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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A TROCA DE SEXO

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

A TROCA DE SEXO

Isso aconteceu - de verdade verdadeira - lá pelas bandas da Cantirana, um dos lugares mais distantes e escondidos dos sertões nordestinos, mas que com a chegada da modernidade via internet e tudo mais, nada ficou a dever aos centros urbanos mais avançados. Basta ver a cocotagem e os modismos. Até comércio com nome difícil se alastrou por lá, a exemplo dos sempre abarrotados “Shoppis Centis Jiboia Dourada” e “Sexis Shopis Calango Aceso”.

Pois foi na Cantirana, em meio a uma família das mais tradicionais da região, que se deu o famoso caso da troca de sexo. E mesmo quando ainda não estava tão na moda como agora está essa história de mexer nas partes de baixo, ou vergonhas encobertas, como se dizia por lá. Pois vou contar como foi, e segundo ouvi de um cabra lá de Serrinha.

Para não fazer rodeios, bom que se diga logo que a dita troca de sexo envolveu alguém que até então era tido e havido acima de qualquer suspeita. Homem de reconhecida reputação, pai de família e de netos, de farto poder econômico, de conceito dos mais elevados na sociedade cantiranense. Difícil de acreditar que um senhor com tais características, na casa de seus sessenta anos, fosse se envolver com troca de sexo. Enfim.

Mas se envolveu e quase o mundo acaba por causa disso. Não só a cidade, mas a região inteira parou estupefata com o fato, com a desavergonhada história daquele até então inatacável senhor e sua mudança de sexo. Contudo, há também de se dizer que tudo começou por culpa do próprio homem, que já naquela idade e querendo aflorar seu outro lado que se mantinha comportadamente escondido.

Tudo começou depois de uma conversa que ele manteve, em confissão, com o vigário do lugar. Acostumado a usar o artifício do confessionário para falar fofocas e pecaminosidades com o desavergonhado do padre, principalmente sobre as safadezas desenfreadas da rapaziada, acabou soltando uma frase que deixou o outro de cabelo em pé. Disse que era triste ver a sexualidade tão aflorada e ele não poder aproveitar nada daquilo. Por isso mesmo que não suportava mais e ia mudar de sexo.


Ao ouvir isso, o padre quase engasgou. Sem acreditar no que ouvia, emudeceu de vez e nem respondeu à despedida do outro. Não procurou entender o contexto das palavras e se pôs a martelar que o amigo havia acabado de assumir aquilo que ninguém poderia imaginar. Depois de velho, sair do armário e mudar de sexo. Era demais. E não suportava, como sempre acontecia, guardar em segredo aquela confissão. Tinha de contar a alguém. E deu de cara logo com a beata mais fofoqueira da paróquia.

Após ouvir a fofoca, por três vezes a beata ameaçou enfartar, começou a se abanar de cima a baixo, sentou e levantou, e logo resolveu tocar adiante a novidade, porém jurando por tudo na vida que jamais contaria de qual boca havia saído a nova. Desse modo, o fogo já estava aceso, a fumaça se espalhava por todo lugar, e logo viria incêndio. E certamente seria um incêndio dos maiores.

Verdade é que da boca da beata o senhor já saiu com fama ainda pior. Um velho safado, pai de família e que agora se revelava querendo não só boiolar, mas afeminar de vez. De janela a janela a situação foi ficando ainda mais feia para o seu lado. Já era chamado de florzinha, viado velho, quenga velha, dentre coisas ainda mais escabrosas. E a coisa ficou esquisita mesmo quando a conversa chegou aos ouvidos dos familiares.

Até esse momento, mesmo estranhando que algumas pessoas o olhassem sorrindo, com zombaria e até dizendo palavras que não conseguia entender, o homem nada sabia daquela conversa envolvendo o seu nome. Lembrava apenas que havia dito ao padre que estava pensando em usar das armas da medicina e fazer um implante de um órgão sexual muito mais novo e mais potente, vez que estava perdendo a virilidade e precisava estar preparado para qualquer circunstância diante daquela moçada fogosa.

Pois bem. Quis dizer, e disse uma coisa, e o padre ouviu outra, ou deu uma maldosa interpretação ao escutado. Se ouvisse apenas que o safado do amigo dizia que pensava trocar sua ferramenta velha por uma nova, a coisa não tinha tomado a proporção que tomou. Assim, mudar de sexo significa simplesmente trocar aquilo que tinha como imprestável por um membro potente e jovial.

Partindo de uma brincadeira, pois sabendo da impossibilidade de isso acontecer, o homem acabou chamando para si toda a desgraça do mundo. A esposa arrumou-lhe a mala no mesmo instante que soube da história; os filhos juraram nunca mais olhar na sua cara; um neto disse que dali em diante não ia mais estudar de jeito nenhum; a vizinhança fechou-lhe a porta; toda a cidade ecoou em alarde aquele prato cheio.

Então ele se lembrou de onde poderia ter partido aquela conversa. Saiu correndo em direção à igreja, e de arma em punho fez o padre seguir até a porta e de alto-falante na mão trazer a verdade à tona. Aí sim, nesse momento uma grande verdade foi revelada, pois o padre, além de pedir perdão pelo mal entendido, acabou confessando que na realidade aquele sonho de troca de sexo era seu, e de mais ninguém.
Ele sim, que não suportava mais ser padre se por dentro era uma freira, uma sacerdotisa, uma libélula esvoaçante...

(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos seguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Burlamaqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE.

Poeta e cronista
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