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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Poetisa e o Mar - 20 de Dezembro de 2009

Por: Geraldo Maia do Nascimento


O que é um sonho senão um desejo ardente que se instala dentro da gente e nos faz suspirar? Uns sonham com riqueza, com luxo, com os prazeres que o dinheiro pode proporcionar; outros, os mais sensíveis, sonham com coisas mais simples como conhecer o mar. Estes, principalmente, quando realizam seus sonhos sentem-se felizes, pois a felicidade consiste em saber o que se quer e querê-lo apaixonadamente.



Assim sonhou Zila Mamede, na sua pureza de criança nascida no interior, que apenas ouvia falar da grandeza e beleza do mar, mas não podia imaginar como ele seria. Tanto assim que quando aos doze ou treze anos de idade, a caminho de Recife/PE, vendo aquela coisa imensa, balançando de um lado para outro, perguntou ao pai:
“- Meu pai, isso é o mar?
Ele disse:
- Não. Isso é um canavial”.

Mas quando finalmente conheceu o mar, apaixonou-se por ele e dele tirou inspiração para a sua obra. A ele dedicou poemas; a ele entregou a sua vida.
Zila da Costa Mamede nasceu em Nova Palmeira/PE, em 15 de novembro de 1928, onde viveu até os cinco anos de idade. Mudou-se com a família para o Rio Grande do Norte, indo morar na cidade de Currais Novos, onde seu pai instalou uma máquina de beneficiamento de algodão. O sertão norte-rio-grandense, naquela época grande produtor de algodão mocó, era bem conhecido dos pais de Zila, pois a família de seu pai era de Caicó e o seu avô materno de Jardim do Seridó, cidades vizinhas a que Zila ia morar.
Seus primeiros estudos deu-se na própria casa, tendo a sua mãe como alfabetizadora. Em Currais Novos matriculou-se no Grupo Escolar Capitão-mor Galvão. De mudança para Natal, estudou no Colégio da Imaculada Conceição e no Atheneu. Fez, ainda em Natal, um curso breve de biblioteconomia que nortearia os rumos da profissão da qual seria mestra. Uma bolsa de estudos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, conseguida através do poeta Manoel Bandeira, correspondente e amigo, é o passaporte para bacharelar-se em Biblioteconomia, em 1956. Longo caminho para uma menina ingênua, nascida e criada no interior, que sonhava conhecer o mar. Mas não parou por ai; ousou vôos mais altos: fez cursos de administração em bibliotecas na Syracue University Library, nos Estados Unidos.
Como profissional, organizou e dirigiu as principais bibliotecas do Estado, como a Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que hoje tem seu nome, e a Biblioteca Pública “Câmara Cascudo”.
Zila Mamede participou ativamente da movimentação intelectual do Rio grande do Norte. Sua produção compreende trabalhos que vai da biblioteconomia a literatura. Sua poesia tem três pontos essenciais: a solidão, o espaço e o mar. Sempre o mar, que viria a ser forte presença em sua obra.
Em 1951 começou a colaborar com a imprensa publicando poesias, que posteriormente transformaram-se em seu primeiro livro que seria Rosa de Pedra, de 1953. Esse livro foi bastante elogiado pela crítica, recebendo até elogios do poeta Manoel Bandeira que considerou-o “um dos melhores livros de versos brasileiros”. E não parou mais de escrever: Em 1958 publicou “Salinas”; em 1959, Arado. Publicou uma “Bibliografia sobre Chico Santeiro”, em 1966; Em 1968 escreveu “Luís da Câmara Cascudo: um pesquisador”, e em 1970 “Luís da Câmara Cascudo: cinqüenta anos de vida intelectual – 1918-1968. Esse foi, talvez, o livro mais difícil que escreveu. Iniciou as pesquisas em julho de 1964 para um trabalho de mestrado que deveria apresentar no final de 1965 na Universidade de Brasília, para obtenção de grau de Mestre em Biblioteconomia, depois de dois anos de curso de pós-graduação (1964-1965). Por motivos superiores abandonou o curso antes de concluí-lo. Ao voltar a Natal, a Fundação José Augusto mostrou-se interessada em publicar o seu trabalho como uma das comemorações com que o Rio Grande do Norte celebraria os 50 anos de Luís da Câmara Cascudo, como escritor. Teve então de ampliar as pesquisas, já que a idéia inicial do trabalho abrangia o período de 1918 a 1964. Para atender a solicitação da Fundação, teve que amplia-lo até 1968, ano do cinqüentenário. A dificuldade maior, segundo a autora, foi que quando achava que havia levantado toda a produção do período, descobria outros artigos publicados por Cascudo que nem mesmo ele lembrava. Como os originais eram datilografados, acontecia de precisar datilografar novamente o capítulo inteiro para inserir uma informação. Mas sua produção literária continuou e em 1974 publicou “Os vários caminhos de Maria Alice Barroso”, em 1975 “Exercício da Palavra”, em 1978 “Navegos”, e em 1984 “A Herança”. Colaborou com jornais e revistas literárias do Rio Grande do Norte, de Pernambuco e do Rio de Janeiro. Colaborou ainda em revistas estrangeiras como a “Revista de Cultura Brasileira”, editada na Espanha pela Embaixada do Brasil em Madri. Em 1987, já depois de sua morte, foi publicado: “Civil geometria crítica e anotada de João Cabral de Melo Neto 1924-1982 (Obra póstuma)”.
No poema “Partida”, Zila confessa:
“Quero que os céus me levem; meu intento
é ganhar novas rotas; mas os traços
do virgem mar molhando-me de abraços
serão brancas tristezas, meu tormento.

Zila Mamede morreu afogada, em 13 de dezembro de 1985, dia de Santa Luzia, em Natal/RN. O mar, que ela tanto amou, talvez por ciúmes, tirou-a de nós. Mas, se a vida é formada por corpo e alma, o que o mar nos tirou foi apenas o corpo, pois a alma de Zila Mamede, difundida nos seus livros, permanece entre nós, imortal, eterna.

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Autor:
Jornalista Geraldo Maia do Nascimento
Fonte:
http://blogdomendesemendes.blogspot.com

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