões saltaram de medo, e chamaram Silvio para contar-lhe a verdade.

Nesse dia Sílvio começou a respeitar “Corisco“.

O menino Silvio Bulhões

Os Bulhões, naturalmente, passaram a acompanhar a vida de “Corisco” e Dadá. Queriam saber tudo que lhes dissesse respeito. No fundo o vigário esperava que os pais de Silvio se regenerassem.

Entretanto, a penúltima notícia que deles tiveram trouxe apenas mágoa. “Corisco” vingara-se da morte de “Lampião“, mandando degolar o velho fazendeiro Domingos Ventura, sua mulher e quatro filhos maiores. Tinha atacado a Fazenda Patos, município de Piranhas, por saber que os Ventura eram parentes de Pedro Cândido. Cândido era o “coiteiro” que traíra “Lampião“, indo levar a volante policial até ao esconderijo do rei do cangaço, na Fazenda Angico. Em seguida mandara as cabeças de presente as autoridades, em represália contra a decapitação de “Lampião” e seu estado-maior.

Padre Bulhões baixou a cabeça.

última notícia dizia no final: “Corisco” fora baleado num combate. Preso, gravemente ferido, morrera alguns dias depois. Tivera um fim parecido com o das suas vítimas na Fazenda Patos: decapitaram-no. A diferença entre o seu destino e o dos Ventura: as setes cabeças das suas vítimas foram logo enterradas; a cabeça de “Corisco” jaz insepulta na Bahia, como peça de museu.

Dadá? Não morreu.

Ferida numa perna, teve de amputá-la. Mais tarde retirou-se para o interior da Bahia, casou de novo e parece que vive bem.

De 1945 em diante manteve correspondência com Padre Bulhões, só interrompida com a morte do reverendo em princípios deste ano. Escreve constantemente para Silvio, assim como escreve para outro rebento da sua união com “Corisco“: a filha Maria Celeste, que mora em Sergipe. Dadá, Silvio e Maria Celeste trocam cartas entre si mas nunca se viram.

Silvio mostrou-me a carta que a mãe lhe dirigira por ocasião da morte de Padre Bulhões. Era tão bem escrita, num português tão correto, que perguntei se a caligrafia das cartas anteriores era a mesma. Ele disse que sim.

Primeira comunhão de Silvio Bulhões

Alguns trechos:

“Meu filho querido, perdeste o teu pai de criação, sofrendo assim um grande golpe: porém, esse homem que foi um santo, deixou para te guiar na vida os mais sábios e prudentes conselhos… conforme se vê na carta do mesmo, da qual tirei cópia. Segue os ensinamentos que te foram dados e serás feliz, pois somente no futuro é que poderás aquilatar o tesouro inestimável representado nas linhas dedicadas por ele a ti…”

“Meu filho, faz o possível para compensar aquele que se dedicou à tua existência. Faz o possível para honrar o nome dele, bem como o de teu pai.

Silvio Hermano apanhou a carta que lhe devolvi e colocou-a cuidadosamente no envelope. Quando eu lhe disse que iria ao gabinete do Ministro da Aeronáutica saber se um moço tinha culpa por haver sido gerado no ventre do cangaço, filho da caatinga, e se por isso era menos brasileiro que Getúlio ou Ademir, Silvio ficou fascinado com a ideia de que talvez pudesse tentar a concretização do seu sonho!

Soube dizer apenas isto:

— Estou estudando muito, muito. Não sou brilhante, mas vou indo. Quero fazer tudo para dar gosto à minha gente de Santana do Ipanema. Dar gosto a minha mãe, honrar o nome do pai.

***

Sílvio Bulhões faleceu em Maceió no dia 18 de março de 2024".

https://www.historiadealagoas.com.br/silvio-bulhoes-o-filho-de-corisco-e-dada.html

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Aos amigos e familiares deixo os meus mais profundos sentimentos. Meus pêsames.

Fotos:

Site: História de Alagoas.

Revista: O Cruzeiro.

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