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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A verdade histórica

Por: José Cícero

Mesa de Debates: Angico, SESC Crato

A verdade histórica. O que é isso? Uma pequena reflexão sobre o Cariri Cangaço 2011

O conhecimento dos fatos históricos não é e, tampouco, pode ser em qualquer tempo privilégio de ‘seu ninguém’. Cada um quer seja pesquisador por vocação, hobby ou historiador por academicismo ou por cátedra, terá o direito sagrado de acreditar naquilo que bem entender. Contudo, a ciência está aí, gritando alto quase a romper os nossos tímpanos. Os fatos ainda rastejam (no caso do cangaço lampiônico) pelos sertões adentro, grávidos de verdades. A verdade às vezes salta aos nossos olhos em alguns momentos saturados pelo carvão do tempo. Quando muitos de nós, pobres mortais ficamos cegos diante dela pela enormidade da nossa arrogância...

Mas é imperioso que vejamos, igualmente, com o tato das mãos e a sensibilidade do coração o óbvio ululante, somado a uma dose considerável de experiência empírica e companheirismo como a argamassa necessária à corporificação da verdade que almejamos constatar. Posto que, pela história escrita nos transportamos muito além do tempo... Ainda, que tenhamos a capacidade de puder dividi-la com os outros. Por conseguinte é preciso que vasculhemos os pergaminhos dos que chegaram ao palco dos acontecimentos primeiros que nós.
Que sejamos verdadeiros o suficiente. Os “ratos de biblioteca”, freqüentadores de sebos. Aperreadores dos amigos ante a sede de saber sempre mais. Que sejamos dados aos livros... ‘Livros à mão cheia...’ Que alimentemos a ousadia, tanto quanto a tenacidade no desiderato da busca cotidiana. Que sejamos capazes de cultivar a humildade como uma lanterna de popa que nos dará o rumo certo do caminho a ser seguido, tal qual um Dom Quixote e seu Sancho Pança das bibocas do mundo.

Deputado Inácio de Loiola e José Cícero

Pois lá no fundo escuro desta leitura, bem como nas informações do povo – principal protagonista desta saga -, é que jaz todo o ouro da verdade que buscamos a todo custo encontrar. A verdade que procuramos como o ‘elo perdido’ que nos falta para construirmos de uma vez por todas, os alicerces inquebrantáveis do edifício histórico a que nos propomos edificar em nome do passado, do presente e do futuro. E, digamos, que no estudo analítico e descritivo do cangaço nordestino não é lá muito diferente de outros fenômenos sociológicos ocorridos pelo Brasil e pelo Globo. Razão da nossa necessária modéstia e ponderabilidade na qualidade de estudiosos e observadores atentos da fenomenologia cangaceira.

Nós, os pesquisadores, o mínimo que podemos fazer é lançar um pouco mais de luz sobre os acontecimentos, e não nos arvorarmos como seus donos - os neo-coronéis do asfalto. Tudo com base no estudo, na análise, na comprarão e, sobretudo na pesquisa. Sem, contudo, perdermos de vista o foco central em nome de uma contraproducente posição de faraó – dono da verdade e/ou porteiro-mor dos caminhos objetivos. Destarte, nunca é demais ressaltar que, ser inteligente é também ser simples e modesto. Todo o resto é falso e fisiológico.

Nada no estudo, quanto na pesquisa pode ser tão negativo e inaceitável quanto a demonstração da intolerância/arrogância. Por isso, é mister dizer que, qualquer arrogância é sempre pior do que a ignorância. Quem procura a verdade deve está preparado o tempo todo para as pequenas descobertas como a verdadeira pavimentação para o caminha das grandes conquistas. Aprender deve ser inapelavelmente a palavra de ordem. Mas, sobretudo saber dividi-las com seus companheiros de caminhada. Partícipes de uma mesma causa. Protagonistas de um mesmo objetivo. Assim como, dos que porventura estejam igualmente à margem do caminho. Pois ninguém jamais saberá o suficiente, ao ponto de querer se impor como o dono da verdade absoluta.
O mundo, assim como a própria vida é, amiúde, uma sucessão de descobertaspaulatinas. Ninguém saberá tanto, quem não possa aprender com o mais humilde e incipiente dos aprendizes. Tudo na vida é inconcluso. Aprendemos sempre mais quando ensinamos e dividimos o pouco que sabemos com os outros...

Por mais que não aceitemos, toda verdade é dimensional e, por conseqüência, tem seu quê de relativo. De forma que não podermos, por nenhuma razão, afastar ou mesmo querer desconsiderar o seu caráter subjetivo que se plasma segundo a contribuição e compreensão de cada um dos indivíduos envolvidos. A verdade em muitos casos, é filha do tempo e não da força ou da imposição descabida, como de quando em vez, presenciamos por alguns pseudo-arautos da história ou vendilhões do templo. E digamos por fim, que nos estudos e nas pesquisas relacionadas ao cangaço lampiônico nada até agora foi diferente.

A ilusória ditadura do conhecimento é um câncer que destrói aos poucos a historiografia planetária e, sobretudo dos grotões dos esquecidos - os sertões nordestinos. Urge então, que nos afastemos dela enquanto há tempo. É urgente, portanto, que caiamos na real. Que todos aqueles que por algum motivo, ainda continuam se imaginando donos da verdade que se conscientize dos seus malefícios, enquanto processo de estudo e aprendizagem. É notório que isso não ajuda em nada quanto ao processo evolutivo do estudo do cangaço, por exemplo. A menos que não queiram o crescimento desta causa. A menos que não queiram que o domínio deste conhecimento histórico não venha se tornar um patrimônio do povo. A menos que continuem achando que o conhecimento da história, seja um monopólio como no passado de uns poucos. Que se ache um prodígio. Um supra-sumo da história. Um ser iluminado e insubstituível. Mas convenhamos. Isso não é certo. E nunca será.

Há que sejamos solitários com as massas. Com os que têm sede de conhecer a verdade sobre si mesmos e do solo em que nasceram. Há que distribuir com os outros os conhecimento que acumulamos durante a existência. Toda história verdadeira é um patrimônio da humanidade e, em especial, daqueles que a viveram a ferro e fogo. Toda história como uma construção social só teve pertencer aos seus próprios sujeitos. E com o cangaço nordestino nada disso pode ser diferente. Há que se ter uma visão holística também em relação à história e todos os seus desdobramentos...

Cultivemos além do solidarismo científico, a humildade como uma das ferramentas fundamentais para a difusão do que foi de fato a temática do cangaço – o maior fenômeno social e político dos sertões. Que possamos ter aprendido um mais pouco durante a terceira edição deste Cariri Cangaço. Na certeza de termos coletivamente contribuído para o 'conehcer' da história do Cariri em particular e, do Nordeste em geral – só isso já será um grande feito. Algo digno de nota e elogio. E tudo isso é, deveras fruto de um esforço coletivo.

Como de resto, direi: quem quiser contestar, por exemplo, o que de fato aconteceu em Aurora. Isso é muito mais do que louvável – é primordial, justo e necessário. Contudo, terá que no mínimo, ter lido algo pertinente ao que aqui aconteceu; estudado, pesquisado, escrito... E assim, ter igualmente conseguido se despir de qualquer ranço de proprietário da verdade absoluta.

José Cícero

Secretário de Cultura de Aurora
Conselheiro do Cariri Cangaço
Aurora-CE

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